Nora Roberts
Pecados Sagrados
(Sacred Sins)

Numerao de pgina: cabealho
Digitalizao e correo: Zara Machado
Rio de Janeiro, 01 de janeiro de 2010

Argumento:
Combinando cenas de suspense explosivo com paixes arrebatadoras, Nora Roberts bota pra ferver nesta novssima e clssica histria - a trrida narrativa de um casal
no encalo de um assassino enlouquecido, uma busca que os far mergulhar de cabea no perigo.
Nos indolentes dias de vero, uma impiedosa onda de calor  o principal assunto na capital norte-americana.
Mas a condio climtica logo deixa de ser matria das primeiras pginas  quando uma jovem  encontrada morta por estrangulamento. Um bilhete foi deixado: Seus pecados
lhe so perdoados.
Logo surgem duas outras vtimas, e, de repente, as manchetes passam a ser dedicadas ao assassino que a imprensa apelidou de "Padre".
Quando a polcia pede  Dra. Tess Court, uma psiquiatra renomada, que auxilie na investigao, ela apresenta o retrato de uma alma perturbada.
O detetive Ben Paris no d a mnima para a psique do assassino. No entanto, o que ele no consegue descartar com facilidade  a sensual Tess.
Moreno, alto e bonito, Ben tem uma reputao lendria com as mulheres, mas a fria e elegante Tess no reage como as outras que ele conheceu... e o detetive acha
o desafio sedutor.
Agora, enquanto os dois esto juntos numa perigosa misso para deter um serial killer, irrompe a chama de uma paixo incandescente.  Mas h algum que tambm est
de olho na linda mdica loura... e s resta a Ben rezar para que, se o assassino atacar, ele consiga det-lo antes que seja tarde demais...

Sobre a autora:
Com cerca de 200 romances publicados e sempre aclamados, Nora Roberts, a escritora mais prolfica de todos os tempos, alcanou o topo entre as grandes ficcionistas
do mundo, tanto nas listas de bestsellers quanto em seu incomparvel talento para criar histrias fascinantes, apaixonadas e irresistveis.  Nora j escreveu mais
livros que Danielle Steel, Sidney Sheldon e Harold Robbins juntos!!!  Mais de 30 dos seus romances alcanaram o primeiro lugar em vendas nos Estados Unidos.  Atualmente
tambm escreve a Srie Mortal (com o inesquecvel casal Eve Dallas e o multimilionrio Roarke) sob o pseudnimo de J. D. Robb, j contando com mais de 10 sucessos
no Brasil, e no para de cativar novos e vidos leitores.

Livros de Nora Roberts:
A Pousada do Fim do Rio
O Testamento
Traies Legtimas
Trs Destinos
Lua de Sangue
Doce Vingana
Segredos
O Amuleto
Santurio
Resgatado pelo Amor
A Villa
Tesouro Secreto
Pecados Sagrados
Virtude Indecente
Trilogia do Sonho:
Um Sonho de Amor
Um Sonho de Vida
Um Sonho de Esperana
Trilogia do Corao:
Diamantes do Sol
Lgrimas da Lua
Corao do Mar
Trilogia da Magia:
Danando no Ar
Entre o Cu e a Terra
Enfrentando o Fogo
Trilogia da Gratido:
Arrebatado pelo Mar
Movido pela Mar
Protegido pelo Porto
Trilogia da Fraternidade:
Laos de Fogo
Laos de Gelo
Laos de Pecado

Nora Roberts
Pecados Sagrados
Traduo Alda Porto
BERTRAND BRASIL

Copyright(c) 1987 by Nora Roberts
Ttulo original: Sacred Sins
Capa: Leonardo Carvalho
Editorao: DFL
2009
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
CIP-Brasil
Catalogao na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Todos os direitos reservados pela:
EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.
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No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
Atendemos pelo Reembolso Postal.

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Para minha me, com agradecimentos pelo incentivo a contar esta histria.
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Captulo Um
Quinze de agosto. Um dia aps outro de suor e cus nebulosos. Sem nuvens brancas fofas nem brisas aprazveis, apenas uma parede de umidade quase espessa o suficiente
para algum nadar.
Reportagens dos noticirios das seis e das onze prometiam melancolicamente mais. Nos ltimos dias longos, morosos, de vero, a onda de calor avanando pela segunda
e impiedosa semana foi a maior matria publicada em Washington, capital.
O Senado entrara em recesso at setembro, por isso a colina do Capitlio movia-se indolente. Relaxando antes de uma viagem  Europa havia muito acalentada, o presidente
refrescava-se em Camp David. Sem o vaivm dirio de polticos, Washington era uma cidade de turistas e vendedores ambulantes. Do outro lado do Smithsonian, um mmico
apresentava-se a um pblico que parara mais para recuperar o flego coletivo do que em apreciao da arte. Bonitos vestidos de vero murchavam, e crianas choramingavam
por sorvete.
Os jovens e os velhos afluam ao parque pblico de Rock Creek, usando a sombra e a gua como uma defesa contra o calor. Consumiam-se
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refrigerantes e limonada aos litros, emborcavam-se cerveja e vinho na mesma quantidade, mas de forma menos conspcua. As garrafas tinham um jeito de desaparecer
quando a polcia do parque o percorria. Nos piqueniques e churrascos ao ar livre, as pessoas enxugavam o suor, preparavam cachorros-quentes e vigiavam os bebs que
caminhavam com passinhos incertos no gramado. Mes gritavam aos filhos para que ficassem longe da gua, no corressem perto da rua, largassem paus ou pedras. A msica
de rdios portteis era, como sempre, alta e desafiante; trilhas quentes, como as chamavam os discotecrios, que informavam temperaturas no alto dos trinta graus.
Pequenos grupos de estudantes reuniam-se, alguns sentados nas pedras acima do riacho, para discutir o destino do mundo, outros se refestelavam no gramado, mais interessados
no destino dos bronzeados. Os que tinham tempo e gasolina de sobra haviam fugido para a praia ou as montanhas. Alguns universitrios encontravam energia para lanar
discos de plstico, os homens ficavam s de calo para exibir o torso com um bronzeado uniforme.
Uma jovem artista plstica estava sentada sob uma rvore e fazia esboos na maior indolncia. Aps vrias tentativas de atrair a ateno dela para os seus bceps,
que vinha trabalhando durante seis meses, um dos jogadores tomou um caminho mais bvio. O disco pousou no bloco da moa com um estalo. Quando ela ergueu os olhos
aborrecida, ele aproximou-se correndo. Exibia um sorriso de desculpas, e calculado, pois esperara fascin-la.
- Desculpe. Escapuliu.
Aps empurrar uma cascata de cabelos escuros sobre o ombro, a pintora devolveu-lhe o disco.
- No foi nada.
Retornou ao esboo sem sequer dar-lhe uma olhada.
Juventude  sinnimo de tenacidade. Agachando-se ao lado dela, ele examinou o desenho. O que sabia sobre arte no enchia uma xicrinha, mas no custava nada dar uma
inocente opinio.
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- Escute, isso  bom mesmo. Onde voc estuda? Reconhecendo o estratagema, ela ia ignor-lo, mas ergueu o rosto apenas para retribuir o sorriso. Talvez ele fosse
bvio, mas era bonitinho.
- Georgetown.
- Est brincando? Eu tambm. Bacharelado de Direito. Impaciente, o companheiro do rapaz gritou do outro lado do gramado:
- Rod! Vamos tomar uma loura ou no?
- Voc vem com freqncia aqui? - perguntou Rod, ignorando o amigo.
A pintora tinha os maiores olhos castanhos que ele j vira.
- De vez em quando.
- Como a gente...
- Rod, anda. Vamos tomar aquela cerveja.
Ele olhou para o amigo suado, meio acima do peso, e depois de volta aos frios olhos castanhos da artista. No havia comparao.
- Eu alcano voc depois, Pete - gritou, e lanou o disco num arco alto e negligente.
- Terminou de jogar? - perguntou a jovem, vendo o vo do disco.
Rod riu e tocou as pontas dos cabelos dela.
- Depende.
Praguejando, Pete partiu em perseguio ao disco. Acabara de pagar seis dlares por ele. Aps quase tropear num cachorro, deslizou por um barranco abaixo, torcendo
para que o disco no casse no riacho.
Sentiu o corao parar, e depois o sangue disparar e martelar na cabea. Antes que pudesse inspirar para gritar, vomitou com violncia o lanche de batata frita e
dois cachorros-quentes.
O disco pousara a cinqenta centmetros da margem da enseada. Novo, vermelho e alegre numa mo branca que parecia atir-lo de volta.
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Era Carla Johnson, aluna de teatro de vinte e trs anos e garonete em meio perodo. De doze a quinze horas antes, fora estrangulada com um amicto de padre. Branco,
debruado com fio de ouro.

O DETETIVE BEN PARIS DESABOU DIANTE DA MESA DE TRABALHO aps terminar o relatrio escrito sobre o homicdio Johnson. Datilografara os fatos, usando dois dedos no
estilo metralhadora. Mas agora eles retaliavam. Nenhum ataque sexual, nenhum roubo visvel. A bolsa continuava embaixo do corpo, com vinte e trs dlares e setenta
e cinco centavos e um MasterCard. Um anel de opala que teria sido empenhado por cerca de cinqenta ainda se encontrava no dedo da morta. Sem motivo, nem suspeitos.
Nada.
Ben e o parceiro haviam passado a tarde entrevistando a famlia da vtima. Uma coisa terrvel, pensou. Necessria, mas terrvel. Haviam desencavado as mesmas respostas
a cada vez. Carla queria ser atriz. A vida dela eram os estudos. Namorava, mas no a srio - dedicava-se demais  ambio que jamais viria a realizar.
Ben passou mais uma vez os olhos pelo relatrio e demorou-se sobre a arma do crime: o pano branco que cobre o pescoo e os ombros do padre sob a batina. Havia um
bilhete alfinetado ao lado. Ele prprio se ajoelhara ao lado da morta antes de l-lo:
Seus pecados lhe so perdoados.
- Amm - murmurou Ben, e soltou um longo suspiro.

PASSAVA DA UMA DA MANH DA SEGUNDA SEMANA DE SETEMBRO quando Barbara Clayton cortou caminho pelo gramado da Catedral de Washington. Embora o ar fosse quente e as
estrelas brilhassem, ela no tinha nimo para apreci-los. Enquanto caminhava resmungava mal-humorada. Dera uma bronca no mecnico com
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cara de furo pela manh. Ele disse que fixou a transmisso de forma to boa quanto nova. Que traste! O bom era que s faltavam mais duas quadras para percorrer.
Agora teria de tomar o nibus para o trabalho. O filho-da-me abominvel e sujo de graxa ia pagar. Uma estrela cadente explodiu e deslizou pelo cu num arco brilhante.
Barbara sequer notou.
Nem o homem que a espreitava. Sabia que ela viria. No o haviam mandado vigi-la? No sentia a cabea, mesmo agora, quase explodindo da presso da Voz? Fora escolhido,
recebera o fardo e a glria.
- Dominus vobiscum - murmurou e segurou com fora nas mos o macio amicto branco do padre.
Quando concluiu sua misso, sentiu a intensa euforia do poder. Os hormnios ferviam. O sangue uivava. Ele estava limpo. E assim, agora, ela. Lenta, delicadamente,
levou o polegar  testa, aos lbios e ao corao da morta, no sinal-da-cruz. Deu-lhe a absolvio, mas rpido. A Voz advertira-o de que muitos no entenderiam a
pureza do trabalho que ele fazia.
Deixando o cadver nas sombras, saiu andando, olhos brilhantes de lgrimas de alegria e loucura.

- A MDIA NO LARGA NOSSO P COM ISSO. - O CAPITO Harris bateu com fora o punho no jornal aberto sobre a mesa. - Toda a maldita cidade est em pnico. Quando eu
descobrir quem vazou esse negcio de padre para a imprensa...
Interrompeu-se, recompondo-se. No era com freqncia que chegava to prximo de perder o controle. Podia sentar-se atrs de uma mesa, mas era um policial, um policial
danado de bom. Um bom tira no perde o controle. Para dar tempo a si mesmo, dobrou o jornal e deixou o olhar deslizar pelos outros policiais na sala. Excelentes,
admitiu Harris. No toleraria menos.
Ben Paris, sentado a um canto da mesa, brincava com um peso de papel de acrlico. Harris conhecia-o bem demais para entender que ele gostava de ter uma coisa nas
mos quando pensava. Jovem,
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refletiu, mas tarimbado com dez anos na tropa. Policial incorruptvel, embora meio informal no procedimento. Quando as coisas estavam menos tensas, at divertia
o capito o fato de Ben parecer a verso adaptada por um roteirista de Hollywood de um agente secreto - rosto fino, ossos fortes, moreno, magro e musculoso. Cabelos
cheios e compridos demais para serem convencionais, porm cortados num daqueles elegantes sales pequenos de Georgetown. Tinha olhos verde-claros aos quais no escapava
o que era importante.
Numa cadeira, a um metro de pernas estendidas diante dele, sentava-se Ed Jackson, seu parceiro. Com um metro e noventa e cinco de altura e pouco menos de cento e
quinze quilos, podia em geral intimidar de imediato um suspeito. Por capricho ou inteno, usava uma barba cheia to ruiva quanto a juba encaracolada na cabea.
Tinha olhos azuis e afetuosos. A cinqenta metros, conseguia abrir um buraco na guia de uma moeda americana de vinte e cinco centavos com a arma especial da polcia.
Harris largou o jornal, mas no se sentou.
- Que voc conseguiu?
Ben jogou o peso de papel de uma mo para outra e largou-o.
- Alm da constituio fsica e da cor, no h ligao alguma entre as vtimas, nada de amigos comuns, nem sadas mtuas. Voc recebeu o resumo sobre Carla Johnson.
Barbara Clayton trabalhava numa loja de roupas em Maryland, divorciada, sem filhos. Vinha saindo com algum com muita assiduidade at trs meses atrs. As coisas
malograram, ele se mudou para Los Angeles. Estamos investigando o cara, mas parece limpo.
Enfiou a mo no bolso para pegar um cigarro e percebeu o olhar do parceiro.
-  o sexto - disse Ed, como quem no quer nada. - Ben est tentando limitar a menos de um mao por dia - explicou, e continuou ele prprio o relatrio:
- Barbara passou a noite num bar em Wisconsin. Tipo sada noturna s de meninas, com uma amiga que trabalha com ela.
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A amiga disse que Barbara foi embora por volta de uma da manh. Seu carro foi encontrado enguiado a duas quadras do ataque. Parece que teve problemas na transmisso
e decidiu ir a p. O apartamento dela fica a menos de um quilmetro dali.
- As nicas coisas que as vtimas tinham em comum eram ser louras, brancas e mulheres. - Ben tragou fundo a fumaa, deixou-a encher os pulmes e soltou-a. - Agora
esto mortas.
Em sua jurisdio, pensou Harris, e tomou a coisa pessoalmente.
- A arma do crime, a estola do padre.
- Amicto - informou Ben. - No pareceu difcil demais investigar. Nosso cara usa o melhor... seda.
- No comprou na cidade - continuou Ed. - No no ano passado, pelo menos. Checamos cada loja de artigos religiosos, cada igreja. Liguei para trs revendedores em
New England que tm esse tipo.
- As notas eram escritas em papel existente em qualquer loja comum - acrescentou Ben. - No temos como reconstituir a origem delas ao dono.
- Em outras palavras, vocs no conseguiram nada.
- Em outras palavras - Ben sorveu outra tragada -, no temos nada.
Harris examinou cada homem em silncio. Talvez desejasse que Ben usasse uma gravata e Ed aparasse a barba, mas tratava-se de uma questo pessoal. Eram os melhores.
Paris, com o encanto indolente e a despreocupao superficial, tinha o instinto de uma raposa e a mente afiada como um estilete. Jackson era meticuloso e eficiente
como uma tia solteirona. Um caso para ele no passava de um quebra-cabea, do qual nunca se cansava de mexer nas peas.
Harris inalou a fumaa do cigarro de Ben, depois se lembrou que deixara de fumar para seu prprio bem.
- Voltem e falem com todos de novo. Obtenham o relatrio do ex-namorado de Barbara e as listas dos representantes de artigos religiosos. - Olhou mais uma vez o jornal.
- Quero acabar com esse cara.
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- O Padre - murmurou Ben, passando os olhos pela manchete. - A imprensa sempre gosta de dar um ttulo a esses psicticos.
- E grande cobertura - acrescentou Harris. - Vamos tir-lo das manchetes e enfi-lo atrs das grades.

CONFUSA APS UMA LONGA NOITE DE TRABALHO ADMINISTRATIVO, a Dra. Teresa Court tomava caf e passava os olhos pelo Post. Uma semana inteira aps o segundo assassinato
e o Padre, como o batizara a imprensa, continuava foragido. No considerava a leitura sobre ele a melhor maneira de comear o dia, mas profissionalmente o homem
a interessava. No era indiferente  morte de duas jovens, mas fora formada para examinar fatos e diagnosticar. Dedicara a vida a isso.
Em termos profissionais, sua vida era atormentada por problemas, dor e frustraes. Para compensar, ela mantinha o mundo privado organizado e simples. Como crescera
protegida pela riqueza e com boa educao, considerava a gravura de Matisse na parede e o cristal Baccarat na mesa algo natural. Preferia linhas simples e tons pastis,
mas, de vez em quando, se via atrada por alguma coisa gritante, como o leo abstrato em vividas pinceladas e cores arrogantes acima da mesa. Entendia a necessidade
do berrante alm do suave e sentia-se contente. Tinha como uma de suas principais prioridades permanecer alegre.
Como o caf j esfriara, ela afastou-o. Aps um instante, afastou tambm o jornal. Gostaria de saber mais sobre o assassino e as vtimas, conhecer todos os detalhes.
Ento se lembrou do velho ditado sobre tomar cuidado com o que se desejava porque se poderia obter. Com uma rpida conferida no relgio, levantou-se da mesa. No
tinha tempo para remoer uma matria de jornal. Precisava ver os seus pacientes.
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AS CIDADES ADQUIREM O MXIMO DE ESPLENDOR NO OUTONO. O vero as assa, o inverno deixa-as paralisadas e sombrias, mas o outono d-lhes uma exploso de cor e dignidade.
s duas da manh, numa fria madrugada de outubro, Ben Paris viu-se de repente bem acordado. De nada adiantava perguntar-se o que lhe perturbara o sono e o interessante
sonho com trs louras. Levantando-se nu, dirigiu-se  cmoda e tateou  procura dos cigarros. Vinte e dois, contou em silncio.
Acendeu um e deixou o conhecido gosto amargo encher-lhe a boca antes de ir  cozinha fazer caf. Ligou a luz fluorescente no fogo e manteve o olhar atento ao surgimento
de baratas. Nada escorregou nas fendas. Ben acendeu a chama sob a chaleira e achou que a ltima dedetizao continuava eficaz. Ao estender a mo para uma xcara,
afastou o volume de dois dias de correspondncia que ainda tinha de abrir.
Na intensa luz da cozinha, seu rosto parecia duro, at perigoso. Mas tambm... pensava em assassinato. O corpo nu era flexvel, alto, magro e de pernas longas, com
uma estreiteza que seria esqueltica sem as sutis salincias dos msculos.
O caf no o manteria acordado. Quando tivesse a mente lcida, o corpo logo faria o mesmo. Treinara-se por meio de infindveis vigilncias policiais.
Uma gata mirrada cor-de-p saltou na mesa e encarou-o, enquanto ele tomava o caf e fumava. Notando-o distrado, a gata preparou-se mais uma vez para a idia do
pires de leite tarde da noite e sentou-se para observar.
No se achavam mais prximos de encontrar o assassino do que na tarde em que se descobrira o primeiro cadver. Se houvessem encontrado algo mesmo de longe semelhante
a uma pista, havia desaparecido aps os primeiros quilmetros de trabalho de campo. Beco sem sada, refletiu Ben. Zero. Nada.
Claro, houve cinco confisses em apenas um ms. Todas de mentes perturbadas que ansiavam por ateno. Vinte e seis dias aps
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o segundo assassinato e no haviam chegado a concluso alguma. E, a cada dia que passava, ele sabia, a pista se tornava mais fria. Com a diminuio gradual da presso
da imprensa, as pessoas comeavam a relaxar. Ele no gostava disso. Acendendo um cigarro na guimba de outro, Ben pensava na calmaria aps as tempestades. Olhou a
fria noite iluminada por uma meia-lua e ficou pensando.

O DOUG'S FICAVA A CERCA DE OITO QUILMETROS DO APARTAMENTO de Ben.  A pequena boate estava s escuras agora. Os msicos tinham ido embora e a bebida fora derramada,
esfregada e lavada. Francie Bowers saiu pela entrada dos fundos e vestiu o suter. Doam-lhe os ps. Aps seis horas em saltos de dez centmetros, os dedos dos ps
latejavam dentro dos tnis. Mesmo assim, as gorjetas haviam valido a pena. O trabalho como garonete que servia coquetis talvez a mantivesse em p, mas, quando
se tinha boas pernas - como ela -, as gorjetas entravam aos borbotes.
Mais algumas noites como aquela, pensou, e teria condies de dar a entrada naquele pequeno fusca. No mais a luta incmoda com nibus. Essa era a sua idia de paraso.
O arco do seu p emitiu uma cortante pontada de dor. Estremecendo, Francie olhou o beco, que lhe pouparia quase quinhentos metros. Mas estava escuro. Ela avanou
mais dois passos em direo ao poste de luz e desistiu. Escuro ou no, no iria andar um passo a mais do que precisava.
Ele a vinha esperando fazia longo tempo. Mas soubera. A Voz dissera que uma das perdidas estava sendo enviada. Ela se aproximava rpido, como se estivesse ansiosa
por alcanar a salvao. Durante dias, ele rezara por ela, pela purificao de sua alma. Agora a hora do perdo achava-se bem perto. Ele era apenas um instrumento.
O tumulto, iniciado na sua cabea, desceu em espiral. O poder inundou-o. Nas sombras, ele orou at ela falecer.
Agia rpido, pois era misericordioso. Assim que passou o amicto no pescoo, ela teve apenas um instante para arquejar antes de ele
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apert-lo. Emitiu um leve som lquido to logo o ar foi cortado. Quando o terror a tomou, ela deixou a bolsa de lona cair e agarrou o lao com as mos.
s vezes, quando sentia grande poder, ele as libertava rpido. Mas o mal naquela era forte e desafiava-o. Puxou a seda com os dedos e depois os enterrou com fora
nas luvas que usava. Assim que o corpo cedeu, ele levantou-a, mas ela continuava a espernear. Um dos ps bateu numa lata e derrubou-a. O barulho ecoou na cabea
dele at quase faz-lo gritar junto.
Ento ela ficou mole, e as lgrimas no rosto dele secaram-se no ar outonal. Deitou-a com delicadeza no concreto e absolveu-a na lngua antiga. Aps prender o bilhete
no suter, abenoou-a.
Ela descansava em paz. E, por enquanto, ele tambm.

- NO H MOTIVO ALGUM PRA VOC NOS MATAR DESSE JEITO, correndo pra l. - O tom da voz de Ed era sereno quando Ben contornou uma curva com o Mustang a cem quilmetros.
- Ela j est morta.
Ben reduziu a marcha e tomou a direita seguinte.
- Foi voc quem fez o ltimo carro sofrer perda total. Meu ltimo carro - acrescentou sem muita maldade. - S tinha cento e cinqenta quilmetros rodados.
-  Perseguio em alta velocidade - resmungou Ed. O Mustang trepidou sobre um calombo e lembrou a Ben que ele pretendia verificar os pra-choques. - E eu no o matei.
- Contuses e fissuras. - Ben engrenou a terceira e atravessou uma luz amarela. - Contuses e fissuras mltiplas.
Com uma expresso de quem se lembrava, Ed sorriu.
- Ns os pegamos, no foi?
- Estavam inconscientes. - Ben parou cantando os pneus junto ao meio-fio e enfiou as chaves no bolso. - E eu precisei de cinco pontos no brao.
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- Ranzinza, ranzinza, ranzinza.
Com um bocejo, Ed dobrou-se para sair do carro e endireitou-se na calada.
Embora mal amanhecesse, e fizesse frio o bastante para se ver a respirao no ar, uma multido j se formava. Curvado dentro da jaqueta e desejando um caf, Ben
abriu caminho por entre os espectadores curiosos at o beco isolado por corda.
- Astucioso.
Com um aceno da cabea ao fotgrafo da polcia, baixou os olhos para a vtima nmero trs.
Calculou-lhe a idade entre vinte e seis e vinte e oito anos. Suter de polister barato, as solas dos tnis quase lisas de gastas. Ela usava brincos pendentes folheados
a ouro. O rosto, uma mscara de pesada maquiagem que no caa bem com o suter e a cala de veludo cotel de lojas de departamentos.
Protegendo com as mos em concha o segundo cigarro do dia, ele ouviu o relatrio do policial uniformizado ao lado.
- Um vagabundo a encontrou. Ns o pegamos num carro do esquadro curando a bebedeira. Parece que remexia no lixo quando topou com ela, o que desencadeou o medo enorme
no cara, e por isso ele saiu correndo do beco e quase bateu na minha radiopatrulha.
Ben assentiu com a cabea e baixou os olhos para o bilhete preso no suter da vtima. Frustrao e fria despertaram to rpido dentro dele que, quando se instalou
a aceitao, mal foram notadas. Curvando-se, Ed pegou a enorme bolsa de lona que a vtima deixara cair. Um punhado de fichas de nibus derramou-se.
Seria um longo dia.

SEIS HORAS DEPOIS, ENTRARAM NO DISTRITO POLICIAL.
A Diviso de Homicdios no tinha a agradvel magia do seriado Miami Vice, mas era quase to arrumada e limpa quanto as delegacias dos bairros residenciais afastados
nos subrbios da cidade. Dois anos
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antes, haviam-se pintado as paredes com o que Ben se referia como bege de prdio de apartamentos. A cermica do piso suava no vero e conservava o frio no inverno.
Por mais ativo que fosse o servio de manuteno com desinfetante de pinho e flanelas, as salas cheiravam o tempo todo a fumaa saturada, gros de caf mido e suor
fresco. Era verdade que haviam feito uma vaquinha na primavera e delegado a um dos detetives a compra de algumas plantas para o parapeito das janelas, que no estavam
morrendo, mas tambm no floresciam. Ben passou por uma mesa e acenou para Lou Roderick, que datilografava um relatrio. Era o policial da equipe que registrava
constantemente a quantidade de casos tratados durante determinado perodo, como um contador registra as finanas da empresa.
- Harris quer ver voc - disse Lou e, sem erguer os olhos, conseguiu transmitir um toque de solidariedade. -Acabou de chegar de uma reunio com o prefeito. E acho
que Maggie Lowenstein tem um recado pra voc.
- Obrigado. - Ben deu uma olhada comprida para a barra de chocolate na mesa de Roderick. - Escute, Lou...
- Nem pensar.
Roderick continuou a datilografar o relatrio sem interromper o ritmo.
- A fraternidade  isso a - resmungou Ben, e encaminhou-se devagar para Maggie Lowenstein.
Ela era um tipo inteiramente diferente de Roderick, pensou. Trabalhava em surtos, parava e retomava, e sentia-se mais  vontade na rua que diante de uma mquina
de escrever. Ben respeitava a preciso de Lou, mas como apoio na retaguarda a escolheria, pois os adequados duas-peas e vestidos elegantes no escondiam o fato
de que ela tinha as melhores pernas do departamento. Deu-lhes uma rpida olhada antes de sentar-se a um canto da mesa dela. Era uma pena que fosse casada, pensou.
Remexendo como quem no quer nada em seus papis, ele esperou-a terminar a ligao telefnica.
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- Como andam as coisas, Maggie?
- Meu triturador de lixo na pia est expelindo tudo pra cima e o bombeiro quer trezentos paus, mas tudo bem, porque meu marido vai consertar. - Ela girou um formulrio
no rolo da mquina de escrever. - S que nos custar duas vezes dessa forma. E voc? - Deu-lhe um tapa na mo para afast-la da Pepsi na mesa. - Tem alguma coisa
nova sobre nosso padre?
- Apenas um cadver. - Se havia ressentimento na voz dele, era difcil detectar. -J esteve no Doug's, mais adiante do Canal?
- Eu no tenho a sua vida social, Paris.
Ele bufou rapidamente e pegou a caneca gorda onde ela guardava os lpis.
- A moa era uma garonete que servia coquetis. Vinte e sete anos.
- De nada adianta deixar isso nos abater - ela murmurou, e ento, vendo a expresso dele, passou-lhe a Pepsi. - Mas sempre nos abate. Harris quer ver voc e Ed.
- , eu sei. - Ele tomou um longo gole e deixou o acar e a cafena se derramarem no organismo. - Voc tem um recado pra mim?
- Ah, sim. - Com um sorriso afetado, ela remexeu nos papis at encontr-lo. - Bunny ligou. - Como a voz alteada, estridente, no despertou nimo algum nele, ela
lanou-lhe um olhar brejeiro e entregou-lhe o papel. - Ela quer saber a que horas vai busc-la. Parecia engraadinha mesmo, Paris.
Ele enfiou o papel no bolso e riu.
-  engraadinha mesmo, Maggie, mas eu a largaria num minuto se voc quisesse trair seu marido.
Quando ele saiu andando sem devolver-lhe o refrigerante, ela riu e retomou a datilografia do formulrio.
- Vo transformar meu apartamento em condomnio. - Ed desligou o telefone e foi com Ben ao escritrio de Harris. - Cinqenta mil. Deus do cu!
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- Tem encanamento ruim.
Ben esvaziou o restante da Pepsi e jogou-a numa lata.
- . Tem alguma vaga no seu?
- Ningum sai de l, a no ser morto.
Atravs da larga vidraa do escritrio de Harris, viram o capito parado em p junto  mesa, falando ao telefone. Mantinha-se em boa forma para um homem de cinqenta
e sete anos, que passara os ltimos dez atrs de uma mesa. Tinha muita fora de vontade para deixar-se engordar. O primeiro casamento fora por gua abaixo por causa
do trabalho, o segundo por causa da bebida. Abandonara a bebida e a esposa, e agora o trabalho ocupava o lugar de ambos. Os policiais do departamento no necessariamente
gostavam dele, mas o respeitavam. Harris preferia as coisas assim. Erguendo os olhos, fez sinal para que os dois entrassem.
- Quero os relatrios do laboratrio antes das cinco. Se havia um pedao de fio no suter dela, quero saber de onde veio. Faam seu servio. Dem-me alguma coisa
em que trabalhar pra eu poder fazer o meu. - Quando desligou, foi at a chapa de aquecimento eltrico e serviu caf. Aps cinco anos de abstinncia, ainda desejava
usque, se fosse escocs. - Me falem de Francie Bowers.
- Ela servia as mesas no Doug's havia quase um ano. Mudou-se de Virgnia para a capital no ltimo novembro. Morava sozinha num apartamento em North West. - Ed deslocou
o peso do corpo de um p para outro e conferiu o caderno de anotaes. - Casada duas vezes, nenhuma das duas durou mais de um ano. Estamos investigando os ex. Trabalhava
s noites e dormia de dia, por isso os vizinhos no sabem muita coisa sobre ela. Saiu do trabalho  uma da manh. Parece que cortou caminho pelo beco pra chegar
ao ponto do nibus. No tinha carro.
- Ningum ouviu nada - acrescentou Ed. - Nem viu coisa alguma.
- Perguntem de novo - disse Harris apenas. - E encontrem algum que tenha ouvido ou visto algo. Mais alguma coisa sobre a nmero um?
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Ben no gostava de citar as vtimas por nmeros e enfiou as mos nos bolsos.
-  O namorado de Carla Johnson em L.A. conseguiu um pequeno papel numa novela. Est limpo. Parece que ela teve uma briga com outro estudante na vspera do assassinato.
Testemunhas disseram que foi muito acalorada.
- O rapaz admitiu - continuou Ed. - Pelo que consta, saram duas vezes e ela no estava mais interessada.
- libi?
- Ele afirma que se embriagou e pegou uma caloura. - Com uma encolhida de ombros, Ben sentou-se no brao de uma cadeira.
- Esto noivos. Podemos investig-lo de novo, mas nenhum de ns acredita que ele tenha qualquer coisa a ver com isso. No tem ligao alguma com Barbara Clayton
nem com Francie Bowers. Quando investigamos, descobrimos que o rapaz  um tpico estudante americano de famlia de classe mdia-alta, com um bom currculo. Tem mais
chance de Ed ser um psictico do que o universitrio.
- Obrigado, parceiro.
- Bem, investigue-o de novo, mesmo assim. Qual o nome dele?
- Robert Lawrence Dors. Dirige um Honda Civic e usa camisas plo. - Ben pegou um cigarro. - Mocassins brancos sem meias. - Roderick vai interrog-lo.
- Espere um minuto...
- Estou designando uma fora-tarefa pra esse negcio - disse Harris, interrompendo Ben. Serviu-se uma segunda xcara de caf.
- Roderick, Lowenstein e Bigsby vo trabalhar com vocs. Quero esse cara antes que ele mate a prxima mulher que por acaso esteja caminhando sozinha. - Manteve a
voz branda, moderada e definitiva. - Vocs tm algum problema com isso?
Ben encaminhou-se at a janela e olhou para fora. Era pessoal e ele sabia bem das coisas.
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- No, todos queremos o cara.
- Inclusive o prefeito - acrescentou Harris, com apenas um levssimo trao de ressentimento. - Quer ter condies de dar  imprensa alguma coisa positiva at o final
da semana. Chamamos um psiquiatra pra nos dar um perfil.
- Psiquiatra? - Com um arremedo de risada, Ben deu meia-volta. - Por favor, capito.
Como ele tambm no gostava da idia, a voz de Harris gelou:
- O Dr. Court concordou em cooperar conosco, a pedido do prefeito. No sabemos como ele , talvez seja hora de descobrirmos o que pensa. A essa altura - acrescentou
com um olhar nivelado aos dois policiais -, estou disposto a consultar at uma bola de cristal se pudermos conseguir uma pista. Estejam aqui s quatro.
Ben ia abrir a boca, mas captou o olhar de advertncia de Ed. Sem uma palavra sequer, os dois saram.
- Talvez a gente devesse chamar um paranormal.
- Mente tacanha.
- Realista.
- A psique humana  um mistrio fascinante.
- Voc anda lendo de novo.
- E os que tm formao para entend-la podem abrir portas s quais os leigos apenas batem.
Ben suspirou e acendeu o cigarro quando saram no estacionamento.
- Merda!

- MERDA - RESMUNGOU TESS, QUANDO OLHOU PELA JANELA do consultrio. No tinha o menor desejo de fazer duas coisas nesse momento. A primeira era batalhar com o trfego
na chuva fria e detestvel que comeara a cair. A segunda, envolver-se com os homicdios que assolavam a cidade. Teria de fazer a primeira, porque o prefeito pedira,
e seu av a pressionara a fazer a segunda.
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J tratava de um nmero de casos pesado demais. Poderia ter recusado o pedido do prefeito com educao, e at justificativa. O av era outra histria. Nunca se sentia
Dra. Teresa Court quando lidava com ele. Aps cinco minutos, no tinha mais um metro e sessenta e cinco de altura, com corpo de mulher e diploma emoldurado em preto
atrs. Tornava a ser uma menina magricela de doze anos, dominada pela personalidade do homem a quem mais amava no mundo.
Ele garantira a obteno daquele diploma emoldurado em preto, no garantira? Com sua confiana, pensou, e f irrestrita nela. Como podia dizer no quando ele lhe
pedia para usar seu talento? Porque tratar do nmero de casos atuais exigia-lhe dez horas dirias. Talvez fosse o momento de mostrar-se obstinada e contratar uma
auxiliar.
Tess olhou o consultrio em tons pastis ao redor, com as seletas antigidades e aquarelas. Seu, pensou. Cada pedacinho. E o arquivo de carvalho alto, de cerca de
1920, cheio de pastas dos pacientes. Tambm seus. No, no iria contratar uma auxiliar. Dentro de um ano, faria trinta. Tinha sua clientela, o consultrio e os prprios
problemas. Era assim mesmo que desejava manter tudo.
Tirando a capa de chuva forrada de vison do armrio, enfiou-se nela. E talvez, apenas talvez, pudesse ajudar a polcia a encontrar o homem alardeado nas manchetes
dia aps dia. Poderia ajud-los a encontr-lo e det-lo, para ele, por sua vez, obter a ajuda de que precisava.
Pegou a bolsa e a pasta, gorda de arquivos a serem selecionados e analisados naquela noite.
- Kate. - Saindo na ante-sala do consultrio, ela levantou a gola. - Vou ao escritrio do capito Harris. No passe nenhuma ligao, a no ser que seja urgente.
- Devia pr um chapu - respondeu a recepcionista.
- Tenho um no carro. At amanh.
- Dirija com cuidado.
J pensando adiante, ela cruzou a porta remexendo na bolsa  procura das chaves do carro. Talvez pudesse comprar comida
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chinesa para levar a caminho de casa e desfrutar de um jantar tranqilo antes de...
- Tess!
Mais um passo e teria entrado no elevador. Praguejando baixinho, ela virou-se e conseguiu dar um sorriso.
- Frank.
Tivera tanto sucesso ao evit-lo por quase dez dias.
- Voc  uma moa difcil de encontrar.
Ele dirigiu-se a ela. Impecvel. Era essa a palavra que sempre lhe escapava da mente quando via o Dr. F. R. Fuller. Antes de chato. O chato vestia um terno cinza-perolado
da Brooks Brothers e a gravata listrada tinha o matiz e o rosa-beb da camisa Arrow. Cabelos penteados  perfeio no estilo conservador. Ela tentou com esforo
no deixar o sorriso desfazer-se. No era culpa de Frank a perfeio dele no entusiasm-la.
- Tenho andado ocupada.
- Voc sabe o que dizem sobre s trabalho, Tess.
Ela rangeu os dentes para impedir-se de responder no; o que era mesmo que diziam? Ele apenas riria e lhe daria o resto do clich.
- Terei simplesmente de correr o risco.
Apertou o boto para descer e torceu para que o elevador chegasse logo.
- Mas est saindo cedo hoje.
- Trabalho externo.
Ela olhou de propsito para o relgio de pulso. Tinha tempo de sobra.
- E j um pouco atrasada - mentiu, sem escrpulo.
- Venho tentando entrar em contato com voc. -Apertando a palma da mo na parede, Frank curvou-se sobre ela. Mais um dos hbitos dele que Tess se viu detestando.
- Seria de imaginar que isso no fosse um problema, pois nossos consultrios ficam ao lado um do outro.
Onde diabo estava um elevador quando se precisava?
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- Sabe como so os horrios, Frank.
- Na verdade, sei. - O colega vizinho disparou-lhe um sorriso de anncio de pasta de dentes e ela se perguntou se ele achava que sua colnia a enlouquecia. - Mas
todos precisamos relaxar de vez em quando, certo, doutora?
-  nossa prpria maneira.
- Tenho ingressos para a pea de Noel Coward no Centro Kennedy amanh  noite. Que tal relaxarmos juntos?
Na ltima vez, a nica, que ela concordara em relaxar com ele, mal escapara com as roupas no corpo. Pior, antes do cabo-de-guerra, quase morrera de tdio durante
trs horas.
-  gentileza sua pensar em mim, Frank. - Mais uma vez, ela mentiu sem hesitao: - Lamento j ter compromisso amanh.
- Por que a gente no... As portas abriram-se.
- Opa, estou atrasada. - Lanando-lhe um sorriso radiante, ela entrou. - No trabalhe demais, Frank. Sabe o que dizem.
Devido  chuva e ao trfego intensos, ela consumiu quase todo o tempo de sobra dirigindo at o distrito policial. O estranho era que a batalha de meia hora a deixou
animada. Talvez, pensou, por ter escapado to primorosamente de Frank. Se tivesse coragem, e no tinha, teria apenas lhe dito que ele era um imbecil e seria o fim
da histria. At ele encurral-la alm da conta, ela usaria tato e desculpas.
Estendendo a mo ao lado, pegou um chapu de feltro e amontoou os cabelos por baixo. Olhou no retrovisor e franziu o nariz. De nada adiantava fazer reparos agora.
A chuva os tornaria perda de tempo. Mesmo assim, devia ter um banheiro feminino l dentro, onde pudesse pegar a bolsa de truques mgicos e sair parecendo digna e
profissional. Por enquanto, iria apenas parecer molhada.
Com um empurro, Tess abriu a porta do carro, segurou o chapu com a mo e deu uma corrida at o prdio.
- Veja s isso.
Ben parou o parceiro nos degraus que levavam  matriz.  Olharam,  alheios  chuva, Tess a saltar sobre poas.
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- Belas pernas - comentou Ed.
- Se so. Melhores que as de Maggie.
- Talvez. - Ed pensou um instante. - Difcil dizer na chuva.
 Ainda correndo, cabisbaixa, Tess precipitou-se degraus acima e chocou-se com Ben. Ele ouviu-a praguejar antes de segurar-lhe os ombros e afast-la apenas o suficiente
para dar uma boa olhada no rosto.
Valia a pena ficar molhado.
Elegante. Mesmo com a chuva correndo sobre o rosto, Ben pensou em elegncia. O recorte acentuado das mas do rosto era forte, alto o bastante para faz-lo lembrar-se
de donzelas viquingues. Boca suave e molhada, lembrando-lhe outras coisas. A pele clara tinha apenas um toque rosado. Mas foram os olhos que o fizeram esquecer a
observao superficial que lhe ocorrera. Grandes, frios e apenas um pouco irritados. Violeta. Ele achava que a cor fora reservada a Elizabeth Taylor e flores silvestres.
- Desculpe - conseguiu dizer Tess quando recuperou o flego. - Eu no vi voc.
- No. - Ben queria continuar encarando-a, mas deu um jeito de afastar o olhar. Tinha uma reputao mtica com mulheres. Exagerada, mas baseada em fatos. -  velocidade
que voc corria, no me surpreende. - Era agradvel segur-la, ver a chuva grudar-se nos clios. - Eu podia det-la por atacar um policial.
- A senhora est ficando molhada - murmurou Ed.
At ento, Tess tivera conscincia apenas do homem que a segurava, encarando-a como se houvesse surgido numa baforada de fumaa. Agora se forou a desviar o olhar
e examinar e avaliar o outro homem de cima a baixo. Viu um gigante molhado, de olhos sorridentes e uma massa de cabelos ruivos gotejantes. Era uma delegacia de polcia,
pensou, ou um conto de fadas?
Ben manteve uma das mos no brao dela ao abrir a porta. Deixou-a entrar, mas no iria deix-la escapulir. Ainda no.
To logo entrou, Tess lanou outro olhar a Ed, decidiu que era real e desviou-o para Ben. Tambm. E ele continuava segurando seu brao. Sorrindo, ela ergueu uma
sobrancelha.
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- Policial, informo que, se me prender por ataque, eu vou dar queixa de brutalidade policial. - Quando ele sorriu, ela sentiu alguma coisa dar um clique. Ento no
era to inofensivo quanto achara. -Agora, se me der licena...
- Esquea as acusaes. Se precisar resolver uma multa por estacionamento...
- Sargento...
- Detetive - ele corrigiu. - Ben.
- Detetive, talvez eu aceite sua oferta outra hora, mas no momento estou meio atrasada. Se quiser ser til...
- Sou um funcionrio pblico.
- Ento pode soltar meu brao e me dizer onde encontro o capito Harris?
- Capito Harris? Homicdios?
Ela viu a surpresa, a desconfiana, e sentiu o brao livre. Intrigada, inclinou a cabea e retirou o chapu. Os cabelos louro-claros caram-lhe sobre os ombros.
- Isso mesmo.
Ben deslizou o olhar pela queda dos cabelos e tornou a olhar o rosto dela. No se encaixava, pensou. Ele desconfiava de coisas que no se encaixavam.
- Dra. Court?
Sempre era necessrio um esforo para enfrentar descortesia e cinismo com graa. Tess no se incomodou em faz-lo.
- Isso mesmo mais uma vez... Detetive.
- Voc  psiquiatra?
Ela devolveu-lhe um olhar idntico.
- Voc  policial?
Cada um poderia ter acrescentado uma coisa no muito lisonjeira se Ed no desatasse a rir.
- Soou a campainha pro primeiro round - disse, apaziguando. - O escritrio de Harris  uma rea neutra.
Tomou o brao de Tess e mostrou-lhe o caminho.

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C a p  t u l o  Dois
Ladeada pelos dois, Tess atravessou os corredores. De vez em quando, uma voz gritava com algum ou uma porta era aberta e fechada com um rudo oco. O barulho de
telefones tocando vinha de toda parte ao mesmo tempo; parecia que nunca eram atendidos. Um homem de camisa e macaco enxugava uma poa de alguma coisa. O corredor
exalava forte cheiro de Lysol e umidade.
No era a primeira vez que ela entrava numa delegacia de polcia, mas a primeira em que chegara to perto de sentir-se intimidada. Ignorando Ben, concentrou-se no
parceiro.
- Vocs sempre andam em par?
Afvel, Ed riu. Gostou da voz dela, pois, alm de grave, era fria como sorvete numa quente tarde de domingo.
- O capito gosta que eu fique de olho nele.
- Aposto que sim.
Ben deu uma guinada brusca  esquerda.
- Por aqui... doutora.
Tess lanou-lhe um olhar enviesado e passou  frente. Ele cheirava a chuva e sabonete. Ao entrar na sala do destacamento, ela viu
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dois homens arrastarem um adolescente algemado. Sentada num canto com uma caneca nas mos, uma mulher chorava baixinho. Rudos de discusso chegavam do corredor.
-  Bem-vinda  realidade - apresentou-lhe Ben quando algum comeou a dizer improprios.
Ela deu-lhe um demorado olhar de esguelha e resumiu-o como um tolo. Acharia que ela imaginava que iriam oferecer-lhe ch com biscoitos? Comparado com a clnica onde
atendia uma vez por semana, aquilo era uma festa no jardim.
- Obrigada, detetive...
- Paris. - Ben se perguntou por que achava que ela ria dele. - Ben Paris, Dra. Court. Este  meu parceiro, Ed Jackson. - Pegando um cigarro, acendeu-o e examinou-a.
Parecia deslocada na lgubre sala da delegacia, como uma rosa num monte de lixo. Mas isso era problema dela. - Vamos trabalhar juntos.
- Que legal!
Com o sorriso que reservava aos vendedores de loja irritantes, ela passou rpido  frente. Antes que pudesse bater  porta de Harris, Ben abriu-a.
- Capito. - Ele esperou o capito afastar os papis na mesa e levantar-se. - Esta  a Dra. Court.
Harris no esperava uma mulher, nem ningum to jovem. Mas comandara demasiadas policiais, demasiadas principiantes, para sentir qualquer coisa alm de momentnea
surpresa. O prefeito recomendara-a, insistira nela, corrigiu-se. E o prefeito, por mais inoportuno que fosse, era um homem tarimbado que dava poucos passos errados.
- Dra. Court. - Estendeu a mo e achou a dela macia e pequena, mas muito firme. -Aprecio sua vinda.
No, no a convencera muito de que apreciava, mas ela lidara com essas situaes antes.
- Espero poder ajudar.
- Por favor, sente-se.
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Ela ia retirar a capa e sentiu mos nos seus braos. Dando uma rpida olhada atrs, viu Ben.
- Bela capa, doutora. - Ele deslizou as mos pelo forro ao ajudar a retir-la. - Horas de cinqenta minutos devem ser rentveis.
- Nada  mais divertido que pacientes encharcados - ela disse com a mesma insinuao na voz.
Idiota arrogante, pensou, e sentou-se.
- A Dra. Court talvez queira caf - interveio Ed. Sempre se divertindo com facilidade, riu para o parceiro. - Teve uma chegada meio molhada.
Vendo o brilho nos olhos de Ed, Tess no pde impedir-se de retribuir o sorriso.
- Eu adoraria tomar um caf. Puro.
Aps olhar a borra no bule sobre a chapa quente, Harris pegou o telefone.
- Roderick, traga uns cafs aqui. Quatro... no, trs - corrigiu ao olhar para Ed.
- Se tiver um pouco de gua quente...
Ed enfiou a mo no bolso e pegou um saquinho de ch de ervas.
- E uma xcara de gua quente - disse Harris, torcendo os lbios em algo semelhante a um sorriso. - , para Jackson. Dra. Court... - No sabia o que a divertira,
mas teve a sensao de que tinha a ver com seus dois homens. Era melhor comearem o negcio. - Seremos gratos a qualquer ajuda que possa nos dar. E contar com nossa
total cooperao. - Disse isso com um olhar rpido e significativo a Ben. -J recebeu as informaes essenciais sobre o que precisamos?
Tess pensou na reunio de duas horas que tivera com o prefeito e as pilhas de papelada que levara do escritrio dele para casa. Em suma, pensou, nada tinha a ver
com aquilo.
- Sim. Vocs precisam de um perfil psicolgico do assassino conhecido como Padre. Necessitam de uma opinio qualificada, especializada, sobre o motivo de ele matar
e seu estilo de matar.
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Querem que eu diga quem ele  emocionalmente. Como pensa, como sente. Com os fatos que tenho, e os que vo me dar,  possvel formar uma opinio... uma opinio -
ela enfatizou - sobre como, por que e quem ele , em termos psicolgicos. Com isso, talvez possam aproximar-se mais um passo de det-lo.
Ento ela no prometia milagres. Isso ajudou Harris a relaxar. Pelo canto dos olhos, viu que Ben a observava atento, passando um dedo como quem no quer nada pela
capa de chuva dela.
- Sente-se, Paris - disse, indulgente. - O prefeito lhe deu alguns dados? - perguntou  psiquiatra.
- Um pouco. Comecei nisso ontem  noite.
- Vai precisar dar uma olhada nestes relatrios tambm. Pegando uma pasta da mesa, Harris passou-a a ela.
- Obrigada.
Tess retirou da bolsa uns culos de aro de tartaruga e abriu a pasta.
Psiquiatra, pensou mais uma vez Ben, examinado o perfil dela. Tinha a aparncia de quem devia estar liderando a torcida de um time de universidade. Ou tomando conhaque
no Mayflower. No sabia por que as duas imagens pareciam combinar com ela, mas combinavam. Era a imagem de mdica que no se encaixava. Os psiquiatras eram altos,
magros e plidos, de olhos, voz e mos calmos.
Lembrou o psiquiatra que o irmo consultara durante trs anos aps retornar do Vietn. Josh partira como um jovem idealista de rosto rosado. Regressara assombrado
e beligerante. O psiquiatra ajudara. Ou assim parecera, como todos tinham dito, incluindo o prprio Josh. At ele pegar o revlver de servio e acabar com quaisquer
chances que teria.
O psiquiatra definira isso como Distrbio do Estresse Ps-Traumtico. At ento, Ben no soubera em que medida detestava rtulos.
Roderick trouxe o caf e conseguiu no parecer aborrecido por ser delegado a contnuo.
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- Trouxe os garotos Dors? - perguntou-lhe Harris.
- Eu ia busc-los.
- Paris e Jackson vo dar as informaes resumidas a voc, Maggie Lowenstein e Bigsby de manh aps a lista de chamada.
Dispensou-o com um aceno da cabea enquanto despejava trs colheres de acar na xcara. Do outro lado da sala, Ed estremeceu. Tess aceitou a xcara com um murmrio,
sem erguer os olhos.
- Devo supor que o assassino tem mais fora que a mdia? Ben pegou um cigarro e examinou-o.
- Por qu?
Tess empurrou os culos bem para baixo no nariz, num truque que lembrava um professor que teve na faculdade. Destinava-se a desmoralizar.
- A no ser pelas marcas de estrangulamento, no havia nas vtimas quaisquer hematomas, nem sinais de violncia, nem roupa rasgada ou vestgios de luta.
Ignorando o caf, Ben tragou o cigarro.
- Nenhuma das vtimas era particularmente forte. Barbara Clayton, a maior, tinha um metro e sessenta e cinco e menos de cinqenta e cinco quilos.
- O terror e a adrenalina provocam surtos de fora - ela contestou. - Sua suposio, a julgar pelos relatrios,  que ele as pega de surpresa, por trs.
- Supomos isso pelo ngulo e localizao dos hematomas.
- Acho que compreendo - ela disse, ativa e enrgica, empurrando mais uma vez os culos para cima. No era fcil desmoralizar um cabea-dura. - Nenhuma das vtimas
conseguiu arranhar o rosto dele, seno haveria fragmentos de pele sob as unhas. Entendi certo? -Antes que ele pudesse responder, ela virou-se enftica para Ed: -
Ento, ele  esperto o bastante para querer evitar pontos de interrogao. No parece que mata esporadicamente, mas planeja de maneira ordenada, at lgica. A roupa
delas - continuou -, desarrumada, botes abertos, costuras rasgadas, descala?
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Ed fez que no com a cabea, admirando a maneira como ela mergulhava nos detalhes.
- No, senhora. Todas trs em perfeita ordem.
- E a arma do crime, o amicto?
- Cruzado sobre o peito.
- Um psictico organizado - acrescentou Ben. Tess apenas ergueu uma sobrancelha.
-  rpido no diagnstico, detetive Paris. Porm, mais que organizado, eu usaria a palavra reverente.
Erguendo um nico dedo, Harris deteve a rplica de Ben.
- Poderia explicar isso, doutora?
- No posso lhe dar um perfil minucioso, completo, sem mais algum estudo, capito, mas acho que posso dar um esboo geral. O assassino  obviamente um religioso
radical, e acho que de formao tradicional.
- Ento favorece o perfil de um padre? Mais uma vez, ela se virou para Ben.
- O homem pode ter freqentado alguma ordem religiosa por algum tempo, ou apenas nutrir uma fascinao, at mesmo um medo da autoridade da Igreja. O uso que faz
do amicto  um smbolo, para si mesmo, para ns, at para as vtimas. Talvez usado de uma forma sublevada, mas eu excluiria isso com base nas anotaes. Como todas
as vtimas eram do mesmo grupo etrio, o fato tende a indicar que representam alguma importante figura feminina na vida dele. Me, esposa, amante, irm. Algum que
foi ou  ntima num nvel emocional. Minha impresso  de que essa figura o decepcionou de algum modo, pela Igreja.
- Um pecado?
Ben soprou uma baforada de fumaa.
Talvez ele fosse um cabea-dura, ela pensou, mas no era idiota.
- A definio de pecado varia - respondeu friamente. - Mas,  isso, um pecado aos olhos dele, na certa sexual.
Ben detestou a anlise calma, impessoal.
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- Ento est punindo essa figura feminina por meio de outras mulheres?
Ela detestou o escrnio na voz dele e fechou a pasta.
- No, est salvando.
Ben tornou a abrir a boca e fechou-a. Fazia um terrvel tipo de sentido.
- Esse  o nico aspecto que julgo de absoluta clareza - afirmou Tess, quando se virou de novo para Harris. - Consta das anotaes, de todas elas. O homem se pe
no papel de salvador. Pela ausncia de violncia desnecessria, eu diria que no tem a menor vontade de punir. Se fosse vingana, ele seria brutal, cruel, e desejaria
que elas soubessem o que ia acontecer. Em vez disso, ele as mata o mais rpido possvel, depois arruma as roupas, cruza o amicto num gesto de reverncia e deixa
um bilhete declarando que esto salvas.
Tirando os culos, girou-os pelas lentes.
- No as estupra.  mais que provvel que seja impotente com mulheres: mais importante, porm, um ataque sexual seria pecado.  possvel, provvel, que extraia alguma
espcie de liberao sexual do assassinato, mais espiritual, contudo.
- Um fantico religioso - pensou alto Harris.
- Por dentro - disse Tess. - Por fora, na certa, age normalmente por longos perodos. Os assassinatos ocorreram no espao de semanas um do outro, portanto parece
que ele tem um nvel de controle. Poderia muito bem manter um trabalho normal, confraternizar, ir  missa.
- Igreja.
Ben levantou-se e foi andando at a janela.
- Com assiduidade, imagino. Esse  o ponto focal. Se no  padre, assume o aspecto de um durante os assassinatos. Em sua mente, est oficiando.
- Absolvio - murmurou Ben. - O rito final. Intrigada, Tess estreitou os olhos.
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- Exatamente.
Sem saber muito sobre a Igreja, Ed passou para outro tpico:
- Esquizofrnico?
Tess franziu o cenho em direo aos culos quando respondeu que no com a cabea.
- Esquizofrenia, distrbio bipolar ou personalidade dividida. Rtulos so aplicados com demasiada facilidade e tendem a generalizar. - Ela no notou que Ben se virou
e a encarava. Tornou a guardar os culos no estojo e largou-os na bolsa. - Todo distrbio psiquitrico  um problema muito individual, e s se pode entender cada
problema descobrindo suas origens dinmicas.
- Eu preferiria trabalhar com os pormenores - disse Harris. - Mas so escassos neste caso. Lidamos com um psicopata?
A expresso dela mudou sutilmente. Impacincia, pensou Ben, notando o leve vinco entre as sobrancelhas e um rpido movimento da boca. Ento se tornou mais uma vez
profissional:
- Se precisa de um termo geral, psicopatia serve. Significa distrbio mental.
Ed acariciou a barba.
- Ento  insano.
-  Insanidade  um termo legal, detetive. - Ela disse isso de maneira quase precisa, ergueu a pasta e levantou-se. - To logo ele seja detido e levado a julgamento,
isso se tornar uma questo. Terei um perfil para vocs o mais rpido possvel, capito. Ajudaria se eu visse os bilhetes deixados nos corpos e as armas do crime.
Insatisfeito, Harris levantou-se. Queria mais. Embora soubesse bem das coisas, queria A, B, C e as linhas que ligavam umas s outras.
- O detetive Paris vai lhe mostrar o que precisar ver. Obrigado, Dra. Court.
Ela aceitou a mo que ele lhe estendeu.
- Tem pouco a me agradecer a essa altura. Detetive Paris?
- Por aqui. - Com um aceno apressado, ele conduziu-a para fora.
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Nada disse ao tornar a lev-la pelos corredores e ao ponto de controle no qual se registraram para examinar as provas. Tess tambm ficou calada quando examinou os
bilhetes e as letras de imprensa precisas e ordenadas. No variavam e eram exatas a ponto de parecer quase cpias fotostticas. O homem que os escreveu no sentia
raiva nem desespero, ela refletiu. Ao contrrio, sentia-se em paz. Era a paz que buscava, e paz,  sua maneira distorcida, era o que procurava dar.
- Branco pela pureza - murmurou, aps examinar os amictos. Talvez um smbolo, pensou. Mas para quem? Afastou-se dos bilhetes. Mais que armas de assassinato, causavam-lhe
calafrios. - Parece que  um homem numa misso.
Ben lembrou a nauseante sensao que sentira aps cada assassinato, mas sua voz foi fria e uniforme:
- Parece segura de si mesma, doutora.
- Pareo? - Virando-se de frente para ele, ela deu-lhe uma breve examinada, remoeu coisas e agiu no impulso: - A que horas deixa o servio, detetive?
Ele inclinou a cabea, sem ter muita certeza das suas aes.
- Dez minutos atrs.
- timo. - Ela vestiu a capa. - Pode me pagar uma bebida e me dizer por que desgosta da minha profisso, ou apenas da minha pessoa. Dou-lhe minha palavra, nada de
anlise superficial.
Alguma coisa nela o desafiava. A aparncia indiferente, elegante, a voz forte, sofisticada. Talvez os olhos grandes e suaves. Pensaria nisso depois.
- Sem honorrios?
Ela riu e enfiou o chapu no bolso.
- Talvez a gente tenha chegado  raiz do problema.
- Preciso do meu casaco.
Quando voltaram  sala dos detetives, cada um se perguntava por que iria passar parte da tarde com algum que desaprovava com tanta obviedade e o que eram. Por outro
lado, cada um se decidira a
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sair por cima antes do cair da tarde. Ben pegou o casaco e rabiscou alguma coisa num livro de ponto.
- Charlie, diga a Ed que estou ocupado em mais consultas com a Dra. Court.
- Preencheu aquela requisio?
Ben deslocou Tess quase como um escudo e rumou para a porta.
- Requisio?
- Droga, Ben...
- Amanh, em triplicata.
Encaminhou-se com ela para fora do alcance do ouvido e quase at a porta externa.
- No gosta muito de trabalho administrativo? - ela perguntou. Ele abriu a porta e viu que a chuva se tornara uma garoa mida.
- No  a parte mais recompensadora do trabalho.
- E qual ?
Ben deu-lhe um olhar enigmtico e conduziu-a em direo a seu carro.
- Pegar bandidos.
O estranho  que ela acreditou.
Dez minutos depois, entravam num bar pouco iluminado em que a msica vinha de uma jukebox e as bebidas no eram aguadas. No era um dos locais noturnos mais distintos
de Washington, nem um dos mais desagradveis. Pareceu a Tess um lugar no qual os assduos se conheciam pelo nome e os recm-chegados eram aceitos aos poucos.
Ben enviou ao barman um aceno descuidado, trocou uma palavra abafada com uma das garonetes e encontrou uma mesa nos fundos. Ali, a msica era suave, e as luzes,
ainda mais baixas. A mesa balanava um pouco numa perna curta.
Assim que se sentou, ele relaxou. Era a sua praia e ele conhecia as jogadas.
- O que vai tomar? Esperava que ela pedisse um belo vinho branco de nome francs.
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- Usque, puro.
- Stolichnaya - ele disse  garonete, continuando a observar Tess. - Pedras de gelo. - Deixou o silncio estender-se por dez segundos, depois vinte. Um silncio
interessante, pensou, cheio de perguntas e animosidade velada. Talvez a confundisse. - Voc tem olhos incrveis.
Ela sorriu e recostou-se,  vontade.
- Eu teria imaginado que lhe ocorresse algo mais original.
- Ed gostou de suas pernas.
- Fico surpresa de ter conseguido v-las da altura dele. O detetive Jackson no se parece com voc - observou. - Imagino que formem uma dupla impressionante. Mudando
de assunto, detetive Paris, me interessa saber por que desconfia da minha profisso.
- Por qu?
Quando sua bebida foi servida, ela tomou-a bem lentamente. Aquecera-a em lugares que o caf no tocara.
- Curiosidade. Vem com o territrio. Afinal, estamos ambos no negcio de procurar respostas, resolver quebra-cabeas.
- V nossos trabalhos como semelhantes? -A idia o fez sorrir. - Tiras e psiquiatras.
- Talvez eu ache seu trabalho to desagradvel quanto voc acha o meu - ela respondeu, sem se alterar. - Mas necessrios, desde que as pessoas no se comportem com
o que a sociedade chama de padres normais.
- No gosto de dar nomes aos bois. - Ele emborcou a bebida. - No tenho muita confiana em algum que se senta atrs de uma mesa sondando o crebro das pessoas,
depois encaixa a personalidade delas em escaninhos.
- Ora. - Ela tomou mais um gole do usque e ouviu a msica tornar-se mais onrica com Lionel Richie. -  assim que define os psiquiatras?
-.
Ela assentiu com a cabea.
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- Suponho que tambm tenha de tolerar muito preconceito em sua profisso.
Uma coisa perigosa de repente lampejou nos olhos dele, depois sumiu, com a mesma rapidez.
- Ponto pra voc, doutora.
Ela tamborilou um dedo na mesa, nico sinal externo de emoo. O detetive tinha uma admirvel capacidade de impassibilidade. J notara isso no escritrio de Harris.
Mas sentia certa inquietao nele. Difcil no apreciar a forma como a mantinha sob controle.
- Muito bem, detetive Paris, que tal marcar o seu ponto? Aps girar a vodca, ele largou-a sem beber.
- Certo. Talvez eu veja voc como algum que extorque donas de casa frustradas e executivos entediados. Tudo se remete ao tpico j batido de sexo ou dio pela me.
Responde a perguntas com perguntas e nunca derrama uma gota de suor. Cinqenta minutos decorrem e voc passa para o caso seguinte. Quando algum precisa mesmo de
ajuda, quando est desesperado, isso  ignorado. Voc rotula, arquiva e continua na hora seguinte.
Por um instante, ela nada disse, pois sob a raiva percebeu o sofrimento.
- Deve ter sido uma experincia muito ruim - murmurou. - Sinto muito.
Constrangido, ele se deslocou na cadeira.
- Nada de anlise superficial - lembrou-lhe.
Uma experincia muito ruim, ela tornou a pensar. Mas ele no era um homem que precisasse de compaixo.
- Tudo bem, vamos tentar um ngulo diferente. Voc  um detetive de homicdios. Imagino que tudo o que faz o dia inteiro  correr por becos escuros descarregando
armas de fogo. Desvia-se de duas balas de manh, fecha as algemas  tarde, depois l os direitos do suspeito e o reboca para interrogatrio. Est geral o bastante
pra voc?
Um sorriso relutante aflorou-lhe nos lbios.
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- Muito inteligente, no ?
- Assim me disseram.
No era do feitio dele fazer julgamentos absolutos de algum que no conhecia. Seu senso de justia lutava com um longo e enraizado preconceito. Fez um sinal pedindo
outra bebida.
- Qual o seu primeiro nome? Cansei de chamar voc de Dra. Court.
- O seu  Ben. - Ela deu-lhe um sorriso que o fez concentrar-se de novo em sua boca. - Teresa.
- No. - Ele balanou a cabea. - No  assim que a chamam. Teresa  muito comum. Terry no tem classe suficiente.
Ela curvou-se para a frente e apoiou o queixo nas mos juntas.
- Talvez voc seja um bom detetive, afinal.  Tess.
- Tess. - Ele repetiu devagar e assentiu com a cabea. - Muito bonito. Diga-me, Tess, por que psiquiatria?
Ela observou-o um instante, admirando-lhe o jeito fcil de se esticar na cadeira. No indolente, pensou, nem desleixado, apenas relaxado. Invejava-o.
- Curiosidade - ela disse de novo. - A mente humana  cheia de perguntas no respondidas. Eu queria encontrar as respostas. Se voc encontra as respostas, pode ajudar,
s vezes. Curar a mente, aliviar o corao.
Isso o tocou. A simplicidade.
- Aliviar o corao - repetiu, e pensou no irmo. Ningum conseguira aliviar o dele. - Acha que, se cura um, pode aliviar outro?
-  a mesma coisa.
Tess olhou alm dele um casal aconchegado rindo por cima de canecas de cerveja.
- Achei que voc s era paga pra examinar cabeas.
Ela curvou os lbios um pouco, mas continuou de olhos fixos alm dele.
- A mente, o corao e a alma. "No podes encontrar remdio algum para um crebro doente, da memria tirar uma tristeza enraizada,
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da mente extirpar as dores ali escritas, e com algum antdoto de doce e agradvel esquecimento aliviar o peito oprimido a gemer sob o peso da matria perigosa que
comprime o corao?"
Ben ergueu o olhar da bebida enquanto ela falava. Embora ela mantivesse a voz baixa, ele deixara de ouvir a msica, a algazarra, as risadas.
- Macbeth. - Quando ela lhe sorriu, ele encolheu os ombros. - Os policiais tambm lem.
Tess ergueu o copo no que poderia ser um brinde.
- Talvez devamos os dois fazer reavaliaes.

CONTINUAVA GAROANDO QUANDO RETORNARAM AO ESTACIONAMENTO da delegacia. A escurido logo trouxera a noite, de modo que as poas brilhavam sob os postes de luz nas
caladas molhadas e desertas. Washington deitava-se e levantava-se cedo. Ela esperara at agora para perguntar-lhe o que vinha querendo saber a tarde toda.
- Ben, por que se tornou policial?
- J disse, gosto de pegar bandidos.
A semente da verdade estava ali, pensou Tess, mas no tudo.
- Ento cresceu brincando de polcia e ladro e decidiu continuar brincando?
- Sempre brinquei de mdico. - Ele parou o carro ao lado do dela e puxou o freio de mo. - Era educacional.
- Sei. Ento por que a mudana para o servio pblico?
Ele podia ter sido superficial, se esquivado. Parte de seu charme com as mulheres era fazer as duas coisas com um sorriso fcil. De algum modo, para variar, quis
dizer-lhe a simples verdade.
- Tudo bem, agora eu tenho uma citao pra voc. "Que  a lei, seno palavras e papel, sem as mos e espadas dos homens para imp-la?" - Com um meio sorriso, virou-se
e viu-a examinando-o calmamente. - Palavras e papel no so meu jeito de cuidar das coisas.
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- E a espada ?
- Isso mesmo. - Ele se curvou para abrir a porta do lado dela. Os corpos se roaram, mas nenhum dos dois reconheceu a atrao fsica. -Acredito na justia, Tess.
 muito mais do que palavras no papel.
Ela ficou sentada por um instante, assimilando. Notou violncia nele, ordenada e controlada. Talvez a palavra fosse exercitada, mas violncia assim mesmo. Com certeza
matara, coisa que a educao e a personalidade dela rejeitavam por completo. Tirara vidas, arriscara a prpria. E acreditava em lei, ordem e justia. Assim como
na espada.
No era o homem simples por quem primeiro o tomara. Ela tivera muito que aprender numa tarde. Mais que o suficiente, pensou, e deslizou para o lado.
- Bem, obrigada pela bebida, detetive. Quando ela saltou do carro, Ben saiu do outro lado.
- No tem guarda-chuva?
Ela enviou-lhe um sorriso tranqilo enquanto pegava as chaves.
- Nunca trago quando chove.
Com as mos nos bolsos de trs, ele encaminhou-se devagar para ela. Por motivos que no sabia definir, relutava em deix-la.
- Quer saber o que concluiria um mdico de cuca disso?
- Voc tambm no trouxe. Boa-noite, Ben.
Ele sabia que ela no era a mulher sofisticada pela excessiva educao e superficial que a rotulara. Viu-se segurando a porta do carro aberta aps ela deslizar para
o assento do motorista.
- Tenho um amigo que trabalha no Centro Kennedy. Ele me passou dois ingressos para a pea de Noel Coward amanh  noite. Interessada?
Veio  ponta da lngua de Tess recusar, com educao. leo e gua no se misturam. Nem trabalho e prazer.
- Sim, estou interessada.
Como no soube como se sentia em relao a essa aceitao, ele apenas assentiu com a cabea.
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- Pego voc s sete. Quando ele bateu e fechou a porta, ela baixou a janela.
- No quer meu endereo? Ben lanou-lhe um sorriso presunoso, que ela devia ter detestado.
- Sou um detetive. Ao observ-lo voltar para o carro, Tess viu-se rindo.

S DEZ HORAS, A CHUVA PARARA.  ABSORVIDA NO PERFIL QUE compilava, ela no notou o silncio, nem a baa luz da lua. Escapara-lhe da mente comprar a comida chinesa
para jantar, e o sanduche de rosbife que fizera fora comido pela metade e esquecido.
Fascinante. Leu mais uma vez os relatrios. Fascinante e arrepiante. Como ele escolhia as vtimas?, perguntou-se. Todas louras, todas com vinte e tantos anos, todas
de estatura pequena a mdia. Quem simbolizavam para ele, e por qu?
Vigiava-as, seguia-as? Escolhia-as arbitrariamente? Talvez a cor do cabelo e a constituio fsica fossem apenas coincidncia. Qualquer mulher sozinha  noite poderia
terminar sendo salva.
No. Era um padro, tinha certeza. De algum modo, ele selecionava cada vtima pela aparncia fsica geral. Depois conseguia identificar sua rotina. Trs assassinatos
e no cometera um nico erro. Era doente, mas metdico.
Louras, vinte e tantos anos, de constituio fsica pequena a mdia. Tess viu-se fitando seu vago reflexo na janela. No acabara de descrever a si mesma?
A batida  porta a fez saltar e depois ela amaldioou a prpria insensatez. Verificou as horas no relgio de pulso pela primeira vez desde que se sentara e viu que
trabalhara trs horas seguidas. Mais duas e talvez tivesse alguma coisa para dar ao capito Harris. Quem quer que estivesse na porta teria de ser rpido.
Largando os culos na pilha de papis, foi atender.
- Vov. - O aborrecimento evaporou-se quando se ergueu nas pontas dos ps a fim de beij-lo com o gosto que ele ajudara
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a instalar em sua vida. O av cheirava a hortel, colnia Old Spice, e tinha a postura de um general. - Ficou fora at tarde.
- Tarde?!? -A voz estrondeava, como sempre. Das paredes da cozinha, onde fritava peixe fresco, num jogo de futebol onde ele torcia por qualquer time que lhe viesse
 cabea, na tribuna do Senado, onde servira durante vinte e cinco anos. - Mal passa das dez. Ainda no estou preparado pra ficar sentado com uma manta no colo e
nos ps, e leite quente, menina. Prepare uma bebida pra mim.
J tirava do sobretudo o corpo de atacante de futebol de quase um metro e noventa. Tinha setenta e dois anos, pensou Tess ao olhar a indomvel juba de cabelos brancos
e o rosto curtido. Setenta e dois anos e mais energia do que os homens com quem ela saa. E sem dvida mais influncia. Talvez o motivo de ela continuar solteira
e contente assim fosse ter homens com aquelas caractersticas msculas. Serviu-lhe trs dedos de usque.
Ele olhou para a mesa cheia de papis, pastas e anotaes. Essa era a sua Tess, pensou, ao pegar o copo da mo dela. Sempre obstinada para concluir logo o trabalho.
Tambm viu o sanduche comido pela metade. Tambm isso era Tess.
- Ento. - Tomou um gole rpido de usque. - Que sabe sobre esse manaco que temos nas mos?
- Senador. - Tess usou a sua voz mais profissional ao sentar-se no brao de uma poltrona. - Sabe que no posso discutir isso com voc.
- Besteira. Eu que te arranjei o trabalho.
- Pelo qual no vou lhe agradecer.
Ele lanou-lhe um de seus olhares duros. Diziam que os polticos veteranos encolhiam-se de medo a um desses.
- Vou saber pelo prefeito de qualquer modo.
Em vez de encolher-se de medo, Tess deu-lhe um sorriso mais amoroso.
- Pelo prefeito, ento.
- Maldita tica - ele resmungou.
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- Foi voc quem me ensinou.
O av grunhiu, satisfeito com ela.
- Que tal o capito Harris? Uma opinio.
Ela ficou sentada por um instante, remoendo como fazia ao juntar as idias.
- Competente, controlado. Est furioso, frustrado e sob grande presso, mas consegue manter tudo refreado.
- E os detetives encarregados do caso?
- Paris e Jackson. - Tess correu a ponta da lngua pelos dentes. - Os dois me pareceram um par incomum, mas um par. Jackson lembra um homem-montanha. Fez as perguntas
de praxe, mas escuta muito bem. Parece-me o tipo metdico. Paris... - Ela hesitou, no to segura do ponto de vista. -  inquieto, e acho mais inconstante. Inteligente,
porm mais instintivo que metdico. Ou talvez mais emotivo.
Ela pensou em justia, e numa espada.
- So competentes?
- No sei como julgar isso, vov. Se me basear na impresso, diria que so dedicados. Mas mesmo isso  apenas uma idia vaga.
- O prefeito tem muita f neles. - O av emborcou o resto do usque. - E em voc.
Ela concentrou-se de novo no assassino, olhos graves.
- No sei se  justificado. Esse homem  muito perturbado, vov. Perigoso. Talvez eu possa dar a eles um esboo da mente, o padro emocional, mas isso no vai det-lo.
Jogos de adivinhao. - Ela levantou-se e enfiou as mos nos bolsos. - Tudo  apenas um jogo de adivinhao.
- E sempre apenas um jogo de adivinhao, Tess. Voc sabe que no h garantias, nem absolutos.
Ela sabia, mas no gostava. Jamais gostara disso.
-  Ele precisa de ajuda, vov. Grita por ela, mas ningum o ouve.
O av ps a mo sob o queixo.
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- No  seu paciente, Tess.
- No, mas estou envolvida. - Quando viu a expresso preocupada franzir a testa dele, ela mudou de tom: - No comece a se preocupar. Eu no vou extrapolar.
- Voc me contou uma vez a histria de uma caixa cheia de gatinhos. Eles acabaram me custando mais que um bom terno.
Ela beijou-lhe outra vez a face e pegou o casaco do av.
- Me expulsando?
- S ajudando com o casaco - ela corrigiu. - Boa-noite, vov.
- Comporte-se, menina.
Tess fechou a porta, lembrando que ele lhe vinha dizendo a mesma coisa desde que ela tinha cinco anos.

IGREJA ESTAVA ESCURA E VAZIA, MAS NO FORA DIFCIL lidar com a fechadura. Nem ele sentiu que pecara fazendo isso. As igrejas no eram para ficar trancadas. A casa
de Deus devia ficar aberta aos necessitados, perturbados, reverentes.
Acendeu as velas, quatro - uma para cada mulher que salvara, e a ltima para a que no conseguira salvar.
Ajoelhando-se, rezou, e as oraes foram desesperadas. s vezes, apenas s vezes, quando pensava na misso, sentia dvida. Uma vida era sagrada. J tirara trs e
sabia que o mundo o encarava como um monstro. Se os que trabalhavam com ele soubessem, iriam desprez-lo, p-lo na priso, detest-lo. Sentir pena dele.
Mas a carne era transitria. S se considerava a vida sagrada pela alma. A alma que ele salvava. A alma que precisava continuar a salvar at equilibrar os pratos
da balana. Sentir dvida, sabia, era um pecado em si.
Se ao menos tivesse algum com quem falar. Se ao menos houvesse algum para entend-lo, reconfort-lo. Uma onda de desespero invadiu-o, quente e espessa. Entregar
os pontos teria sido um alvio.
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No tinha ningum, ningum em quem pudesse confiar. Ningum com quem partilhar esse fardo. Quando a Voz se calava, ele se sentia muito s.
Perdera Laura. Laura se perdera e levara consigo pedaos dele. Os melhores. s vezes, quando escurecia, quando tudo silenciava, ele a via. Nunca mais tornara a rir.
Tinha o rosto to plido, to cheio de dor. Acender velas em igrejas vazias jamais eliminaria a dor. Nem o pecado.
Ela estava nas trevas,  espera. Quando ele conclusse a sua misso, s ento, Laura se libertaria.
O cheiro de velas votivas ardendo, o silncio abafado da igreja e as silhuetas das imagens o acalmavam. Ali era possvel ele encontrar esperana e um porto seguro.
Sempre encontrara esse reconforto nos smbolos da religio e afins.
Baixando a cabea at o parapeito, orou ainda com mais fervor. Como lhe haviam ensinado, orou pela graa para aceitar as provaes que o aguardavam.
Quando se levantou, a luz das velas tremeluziu sobre o colarinho branco clerical na sua garganta. Ele apagou-as com um sopro e tudo tornou a escurecer.

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Captulo Trs
O trfego de Washington s vezes dilacerava os nervos - sobretudo quando a gente acorda com preguia, satisfaz-se com uma xcara de caf e depois cuida de sucessivos
compromissos. Tess avanava devagar atrs de um Ford Pinto com o cano de descarga defeituoso e ferveu em silncio diante de outro sinal vermelho. A seu lado, um
homem num grande GMC azul acelerou o motor.  Decepcionou-se quando ela no se deu ao trabalho de olhar.
Joey Higgins a preocupava. Dois meses de terapia e ela no chegara nem perto do verdadeiro problema, ou, com mais acuidade,  verdadeira resposta. Um adolescente
de catorze anos no devia sofrer de depresso clnica, e sim jogar beisebol na terceira base. Hoje sentira que ele chegara  beira de abrir-se realmente.  beira,
pensou Tess com um suspiro. Mas ainda no transpusera a linha. Construir sua confiana, sua auto-estima, era como erguer as pirmides. Um passo agonizante aps outro.
Se conseguisse ao menos chegar ao ponto em que tivesse toda a confiana dele...
Lutava para atravessar a cidade, preocupada com um jovem taciturno e cheio de ressentimento nos olhos, oprimindo-a. Havia tantas outras coisas. Demasiadas outras
coisas.
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Tess sabia que no tinha de sacrificar a sua hora do almoo e entregar em pessoa o perfil ao capito Harris. No se considerava tampouco sob obrigao alguma de
trabalhar nele at as duas da manh, mas julgara impossvel no faz-lo.
Alguma coisa a impelia - instinto, palpite, superstio, no saberia dizer qual. Sabia apenas que se envolvera to a fundo com o assassino annimo quanto com qualquer
dos seus pacientes. A polcia precisava de toda ajuda que lhe pudesse dar para entend-lo e captur-lo. Tinha de ser capturado para ser ajudado.
Ao parar no estacionamento da delegacia, deu uma rpida examinada.  Nenhum Mustang.  Mas tambm, lembrou-se, saltando do carro, no fora por isso que viera. Por
outro lado, tambm, no sabia por que concordara em sair com Ben Paris, pois o considerava arrogante e difcil, alm da carga de trabalho comprimir-se com o tempo
extra que dedicava  Diviso de Homicdios. Sabia que, se inclusse duas horas nessa noite, poderia fazer com que tudo, mais uma vez, se desenrolasse sem percalos.
Vrias vezes durante o dia pensara em telefonar-lhe para desculpar-se e cancelar a sada.
E mais, paquerar no era uma coisa que encarasse com muito entusiasmo. Um ambiente cheio de solteiros descompromissados continuava sendo um crculo difcil de ela
conseguir fazer parte, detestvel at, que em geral deixava os envolvidos frustrados ou desgastados. O que mais a repelia era o tipo vaselina "olha eu aqui", "garota
de sorte!". Frank. Nem tinha qualquer iluso sobre o manjado " s um papo sem compromisso". Como o defensor pblico com quem sara algumas vezes na ltima primavera.
No era que os homens no a interessassem, mas apenas que a maioria dos que conhecera no conseguira despertar seu interesse. Quando havia grandes expectativas,
a decepo vinha rpido. No todo, era mais fcil ficar em casa com um bom filme antigo ou uma gorda pasta de documentos.
Mas no iria cancelar a sada. Disse a si mesma que seria uma grosseria desmarcar um encontro to em cima da hora - mesmo
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um encontro que sabia ter sido combinado no impulso por ambas as partes. Iria, aproveitaria a pea e depois diria boa-noite. Trabalharia no fim de semana.
Quando entrou na Diviso de Homicdios, deu uma olhada de relance a quem se sentava a uma mesa, quem andava de um lugar para outro. Algum enfiara a cabea numa
geladeira pequena, arranhada, mas, quando a endireitou, ela percebeu tratar-se de um estranho.
Ben no estava ali, mas Tess viu uma variedade de estilos nos policiais que estavam. Ternos e gravatas, calas jeans e suteres, botas e tnis. A nica coisa que
parecia generalizada era o coldre no ombro. Muito aqum do glamour da espada.
Uma olhada no escritrio de Harris mostrou-lhe que no havia ningum.
- Dra. Court?
Ela parou e viu um homem que acabava de levantar-se de uma mquina de escrever.
- Sim.
- Sou o detetive Roderick. Se estiver  procura do capito Harris, ele se encontra numa reunio com o chefe.
- Entendo. - Era o tipo terno-e-gravata, observou. Embora o palet pendesse do encosto da cadeira, tinha a gravata arrumada e reta. Ela concluiu que Ben jamais usava
uma. - Espera-se que volte?
- Sim. Se quiser esperar, ele no vai demorar muito a chegar. - Roderick riu, lembrando o dia anterior. - Posso trazer um caf.
- Ah... - Ela conferiu as horas. O paciente seguinte seria dali a quarenta minutos. Levaria metade do tempo para voltar ao consultrio. - No, obrigada. No tenho
tempo. Trouxe um relatrio para o capito.
- O perfil. Pode me dar. - Quando viu a hesitao dela, continuou: - Fui designado para o caso, Dra. Court.
- Desculpe. Agradeo se puder entreg-lo ao capito Harris assim que ele chegar. - Abrindo o zper da pasta, Tess retirou um arquivo. - Se ele tiver alguma pergunta,
pode me encontrar no
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consultrio at as cinco, depois em casa, at as sete. No imagino que voc possa me dizer se houve algum progresso.
- Quisera eu! A essa altura, andamos retornando ao mesmo ponto, na esperana de ter deixado escapar alguma coisa na primeira meia dzia de vezes.
Tess olhou o arquivo e perguntou-se se ele podia entender de fato o homem sobre o qual ela escrevera. Algum podia? Insatisfeita, assentiu com a cabea e entregou-o.
Parecia inofensivo, mas tambm parecia uma inofensiva bomba imvel.
- Obrigada.
Uma dama, ele pensou. Comeava-se a ver a autenticidade naquele ramo de trabalho.
- Por nada. Tem um recado para o capito?
- No. Est tudo no arquivo. Obrigada mais uma vez, detetive. Maggie Lowenstein esperou at Tess sair do alcance do ouvido.
-  a psiquiatra?
Roderick deslizou a pasta pelos dedos antes de p-la na mesa.
- . Trouxe o perfil para o Harris.
- Parece sada da Harpers Bazaar - murmurou Maggie. - Classuda, embora tenham me dito que saiu com Paris ontem  noite. - Com uma risadinha, ela deu um tapinha no
brao de Roderick. - Fez sua presso subir, Lou?
Sem graa, ele encolheu os ombros.
- Eu pensava em outra coisa. Maggie assumiu uma expresso cnica.
- Claro. Bem, espero que ela conhea seu ofcio. Melhor que a tbua esprita Ouija, imagino. - Ela pendurou a bolsa no ombro. - Bigsby e eu vamos interrogar alguns
dos fregueses assduos do Dougs. Mantenha tudo funcionando em boa ordem.
- Traga de volta alguma pista, Maggie. - Roderick tornou a sentar-se na cadeira. - Ou talvez a gente tenha de recorrer  tbua Ouija.
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Tess tinha virado o segundo canto do corredor quando ouviu algum xingando. Olhou para trs e viu Ben dando um forte chute numa mquina de venda automtica.
- Filha-da-me.
- Ben. - Ed ps a mo no ombro dele. - Esse troo  veneno pro seu organismo. Deixe pra l. Seu corpo agradecer.
- Tenho cinqenta centavos a dentro. - Pondo as mos em cada lado da mquina, Ben sacudiu-a e xingou de novo: - Cinqenta centavos, porra,  roubo, pra comeo de
conversa, por um raqutico pedao de chocolate com algumas nozes.
- Devia experimentar passas - sugeriu Ed. -Acar natural. Muito ferro.
Ben rangeu os dentes.
- Detesto passas, no passam de uva murcha.
- Detetive Paris. - Incapaz de resistir, Tess refez o caminho de volta no corredor. - Voc sempre luta com objetos inanimados?
Ele virou a cabea, mas no soltou a mquina.
- Quando me aborrecem.
Deu outra violenta sacudida na mquina, mas olhou para ela.
No estava molhada agora, notou. E prendera os cabelos para cima e para trs num estilo jeitoso e elegante que o fez pensar em tortas refinadas sob cristal. Talvez
ela achasse que fosse profissional, mas deixou-o com gua na boca.
- Est bonita, doutora.
- Obrigada. Ol, detetive Jackson.
- Madame. - Ele ps de novo a mo no ombro de Ben. - No sei como expressar o quanto me sinto constrangido pelo meu parceiro.
- Est tudo muito bem. J me habituei a problemas comportamentais.
- Merda. - Ben deu um ltimo empurro na mquina e afastou-se. Na primeira chance que tivesse, iria arrombar a fechadura. - Veio me procurar?
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Tess pensou na inspeo que fez no estacionamento e depois na sala da equipe. Decidiu-se mais pelo tato que pela verdade.
- No, trouxe o perfil para o capito Harris.
- Trabalha rpido.
- Se tivesse mais com que trabalhar, teria levado mais tempo. - Com um movimento dos ombros, ela expressou ao mesmo tempo aceitao e insatisfao. - No sei at
que ponto fui til. Gostaria de fazer mais.
- Nosso trabalho - lembrou-lhe Ben.
- Oi, rapaziada.
Maggie Lowenstein passou por eles e inseriu uma moeda na fenda da mquina. De fato, mais que doces, ela queria dar uma olhada melhor na psiquiatra. Teria apostado
o pagamento de uma semana que o conjunto cor-de-rosa era de seda.
- Essa sugadora est defeituosa - disse Ben, mas, quando ela baixou a alavanca, duas barras de chocolate caram na bandeja.
- Duas por uma - respondeu Maggie, jogando as duas na bolsa. - At logo.
- Espere um minuto...
- No vai querer fazer uma cena na frente da Dra. Court - lembrou-lhe Ed.
- Maggie pegou uma coisa que me pertence.
- Melhor assim. O acar vai acabar te matando.
- Tudo isso  fascinante - disse Tess secamente, ao ver Ben disparar um olhar furioso s costas de Maggie. - Mas o tempo urge. Quero que saibam que fiz uma sugesto.
Est includa no meu relatrio para o capito.
Ben enfiou as mos nos bolsos e olhou-a de volta.
- Qual?
- Vocs precisam de um padre.
-J percorremos esse caminho, doutora. Ed e eu entrevistamos uma dzia deles.
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- Com experincia em psiquiatria - concluiu Tess. - Dei a vocs o que pude, mas no sou qualificada para sondar profundamente o dado religioso. E isso, de acordo
com o meu julgamento,  a chave. - Examinou Ed com o olhar, mas sabia qual opinio tinha de contrabalanar. - Eu poderia pesquisar sobre o catolicismo, mas isso
levaria tempo. Acho que nenhum de ns quer perd-lo. Conheo um mdico na Universidade Catlica, monsenhor Logan. Tem excelente reputao na Igreja e na medicina
psiquitrica. Quero consult-lo.
- Quanto mais gente consultarmos - interferiu Ben -, mais chances de vazamento. No podemos deixar os pormenores chegarem  imprensa.
- E se no tentarem outra coisa, sua investigao vai continuar bem onde est. Estagnada. - Ela percebeu o aborrecimento e passou por cima dele. - Eu poderia ir
ao prefeito, fazer presso, mas esta no  a forma como quero agir. Preciso que me apoie nisso, Ben.
Ele balanou-se para a frente e para trs nos calcanhares. Outro psiquiatra, pensou. E padre, ainda por cima dele. Porm, por mais que detestasse admitir, a investigao
estava estagnada. Se ela queria tirar um coelho da cartola, era prefervel que dessem uma olhada.
- Vou falar com o capito.
O sorriso de Tess veio fcil aps a vitria.
- Obrigada. - Ela tirou a carteira e enfiou uma moeda na mquina atrs dele. Aps uma breve considerao, baixou a alavanca. Com um estalido baixo, caiu uma barra
de chocolate Hershey na bandeja. - L vamos ns. - De olhos solenes, entregou-a a Ben. - Voc me deixou desolada mesmo. Prazer em v-lo de novo, detetive Jackson.
- O prazer  meu, madame. - Um sorriso dividiu o rosto dele quando a viu afastar-se. - Ela se porta muito bem, no?
Fechando a cara, Ben jogou a barra de chocolate de uma mo para a outra.
- Ah,  - murmurou. - Como uma profissional.
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NO ERA DO FEITIO DE TESS PERDER TEMPO COM ROUPAS. A verdade  que seu guarda-roupa fora meticulosamente escolhido, at o ltimo suter de cashmere e blazer de linho,
pelo motivo especfico de no ter pacincia para decidir toda manh o que vestir. Quase sempre se atinha a estilos clssicos e cores que combinavam entre si porque
ficavam melhor nela, alm de tornarem simples, nas manhs estressadas, o ato de enfiar a mo no armrio e tirar a coisa mais prxima enfileirada.
Uma olhada no relgio avisou-a de que pensava demais e iria atrasar-se. Em p numa combinao curta cor-da-pele, pegou um vestido de seda preta e deu-lhe uma examinada
crtica. Simples, mas elegante. Uma escolha sensata, decidiu, e no tinha mais tempo a perder. Enfiou-se nele e fechou a fileira de botes que iam da cintura ao
pescoo.
Outra demorada inspeo no alto espelho vertical emoldurado trouxe um balano de cabea aprovador. Sim, pensou, era melhor que o azul-claro com que comeara ou o
de seda georgette que rejeitara. Ps os brincos em forma de gota de diamante da me e o fino bracelete de ouro que lhe dera o av quando se diplomara. Hesitou entre
prender os cabelos no alto, mas a batida  porta decidiu por ela. Teriam de ficar soltos.
No esperara que Ben pudesse parecer elegante. Mas, quando abriu a porta, o terno cinza-azulado e a camisa salmo dele provaram que se enganara. Mesmo assim, acertara
na ausncia de gravata. O colarinho estava aberto. Ia sorrir-lhe, ento viu o buqu de violetas em sua mo. No era da personalidade dela deixar-se desestabilizar
tanto, mas, quando ergueu de novo os olhos para ele, sentiu-se uma adolescente com o primeiro punhado de flores murchas.
- Oferenda de paz - disse Ben, sentindo-se em tudo to inseguro e deslocado quanto ela.
No devia sentir-se, disse a si mesmo, pois se habituara a ter gestos grandiosos ou impulsivos com as mulheres com quem saa.
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Era seu jeito de ser. Procurar um ramalhete de violetas em outubro no parecera uma coisa to tola a fazer at ficar ali em p, oferecendo-as.
-  So lindas. Obrigada. - Recuperando o equilbrio, ela sorriu-lhe, aceitou as flores e recuou para deix-lo entrar. O perfume a fez lembrar a primavera to distante,
no outro lado do inverno. - Vou pegar um vaso.
Quando ela entrou na cozinha, Ben olhou em volta. Viu a gravura de Matisse, os tapetes turcos, as graciosas almofadas bordadas em petit-point, pontos pequenos e
inclinados. Cores suaves, bonitas, e madeira antiga, distinta. Era uma sala que transmitia discreta riqueza de famlia.
Que diabo est fazendo aqui?, perguntou a si mesmo. O av dela era senador. O seu, aougueiro. Ela fora criada com empregados, e a me dele ainda esfregava o prprio
banheiro. Ela se diplomara com louvor na Smith, e voc estudou apressadamente tudo em dois anos de faculdade antes da Academia de Polcia.
Oh, ele a pesquisara muito bem. Tambm era o seu jeito de ser. E tinha absoluta certeza de que iriam esgotar a conversa aps quinze minutos.
Quando ela voltou, trazia as violetas num pequeno vaso de cermica Wedgwood.
- Vou lhe oferecer um drinque, mas no tenho Stolichnaya.
- Tudo bem.
Ben tomou a deciso sem pesar os prs e contras. Aprendera a confiar nos instintos. Enquanto ela punha as violetas no centro de uma mesa, ele se aproximou e tomou-lhe
os cabelos na mo.
Tess virou-se devagar, sem sobressalto nem surpresa, e recebeu o demorado e silencioso olhar com o seu prprio.
Ela cheirava a Paris. Ele lembrou os cinco dias que passara l na casa dos vinte anos, viajando com uma pequena quantia e muito otimismo. Apaixonara-se pela cidade
- o visual, os cheiros, o ar. Todo ano prometia a si mesmo que voltaria e descobriria o que vinha procurando.
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- Gosto mais deles assim, soltos - acabou dizendo, e deixou os dedos se demorarem um pouco mais. - Hoje  tarde, quando os prendeu, voc parecia remota, inacessvel.
A tenso irrompeu dentro dela, a tenso homem-mulher madura que no sentira com ningum em anos - no quisera sentir.
- Profissional - ela corrigiu e deu um passo descontrado atrs. - Gostaria daquela bebida?
Ele pensou em fazer um longo e fino corte no controle dela. Como seria? Mas, se o fizesse, talvez descobrisse que errara a mira e cortara o prprio.
- Tomaremos uma no teatro. H tempo de sobra antes da cortina se abrir.
- Vou pegar meu casaco.

BEN PARECIA TO CONHECIDO DO PESSOAL NO ROOF TERRACE quanto dos freqentadores no enfumaado barzinho da noite anterior. Tess observava a maneira de ele falar com
um, cumprimentar outro, a intimidade fcil, descontrada. Ento no era um solitrio, concluiu, s quando preferia ser.
Ela admirava algum que podia sentir-se to  vontade com as pessoas, sem se preocupar com impresses, opinies. Para ser assim, a gente tinha primeiro de sentir-se
 vontade consigo mesma. De algum modo, por mais contente que se sentisse com seu estilo de vida, jamais chegara muito a esse ponto.
Ben pegou o copo, esticou as pernas e retribuiu-lhe o olhar.
- J entendeu como sou?
- No completamente. - Tess pegou uma amndoa na tigela da mesa e mastigou-a, pensativa. - Mas acho que voc entende. Se mais pessoas entendessem a si mesmas como
voc, eu teria de procurar outro ramo de trabalho.
- E voc  muito boa no que faz. - Ele viu-a escolher outra amndoa com dedos longos e finos. Uma prola antiga cintilou de leve na sua mo direita. - Oradora oficial
da turma na solenidade de
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formatura - ele comeou e viu-a parar de mexer a mo. - Uma clnica particular que vem crescendo rpido demais para voc dar conta. Acabou de recusar uma oferta
para juntar-se  equipe psiquitrica do Centro Mdico Nacional Naval de Bethesda, mas trabalha uma vez por semana na Clnica Donnerly, em South East, sem cobrar
nada.
O leve resumo irritou-a. Habituara-se a saber mais da vida das pessoas do que elas da sua.
- Sempre faz um levantamento da pessoa num encontro, detetive?
- Hbito - ele respondeu, sem titubear. - Voc mesma falou sobre curiosidade ontem  noite. O senador Jonathan Writemore  seu av materno, um pouco  esquerda do
centro, franco, carismtico e resistente como garras.
- Ele iria gostar de saber que voc disse isso.
- Voc perdeu seus pais aos catorze anos. Sinto muito. - Ele ergueu mais uma vez a bebida. - E sempre duro perder a famlia.
Ela captou o tom, a empatia que lhe dizia que ele tambm perdera algum.
- Meu av fez toda a diferena. Talvez no tivesse me recuperado sem ele. Como descobriu tanta coisa?
- Os policiais no revelam uma fonte. Li seu perfil. Ela se enrijeceu um pouco, esperando crtica.
- E?
- Sente que nosso homem  inteligente.
- Sim. Astucioso. Deixa o que escolheu para trs, mas nenhuma pista.
Aps um instante, Ben assentiu com a cabea.
- O que voc disse faz sentido. Estou interessado em saber como chegou a tais concluses.
Tess tomou um gole da bebida antes de responder. No se perguntou por que era importante faz-lo entender. Simplesmente era.
- Pego os fatos, o padro que ele deixa para trs. D para ver que  quase idntico cada vez, ele no varia. Suponho que no seu negcio voc chame isso de modus
operandi.
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Ele deu um breve sorriso ao tornar a assentir com a cabea.
- , o mtodo ou modo de operao.
- O padro forma uma imagem, uma imagem psicolgica. Voc  formado para procurar pistas, provas, motivos e apreender. Eu, para procurar razes, causas e depois
tratar. Tratar, Ben - ela repetiu, encarando os olhos dele. - No julgar.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- E acha que  isso que eu fao?
- Voc o quer - ela respondeu apenas.
- E, quero. Fora das ruas e numa cadeia.
Ben esmagou um cigarro, devagar e metodicamente. Era uma medida de controle. Mas tinha mos fortes.
- Quer v-lo punido. Eu entendo isso, mesmo que no concorde.
- Voc preferiria abrir a cabea dele e faz-lo se sentir melhor. Nossa. - Ele emborcou a bebida. - No precisa deixar o corao sangrar por causa de um homem desses.
- A compaixo faz parte da minha atividade - ela disse com firmeza. - Ele est doente, desesperadamente doente. Se voc leu meu perfil e entendeu, saber que o que
ele faz, faz com dor.
- Estrangula mulheres. Se sente dor por amarrar um n no pescoo delas, isso no as torna menos mortas, Tess, para as famlias dessas mulheres com quem tive de conversar.
Tenho de olhar na cara delas quando me perguntam por qu. No tenho resposta.
- Sinto muito. - Ela tomou-lhe a mo sem pensar. Fechou os dedos nos dele. -  um trabalho terrvel. Que faz as pessoas acordarem no meio da noite. Tive de conversar
com as famlias... as que ficaram aturdidas e abaladas aps um suicdio. - Sentiu a mo dele tensa e a acalmou na hora. - Quando voc fica acordada na cama s trs
da manh, continua vendo as perguntas nos olhos deles, e a dor. Ben... - Curvou-se para ele, precisando cham-lo mais para perto. - Tenho de pensar nisso como mdica.
Poderia dar a voc termos clnicos... impulso, transtorno, psicoses funcionais. Seja qual
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for o rtulo usado, iguala a doena. Esse homem no tem matado por vingana ou proveito, mas por desespero.
- E eu tenho de pensar como policial.  minha funo det-lo. Esse  o fator preponderante. - Calou-se um instante, depois afastou a bebida para o lado. - Falamos
sobre seu monsenhor Logan. Harris est considerando.
- Que bom! Obrigada.
- No agradea. No tenho muita f na idia. Ela recuou com um pequeno suspiro.
- No temos nenhum ponto em comum, temos?
- Talvez no. - Mas ele lembrou a leveza e o calor da mo dela na sua. - Talvez a gente simplesmente ainda no tenha descoberto.
- Que gosta de fazer numa tarde de sbado? - ela perguntou de repente.
- Ficar sentado com uma cerveja e ver um jogo de futebol. Tess franziu o nariz.
- Isso no vai dar certo. Que tal msica? Ele riu.
- Que tem a msica?
- De qual gosta?
- Depende. Gosto de rock quando dirijo, de jazz quando bebo e de Mozart nas manhs de domingo.
- Estamos chegando mais perto. Que tal Jelly Roll Morton? Surpreso, ele riu de novo.
- Gosto.
- E Springsteen?
- Ele me conquistou com The River.
- Marvin Gaye? Ben recostou-se.
- Talvez a gente j tenha um comeo. - Ele roou a perna na dela sob a mesa. - Quer ir  minha casa e ouvir minha coleo de discos?
- Detetive Paris... - Tess escolheu uma ltima amndoa. - As psiquiatras capacitadas no caem em cantadas baratas.
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- E as novas?
- Como, por exemplo?
- Um jantar tarde da noite comigo, depois do teatro, e a gente ver quem lembra mais letras dos Beatles?
Ela disparou-lhe um sorriso rpido, impulsivo e muito diferente dos cuidadosos que lhe dera antes.
- Voc vai perder, e est combinado.
- Conhece um cara com o equivalente a dois mil dlares de capas nos dentes e um terno da Brooks Brothers?
Ela uniu as sobrancelhas.
-  um jogo de conhecimento geral?
- Tarde demais, ele j se aproxima.
- Quem... oh, ol, Frank.
- Tess, eu no esperava ver voc aqui. - Frank deu um tapinha na mo da mulher de aparncia extravagante, magra como um lpis, ao lado. - Lorraine, esta  a Dra.
Teresa Court, uma colega minha.
Com bvio tdio, e merecendo a solidariedade de Tess, a mulher estendeu a mo.
-  um grande prazer conhec-la. - Deslizou o olhar indolente por Tess e cravou-o em Ben. - Ol.
O sorriso dele foi vagaroso e, embora no desprendesse os olhos do rosto dela, absorveu cada detalhe.
- Ol, sou Ben.
- Tess, voc devia ter me dito que vinha. Teramos feito uma festa - comentou Frank.
Lorraine inclinou a cabea, ainda olhando Ben. Talvez a noite pudesse ser salva, afinal, pensou.
- H sempre o depois da pea - disse ela.
- Sem dvida - murmurou Ben, e mereceu um rpido chute de Tess debaixo da mesa. O sorriso dele no vacilou. - Mas Tess e eu precisamos terminar a noite cedo. Negcios.
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- Lamento, Frank, teremos de fazer isso em outra ocasio. - Sabendo que a fuga era sempre duvidosa, Tess j se levantava. -A gente se v no consultrio. Tchau, Lorraine.
- Tome seu chapu. Por que a pressa? - resmungou Ben ao sair atrs dela.
- Se voc soubesse o que sei, me agradeceria.
- Seu, ah, colega tem mais bom gosto pra mulheres que gravatas.
- Srio? - Tess pareceu ocupar-se em alisar o casaco enquanto caminhavam. - Achei que ela era meio bvia.
- . - Ele deu uma olhada para trs. - Hum-hum. bvia.
- Suponho que alguns homens gostem de decotes profundos e clios postios.
- Alguns homens so animais.
- Lorraine foi a segunda opo de Frank - ela disse. - Eu recusei o convite primeiro.
-  mesmo? - Intrigado, Ben fez Tess reduzir o passo, pondo o brao nos ombros dela. - Ele a convidou para a pea de Coward e voc recusou?
- Isso mesmo.
- Estou lisonjeado.
Ela disparou-lhe outro olhar. O ego dele no precisava de ajuda alguma.
- Eu s aceitei o seu porque voc no  perfeito.
- Hum. Quando ele a convidou?
- Ontem  tarde.
- No me pareceu desconcertado por voc ter recusado o convite dele e estar aqui comigo.
Pouco  vontade, ela ajeitou-se sob o brao dele.
- Eu disse que tinha um compromisso.
-Ah. Mentiu.
Ele disse isso com tanto prazer que ela riu.
- Tambm no sou perfeita.
- Isso torna tudo mais fcil.

A NOITE QUE TERIA DE ACABAR CEDO DE QUE FALARA BEN terminou s duas da manh, quando os dois atravessaram o corredor para o apartamento de Tess.
- Vou me detestar de manh - ela disse, s voltas com um bocejo.
- Eu ainda nem a convidei pra ir pra cama. O bocejo terminou com um riso abafado.
- Eu pensava em tomar meia garrafa de vinho e cinco horas de sono. - Ela parou na porta e virou-se para encostar-se. - No esperava me divertir tanto.
Nem ele.
- Por que no tentamos outra vez? Talvez a gente no se divirta tanto.
Ela pensou durante trs segundos.
- Tudo bem, quando?
- Tem um festival de Bogart amanh  noite no outro lado da cidade.
- O Falco Malts?
- E  Beira do Abismo.
Ela sorriu, confortavelmente sonolenta.
- Tudo bem.
Quando ele avanou mais para perto, Tess esperou que a beijasse. Embora a idia a animasse, achou-a apenas natural. O desejo de ser abraada e tocada era humano.
Fechou de leve os olhos e sentiu o corao bater um pouco mais rpido.
- Tem de substituir esta fechadura de Mickey Mouse. Ela tornou a adejar as pestanas para cima.
- Como?
- A fechadura da sua porta, Tess,  uma piada. - Ele correu um dedo pelo nariz dela, satisfeito por v-la confusa. - Se vai continuar morando num prdio sem segurana,
 melhor no deixar de ter a segurana reforada da fechadura com a corrente.
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- Segurana reforada da fechadura. - Com um meio sorriso, ela se endireitou e pegou as chaves. - No posso discutir com um policial.
- Que bom saber disso!
Ben ps as mos acima dela e beijou-a, antes que ela se preparasse de novo. Mais tarde, quando conseguisse pensar direito, Tess se perguntaria se ele planejara tudo
assim.
Era tolice acreditar que um beijo to delicado, to descontrado como aquele enviasse ondas de choque por todo o corpo. O sangue de fato no aqueceu, e a mente de
fato no nadou. Ela sabia melhor das coisas, mas sentiu de qualquer modo. Tocando-lhe apenas as mos, ele tomou-a sob si.
Tinha a boca inteligente, mas at a ela j desconfiara. Lbios quentes, macios, e ele usou os dentes para acrescentar uma pitada de excitao. Rasparam-lhe o lbio
antes de sua lngua deslizar pela dela. Tess disse a si mesma que era a hora tardia, o vinho, o relaxamento, mas entregou-se ao momento sem nada da cautela a que
sempre tendia.
Devia ser fria, um pouco reservada. Era o que ele esperara. No esperara o calor, a paixo, nem a doura que se derramavam dela sobre ele. No esperara a intimidade
de amantes antigos. Conhecia bem as mulheres - ou achava que sim. Tess era um mistrio que exigia esclarecimento.
O desejo lhe era conhecido, outra coisa que julgara entender bem. Mas no se lembrava jamais de t-lo martelado e o deixado sem ar. Queria-a agora, instantnea e
desesperadamente. Em geral, teria ido em frente. Era natural. Mas, por motivos que nem comeava a entender, se afastou dela.
Por um momento, os dois apenas se encararam.
- Isso poderia ser um problema - ele conseguiu dizer aps alguns segundos.
- .
Ela engoliu em seco e concentrou-se no frio metal das chaves na mo.
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- Passe a corrente de segurana, sim? At amanh.
Ela errou o buraco da fechadura por milmetros na primeira tentativa e jurou que enfiaria na segunda.
- Boa-noite, Ben.
- Boa-noite.
Ele esperou ouvir o clique da fechadura e o tilintar da corrente antes de virar-se e atravessar o corredor. Um problema, tornou a pensar. Um problema infernal.

ELE CAMINHARA DURANTE HORAS. QUANDO ENTROU EM SEU apartamento, chegou quase cansado demais para ficar em p. Nos ltimos meses, constatou que s dormia sem sonho
quando se exaurisse primeiro.
No era necessrio acender uma luz; conhecia o caminho. Ignorando a necessidade de descansar, dirigiu-se alm do quarto. Dormir viria apenas depois que terminasse
o ltimo dever. O quarto mais afastado estava sempre trancado. Quando abriu a porta, inalou o leve perfume feminino das flores frescas que punha ali todo dia. A
batina de padre pendia da porta fechada do armrio. Drapejada sobre ela, o amicto era uma faixa branca.
Riscando um fsforo, ele acendeu a primeira vela, depois outra e mais outra, at as sombras ondularem na imaculada superfcie do pano de altar.
Havia uma fotografia ali, numa moldura de prata, de uma adolescente, loura e sorridente. Para sempre, seria capturada jovem, loura e feliz. Rosas cor-de-rosa haviam
sido suas preferidas, e era o cheiro delas que se misturava com o das velas queimando.
Em molduras menores, viam-se fotografias recortadas com todo capricho de trs outras mulheres. Carla Johnson, Barbara Clayton, Francie Bowers. Juntando as mos,
ele se ajoelhou diante delas.
Eram tantas outras, pensou. Tantas. Ele apenas comeara.

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Captulo Quatro
O jovem sentou-se diante de Tess, calado e taciturno. No mexia as mos nem olhava pela janela. Raras vezes o fazia. Em vez disso, ficava sentado na cadeira, cabisbaixo,
e olhava os joelhos. Estendia as mos sobre as coxas, os dedos finos, as juntas um pouco aumentadas pelos estalos nervosos. As unhas estavam rodas at abaixo do
sabugo. Sinais de ansiedade, embora as pessoas muitas vezes atravessassem a vida bastante bem, estalando, sacudindo e mastigando a si mesmas.
Tambm era raro ele olhar para a pessoa com quem falava, ou, mais corretamente nesse caso, a pessoa que falava com ele. Toda vez que ela conseguia olh-lo nos olhos,
sentia ao mesmo tempo uma pequena vitria e uma pequena pontada. Via to pouco nos olhos dele, pois o paciente aprendera em tenra idade a esconder e se proteger.
O que via - quando lhe era dada at mesmo essa chance rara e rpida de olhar - no era ressentimento nem medo, apenas um trao de tdio.
A vida no fora justa com Joseph Higgins Jr., e ele no correria o risco de receber outro golpe abaixo da cintura. Em sua idade,
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quando os adultos o solicitavam, ele preferia o isolamento e a incomunicabilidade como defesa contra a falta de opo. Tess conhecia os sintomas. Ausncia de emoo
exterior, de motivao, de interesse. Ausncia.
De algum modo, por algum caminho, ela precisava encontrar o gatilho que o fizesse voltar a gostar primeiro de si mesmo, e depois do mundo  sua volta.
Era velho demais para ela fazer jogos com ele e jovem demais para trat-lo no nvel de adulto para adulto. Tentara as duas coisas, e ele no aceitara nenhuma. Joey
Higgins plantara-se firme num espao intermedirio. A adolescncia no era apenas difcil para ele, era infeliz.
Usava cala jeans, boa, resistente, com a braguilha de botes alardeada em comerciais berrantes, e um suter folgado de moletom com a tartaruga aqutica de Maryland
rindo no peito. Os tnis de cano alto da Nike eram modernos e novos. Tinha os cabelos castanhos cortados em pontas simples em volta do rosto fino demais. Por fora,
parecia um garoto de catorze anos normal. Todos os penduricalhos da adolescncia em cima. Por dentro, um labirinto de confuso, dio a si mesmo e ressentimento,
que Tess sabia que nem sequer comeara a tocar.
Lamentvel que, em vez de ser uma confidente, um muro de lamentaes ou mesmo uma folha de papel em branco para ele, ela fosse apenas mais uma figura autoritria
em sua vida. Se uma nica vez Joey tivesse desabafado, gritado ou discutido com ela, Tess teria achado que as sesses progrediam. Durante todas, ele permanecia educado
e indiferente.
- O que sente em relao  escola, Joey?
Ele no encolheu os ombros. Era como se o movimento pudesse transmitir algum dos sentimentos que mantinha to trancados dentro de si.
- Legal.
- Legal? Eu achava que  sempre meio difcil mudar de escola.
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Ela lutara contra isso, tentara tudo a seu alcance para convencer os pais a no fazerem uma mudana to drstica quela altura da terapia. Ms companhias, eles disseram.
Iam afast-lo das pessoas que o influenciavam, que o atraram para o lcool, um breve flerte com drogas e um namoro igualmente rpido, porm mais inquietante, com
o ocultismo. Os pais haviam conseguido apenas alien-lo e despedaar-lhe um pouco mais a auto-estima.
No foram as companhias, ms ou no, que levaram Joey a qualquer dessas jornadas. Foram a prpria depresso, se movendo em espiral, e a procura de uma resposta que
ele julgasse completa e apenas sua.
Como no encontravam mais baseados nas gavetas da cmoda do filho, nem sentiam cheiro de bebida alcolica em seu hlito, os pais tinham confiana em que ele comeava
a recuperar-se. No conseguiam ou no queriam ver que Joey continuava afundando rpido. Ele apenas aprendera a internalizar tudo isso.
- As novas escolas s vezes so uma aventura - continuou Tess, quando no obteve resposta alguma. - Mas  difcil ser aluno novo.
- No  nada de to importante assim - ele murmurou, sem deixar de olhar os joelhos.
- Que bom saber - ela disse, embora soubesse que era mentira. - Eu tive de trocar de escola quando tinha a sua idade e fiquei morta de medo.
Ele ergueu os olhos ento, no acreditando, mas interessado. Olhos castanho-escuros, que deviam transmitir eloqente expressividade. Mas eram defensivos e cautelosos.
- No tem nada do que sentir medo,  s uma escola.
- Por que no me fala dela?
- E s uma escola.
- E os outros garotos? Algum interessante?
- A maioria  idiota.
- Ahn? Como assim?
- Tipo ficar zoando numa galera. No tenho vontade de conhecer ningum.
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Ningum que ele conhecia, corrigiu Tess. A ltima coisa que precisava quela altura era sentir-se rejeitado pela escola aps perder os colegas de turma aos quais
se habituara.  mais difcil ficar sozinho, Joey, do que tentar conhec-los.
- Eu no quis trocar de escola.
- Eu sei. - Nisso, ela estava com ele. Algum tinha de estar. - E sei que  duro sentir-se como se a gente pudesse ser empurrada de um lado pro outro, sempre que
as pessoas que fazem as regras tm vontade de mud-las. Seus pais escolheram a escola porque desejam o melhor para voc.
- Voc no queria que eles me tirassem. - Ele ergueu mais uma vez os olhos, porm to rpido que ela mal viu a cor. - Ouvi mame falando.
- Como sua mdica, achei que talvez se sentisse mais  vontade na escola antiga. Sua me ama voc, Joey. Transferi-lo no foi uma punio, mas um meio de tentar
fazer tudo ficar melhor pra voc.
- Ela no queria que eu ficasse com meus amigos.
Ele no disse isso com ressentimento, mas aceitao simples e categrica. Sem opo.
- Como se sente em relao a isso?
- Ela temia que, se eu convivesse com eles, comeasse a beber de novo. No estou bebendo.
Mais uma vez, no disse isso ressentido, porm exaurido.
- Eu sei - disse Tess, e ps a mo no brao dele. - Pode sentir orgulho de si mesmo por sair dessa, fazer a escolha certa. Sei o esforo que voc tem de fazer todo
dia para no beber.
- Mame vive pondo a culpa das coisas que acontecem em outra pessoa.
- Que coisas?
- Coisas, s.
- Como o divrcio? - Como sempre, a meno disso no trouxe reao alguma. Tess recuou. - Como se sente por no ir mais de nibus?
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- Os nibus so uma droga.
- Sua me leva voc para a escola agora.
- .
- Tem falado com seu pai?
- Ele est ocupado. - Joey olhou para Tess com um toque de ressentimento misturado a uma splica. - Arranjou um novo trabalho numa loja de computadores, mas na certa
vou passar o fim de semana com ele no ms que vem. No Dia de Ao de Graas.
- Como se sente em relao a isso?
- Vai ser bom. - Sucinto, o menino resplandecia de esperana:
- Vamos ver o jogo dos Redskins. Ele vai comprar ingressos na rea cinqenta. Vai ser como era antes.
- Como era antes, Joey?
Ele tornou a olhar para os joelhos, mas juntou as sobrancelhas de raiva.
-  importante entender que nada vai ser como era antes. Diferente no quer dizer ruim. s vezes a mudana, mesmo quando difcil, pode ser o melhor pra todo mundo.
Sei que voc ama seu pai. No tem de deixar de am-lo porque no mora mais com ele.
- Ele no tem mais casa. S um quarto. Disse que, se no tivesse de pagar penso, poderia ter uma casa.
Ela sentiu vontade de mandar para o inferno Joseph Higgins pai, mas manteve a voz firme e suave:
- Voc entende que seu pai tem um problema, Joey. No  voc o problema.  o lcool.
- Ns temos uma casa - ele resmungou.
- Se no tivessem, acha que seu pai seria mais feliz? - Nenhuma resposta. Joey mais uma vez baixou a cabea. - Me alegra saber que vai passar algum tempo com seu
pai. Sei que sente saudades dele.
- Est ocupado.
- . - Ocupado demais para ver o filho, ocupado demais para retornar os telefonemas da psiquiatra que vinha tentando curar as
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mgoas do filho adolescente dele. -s vezes os adultos ficam enrolados demais na vida. Voc precisa saber como tudo  difcil pro seu pai agora, num novo trabalho,
porque tambm est numa nova escola.
- Vou passar um fim de semana com ele no ms que vem. Mame disse pra eu no contar com isso, mas eu vou.
- Sua me no quer que voc fique decepcionado se surgir algum imprevisto.
- Ele vai me pegar.
- Espero que sim, Joey. Mas se ele no vier... Joey... - Ela tocou-lhe mais uma vez o brao, e por pura fora de vontade atraiu seu olhar. - Se ele no vier, voc
tem de saber que no  por sua causa, mas por causa da doena dele.
Ele concordou, porque concordar era o meio mais rpido de evitar um confronto. Tess sabia disso, e desejou, no pela primeira vez, conseguir convencer os pais de
que Joey precisava de terapia mais intensiva.
- Sua me trouxe voc hoje?
Embora ele continuasse cabisbaixo, a raiva, pelo menos por fora, passara.
- Meu padrasto.
- Voc continua se dando bem com ele?
- Ele  legal.
- H meninas bonitas em sua nova escola?
Tess queria um sorriso, de qualquer tamanho, qualquer tipo.
- Acho que sim.
- Acha? - Talvez fosse o sorriso na voz dela que o fez erguer os olhos de novo. - Pra mim, voc parece ter bons olhos.
- Talvez duas. - E ele curvou um pouco os lbios. - No presto muita ateno.
- Bem, h tempo pra isso. Vai voltar na semana que vem?
- Acho que sim.
- Me faria um favor enquanto isso? Eu disse que voc tem bons olhos. Observe sua me e seu padrasto. - Ele virou a cabea, mas
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ela tomou-lhe a mo e segurou-a. -Joey... - Esperou at aqueles olhos escuros, ilegveis, encontrarem de novo os seus. - Observe. Eles esto querendo ajudar. Cometem
erros, mas esto tentando, porque gostam de voc. Ainda tem meu nmero, no?
- , acho que tenho.
- Sabe que pode me ligar se quiser conversar antes da semana que vem.
Ela foi at a porta do consultrio com ele e viu o padrasto levantar-se e dar a Joey um grande e afvel sorriso. Era um empresrio bem-sucedido, sereno e educado.
A anttese do pai.
- Tudo terminado, hein? - Olhou para Tess, sem sorriso algum, apenas tenso na expresso. - Como nos samos hoje, Dra. Court?
- Muito bem, Sr. Monroe.
- Isso  bom, isso  bom. Que tal pegarmos uma comida chinesa no caminho, Joey, e fazer uma surpresa  sua me?
- Falou. - Joey enfiou a jaqueta da escola, a escola que no mais freqentava. Deixando-a aberta, virou-se para trs e olhou um ponto alm do ombro direito de Tess.
- Tchau, Dra. Court.
- At logo, Joey, vejo voc na semana que vem.
Vinham alimentando-o, ela pensou, ao fechar a porta. E ele morria de fome. Vinham vestindo-o, mas ele continuava com frio. Tess tinha a chave, mas ainda no conseguira
gir-la de modo a abrir a fechadura.
Com um suspiro, encaminhou-se de volta  mesa.
- Dra. Court?
Tess atendeu ao telefone interno, guardando de volta a ficha de Joey Higgins na pasta atrs da mesa.
- Sim, Kate.
- A senhora recebeu trs telefonemas enquanto estava na sesso. Um do Post, um do Sun e um da emissora de TV WTTG.
- Trs reprteres?
Tess tirou o brinco para coar de leve o lbulo da orelha.
- Todos os trs queriam confirmao de sua contratao nos homicdios do Padre.
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- Droga. - Ela largou o brinco na mesa. - No estou autorizada a fazer comentrios, Kate.
- Sim, senhora.
Devagar, Tess atarraxou de novo o brinco. Prometera anonimato. Fazia parte do acordo com o gabinete do prefeito. Nada de mdia, alarde ou comentrios. O prefeito
lhe dera garantia pessoal de que ela conseguiria trabalhar sem presso da imprensa. De nada adiantava culp-lo, lembrou-se, levantando-se para ir at a janela. Vazara
e teria de lidar com isso.
No gostava de notoriedade. Esse era seu problema. Gostava da vida simples e privada. Tambm esse era seu problema. O bom senso dissera-lhe que a histria toda viria
a pblico antes de acabar, mas mesmo assim aceitara o trabalho. Se estivesse aconselhando um dos seus pacientes, teria lhe dito que enfrentasse a realidade e tratasse
tudo um passo de cada vez.
L fora, o trfego da hora do rush comeava a intensificar-se. Algumas buzinas estrondeavam, mas o barulho era abafado pela janela e a distncia. Joey Higgins dirigia
 entrega de comida chinesa para viagem com o padrasto, em quem se recusava a permitir-se confiar ou amar. Os bares j estavam prontos para servir o "vamos tomar
uma rpida antes da clientela do jantar". As creches esvaziavam-se e a multido de mes que trabalham fora e solteiras e de papais exaustos acomodava os pr-escolares
e manobrava Volvos e BMWs por grupos de outros Volvos e BMWs com uma idia em mente: chegar em casa, ficar seguro e aquecido atrs das portas, janelas e paredes,
junto da famlia. Era improvvel que ocorresse a algum deles a idia concreta de que havia algum mais l fora. Algum com uma pequena bomba tiquetaqueando dentro
da cabea.
Por um momento, Tess desejou poder juntar-se a eles naquela tranqila rotina noturna, pensando apenas num jantar quente e na conta do dentista. Mas o arquivo do
Padre j se achava na sua pasta.
Ela se virou e pegou-a. O primeiro passo era ir para casa e certificar-se de que todas as chamadas fossem selecionadas e exibidas na
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pequena tela do celular pelo servio de atendimento e gravao automtica de mensagens.

- QUEM DEIXOU VAZAR? - EXIGIU SABER BEN, E SOPROU uma baforada de fumaa.
- Ainda estamos trabalhando nisso.
Em p atrs da mesa, Harris examinava os policiais designados para a fora-tarefa. Ed, desengonado numa cadeira, passando um saquinho de sementes de girassol de
uma mo para outra. Bigsby, com o grande rosto corado e mos fortes, batucava com os ps. Maggie Lowenstein, atrs de Ben, tinha as mos nos bolsos. Roderick sentava-se
ereto na cadeira com as mos juntas no colo. Ben olhava-o, como se fosse arreganhar os dentes e rosnar  primeira palavra de mau jeito.
- O que temos de fazer agora  trabalhar com a situao. A imprensa sabe que a Dra. Court est envolvida. Em vez de bloque-los, vamos us-los.
- Temos sido martelados na imprensa h semanas, capito - ops-se Maggie. - As coisas mal tinham comeado a acalmar-se.
- Eu leio os jornais, detetive.
Disse isso com moderao. Bigsby mudou de posio na cadeira, Roderick pigarreou e Maggie fechou a boca.
- Vamos marcar uma coletiva de imprensa para amanh de manh. O gabinete do prefeito entrar em contato com a Dra. Court. Paris, Jackson, como chefes da equipe,
quero vocs presentes. Sabem quais informaes podemos passar  imprensa.
- No temos nada de novo para eles, capito - salientou Ed.
- Faam parecer novo. A Dra. Court deve bastar para satisfaz-los. Marquem a reunio com esse monsenhor Logan - acrescentou, desviando o olhar para Ben. - E mantenham
isso em segredo.
- Mais psiquiatras. - Ben esmagou o cigarro. - A primeira no nos disse nada que j no soubssemos.
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- Disse que o assassino est numa misso - observou Maggie em voz baixa. - Que, embora as coisas andem tranqilas h algum tempo, no  provvel que ele tenha terminado.
- Ela nos disse que est matando jovens louras - rebateu Ben. - J tnhamos descoberto isso.
- Me d um tempo, Ben - murmurou Ed, sabendo que o mau gnio iria domin-lo.
- Me d um tempo voc. - Ben fechou as mos em punhos nos bolsos. -Aquele filho-da-puta s est esperando para estrangular a prxima mulher que estiver no lugar
errado e na hora errada, e a gente fica sentado conversando com psiquiatras e padres. No dou a mnima para a alma nem para a psique dele.
- Talvez devamos dar. - Roderick olhou primeiro para o capito, depois para Ben. - Escute, sei como se sente, como acho que todos nos sentimos. Apenas o queremos.
Mas j lemos o perfil feito pela Dra. Court. No estamos lidando com algum que anda por a s atrs de sangue, de baratos. Se quisermos fazer nosso trabalho, acho
melhor entendermos quem ele .
- Voc deu uma boa olhada nas fotos do necrotrio, Lou? Sabemos quem so e quem eram elas.
- Tudo bem, Paris. Se quiser liberar mais presso, v para a academia de ginstica.
Harris esperou um instante, reunindo a todos com seu senso de autoridade. Fora um bom policial de rua. Era ainda melhor na administrao. Saber disso apenas o deprimia
de vez em quando.
- A coletiva de imprensa est sendo marcada para as oito da manh, no gabinete do prefeito. Quero um relatrio sobre monsenhor Logan na minha mesa amanh. Bigsby,
continue trabalhando sobre o lugar de onde vieram aquelas malditas estolas. Maggie, Roderick, voltem e trabalhem sobre a famlia e os amigos das vtimas. Agora saiam
daqui e vo pegar alguma coisa pra comer.
Ed esperou todos assinarem o ponto da sada, percorrer os corredores e atravessar o estacionamento.
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- No vai fazer bem algum a voc descarregar a raiva pelo que aconteceu com seu irmo na Dra. Court.
- Josh nada tem a ver com isso.
Mas a dor continuava. Ele no podia dizer o nome do irmo sem ferir a garganta.
- Tem razo. E a Dra. Court est fazendo seu trabalho, como o resto de ns.
- timo. Por acaso no acho que o trabalho dela tenha qualquer ligao com o nosso.
- A psiquiatria criminal tornou-se uma ferramenta vivel no...
- Ed, pelo amor de Deus, voc precisa parar de ler essas revistas.
- Parar de ler, parar de aprender. Quer sair pra tomar um porre?
- Isso vindo de um homem que anda com sementes de girassol. - A tenso continuava ao longo da nuca de Ben. - Perdera o nico irmo, mas Ed aparecera e quase preenchera
o vazio. - Esta noite, no. De qualquer modo, me constrange ver voc mandar despejar todo aquele suco de fruta na vodca.
- A gente tem de pensar na sade.
- Tambm tem de pensar na reputao.
Ben abriu a porta do carro e ficou tilintando as chaves. Era uma noite fria, fria o bastante para ver a respirao no ar. Se chovesse antes da manh, como indicava
o cu sem estrelas, cairia chuva com neve. Na srie de casas geminadas, restauradas e com p-direito alto, os ricos de Georgetown iriam acender a lareira, tomar
Irish coffees e apreciar as chamas. Os sem-teto podiam preparar-se para uma noite longa e desagradvel.
- Ela me perturba - disse Ben de repente.
- Uma mulher com aquela aparncia tem de perturbar qualquer homem.
- No  to simples assim. - Ben entrou no carro e desejou conseguir entender o que o perturbava. - Pego voc amanh. Sete e meia.
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- Ben. - Ed curvou-se, segurando a porta aberta. - Diga a ela que eu mandei lembranas.
Ben fechou a porta e pisou fundo. Os parceiros passavam a conhecer um ao outro bem demais.

TESS DESLIGOU O TELEFONE E, COM OS COTOVELOS NA MESA, apertou a base das mos nos olhos. Joe Higgins pai precisava tanto de terapia quanto o filho, mas se envolvera
demais na destruio da prpria vida para entender isso. O telefonema nada resolvera. Mas tambm conversas com alcolatras de pileque raras vezes resolviam. Ele
apenas chorara  meno do filho e fizera com a fala arrastada a promessa de telefonar no dia seguinte.
No iria telefonar, pensou Tess. As probabilidades eram de que nem se lembrasse da conversa pela manh. O tratamento de Joey dependia do pai, e o pai no se desgrudava
da garrafa - a mesma garrafa que destrura seu casamento, fizera-o perder inmeros empregos e deixara-o sozinho e infeliz.
Se ela conseguisse lev-lo a uma reunio dos AA, faz-lo dar o primeiro passo... Tess soltou um longo suspiro ao deixar cair as mos dos lados. A me de Joey no
explicara quantas vezes ela tentara, quantos anos se dedicara a afastar Joseph Higgins pai da garrafa?
Tess entendia o ressentimento da mulher, respeitava sua determinao de recomear a prpria vida e enterrar o passado. Mas Joey no conseguia. Durante toda a infncia,
a me o protegera, protegera-o da doena do pai. Dava desculpas pelas noites que passava acordado e os empregos perdidos, acreditando que devia esconder a verdade
do filho.
Na infncia, Joey vira demais, ouvira mais, depois aceitara as explicaes e desculpas da me, e construra uma parede de mentiras ao redor do pai. Mentiras em que
decidira acreditar. Se o pai bebia, ento beber era legal. To legal que aos catorze anos j o tratavam por dependncia de lcool. Se o pai perdia o emprego, era
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porque o patro tinha inveja. Enquanto isso, as notas de Joey na escola iam despencando cada vez mais  medida que o respeito pela autoridade e por si mesmo diminua.
Quando a me no conseguira mais tolerar a bebida e ocorrera o rompimento, as mentiras, promessas quebradas e os anos de ressentimento extravasaram. Ela amontoara
os defeitos do pai no filho, na desesperada tentativa de faz-lo ver os erros e no culp-la. Joey no a culpara, claro, nem culpara o pai. S a uma pessoa podia
culpar, e essa era a si mesmo.
A famlia desintegrara-se, ele tivera de sair da casa em que fora criado e a me passara a trabalhar fora. O menino afundara. Depois que a Sra. Higgins se casara
de novo, foi o padrasto de Joey quem insistira na orientao psicolgica. Quando Tess comeara a v-lo, Joey tinha treze anos e meio de culpa, ressentimento e dor
para atravessar com dificuldade. Em dois meses, ela mal fizera uma mossa na armadura usada por ele - nas sesses privadas ou na orientao familiar duas vezes por
ms com a me e o padrasto.
A raiva tomou-a com tanta rapidez que ela teve de sentar-se durante vrios minutos e reprimi-la. No era sua funo enfurecer-se, mas ouvir, perguntar e oferecer
opes. Compaixo - podia permitir-se sentir compaixo, mas no raiva. Por isso ficou sentada, com a raiva recuando, lutando contra o controle com que nascera e
depois afiara como ferramenta profissional. Queria chutar alguma coisa, bater em alguma coisa, eliminar de algum modo aquela detestvel sensao de desesperana.
Em vez disso, abriu a pasta de Joey e passou a fazer mais anotaes sobre a ltima sesso  tarde.
Comeou a cair uma mistura de chuva e neve. Tess pegou os culos, mas no olhou pela janela, no viu o homem do outro lado da rua, parado no meio-fio e observando
a luz em seu apartamento. Se houvesse olhado, visto, no teria pensado nada disso.
Como quando veio a batida  porta, Tess pensava apenas no aborrecimento da interrupo. O telefone tocara sem parar, mas ela
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conseguira ignor-lo e deix-lo para a secretria eletrnica. Se uma das ligaes fosse de um paciente, o bipe ao lado teria soado. As chamadas, adivinhara, haviam
sido todas ligadas  matria do jornal da noite, vinculando-a  investigao da Diviso de Homicdios. Deixando a pasta aberta, ela se encaminhou para a porta.
- Quem ?
- Paris.
Podia-se colher muita informao do tom de uma voz, at de uma palavra. Ela abriu a porta, sabendo que a abria para um confronto.
- Detetive. No  um pouco tarde para uma visita oficial?
- Bem a tempo do noticirio das onze. Ele entrou e ligou o aparelho de televiso. Tess no se afastara da porta.
- No tem TV em casa?
-  mais divertido assistir a um circo com companhia. Ela fechou a porta, irritada o bastante para deix-la bater.
- Escute, estou trabalhando. Por que no diz o que tem a dizer e me deixa voltar pro meu trabalho?
Ben olhou a mesa, as pastas abertas e os culos de grandes aros largados em cima de tudo aquilo.
- No vai demorar.
Ele no se sentou, ficou com as mos nos bolsos, vendo a introduo da equipe do noticirio. Foi a bonita morena, de rosto em forma de corao, quem leu a principal
matria da noite:
- O gabinete do prefeito confirmou hoje que a Dra. Teresa Court, respeitada psiquiatra, foi designada para a equipe de investigao dos homicdios do Padre. No
conseguimos encontrar a Dra. Court, neta do veterano senador Jonathan Writemore, para comentar. Suspeita-se que os assassinatos de pelo menos trs mulheres estejam
ligados ao assassino descrito como Padre pelo emprego de um amicto, estola branca usada na cerimnia da missa pelos padres catlicos romanos, para estrangular as
vtimas. A polcia continua a
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investigao iniciada em agosto ltimo, agora com a ajuda da Dra. Court.
- Nada mal - murmurou Ben. - Teve seu nome citado trs vezes.
Ele nem piscou quando Tess se aproximou e, com uma pancada, desligou o boto.
- Vou repetir, diga logo o que tem a dizer.
A voz dela foi fria. Ele pegou um cigarro, decidido a igual-la.
- Temos uma coletiva de imprensa s oito, amanh, no gabinete do prefeito.
- Fui notificada.
- Mantenha os comentrios vagos, afaste-se o mximo possvel dos pormenores do caso. A imprensa sabe sobre a arma do crime, mas conseguimos evitar o vazamento das
notas e o contedo delas.
- Eu no sou tola, Ben. Sei lidar com uma entrevista.
- Tenho certeza que sabe. Por acaso esta  sobre assunto departamental, no glria pessoal.
Ela abriu a boca, mas s saiu um silvo de respirao. Sabia que era ao mesmo tempo humilhante e intil perder a pacincia. Sabia que uma declarao to ridcula
e ressentida no merecia resposta. Sabia que ele, ali parado julgando-a, merecia apenas o mais frio e controlado descaso.
- Seu jumento intolerante, tacanho, insensvel. - O telefone tornou a tocar, mas os dois o ignoraram. - Quem diabo voc pensa que , entrando aqui sem pedir licena
e atirando suas preciosas idiotices?
Ele procurou um cinzeiro em volta e decidiu-se por um pequeno prato pintado  mo, ao lado de um vaso de frescos crisntemos outonais.
- Que preciosidade foi essa?
Ela ficou ereta como um soldado, enquanto ele,  vontade, batia de leve as cinzas no prato.
- Vamos apenas pr uma coisa em pratos limpos. Eu no vazei essa histria para a imprensa.
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- Ningum disse que vazou.
- No? - Ela enfiou as mos nos bolsos da saia com a qual trabalhara durante catorze horas. As costas doam-lhe, tinha o estmago vazio e queria algo pelo qual lutava
com tanto esforo para dar aos pacientes... paz de esprito. - Pois bem, eu interpreto essa pequena cena de outra forma. De fato me prometeram que meu nome jamais
seria ligado  investigao.
- Tem algum problema em deixar as pessoas saberem que coopera com a polcia?
- Ah, voc  inteligente, no ?
- Pra burro - ele devolveu, fascinado pela completa aniquilao do controle dela.
Tess andava de um lado para o outro ao falar, os olhos de cor violeta agora escurecidos. A raiva era rgida e glida, ao contrrio do tipo cuspir veneno e atirar
pratos a que ele se habituara. Ainda mais interessante.
- De qualquer jeito que eu aja, voc tem uma resposta. J lhe ocorreu, detetive, que talvez eu no goste de ter meus pacientes, meus colegas, me questionando sobre
este caso? J lhe ocorreu que eu no queria pegar o caso, antes de mais nada?
- Ento por que pegou? O pagamento  execrvel.
- Porque fui convencida a acreditar que poderia ajudar. Se no pensasse assim, eu lhe diria pra pegar seu caso e se sufocar nele. Acha que eu quero perder meu tempo
discutindo com algum juiz tacanho, designado por si mesmo, sobre a moralidade de minha profisso? Tenho problemas suficientes em minha vida sem voc se acrescentar
a eles.
- Problemas, doutora? - Ele percorreu o apartamento com um demorado olhar, as flores, o cristal, tons pastis suaves. - Tudo me parece muito satisfatrio aqui em
volta.
- Voc no sabe nada de mim, da minha vida e do meu trabalho. - Ela se aproximou da mesa e apoiou as mos no tampo, mas ainda no recuperara o controle. - Est vendo
essas pastas, esses
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papis, essas fitas? H a vida de um garoto de catorze anos a. Um garoto que j  um alcolatra, que precisa de alguma coisa que possa despert-lo o suficiente
para ver seu prprio valor e seu prprio lugar. - Tornou a virar-se, os olhos escuros e ardentes. - Sabe o que  tentar salvar uma vida, no, detetive? Sabe como
di, como assusta? Talvez eu no use uma arma, mas  isso que estou tentando fazer. Passei dez anos da minha vida tentando aprender como. Talvez, com tempo suficiente,
talento e sorte, eu consiga ajud-lo. Droga. - Ela se interrompeu, percebendo at que ponto se deixara pressionar por algumas palavras. - No tenho de justificar
nada a voc.
- No, no tem. -Ao falar, ele esmagou o cigarro no pratinho de porcelana. - Me desculpe. Fui desrespeitoso.
A respirao dela saiu com dois soluos, enquanto tentava recompor-se.
- Que h em mim e no que eu fao para deixar voc to ressentido?
Ele no estava pronto para dizer, revelar aquela antiga ferida exposta para inspeo e anlise. Em vez disso, apertou os dedos nos prprios olhos cansados.
- No  voc.  a histria toda. Faz com que me sinta andando numa corda muito bamba sobre um espao muito longo.
- Acho que posso aceitar isso. - Embora no fosse toda a resposta, ou a que ela queria. -  difcil ser objetiva neste momento.
- Vamos recuar um passo por um minuto. No tenho muito apreo pelo que voc faz, e acho que nem voc pelo que eu fao.
Ela esperou um instante e assentiu com a cabea.
- Concordo.
- Estamos presos a isso. - Ben aproximou-se da mesa e ergueu a meia xcara de caf dela. - Tem um pouco deste quente?
- No. Mas posso fazer.
- No tem importncia. - Ele ergueu a mo para massagear a tenso pouco acima das sobrancelhas. - Escute, eu sinto muito. Parece que temos corrido numa esteira mecnica,
e o nico avano que fizemos foi um vazamento para a imprensa.
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- Eu sei. Talvez voc no consiga entender, mas estou to envolvida e me sinto to responsvel quanto voc agora. - Interrompeu-se de novo, mas dessa vez sentiu
afinidade, empatia. - Essa  a parte difcil, no? Sentir-se responsvel.
Tess era boa mesmo em seu trabalho, pensou Ben, recostando-se na mesa.
-Tenho uma sensao de que no consigo me livrar, de que ele j no agenta mais esperar pra atacar de novo. No nos aproximamos nada de encontr-lo, doutora. Podemos
enrolar um pouco a imprensa amanh, mas o que temos de engolir  que no chegamos nem um pouco mais perto. O fato de voc me dizer por que o Padre mata no vai ajudar
a prxima mulher para a qual ele avana.
- S posso lhe dizer como ele  por dentro, Ben.
- E eu que no dou a mnima. - Ele contornou a mesa para encar-la. Ela ficara mais uma vez calma. Via isso apenas examinando os olhos. - Quando o pegarmos, e o
pegaremos, vo receber esse seu perfil psiquitrico. Vo mandar fazer outros, depois pr voc ou qualquer outro psiquiatra na prateleira, e ele vai se livrar.
- Ser confinado num hospital de doenas mentais. No se trata de um piquenique, Ben.
- At uma equipe de mdicos diagnostic-lo curado.
- No  to simples assim. Voc conhece melhor a lei. - Tess correu a mo pelos cabelos. Ben tinha razo e ela tambm. Isso s dificultava mais as coisas. - Voc
no trancafia algum porque tem cncer, porque no pode controlar a desintegrao do prprio corpo. Como pode punir algum sem levar em considerao a desintegrao
da mente? Ben, a esquizofrenia apenas incapacita mais pessoas por um perodo maior de tempo que o cncer. Centenas de milhares de pessoas esto confinadas em hospitais.
No podemos abandon-las, nem queim-las como bruxas, por causa de um desequilbrio qumico no crebro.
No lhe interessavam estatsticas, motivos, apenas os resultados.
- Voc disse uma vez, doutora... insanidade  um termo legal. Louco ou no, ele tem direitos civis e ter direito a um advogado, e
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o advogado vai usar esse termo legal. Eu gostaria de ver voc reunida com aquelas trs famlias depois de tudo terminar, e falar sobre desequilbrios qumicos. Ver
se consegue convenc-las de que obtiveram justia.
Ela orientara famlias antes, conhecia bem demais a sensao de traio e ressentida impotncia. Era uma impotncia que, sem controle, podia extravasar no terapeuta.
-  voc aquele que tem a espada, Ben, no eu. S tenho palavras.
- . - Ele tambm as tinha, e usara-as de uma maneira da qual no se orgulhava. Precisava sair, ir para casa. Quisera que houvesse um conhaque e uma mulher  sua
espera. - Vou marcar uma consulta com monsenhor Logan amanh. Vai precisar estar l.
- Sim.
Ela cruzou os braos e perguntou-se por que um ataque de raiva sempre a deixava to deprimida.
- Tenho compromissos o dia todo, mas posso cancelar o das quatro horas.
- No  loucura demais?
Como ele fizera o esforo, ela tambm fez, e sorriu.
- Vamos deixar passar essa.
- Verei se posso marcar para as quatro e meia. Algum vai ligar pra voc e confirmar.
- timo. - Parecia no restar mais nada a dizer, e talvez mais a dizer que qualquer um dos dois podia lidar. -Tem certeza de que no quer aquele caf?
Ele tinha e, mais que isso, queria sentar-se com ela para falar de qualquer coisa, menos do que os unia.
- No, preciso ir. As ruas j esto uma zorra.
- ?
Ela olhou em direo  janela e notou a chuva com neve.
- Trabalhando demais, doutora, quando no v o que se passa fora da janela. - Ben se encaminhou para a porta. - Voc ainda no comprou aquela fechadura reforada.
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- No, ainda no.
Ele virou-se com a mo na maaneta. Queria ficar mais com ela do que com o conhaque e a mulher imaginrios.
- Bogart foi legal na outra noite?
- Sim, foi timo.
- Talvez a gente deva fazer isso de novo qualquer hora.
- Talvez.
- At mais, doutora. Passe a corrente.
Ele fechou a porta, mas esperou at ouvir o matraquear da corrente da fechadura sendo presa.

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Captulo  Cinco
Ed seguia pela Dcima Sexta num ritmo tranqilo. Gostava tanto de dirigir devagar - bem, quase tanto - quanto de fazer os pneus cantarem. Para um homem simples,
de relativa serenidade, correr a toda pelas ruas em perseguio acirrada era um pequeno vcio.
Ao lado, Ben mantinha silncio. Em geral, teria algumas observaes ferinas a fazer sobre a maneira de o parceiro dirigir, o que era uma anedota no departamento.
O fato de ele nada dizer a respeito, nem sobre a fita de Tanya Tucker que Ed colocara, significava que tinha os pensamentos em outro lugar. No era necessria uma
mente to metdica quanto a de Ed para descobrir onde.
- Recebi a papelada do caso Borelli.
Ed ouvia Tanya gemer sobre a mentira e a traio, e sentia-se contente.
- Hum? Ah, sim, tambm recebi a minha.
- Parece que vo ser dois dias no tribunal ms que vem. O promotor pblico deve conden-lo bem rpido.
-  melhor que condene. Esfolamos o rabo pra conseguir as provas.
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O silncio retornava gotejando como chuva fina. Ed cantarolou a melodia de boca fechada junto com Tanya, cantou alguns compassos do coro e tornou a cantarolar.
- Soube da cozinha de Maggie? O marido a inundou. O lixo vazou de novo.
-  o que acontece quando se deixa um contador andar com uma chave inglesa na mo.
Ben baixou a janela dois centmetros para a fumaa sair, quando acendeu um cigarro.
- Este  o dcimo quinto - disse Ed, indulgente. - No vai chegar a lugar algum se continuar ansioso com a coletiva de imprensa.
- No estou ansioso com nada. Gosto de fumar. - Como prova, tragou fundo, mas resistiu a soprar a fumaa na direo do parceiro. -  um dos poucos grandes prazeres
da humanidade.
- Junto com tomar porre e vomitar nos prprios sapatos.
- Meus sapatos esto limpos, Jackson. Isso me faz lembrar de algum tombando como a porra de uma sequia quando emborcou meio galo de vodca com suco de cenoura.
- Eu s ia tirar uma soneca.
- , de cara no cho. Se eu no o tivesse segurado e quase me presenteado com uma hrnia no processo, voc teria quebrado esse seu narigo. De que diabo est rindo?
- Se est sacaneando,  porque no sente pena de si mesmo. Sabe, Ben, ela se portou muito bem mesmo.
- Quem disse que no? - Ben enterrou os dentes no filtro ao dar outra tragada. - E quem disse que eu pensava nela, alis?
- Em quem?
- Tess.
- Eu nem toquei no nome dela.
Ed pisou fundo quando um sinal passou a mbar e piscou at mudar para vermelho.
- No faa joguinhos comigo, e o sinal estava vermelho.
- Amarelo.
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- Estava vermelho, seu filho-da-me daltnico, e algum devia apreender sua carteira. Corro o risco de ser morto toda vez que entro no mesmo carro com voc. Eu devia
ter uma pasta cheia de recomendaes por bravura.
- Ela tambm estava tima - comentou Ed. - Pernas fantsticas.
- Voc est no cio. - Ben ligou o aquecimento quando o vento que entrava pela fresta da janela tornou-se cortante. - De qualquer modo, ela parecia que podia imobilizar
um homem a vinte passos.
- As roupas transmitem sinais. Autoridade, indeciso, compostura. Ela parecia se esforar por um tom de altiva autoridade. Acho que j tinha aqueles reprteres na
mo antes de abrir a boca.
- Algum devia cancelar sua assinatura da Reader's Digest - resmungou Ben.
As grandes e centenrias rvores que pontilhavam os lados da rua achavam-se no auge da cor. Folhas suaves ao toque vibravam vermelhas, amarelas e laranja. Mais uma
semana, ficariam secas, espalhadas como lixo nas caladas e sarjetas, emitindo rudos ran-gentes, speros, ao se arrastarem pelo asfalto. Ben empurrou o cigarro
pela fresta e depois fechou bem a janela.
- Certo, ento ela se conduziu bem. O problema  que a imprensa vai ter isso para mastigar durante dias. A mdia tem um jeito peculiar de expor os malucos. - Ben
olhou os serenos prdios antigos atrs das serenas rvores antigas. Era o tipo de prdios de que ela fazia parte. O tipo que ele se habituara a ver de fora. - E,
porra, ela tem mesmo pernas fantsticas.
-  inteligente, tambm. O homem seguro sabe admirar a mente de uma mulher.
- Que  que voc sabe da mente de uma mulher? A ltima que namorou tinha o QI de um ovo mal cozido. E que bosta  essa que estamos ouvindo?
Ed sorriu, satisfeito por ter o parceiro de volta  rotina.
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- Tanya Tucker.
- Nossa!
Ben recostou-se no banco e fechou os olhos.

-PARECE SE SENTIR MUITO MELHOR HOJE, SRA, HALDERMAN.
- Ah, me sinto. Realmente, sim. - A morena bonita no se deitou no div nem se sentou numa poltrona, mas quase danava em volta do consultrio de Tess. Jogou um
casaco de zibelina sobre o encosto de uma poltrona e fez pose. - Que acha do meu novo vestido?
- Cai muito bem na senhora.
- Cai, no ? - A Sra. Halderman correu a mo pela l fina, debruada de seda. -Vermelho  to vistoso. Adoro mesmo chamar a ateno.
- Andou fazendo compras de novo, Sra. Halderman?
- Sim. - Ela deu um sorriso radiante, depois o rosto bonito, tipo boneca de porcelana, retraiu-se numa expresso de amuo, com um beicinho. -Ah, no fique aborrecida,
Dra. Court. Sei que disse que talvez eu devesse ficar longe das lojas por algum tempo. E fiquei mesmo. No vou  Neiman h quase uma semana.
- No estou aborrecida, Sra. Halderman - respondeu Tess, e viu o beicinho transformar-se em outro sorriso radiante. - Tem excelente gosto para roupas.
Um dado afortunado, pois Ellen Halderman era obsessiva. Via, gostava, comprava, com freqncia largando de lado e esquecendo-a aps us-la uma vez. Mas isso era
um problema pequeno. A Sra. Halderman tambm tinha a mesma rotina com homens.
- Obrigada, doutora. - Como uma menina, Ellen rodopiou num crculo para exibir a roda da saia. - Foi maravilhosa a diverso que tive fazendo compras. E voc teria
ficado orgulhosa de mim. S comprei duas roupas. Bem, trs - corrigiu, com um risinho. - Mas lingerie no conta, conta? Depois desci para tomar caf. Sabe
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aquele restaurante maravilhoso na Galeria Mazza, onde a gente ergue os olhos e v todas as pessoas e lojas?
- Sei.
Tess sentava-se ao canto da mesa. A Sra. Halderman olhou-a e prendeu o lbio inferior entre os dentes, no de vergonha nem ansiedade, mas de reprimido deleite. Ento
foi at uma cadeira e sentou-se com uma postura recatada.
- Eu tomava um caf. Tinha pensado em pedir um pozinho, mas, se no tiver cuidado com minha forma, as roupas no sero to divertidas. Tinha um homem sentado na
mesa ao lado. Ah, Dra. Court, eu soube assim que o vi. Nossa, meu corao simplesmente comeou a martelar. - Levou a mo ao peito, como se mesmo agora no fosse
possvel confiar no ritmo do corao. - Era to bonito. S um pouco grisalho bem aqui. - Tocou as pontas dos dedos nas tmporas, enquanto os olhos adquiriam aquela
luz suave, onrica, que Tess vira demasiadas vezes para contar. - Bronzeado, como se houvesse estado esquiando. Saint Moritz, pensei, porque  cedo demais para Vermont.
Tinha uma pasta de couro com um monograma de pequenas iniciais. No parei de tentar adivinhar o que representavam. M. W. - Suspirou ao diz-las, e Tess soube que
ela j trocava o monograma das toalhas de banho. - No sei dizer quantos nomes imaginei para se encaixarem naquelas iniciais.
- Correspondiam a que nomes?
- Maxwell  Witherspoon. No  um nome esplndido?
- Muito distinto.
- Ora, foi isso mesmo que eu disse a ele.
- Ento falou com ele.
- Bem, minha bolsa escorregou da mesa. - Ela levou os dedos aos lbios como para esconder um sorriso. - As garotas precisam ter um ou dois truques se quiserem encontrar
o homem certo.
- Voc empurrou a bolsa da mesa.
- Caiu bem junto aos ps dele. Era a minha bolsa bonita, de pele de cobra preta e branca. Maxwell se curvou para pegar. Quando
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me entregou, sorriu. Meu corao quase parou de bater. Foi como um sonho. Eu no ouvia a algazarra das outras mesas, nem via os compradores acima. Nossos dedos se
tocaram, e... oh, prometa que no vai rir, doutora.
- Claro que no.
- Foi como se ele tivesse tocado minha alma.
Era isso que ela temia. Tess afastou-se da mesa e sentou-se na cadeira defronte  paciente.
- Sra. Halderman, lembra de Asanti?
- Ele?
Torcendo o nariz, a Sra. Halderman desprezou o quarto marido.
-  Quando o conheceu na galeria de arte, sob o quadro de Veneza dele, achou que ele tinha tocado sua alma.
- Foi diferente. Asanti era italiano. Sabe como os italianos so espertos com as mulheres. Maxwell  de Boston.
Tess reprimiu um suspiro. Seriam cinqenta minutos muito longos.

QUANDO BEN ENTROU NA ANTE-SALA DO CONSULTRIO DE TESS, encontrou exatamente o que esperara. Um ambiente to sofisticado e elegante quanto o apartamento dela. Cores
calmantes, tons de rosa profundos, cinza esfumados, que deixavam os pacientes  vontade. As samambaias em vasos prximos s janelas tinham folhas midas, como se
tivessem acabado de ser borrifadas com gua. Flores frescas e uma coleo de estatuetas num armrio com vidraa mvel transmitiam mais a atmosfera de uma sala de
estar do que de uma sala de recepo. Pelo exemplar da Vogue deixado aberto numa mesa de centro, ele deduziu que a paciente atual era mulher.
No lhe lembrava o consultrio de outro mdico, com paredes brancas e cheiro de couro. Ele no sentiu o aperto na barriga nem o suor na nuca quando a porta se fechou
atrs de si. No iria esperar o irmo ali, pois Josh se fora.
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Sentada a uma arrumada mesa esmaltada, a secretria de Tess trabalhava com um laptop. Parou de digitar quando Ben e Ed entraram, e parecia to calma e agradvel
quanto a sala.
- Posso ajud-los?
- Detetives Paris e Jackson.
- Ah, sim. A Dra. Court aguarda os senhores. Est com uma paciente no momento. Se no se incomodam de esperar, posso lhes servir um caf.
- S gua quente.
Ed tirou um saquinho de ch do bolso.
A secretria no mostrou sequer um vacilo de reao.
- Claro.
- Voc  um constante mico pra mim - resmungou Ben, ao entrar numa pequena sala lateral.
-  No vou bombear cafena no meu organismo s pra ser socialmente aceitvel. - Com o saquinho de ervas pendendo da mo, ele olhou a sala em volta. - Que tal o lugar?
Classudo.
- E. - Ben deu outra olhada em volta. - Combina com ela.
- No sei por que isso lhe causa tanto problema - disse Ed com a voz tranqila ao examinar uma gravura de Monet, pr-do-sol na gua, apenas cores suavemente borradas
com um toque de fogo. Gostava dela, como gostava de arte, porque algum tivera a imaginao e o talento para cri-la. Suas opinies sobre a raa humana eram quase
as mesmas. - Uma mulher de classe e mente aguada no devia intimidar um cara com forte senso do prprio valor.
- Deus do cu, voc devia estar escrevendo uma coluna sentimental.
Nesse momento, a porta do consultrio de Tess se abriu. A Sra. Halderman saiu, a zibelina atirada sobre um brao. Vendo os homens, parou, sorriu, depois tocou com
a lngua o lbio superior, como faria uma menina ao ver uma tigela de sorvete de chocolate.
- Ol!
Ben enganchou os polegares nos bolsos da cala.
- Ol.
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- Esto esperando para ver a Dra. Court?
- Isso mesmo.
Ela ficou ali parada um instante, e ento arregalou os olhos ao examinar Ed.
- Ai, minha nossa, voc  grandalho, no? Ed engoliu uma pequena obstruo na garganta.
- Sim, senhora.
- Sou simplesmente fascinada por... homens grandes. - Cruzou a sala at ele, ergueu os olhos e adejou as pestanas. - Sempre me fazem sentir indefesa e feminina.
Qual  a sua altura, senhor...?
Rindo, com os polegares ainda enganchados nos bolsos, Ben dirigiu-se  porta de Tess e deixou Ed, para afundar ou nadar.
Sentada atrs da mesa, a cabea para trs, os olhos fechados, a doutora tinha os cabelos mais uma vez presos no alto, mas no parecia inacessvel. Cansada, ele pensou,
e no apenas fisicamente. Enquanto a observava, viu-a levar a mo  tmpora e comprimi-la no incio de uma dor de cabea.
- Parece que lhe faria bem uma aspirina, doutora.
Tess abriu os olhos. Tornou a erguer a cabea, como se no julgasse aceitvel descansar, a no ser em sua privacidade. Embora fosse pequena, a mesa no a apequenava.
Parecia totalmente adaptada ao mvel e ao diploma emoldurado de preto na parede atrs.
- No gosto de tomar plulas.
- S de receit-las?
Ela endireitou um pouco as costas curvadas.
- Vocs no esperaram muito tempo, esperaram? Preciso da minha pasta.
Quando ela comeou a levantar-se, ele se aproximou da mesa.
- Temos alguns minutos. Dia difcil?
- Um pouco. Voc?
- Nem cheguei a atirar em algum. - Ele pegou um pedao grande de ametista na mesa e passou-o de uma mo para a outra. - Queria dizer a voc que se saiu bem esta
manh.
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Ela pegou um lpis e correu-o pelos dedos, largando-o de novo. Parecia que o confronto seguinte seria adiado.
- Obrigada. Voc tambm.
Ben iou-se para o canto da mesa, descobrindo que podia relaxar no consultrio dela, psiquiatra ou no. No havia fantasmas ali, nem remorsos.
- Que acha das matins de sbado?
- Tenho a mente aberta a novas idias. Ele foi obrigado a rir.
- Imaginei que teria. Esto passando dois filmes clssicos de Vincent Price.
- Museu de Cera?
- E A Mosca da Cabea Branca. Interessada?
- Talvez. - Ela se levantou ento. A dor de cabea era apenas uma palpitao maante numa das tmporas, facilmente ignorada. - Se incluir pipoca.
- At pizza depois.
- Combinado.
- Tess. - Ele ps a mo no brao dela, embora ainda achasse intimidante o formal terninho cinza que ela usava. - Sobre ontem  noite...
- Achei que j tnhamos nos desculpado por isso.
- . - Ela no parecia cansada nem vulnervel agora, mas no controle. Intocada, intocvel. Ele recuou, ainda com a pedra de ametista na mo. Combinava com os olhos
dela. - J fez amor aqui?
Tess ergueu uma sobrancelha. Sabia que ele queria chocar ou, no mnimo, irrit-la.
- Informao privilegiada. - Ergueu a pasta do lado da mesa e rumou para a porta. - Vem?
Ele sentiu a compulso de enfiar a ametista no bolso. Irritado, largou-a com todo cuidado e seguiu-a porta afora.
Em p ao lado da mesa da secretria, tomando ch, Ed tinha o rosto to vermelho quanto os seus cabelos.
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-  A Sra. Halderman - ela disse a Tess. - Consegui acompanh-la com delicadeza at a porta antes que devorasse o detetive.
- Lamento profundamente, Ed. - Mas os olhos de Tess brilhavam. - Gostaria de se sentar um instante?
- No. - Ele disparou um olhar de advertncia ao parceiro.
- Uma palavra, Paris.
- No comigo. - Todo inocncia, Ben foi at a porta e segurou-a aberta. Quando Ed passou, Ben emparelhou-se com ele.
- Voc  o mximo, no?
- Tente me acompanhar.

MONSENHOR  TlMOTHY  LOGAN  NO  SE  ASSEMELHAVA    concepo infantil que Ben formara de um padre. Em vez de batina, usava um palet de tweed sobre um suter amarelo-claro
de gola rul. Tinha o rosto grande, largo, de um irlands, e cabelos ruivo-escuros apenas comeando a entremear-se com fios brancos. O escritrio no era o sossego
silencioso de uma reitoria com suas fragrncias um tanto santificadas e antigas madeiras escuras. Cheirava, em vez disso, a tabaco de cachimbo e poeira, como o pequeno
gabinete de trabalho de um homem comum.
No se viam quadros de santos nem do Salvador nas paredes, tampouco imagens de cermica da Virgem Maria com o rosto triste e compreensivo. Viam-se livros, dezenas
e dezenas, alguns de teologia, alguns de psiquiatria e vrios outros sobre pesca. No lugar de um crucifixo, pendia uma perca prateada montada num engaste.
Um suporte apoiava uma Bblia antiga de capa gravada; outra mais nova, embora mais manuseada, se abria na mesa, com um rosrio de gordas contas de madeira ao lado.
-  um prazer v-lo, monsenhor Logan.
Tess estendeu a mo  maneira de colega para colega, o que deixou Ben incomodado. O homem era um padre, de tweed ou no, e os padres deviam ser reverenciados, at
um pouco temidos, e respeitados.
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Os representantes de Deus, lembrou a me dizendo. Cuidavam dos sacramentos, perdoavam os pecados e absolviam os moribundos.
Um deles viera para Josh depois que j estava morto. Houve palavras de conforto, compaixo e bondade para a famlia, mas no absolvio. Suicdio. O mais mortal
dos pecados mortais.
- E voc, Dra. Court. - Logan tinha uma voz clara, estrondosa, que podia sem dificuldade encher uma catedral. Mas dela se desprendia um fio de rispidez que fez Ben
pensar num rbitro marcando um pnalti. - Compareci  palestra que fez sobre demncia. No pude falar com voc depois e dizer que a achei brilhante.
-  Obrigada, monsenhor. Estes so os detetives Paris e Jackson... chefiam a equipe de investigao.
- Detetives.
Ben aceitou o aperto de mos e sentiu-se tolo por esperar, mesmo que por um instante, algo mais que carne e osso.
- Por favor, fiquem  vontade. - Ele indicou cadeiras com um gesto. - Tenho seu perfil e relatrio na minha mesa, Dra. Court. - Contornou-a rpido, com os passos
livres e fceis de um homem num campo de golfe. - Li os dois esta manh e achei perturbadores e intuitivos.
- Concorda?
- Sim; com as informaes do relatrio do investigador, eu teria redigido um perfil reflexivo. Os aspectos religiosos so inegveis. Claro, as aluses e iluses
so comuns na esquizofrenia.
-Joana d'Arc ouvia vozes - murmurou Ben. Logan sorriu e juntou as mos largas e hbeis.
- Como inmeros santos e mrtires. Alguns talvez digam que um jejum de quarenta dias poderia fazer qualquer um ouvir vozes. Outros que eles foram escolhidos. Nesse
caso, podemos todos concordar que no estamos lidando com um santo, mas com uma mente muito perturbada.
- Sem a menor discusso quanto a isso - murmurou Ed, o caderno de anotaes na mo.
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Lembrou que se sentira um pouco... bem, espiritual, aps um jejum de trs dias.
- Como mdico e padre, vejo o ato do assassino como um pecado contra Deus, e um ato de extrema aberrao mental. Contudo, temos de lidar primeiro com a aberrao
mental, a fim de impedir que o pecado seja cometido de novo.
Logan abriu a pasta de Tess e tamborilou com o dedo sobre ela.
- Parece que os aspectos religiosos e as iluses esto enraizados no catolicismo. Tenho de concordar com sua opinio de que se poderia interpretar o uso do amicto
como arma assassina como um golpe contra a Igreja, ou de devoo a ela.
Tess curvou-se para a frente.
- Acha que ele poderia ser, ou ter sido, padre?
- Creio que  mais provvel que ele tenha tido formao religiosa. - A expresso de reprovao chegou devagar e pareceu alojar-se entre os olhos de Logan. - Outros
artigos do hbito de um padre seriam tambm eficazes para estrangulamento. O amicto  usado no pescoo, e por isso sinistramente preciso.
- E o uso do branco?
- Simboliza absolvio, salvao.
Sem perceber, estendeu as mos, as palmas viradas para a frente, no gesto milenar.
Tess concordou, assentindo com a cabea.
- Absolve um pecado. Contra si mesmo?
- Talvez. Mas um pecado que resulte na morte ou perda espiritual da mulher que ele continua a salvar.
- Ele se pe no papel de Cristo? Como Salvador? - perguntou Ben. - E atira a primeira pedra?
Como era um homem que no se apressava, prestava ateno em seu fundamento, Logan recostou-se e esfregou o lbulo da orelha.
- Ele no v a si mesmo como Cristo, pelo menos ainda no. Julga-se um trabalhador de Deus, detetive, e um trabalhador que sabe ser mortal. Toma precaues, protege-se.
Compreende que a sociedade no aceitaria sua misso, mas segue uma autoridade superior.
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- Vozes mais uma vez. Ben acendeu um cigarro.
- Vozes, vises. Para um esquizofrnico, so to reais, com freqncia at mais, que o mundo real. No se trata de dupla personalidade, detetive, mas de uma doena,
uma disfuno biolgica.  possvel que ele tenha essa enfermidade h anos.
- Os assassinatos comearam em agosto - salientou Ben. - Checamos com as divises de homicdio em todo o pas. No houve assassinatos com esse modo de operao.
Comeou aqui.
Embora o trabalho policial detalhado interessasse a Logan, no o influenciou.
- Talvez estivesse num perodo de recuperao e algum tipo de estresse desencadeou os sintomas de volta, resultando em violncia. No momento, dilacera-se entre o
que  e o que parece ser. Agoniza, e reza.
- E mata - disse Ben, sem rodeios.
- Eu no espero compaixo. - Logan, com os olhos escuros de padre e mos capazes, falou em voz baixa: - Este  meu territrio, e o da Dra. Court, e no pode ser
de vocs em suas atividades nesse caso. Nenhum de ns quer v-lo matar de novo, detetive Paris.
- O senhor no acha que ele tem a iluso de ser Cristo - interrompeu Ed, continuando a fazer anotaes metdicas. - Apenas porque toma precaues? Cristo foi destrudo
fisicamente.
- Uma excelente observao. -A voz clara de Logan adquiriu uma intensa sonoridade. No havia nada de que gostasse mais do que um dos alunos questionar suas teorias.
Logan desviou o olhar de um detetive para outro e decidiu que formavam uma boa dupla. - Mesmo assim, no o vejo como se considerando nada alm de um instrumento.
A religio, a estrutura, as barreiras, as tradies, assomam mais que a teologia. Ele mata como padre, seja ou no um. Absolve e perdoa como um representante de
Deus - continuou e viu Ben retrair-se. - No como o Filho de Deus. Elaborei uma teoria que voc no notou, Dra. Court.
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Ela prestou ateno no mesmo instante.
- Ahn?
Ele sorriu de novo, reconhecendo o orgulho profissional.
- Muito compreensvel. No  catlica, ?
- No - respondeu Tess.
- A equipe de investigao tambm ignorou isso.
- Eu sou metodista - respondeu Ed, ainda escrevendo.
- No estou apenas tentando puxar conversa. - Pegando o cachimbo, Logan comeou a ench-lo. Tinha dedos speros e largos, as unhas cortadas com esmero. Alguns flocos
de tabaco caram e grudaram em sua gola rol amarela. - A data do primeiro assassinato, 15 de agosto, tambm  de uma festa da Igreja Catlica.
- A Assuno - murmurou Ben, antes de perceb-lo.
- Sim.
Logan continuou a encher o cachimbo e sorriu. Ben lembrou-se de que respondia corretamente  pergunta no catecismo.
- Eu era catlico.
- Um problema comum - disse o monsenhor, e acendeu o cachimbo.
Sem sermo, nem carranca pontifcia. Ben sentiu os ombros relaxarem. A mente comeou a conferir.
- No relacionei uma data com a outra. Acha que isso  importante?
Com toda meticulosidade, Logan retirou tabaco do suter.
- Poderia ser.
- Lamento, monsenhor. - Tess ergueu as mos. - Ter de explicar.
- Quinze de agosto  o dia em que a Igreja reconhece a ascenso da Virgem Maria ao cu. A me de Deus era mortal, mas carregou o Salvador no tero. Ns a reverenciamos
como a mais abenoada e pura entre as mulheres.
- Pura - murmurou Tess.
- Do perfil em si, talvez eu no tivesse prestado muita ateno  data - continuou Logan. - Mas estimulou bastante minha imaginao
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para me levar a verificar o calendrio da Igreja. O segundo assassinato ocorreu no dia em que celebramos o nascimento de Maria.
- Ele est escolhendo os dias em que ela... me desculpe... Maria  homenageada pela Igreja?
Ed parou de escrever o tempo suficiente para erguer os olhos  espera de um reconhecimento.
-  O terceiro assassinato caiu na festa de Nossa Senhora do Rosrio. Acrescentei um calendrio  sua pasta, Dra. Court. No considero as probabilidades na proporo
de trs para trs uma coincidncia.
- Sim, concordo.
Ela levantou-se, ansiosa para ver por si mesma. Pegou o calendrio e examinou as datas em volta das quais o monsenhor fizera um crculo. Caa o crepsculo. Logan
acendeu a luz e o feixe luminoso brilhou sobre o papel nas mos dela.
- O prximo que tem aqui  s em 8 de dezembro.
- A Imaculada Conceio. - Logan soprou no cachimbo.
- Isso poria dois meses entre os assassinatos - calculou Ed. - Ele nunca levou mais de um ms.
- E no podemos ter certeza de que seja emocionalmente capaz de esperar tanto - acrescentou Tess num murmrio. - Poderia mudar o padro. Algum incidente talvez o
incite. Poderia escolher uma data particularmente significativa para ele.
- A data do nascimento ou morte de algum importante para ele. - Ben acendeu outro cigarro.
- Uma figura feminina. - Tess dobrou o calendrio. - A figura feminina.
- Concordo que o estresse sob o qual ele se encontra est se intensificando. - Logan largou o cachimbo e curvou-se para a frente. - A necessidade de libertar-se
talvez baste para faz-lo atacar mais cedo.
- Na certa, anda s voltas com algum tipo de dor fsica. - Tess deslizou o calendrio para dentro da pasta. - Enxaqueca, nusea.
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Se isso se tornar grande demais para que possa continuar a vida normal...
- Exatamente. - Logan tornou a juntar as mos. - Gostaria de poder ser mais til. Desejaria conversar sobre isso com voc de novo, Dra. Court.
- Enquanto isso, temos um padro. - Ben esmagou o cigarro ao levantar-se. - Vamos nos concentrar em 8 de dezembro.

-  NO PASSA DE UMA MIGALHA DE PO - DISSE BEN QUANDO saram num glido crepsculo. - Mas estou disposto a peg-la.
- Eu no percebi que voc era catlico. - Tess abotoou o casaco contra o vento que a aoitava. - Talvez isso seja uma vantagem.
- Eu era catlico. E, por falar em migalhas de po, est com fome?
- Morrendo.
- timo. - Ele passou o brao pelo ombro dela. - Ento podemos vencer Ed com a maioria dos votos. No est a fim de iogurte e brotos de alfafa, est?
- Ah...
- Ben vai querer parar e comprar um hambrguer gorduroso. O que o cara pe no estmago  revoltante.
-  Que tal comida chinesa? - Era a melhor concesso que ocorreu a Tess quando deslizou para dentro do carro. - Tem um pequeno restaurante, timo, bem perto do meu
consultrio.
- Eu disse que ela era classuda - animou-se Ed, tomando o assento do motorista. Prendeu o cinto de segurana e esperou com a pacincia dos sensatos e determinados
que Ben fizesse o mesmo. - Os chineses tm um razovel respeito pelo sistema digestivo.
- Claro, eles o mantm entulhado de arroz. - Ben olhou para trs e viu Tess j esparramada no banco traseiro, a pasta aberta. - Por favor, doutora, tire uma folga.
- S quero checar duas coisas.
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-J tratou de um viciado pelo trabalho?
Ela passou os olhos pelo arquivo e desviou-os para ele.
- Talvez eu decida que desejo iogurte, afinal.
- Tanya Tucker, no! - Ben apertou o boto de expelir a fita antes de o primeiro compasso da msica tocar. - Voc j se satisfez com ela esta manh.
- Eu desejo.
- Degenerado. Vou pr um... ah, merda, olhe ali. A loja de bebidas.
Ed reduziu a velocidade.
- Parece um cinco-zero-nove em andamento.
- Um o qu? - perguntou Tess. Endireitou-se no banco e tentou ver.
- Assalto em andamento. - Ben j desenganchava o cinto de segurana. - Volte ao trabalho.
- Assalto? Onde?
- Cad a radiopatrulha? - resmungou Ben ao estender a mo para o rdio. - Porra, eu s queria uma poro de porco agridoce.
- Porco  venenoso.
Ed soltou o prprio cinto. Ben ligou rpido o rdio.
- Unidade meia-zero. Temos um cinco-zero-nove em andamento na Terceira com Douglas. Quaisquer unidades disponveis. Levamos uma civil no carro. Ai, porra, ele est
saindo. Requisitando reforo. Criminoso dirigindo-se para o sul. Branco, mais ou menos um metro e oitenta, uns oitenta quilos. Jaqueta preta, cala jeans. - O rdio
chiou de volta. - , estamos atrs dele.
Ed acelerou o motor e contornou a esquina. Do banco de trs, Tess olhava, fascinada.
Viu o homem enrgico de jaqueta preta sair da loja de bebidas e seguir pela rua numa corrida lenta. Assim que se virou e viu o Mustang, desatou a correr.
- Merda, ele nos viu. - Ed retirou a grande luz vermelha giratria de emergncia e ps no capo. - Espere aqui, doutora.
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- Indo para o beco - informou Ed, sem se alterar.
Parou o carro, rabeando. Antes que Tess pudesse abrir a boca, os dois desceram dos lados opostos do carro e correram.
- Fique no carro! - gritou-lhe Ben.
Tess obedeceu por uns dez segundos. Batendo a porta atrs, correu tambm para a boca do beco.
Ed era maior, mas Ben, mais rpido. Enquanto Tess olhava, o homem a quem caavam enfiou a mo na jaqueta. Viu a arma e s teve um instante para imobilizar-se antes
de Ben agarr-lo pelos joelhos e derrub-lo numa fileira de latas de lixo. Ouviu-se um disparo acima do estardalhao de metal. Ela avanara metade do beco quando
Ben arrastou o homem e levantou-o. Viu sangue e sentiu o cheiro de comida podre das latas de metal esvaziadas sempre, mas raras vezes limpas. O homem no lutou,
na certa porque viu Ed e o distintivo da polcia na mo. Escarrou uma torrente de saliva tingida de sangue.
No era como na televiso, pensou Tess, olhando o homem que teria atirado na cara de Ben se o senso de oportunidade tivesse sido diferente. Nem como um romance.
Sequer como o noticirio das onze, no qual se reuniam impecavelmente e transmitiam os detalhes com acelerado distanciamento. A vida era cheia de becos e escarros
malcheirosos. A formao e o trabalho dela a haviam levado ali antes, mas apenas em termos emocionais.
Tess inspirou fundo, aliviada por no se sentir assustada, apenas curiosa. E talvez um pouco fascinada.
Com dois estalos, Ben algemou as mos do homem nas costas.
- No tem mais miolos pra saber que no deve atirar num agente da polcia?
- Tem graxa na sua cala - observou Ed com a arma na mo. Ben baixou os olhos e viu a longa marca do escorrego que corria do tornozelo ao joelho.
- Porra. Sou da homicdios, imbecil - anunciou na cara do prisioneiro. - No gosto de graxa na minha cala. - Repugnado,
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passou-o a Ed e retirou o distintivo. - Voc est preso, babaca. Tem o direito de permanecer calado. Tem... Tess, droga, no mandei que voc ficasse no carro?
- Ele tinha uma arma.
- Os bandidos sempre tm armas. - Olhando-a envolta num casaco de cashmere cinza-azulado, ele sentiu o cheiro de suor do ladro insignificante. Ela parecia a caminho
de um coquetel na rua das embaixadas. - Volte pro carro, aqui no  o seu lugar.
Ignorando-o, ela examinou o ladro. O homem tinha um arranho de bom tamanho na testa, onde batera no concreto. Isso explicava a expresso ligeiramente vidrada.
Concusso menor. A pele e o branco dos olhos exibiam um matiz amarelado. Suor brotava-lhe do rosto, embora o vento que atravessava o beco abaulasse a jaqueta.
- Parece que ele tem hepatite.
- Vai ter muito tempo pra se recuperar. - Ben ouviu as sirenes e olhou por cima do ombro dela. - A vem a cavalaria. Vamos deixar os policiais uniformizados lerem
os direitos dele.
Quando ele lhe tomou o brao, Tess abanou a cabea.
- Voc correu atrs do cara, e ele tinha uma arma.
- Foi assim mesmo - comentou Ben, puxando-a de volta do beco.
Exibiu o distintivo aos policiais uniformizados e continuou em direo ao carro.
- Voc no a sacou. Ele ia atirar em voc.
-  o que fazem os bandidos. Cometem o crime, ns vamos atrs deles, eles tentam se livrar.
- No aja como se fosse um jogo.
- Tudo  um jogo.
- Ele ia matar voc, e voc ficou furioso porque sujou a cala. Lembrado acerca do fato, Ben baixou mais uma vez os olhos para a mancha.
- O departamento tambm vai receber a conta. Graxa nunca sai.
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- Voc  louco.
-  uma opinio profissional?
Tinha de haver um bom motivo para ela sentir vontade de rir. Tess decidiu analisar isso depois.
- Vou elaborar uma.
- No se apresse.
A adrenalina do ato de agarrar o ladro ainda bombeava em Ben. Quando chegou ao carro, ele viu que havia um reforo de trs unidades para um marginal barato com
hepatite.
- Talvez todos sejam loucos. Vamos, sente-se aqui enquanto dou as informaes aos policiais uniformizados.
- Sua boca est sangrando.
- ? - Ele esfregou as costas da mo nos lbios e olhou a mancha. - . Talvez eu precise de uma mdica.
Ela tirou um leno de papel do bolso e aplicou-o de leve no corte.
- Talvez precise.
Atrs dos dois, o homem que haviam prendido comeou a xingar e um grupo de curiosos j se reunira.

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Captulo Seis
Nos dias seguintes, Tess debruou-se sobre o nmero dos casos tratados. Dias de oito e dez horas estenderam-se para doze e catorze. Ela adiou o habitual jantar de
sexta-feira com o av, coisa que jamais faria por um encontro marcado, apenas por um paciente.
A imprensa perseguia-a, junto com alguns dos colegas menos sensveis, como Frank Fuller. O fato de estar trabalhando com a polcia apenas acrescentou mistrio suficiente
para lev-lo a fazer hora diante do consultrio dela s cinco. Tess comeou a ficar  mesa de trabalho at as seis.
No tinha qualquer informao nova, apenas uma irritante sensao de preocupao. No demoraria muito para surgir outra vtima. Quanto mais achava que entendia a
mente do assassino, mais certeza tinha disso.
Mas foi Joey Higgins que a manteve acordada e inquieta at a madrugada de sbado, quando as ruas ficaram escuras, vazias e ela sentia os olhos arderem por excesso
de uso. Tess tirou os culos, recostou-se e esfregou-os.
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Por que no conseguia chegar a ele? Por que no abria uma brecha? A sesso naquela noite com Joey, a me e o padrasto fora um desastre. No houvera ataques de raiva,
gritaria, acusaes. Ela teria preferido assim, pois seria mais carregado de emoo.
O adolescente simplesmente ficou sentado, dando pseudo-respostas monossilbicas. O pai dele no telefonara. Tess vira a fria nos olhos da me, mas apenas inexpressiva
aceitao nos do filho. Joey continuava a insistir,  sua maneira contida, em que iria passar um fim de semana - o do Dia de Ao de Graas - com o pai.
Iria decepcionar-se. Ela apertou os dedos nos olhos at a ardncia reduzir-se a uma dor maante. E, quando se decepcionasse dessa vez, poderia ser a gota d'gua.
Joey Higgins era um candidato forte a bebidas, drogas ou destruio. Os Monroe viam apenas at a, permitiam-lhe ir apenas at a.  meno de tratamento hospitalar,
Tess fora interrompida. Joey s precisava de tempo, de uma estrutura familiar, s precisava de... Ajuda, ela pensou. Desesperadamente. No estava mais convencida
de que uma sesso semanal com ela levaria a alguma forma de progresso.
O padrasto, concluiu... talvez ela o fizesse entender. Talvez conseguisse faz-lo entender a necessidade de proteg-lo contra si mesmo. O passo seguinte, decidiu,
seria trazer Monroe ao consultrio em particular.
Nada mais se poderia fazer esta noite. Ela se curvou para fechar a pasta, olhando o lado de fora pela janela. Nas ruas vazias, um nico vulto lhe chamou a ateno.
Naquela parte de Georgetown, com as bem cuidadas orlas de flores ao longo das caladas, os velhos prdios de tijolos aparentes de arenito castanho-avermelhado no
combinavam com desabrigados ou errantes. Mas o homem parecia parado ali havia muito tempo. No frio, sozinho, de olhar levantado... Olhar para a janela dela, percebeu
Tess, e retirou-se automaticamente.
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Tolice, disse a si mesma, mas estendeu a mo para desligar o abajur da mesa. Ningum teria motivo de ficar parado na esquina de uma rua de olhos fixos em sua janela.
Mesmo assim, com as luzes apagadas, ela se levantou e foi at a borda da janela, afastando um pouco a cortina.
Ele continuava ali, apenas ali. Sem se mexer, mas olhando. Tess estremeceu com a idia tola de que olhava direto para ela, embora estivesse trs andares acima, numa
sala escura.
Um dos seus pacientes?, perguntou-se. Mas ela sempre fora to cuidadosa em manter o endereo de casa privado. Um reprter. Parte do medo diminuiu com o pensamento.
Era na certa um reprter, na esperana de um novo ngulo na matria. s duas da manh?, perguntou-se, e deixou cair a cortina.
No era nada, tranqilizou-se. Imaginara que ele olhava sua janela. Estava escuro, e ela, cansada. No passava de algum  espera de uma carona, ou...
No naquele bairro. Ia estender mais uma vez a mo para a cortina, mas no conseguiu convencer-se a afast-la.
Ele ia atacar de novo, em breve. No era essa a idia que a vinha perseguindo? Assustando-a? O homem sentia dor, presso, e tinha uma misso. Louras, vinte e tantos
anos, constituio fsica pequena a mdia.
Ela levou a mo  garganta.
Pare. Largando-a mais uma vez, tocou a bainha da cortina. Era fcil lidar com um pouco de parania. Ningum estava atrs dela, a no ser um psicanalista louco por
sexo e alguns reprteres famintos. Cansada pelo excesso de trabalho, imaginara coisas. Era hora de terminar a noite, servir uma taa de vinho branco gelado, ligar
o estreo e afundar numa banheira cheia de espuma.
Mas a mo tremia quando ela afastou a cortina para o lado.
A rua ficara vazia.
Quando deixou cair a cortina, perguntou-se por que isso no lhe trouxera paz de esprito.
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ELA O VIRA. ELE DE ALGUM MODO SOUBERA SOUBERA O momento em que ela concentrara os olhos nele parado na rua embaixo. O que vira? A salvao?
Quase soluando contra a dor de cabea, ele entrou em seu apartamento. O corredor estava escuro. Ningum jamais o via entrar ou sair. Nem ele receava que ela tivesse
visto seu rosto. Escuro e distante demais para isso. Mas vira a dor?
Por que ele fora l? Despiu o casaco e deixou-o cair amontoado. No dia seguinte, ele o penduraria direito e arrumaria o resto do apartamento, como era hbito, mas
nessa noite mal podia pensar acima da dor.
Deus sempre testava os justos.
Encontrou um frasco de Excedrina e mastigou duas plulas, acolhendo de bom grado o gosto seco e amargo. O estmago revirava-se com uma nusea que surgia agora toda
noite e prolongava-se pelas manhs. Ele vinha se entupindo de remdios de venda livre apenas para manter-se funcionando.
Por que fora l?
Talvez porque estivesse enlouquecendo. Talvez fosse tudo loucura. Estendeu a mo e observou o tremor. Se no se controlasse, todos iriam saber. No exaustor de alumnio
do fogo, que mantinha limpo de gordura e sujeira, como o haviam ensinado, viu seu reflexo distorcido. O colarinho eclesistico era branco sob o rosto emaciado.
Se o vissem agora, todos saberiam. Talvez fosse melhor. Ento poderia descansar, descansar e esquecer.
A dor varou-lhe a base do crnio.
No, no poderia descansar, nem poderia esquecer. Laura precisava que ele conclusse sua misso para que ela pudesse, enfim, encontrar a luz. No lhe pedira, implorara,
que ele rogasse perdo a Deus?
O Juzo Final fora rpido e implacvel para Laura. Ele amaldioara Deus, perdera a f, porm jamais esquecera. Agora, depois de
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todos esses anos, a Voz chegara, mostrara-lhe o caminho para a salvao dela. Talvez Laura tivesse de morrer repetidas vezes atravs de outra perdida, mas era rpido,
e toda vez havia absolvio. Logo acabaria para todos eles.
Indo para o quarto, ele acendeu as velas. A luz tremeluziu na foto emoldurada da mulher que ele perdera, e das que matara. Recortada com todo capricho e estendida
sob um rosrio preto, a foto da Dra. Teresa Court.
Ele orou em latim, como lhe fora ensinado.

BEN COMPROU UM PIRULITO, COM ESPIRAIS DE VERMELHO e amarelo. Tess aceitou-o na porta, deu-lhe uma examinada completa e balanou a cabea.
- Voc sabe desestabilizar uma mulher, detetive. A maioria dos homens escolhe chocolate.
- Comum demais. Alm disso, imaginei que voc na certa estava habituada ao tipo suo, e eu... - Interrompeu-se, consciente de que ia comear a falar desconexo se
ela continuasse a sorrir por cima de um pirulito. - Voc est diferente.
- Estou? Como assim?
- Os cabelos soltos. - Ele sentiu vontade de toc-los, mas sabia que no estava preparado. - E sem o duas-peas de sempre.
Tess baixou os olhos para a cala de l e o suter enorme.
- Em geral, no uso duas-peas pra uma sesso dupla de filme de terror.
- E no parece mais uma psiquiatra.
- Pareo, sim. S no me pareo com o conceito que voc faz de uma.
Ento ele, de fato, tocou-lhe os cabelos, apenas um pouco, num gesto ao mesmo tempo amistoso e cauteloso,
- Voc nunca se pareceu com o conceito que eu fao de uma psiquiatra.
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Esperando um instante para alinhar as idias, ela largou o pirulito na mesa, ao lado de uma travessa de porcelana de Dresden, e foi at o armrio pegar uma jaqueta.
- E qual  seu conceito?
- Algum plido, magro e careca.
- Huum.
A jaqueta era de camura e macia como manteiga. Ele segurou-a para ela enfiar os braos.
- Tambm no cheira a psiquiatra.
- Como cheira um psiquiatra? Ou ser que quero saber?
- A hortel e loo ps-barba English Leather. Ela virou-se para olh-lo.
- Isso  muito especfico.
- . Seus cabelos ficaram presos.
Ele enfiou a mo por dentro da gola da jaqueta dela e soltou-os. Avanou um passo, quase sem perceber, e manteve-a encostada na porta da frente. Ela ergueu o rosto,
com um cansao nos olhos que Ben j notara antes. Usava pouca maquiagem, a aparncia elegante, refinada, que tanto fazia parte de sua imagem, substituda por uma
afetuosa acessibilidade que um homem perspicaz reconhecia como perigosa. Ele sabia o que queria e sentiu-se  vontade com a impetuosa onda de desejo. O grau dessa
onda era outra histria. Quando se queria demais, rpido demais, pensou, era melhor acomodar as coisas devagar.
Tinha a boca perto da dela e continuava com a mo em seus cabelos.
- Gosta de manteiga na pipoca? - perguntou.
Tess no soube se ria ou xingava. Decidindo no fazer nenhuma das duas coisas, disse a si mesma que se sentia relaxada.
- Toneladas.
- timo. Ento no tenho de pagar por duas caixas. Est frio l fora - ele acrescentou, afastando-se dela. - Vai precisar de luvas.
Pegou as prprias, de couro preto arranhadas, e abriu a porta.
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- EU TINHA ESQUECIDO COMO ESSES FILMES ERAM ASSUSTADORES. -J escurecera quando Tess se acomodou no carro dele, saciada de pizza e vinho tinto barato. O ar era cortante,
aguilhoando-lhe as faces com a primeira investida do inverno, antes que ela entrasse no carro de Ben.
- Sempre apreciei a maneira como os policiais chegam  moa no Museu de Cera - ele comentou.
- Vincent s precisava de um bom analista - ela disse, a voz suave, enquanto Ben ajustava o rdio.
- Claro, e ele a teria jogado num barril, coberto de cera e transformado numa... - Virou a cabea para examin-la com olhos estreitados. - Helena de Tria, acho.
- Nada mal. - Tess franziu os lbios. - Claro, alguns psiquiatras talvez digam que voc, detetive Paris, a escolheu inconscientemente, pois se associa ao apaixonado
Paris, o prncipe de Tria que a levou para l.
- Como policial, eu no romantizaria o rapto.
- Que pena!
Ela deixou os olhos semifechados, sem se dar conta de como era fcil relaxar com ele. O aquecimento zumbia como acompanhamento da melanclica msica no rdio do
carro. Ela lembrou a letra e cantou-a mentalmente.
- Cansada?
- No, satisfeita. - To logo disse essas palavras, empertigou-se. -  provvel que eu tenha alguns pesadelos. Os filmes de terror so uma esplndida vlvula de
escape para as tenses reais. Garanto que ningum no cinema pensava no prximo pagamento de seguro nem na chuva cida.
Ele soltou uma risada animada ao sai: do es racionamento.
- Sabe, doutora, algumas pessoas talvez vejam isso apenas como diverso. No me pareceu que voc pensava em vlvula de
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escape quando abriu buracos no meu brao, nas cenas em que a herona corria em meio ao nevoeiro.
- Deve ter sido a mulher do outro lado.
- Eu estava sentado junto ao corredor.
- O brao dela chegava bem longe. Voc deixou passar a curva pro meu apartamento.
- No deixei passar. No a tomei. Voc disse que no estava cansada.
- No estou. - No sabia se j se sentira mais desperta ou mais viva. A msica parecia tocar sob sua pele, prometendo romance e extraordinria tristeza. Sempre julgara
o primeiro incompleto sem a segunda. - Vamos a algum lugar?
- Um lugarzinho onde a msica  boa e a bebida alcolica no  diluda.
Ela correu a lngua pelos lbios.
- Eu adoraria. - Entrava no clima de msica, alguma coisa em estilo blues, talvez, com a dor de um sax tenor. - Imagino que  um talento profissional voc ser to
conhecedor dos bares locais.
- Tenho conhecimento prtico. - Ele apertou o isqueiro do carro. - Voc no faz o tipo bar.
Interessada, ela o encarou. O perfil envolto em sombras fulgia intermitentemente s luzes da rua. Era estranho como ele s vezes parecia seguro, slido, o tipo de
homem que podia fazer uma mulher oferecer-se de bom grado se estivesse escuro. Depois a luz incidiu no rosto de outra forma e os planos e ngulos se destacaram.
Uma mulher podia correr dele. Ela afastou o pensamento. Tornara uma de suas normas de ao no analisar os homens com quem saa. Com demasiada freqncia, aprendia
mais do que desejava saber.
- Existe um tipo?
- Existe. - E ele conhecia todos. - Voc no . Saguo de hotel. Coquetis de champanhe no Mayflower ou no Hotel Washington.
- Agora, quem est traando perfis psicolgicos, detetive?
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- A gente tem de saber classificar as pessoas em meu ofcio, doutora.
Ele parou, manobrou e entrou numa vaga entre um triciclo Honda e uma caminhonete Chevette de carroceria aberta. Antes de desligar a chave, perguntou-se se cometia
um erro.
- Que  isso?
- Isso. - Ben retirou as chaves, mas as deixou tinindo na mo. -  onde eu moro.
- Ah.
- No tenho champanhe.
Deciso dela. Ela o entendia bem o suficiente para saber disso. O carro era quente e tranqilo. Seguro. No apartamento, ela no sabia o que esperar. Conhecia-se
bem o bastante para compreender como era raro correr riscos. Talvez fosse a hora.
- Tem usque escocs?
- Sim.
- Serve.
O ar bateu gelado assim que ela desceu do carro. O inverno no iria esperar o calendrio, imaginou, e tremeu de frio, pensando em outro calendrio, um com uma gravura
da Virgem Maria e o Filho. A pequena contrao de medo fizera-a olhar de um lado para outro da rua. Uma quadra adiante, os canos de escapamento de um caminho deram
uma exploso.
- Venha. - Ben parou na poa de luz de um poste de rua, que se refletia dos ngulos de seu rosto. - Est gelada.
- Estou.
Ela tremeu de novo quando ele lhe passou o brao pelo ombro.
Ben conduziu-a para dentro. Havia doze escaninhos de correspondncia numa parede. O tapete verde-claro era limpo, mas quase gasto. Sem vestbulos, nem guarda de
segurana  mesa da portaria, apenas um escuro lance de degraus.
- Sem dvida,  um prdio tranqilo - ela disse, quando subiram para o segundo andar.
- Quase todo mundo aqui cuida da prpria vida.
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Um fraco cheiro de comida flutuava no corredor quando ele parou para destrancar a porta. A luz acima cintilava bem fraca.
O apartamento era mais arrumado do que ela esperava. Mais do que apenas uma idia preconcebida de um homem que morava sozinho, compreendeu Tess. Ben parecia demasiadamente
relaxado e desleixado em outras reas para se dar ao trabalho de tirar a poeira ou colecionar revistas antigas. Ento decidiu que se enganara. A sala, apesar de
limpa, refletia seu estilo.
O sof destacava-se como a pea de moblia dominante. Longe de ser novo, era arredondado, com almofadas soltas. Um div Dagwood, pensou Tess, que simplesmente convidava
a gente a relaxar e tirar um cochilo. No lugar de quadro viam-se psteres. Danarinas de canc de Toulouse Lautrec, uma nica perna de mulher sobre um salto de dez
centmetros, tocada na coxa por renda branca. Um comigo-ningum-pode florescia num pote plstico de margarina. E livros, que quase enchiam uma das paredes. Maravilhada,
ela retirou um exemplar surrado em capa dura de A Leste do den. Quando Ben levou as mos aos ombros dela, Tess abriu a folha em branco no incio do volume.
- Para Ben. - Ela leu a caligrafia feminina, pontiaguda. - Beijo, beijo, Bambi. - Com uma expresso irnica, ela fechou-o. - Bambi?
- Sebo. - Ele tirou a jaqueta dela. - Lugares fascinantes. Jamais se sabe o que vai encontrar.
- Encontrou o livro ou Bambi?
- No importa.
Ben tirou-lhe o exemplar das mos e enfiou-o de volta na prateleira.
- Sabe que formamos uma imagem imediata de certos nomes?
- Sei. Usque puro, certo?
- Certo. - Uma faixa cinza passou zunindo e pousou numa almofada vermelha. - Gato, tambm? - Divertida, Tess aproximou-se para afagar o bichano. - Qual  o nome
dele?
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- Dela. Provou isso tendo gatinhos na banheira no ano passado. - A gata rolou de costas para Tess coar-lhe a barriga. - Eu a chamo de GM.
- Como em General Motors?
- Como em Gata Mentecapta.
-  um milagre ela no ter algum complexo.
Correndo mais uma vez as mos pela barriga arredondada da gata, Tess perguntou-se se devia avis-lo de que ela ia ter outra ninhada de presentes dali a mais ou menos
um ms.
- Ela se choca com as paredes. De propsito.
- Eu podia encaminhar voc a um excelente psiclogo de animais de estimao.
Ben riu, mas no teve certeza absoluta de que ela brincava.
- Acho melhor pegar as bebidas.
Quando ele entrou na cozinha, Tess se levantou para ver a vista da janela. As ruas no eram to sossegadas quanto no seu bairro. O trfego se movia num ritmo constante,
zumbindo e rosnando. Ele no ficaria longe da ao, pensou, e lembrou que no prestara a mnima ateno  direo que tomaram. Ela podia estar em qualquer lugar
na cidade. Esperou sentir-se inquieta e, em vez disso, teve uma sensao de liberdade.
- Eu prometi msica a voc.
Ela se virou e olhou-o. O suter simples, pardo, e a cala jeans desbotada caam-lhe muito bem. Agora seria tolice negar que desejava entend-lo.
- , prometeu.
Ben estendeu-lhe um copo e pensou como ela era diferente, e que aparncia diferente tinha de qualquer outra mulher que trouxera ali. Aquela classe discreta exigia
que o homem engolisse o desejo sexual e tomasse a pessoa inteira. Perguntando-se se estava pronto para isso, ele largou o prprio copo e conferiu os discos.
Quando ele colocou um no prato giratrio, Tess ouviu o calor metlico do jazz.
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- Leon Redbone - disse ela.
Ben abanou a cabea e virou-se para ela.
- Voc no pra de me surpreender.
- Meu av  um dos maiores fs dele. - Tomando um gole da bebida, ela se aproximou e pegou a capa do disco. - Parece que vocs dois tm muito em comum.
- Eu e o senador?
Ben riu e tomou um pouco de vodca.
-  srio. Voc tem de conhec-lo.
Conhecer a famlia de uma mulher era algo que ele associava a aliana de casamento e flores de laranjeira. Sempre as evitara.
- Que tal a gente... - O telefone tocou e ele praguejou, largando o copo. - Eu ignoraria, mas estou de planto.
- No tem de explicar essas coisas a uma mdica.
- . - Ben pegou o telefone ao lado do diva. - Paris. Ah, sim. Oi.
No era necessrio ser uma psiquiatra experiente para saber que havia uma mulher no outro lado da linha. Tess sorriu para a bebida e voltou a apreciar a vista.
- No, tenho andado ocupado. Escute, benzinho... - To logo saiu a palavra, Ben estremeceu. Tess continuava de costas para ele. - Estou mergulhado at o pescoo
num caso, sabe? No, no esqueci o... No esqueci. Escute, s vou poder voltar pra voc quando a barra aliviar. No sei, semanas, talvez meses. Voc devia tentar
mesmo aquele fuzileiro naval. Claro. At mais. - Desligou, pigarreou e pegou mais uma vez a bebida.-Nmero errado - explicou.
Era to fcil rir. Ela se virou, encostou-se no parapeito da janela e cedeu  vontade de faz-lo.
- Ah,  mesmo?
- Gostou disso, no?
- Imensamente.
- Se eu soubesse que iria se divertir tanto, teria convidado essa garota.
II9
- Ah, o ego masculino.
Com a mo cruzada no copo, ela tornou a erguer a bebida. Continuava rindo para ele. O humor no se desfez quando Ben se aproximou e tirou-lhe a bebida da mo. Retornara
a Tess a expresso afetuosa, acessvel. Ele sentiu a atrao, o perigo e a necessidade das duas coisas.
- Me alegra que esteja aqui.
- A mim tambm.
- Sabe, doutora... - Ele deixou os dedos brincarem nos cabelos dela. O gesto foi amistoso como antes, mas no to cauteloso. - Tem uma coisa que ainda no fizemos
juntos.
Tess recuou ao ouvir isso. Ele sentiu, embora ela no tivesse se afastado. Continuou brincando com os cabelos e puxou-a mais para perto.
- Danar - murmurou e colou a face na dela. Se o suspiro que ouviu foi de prazer ou alvio, no soube, mas sentiu-a quase relaxada junto a si. - Tem uma coisa que
notei em voc.
- O qu?
- Voc  agradvel. - Ele deslizou os lbios pelo ouvido dela, enquanto balanavam, mal saindo do lugar. - Muito agradvel.
- Ben...
- Relaxe. - Ele fez-lhe longas carcias acima e abaixo nas costas. - Outra coisa que notei  que voc no relaxa muito.
Tinha o corpo colado no dela, os lbios quentes grudados em sua tmpora.
- No momento, no  fcil.
- timo.
Ben gostava do cheiro daqueles cabelos, fresco e agradvel, sem o excesso de xampus, gel e laqu perfumados. Pela forma confortvel como o outro corpo se fundia
no seu, sentiu que ela no usava nada alm da pele sob o suter. Imaginou-a sem a camada de tecido e deixou que o calor se intensificasse.
- Sabe, doutora, no tenho dormido bem.
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Embora ela tivesse os olhos quase to prximos, no era por causa do relaxamento.
- Voc tem muita coisa na mente com esse caso.
- . Porm, tenho mais alguma coisa na mente.
- O qu?
- Voc. - Ele recuou um pouco. Olhos abertos e fixos nos dela, brincou com sua boca. - No consigo parar de pensar em voc. Acho que tenho um problema.
- Eu... o nmero de casos que atendo no consultrio est muito grande no momento.
- Sesses privadas. - Como desejara fazer a noite toda, ele deslizou as mos por baixo do suter e deixou que a pele dela o aquecesse. - A comear esta noite.
Tess sentiu a aresta de calos sob os dedos dele subindo pela espinha.
- No acho...
Mas ele a interrompeu com um beijo, uma demorada e vagarosa fuso de lbios que lhe fez disparar o corao. Uma hesitao nela golpeou-lhe o desejo. Ela fora um
desafio desde o incio, e talvez um engano. Ele pouco estava ligando.
- Fique comigo, Tess.
- Ben. - Ela se retirou dos braos dele, necessitando de distncia e controle. - Acho que estamos nos precipitando.
- Eu desejei voc desde o incio.
Embora no fosse o estilo dele admitir, esse no era o seu jogo habitual.
Ela correu a mo pelos cabelos. Pensou na dedicatria do livro, no telefonema.
- No encaro o sexo de forma leviana, no posso.
- No estou encarando voc de forma leviana. Quisera poder. Na certa,  um engano. - Olhou-a mais uma vez, frgil, delicada, elegante. No seria, nem poderia ser,
apenas uma ficada, nem uma noitada rpida e inconseqente, sem repercusses matinais. - No ligo a mnima, Tess. - Decidido, mas de algum modo menos seguro
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de si, avanou um passo para emoldurar o rosto dela com as mos. - No quero passar mais uma noite sem voc. - Curvou-se para beij-la. - Fique.
Acendeu velas no quarto. A msica parara e tudo ficou to silencioso que ela julgou ouvir o eco do silncio. Tremia e quantidade alguma de sermes a si mesma sobre
a necessidade de ser adulta e fazer as prprias escolhas acabaria com o tremor. Os nervos a trituravam. As necessidades se misturaram a eles at se tornarem a mesma
coisa. Ben aproximou-se e abraou-a bem junto de si.
- Voc est tremendo.
- Me sinto como uma colegial.
- Isso ajuda. - Ele enterrou o rosto nos cabelos de Tess. - Estou morto de medo.
- Est?
Com um sorriso nos lbios, ela levou as mos ao rosto dele e empurrou-o.
- Me sinto, no sei, como um garoto no banco de trs do Chevy do pai que vai puxar as primeiras alas de suti. - Ele ps as mos nos pulsos dela um instante, para
impedir-se de toc-la. - Jamais houve algum como voc. No paro de temer que eu v dar o passo errado.
Nada do que ele dissesse a teria tranqilizado mais. Ela trouxe o rosto dele para junto do seu. Os lbios dos dois se encontraram, apenas uma mordidela, apenas um
teste que ameaava intensificar-se numa mordida faminta.
- At aqui, tudo bem - ela murmurou. - Faa amor comigo, Ben. Eu sempre quis voc.
Ele manteve os olhos fixos nos dela ao puxar pela cabea o volumoso suter. Ento os cabelos caram avolumados nos ombros nus. Luar e luz de vela iluminavam-lhe
a pele. Ele reconheceu as prprias sombras nela.
Tess nunca se sentia segura de si mesma nesse nvel com um homem. Hesitou ao comear a retirar-lhe o suter. Sob o agasalho, o
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torso era magro e firme. Uma medalha de So Cristvo pendia acima do esterno. Ela correu o dedo pela imagem e sorriu.
-  s pra dar sorte - explicou Ben.
Sem nada dizer, ela colou os lbios nos ombros dele.
- Voc tem uma cicatriz aqui.
-  antiga.
Ele soltou o boto de presso da cala de Tess, que passou o polegar pela cicatriz.
- Uma bala - ela percebeu, e desprendeu-se um entorpecido horror de sua voz.
-  antiga - repetiu Ben, puxando-a para a cama. Deitou-a por baixo, os cabelos resplandecentes na colcha escura, os olhos pesados, os lbios separados. - Eu queria
voc aqui. No sei dizer o quanto, nem com que freqncia.
Ela ergueu o brao e tocou-lhe o rosto com as pontas dos dedos. Ao longo do contorno do maxilar sentiu o incio da barba. Abaixo, logo acima do batimento do pulso,
a pele era macia.
- Voc pode me mostrar.
Quando Ben riu, Tess descobriu que estava relaxada e  sua espera.
A experincia de Ben podia ser maior, mas a necessidade, no. A dela, embora mantida sob rgido controle e madura, agora que fora liberada, aflorava faminta. Rolaram
na cama, midos e nus, esquecendo o civilizado, o comum.
A colcha amarrotava-se e embolava-se sob os dois. Ben xingou-a, arrancou-a e puxou-a para cima de si. Os seios dela eram pequenos e alvos. Ele pegou um, depois os
dois, nas mos em concha. Ouviu o murmrio de prazer, viu os olhos ao mesmo tempo se fecharem. Ento ela j o puxava para si, a boca sedenta como em febre.
A inteno de trat-la como uma dama, com carinho e delicadeza, foi abandonada quando ela o envolveu com os braos e as pernas. Ali, Tess no era a fria e classuda
Dra. Court, mas uma mulher to passional e exigente quanto qualquer homem poderia querer. Tinha
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a pele macia, frgil ao toque, mas escorregadia de desejo. Ele deslizou a lngua por ela, sedento dela.
Tess arqueou colada nele, deixou as necessidades, fantasias e paixes obterem o que queriam. S importava o que acontecia ali, naquela hora. O que existia l fora
se tornara remoto, distante. Ele era real, vital e importante. O resto do mundo podia esperar.
A luz da vela tremeluziu, consumiu-se e apagou-se.
Horas depois, Ben acordou com frio, a colcha embolada aos ps da cama. Tess enroscara-se numa bola, ao lado. Ele se levantou e puxou as cobertas sobre ela. At a
lua se fora. Por algum tempo, ele apenas ficou parado em p junto  cama olhando-a dormir. A gata entrou devagar no quarto quando Ben saiu em silncio.
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Captulo Sete
Mdicos e policiais. As pessoas das duas profisses sabiam que raras vezes teriam um dia que comeasse s nove horas e terminasse s cinco. Entendiam que haviam
escolhido uma carreira em que o divrcio e os ndices de esgotamento mental so altos, as exigncias, muitas, e os danos emocionais, extremos. Telefonemas estragam
jantares, sexo e sono. Isso faz parte da descrio do trabalho.
Quando o telefone tocou, Tess estendeu automaticamente a mo. E pegou um coto de vela. No outro lado da cama, Ben praguejou, derrubou um cinzeiro e encontrou o aparelho.
- , Paris. - No escuro, esfregou a mo no rosto, como para expulsar o sono. - Onde? - Na mesma hora desperto, acendeu o abajur. Enroscada na barriga de Tess, a
gata grunhiu uma queixa e saltou para o lado quando ela se apoiou nos cotovelos. - Segure-o a. J estou indo.
Ben desligou o telefone e fitou a leve camada de gelo na janela.
- Ele no esperou, no foi?
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A luz bateu-lhe brusca no rosto quando se virou para olh-la. Ela teve um estremecimento involuntrio, rpido, ao ver aqueles olhos duros - no exaustos, nem pesarosos,
mas duros.
- No, no esperou.
- Pegaram ele?
- No, mas parece que temos uma testemunha. - Ao rolar fora da cama, ele pegou a cala jeans. - No sei quanto tempo vou demorar, mas pode esperar aqui, dormir mais
um pouco. Ponho voc a par quando... Que est fazendo?
Ela levantou-se no outro lado da cama e pegou o suter.
- Vou com voc.
- Esquea. - Embora as pernas desaparecessem na cala, ele deixou-a aberta enquanto puxava uma gaveta tambm  procura de um suter. - Voc no pode fazer nada no
local de um crime, alm de atrapalhar. - No espelho acima da cmoda, viu-a erguer de repente a cabea. - No so nem cinco horas, pelo amor de Deus. Volte para a
cama.
- Ben, estou envolvida nesse caso.
Ben virou-se. Ela usava apenas o suter que lhe roava as coxas, fazendo-o lembrar que o material era grosso e macio quando o retirara dela. Tinha a cala embolada
nas mos e os cabelos amarfanhados do travesseiro, mas era a psiquiatra, no a mulher, que o encarava. Alguma coisa dentro dele se azedou. Enfiou com violncia o
suter e dirigiu-se ao armrio para pegar o coldre de ombro.
- Trata-se de um homicdio. No  como olhar algum bem maquiado para jazer num caixo.
- Eu sou mdica.
- Sei o que voc .
Ele checou a arma e prendeu o coldre.
- Ben,  possvel que eu veja alguma coisa, algum detalhe, que me d uma pista para a mente do assassino.
- Foda-se a mente do assassino.
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Sem nada dizer, ela sacudiu a cala, vestiu-a e prendeu o boto de presso.
- Eu entendo como se sente, e lamento.
- ? - Ele sentou-se para calar as botas, mas continuou a encar-la. - Acha que sabe como me sinto? Bem, me deixe dizer mesmo assim. Tem uma mulher morta a poucos
quilmetros daqui. Algum ps uma estola no pescoo dela e apertou at ela no poder mais respirar. Ela esperneou, puxou a estola com as mos e tentou gritar, mas
no teria condies de fazer isso. Continua sendo uma pessoa. Durante mais algum tempo, continua sendo uma pessoa.
Ela teria estendido a mo para Ben, se achasse que havia uma chance de ele aceit-la. Em vez disso, afivelou o cinto e manteve a voz neutra:
- No acha que eu entendo?
- No tenho certeza se entende.
Os dois examinaram-se por mais um instante, cada um dedicado, frustrado e vindo de diferentes formaes e crenas. Foi Tess quem aceitou isso primeiro.
- Ou vou com voc agora, ou ligo para o prefeito e chego cinco minutos depois. Mais cedo ou mais tarde, vai ter de comear a trabalhar comigo.
Ele acabara de passar a noite com aquela mulher. Flura nela trs vezes durante a noite. Sentira o corpo de Tess balanar, corcovear e tremer. Agora falavam de assassinato
e poltica. A feminilidade, a suavidade e at a timidez que ele levara para a cama continuavam presentes, mas por baixo se via o mago de dureza, uma presena de
esprito que ele reconhecera desde o incio. Examinando-a, viu que ela iria, no importava o que ele dissesse ou fizesse.
- Tudo bem. Venha comigo e d uma olhada bem de perto. Talvez, depois que a vir, pare de deixar o corao sangrar pelo homem que a liquidou.
Ela curvou-se para pegar os sapatos. Embora a cama estivesse entre eles, era como se jamais a houvessem partilhado.
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- Suponho que de nada adianta lembrar a voc que estou do seu lado. - Ele pegou a carteira e o distintivo e nada disse. Tess viu os seus brincos na mesinha-de-cabeceira,
uma pequena coisa de grande intimidade. Apanhou-os e enfiou-os no bolso. -Aonde vamos?
- Um beco perto da Vinte e Trs com a M.
- Vinte e Trs com a M? Fica apenas a duas quadras do meu apartamento.
Ele no se deu ao trabalho de olh-la.
- Eu sei.

AS RUAS ESTAVAM DESERTAS. OS BARES TERIAM FECHADO  uma da manh. A maioria das festas particulares terminara por volta das trs. Washington era uma cidade de polticos
e, embora os locais noturnos variassem da elite aos pobres, no tinha a energia de uma Nova York ou Chicago. Os traficantes de droga ao redor da Dcima Quarta com
a U tinham um estilo de vida  parte. At as prostitutas teriam dado por encerrada a noite.
De vez em quando, as folhas que haviam cado corriam pela calada e paravam, vtimas do vento espordico. Eles passavam por fachadas de lojas e butiques vazias com
suteres de non nas vitrinas. Ben acendeu um cigarro e deixou o sabor conhecido de tabaco da Virgnia aliviar parte da tenso.
Ele no a queria ali. Mdica ou no, no queria que ela participasse da desesperanada feira daquela parte de seu trabalho. Podia partilh-lo na elaborao da papelada,
no encaixe do quebra-cabea, na lgica passo a passo de uma investigao, mas ela no devia estar ali.
Eu tinha de estar aqui, pensou Tess. Chegara a hora de enfrentar os resultados, e talvez, apenas talvez, ter um melhor entendimento da motivao. Era mdica. O fato
de no ser uma mdica que cutucava com os dedos o corpo humano no tinha a menor importncia. Passara por uma formao profissional, era competente e entendia a
morte.
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Viu as luzes azuis e vermelhas da primeira radiopatrulha e comeou a disciplinar a respirao em longas inspiraes e demoradas expiraes.
Isolaram-se com corda o beco e vrios metros de todos os lados, embora no houvesse ningum nas ruas ao pr-amanhecer. Radiopatrulhas paradas piscavam as luzes com
o rdio ligado. Uma comunidade de trabalhadores j se achava dentro da rea oficial.
Ben parou junto ao meio-fio.
- Fique comigo - disse a Tess, mas ainda sem olh-la. - Temos um programa de ao contra civis que vagam perto dos locais de crime.
- No pretendo atrapalhar voc. Pretendo fazer apenas meu trabalho. Vai descobrir que sou to boa no meu quanto voc no seu.
Ela abriu a porta e quase se chocou com Ed.
- Me desculpe, Dra. Court. - As mos de Tess estavam geladas. Ele esfregou-as sem pensar. - Vai precisar pr as luvas.
Ed enfiou as prprias mos nos bolsos e olhou para Ben.
- Que temos?
- Os rapazes do laboratrio esto ali agora. Sly est fazendo fotos. - A respirao dele saa num vapor branco cheio de vento. Embora j tivesse as pontas das orelhas
vermelhas de frio, esquecera de abotoar o casaco. - Um garoto a encontrou s quatro e meia. Os policiais uniformizados ainda no conseguiram muita coisa dele. Andou
ocupado demais vomitando quase metade de uma embalagem de seis cervejas. - Tornou a olhar para Tess. - Desculpe.
- No se desculpe - disse Ben, curto e grosso. - Ela vai lhe lembrar que  mdica.
- O capito vai participar deste.
- Fantstico. - Ben atirou a guimba do cigarro na rua. - Vamos ao trabalho.
Dirigiram-se ao beco, passando por uma radiopatrulha, onde algum sentado no banco de trs chorava. Tess olhou, atrada pelo rudo de desespero. Ento roou o brao
no de Ben e seguiu em
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frente. Um cara baixinho com culos de aro de chifre e uma cmera adiantou-se. Pegou um leno grande azul e esfregou o nariz.
-  toda sua. Pegue o cara, em nome de Deus. No quero fotografar mais louras mortas. A gente precisa de um pouco de variedade no trabalho.
- Voc  um grande pndego, Sly. - Ben esbarrou de leve nele ao passar, deixando o fotgrafo a assoar o nariz no leno.
Mal haviam avanado alguns passos no beco quando o cheiro da morte se elevou. Todos reconheciam aquele cheiro amargo, ftido, ao mesmo tempo ofensivo e misteriosamente
irresistvel para os vivos.
O cadver esvaziara-se. O sangue assentara-se. Os braos haviam sido dobrados com esmero sobre o corpo, mas ela no parecia em paz. Cega, tinha os olhos bem abertos.
Via-se uma mancha de sangue coagulado no queixo. Dela prprio, pensou Tess. Em algum momento durante a luta para viver, ela fincara os dentes no lbio inferior.
Usava um casaco de l resistente de tecido cor-de-azeitona. O amicto branco destacava-se de forma incisiva sobre a pea de vesturio. Fora retirado do pescoo,
onde j se haviam formado hematomas, e estendido sobre os seios.
O bilhete pregado ali, com a mesma mensagem:
Seus pecados lhe so perdoados.
Mas dessa vez as letras no haviam sido estampadas com capricho. Eram oscilantes e o papel um pouco enrugado, como se as mos do criminoso o houvessem amassado.
A palavra pecados grafada maior que o resto, os traos mais escuros, quase atravessando o papel. Tess agachou-se ao lado do cadver para dar uma olhada mais de perto.
Um grito de socorro?, perguntou-se. Seria uma splica a algum para impedi-lo de pecar de novo? A caligrafia trmula parecia um desvio, por mais leve que fosse,
da rotina. Para Tess, isso significava que ele vinha perdendo o controle, talvez duvidando de si mesmo at quando realizava sua misso.
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No tivera tanta certeza dessa vez, ela concluiu. A mente dele tornava-se um acmulo de obstrues de pensamentos, lembranas e vozes. Devia estar apavorado, pensou
a psiquiatra, e quase com certeza fisicamente doente a essa altura.
O casaco da vtima fora deixado aberto e no fechado com esmero. No havia brisa suficiente no beco para abri-lo por inteiro. Por isso ele no o arrumara, como fizera
com as roupas das outras. Talvez no houvesse tido condies.
Ento ela viu o broche de lapela na l verde, um corao de ouro com o nome Anne gravado dentro em arabesco. Uma onda de piedade inundou-a, por Anne e pelo homem
que fora impelido a mat-la.
Ben viu como ela examinava o corpo, com olhar clnico, imparcial, sem repulsa. Quisera proteg-la da realidade da morte, mas tambm obrig-la a encar-la at ela
chorar e correr para o outro lado.
-  Se j se permitiu uma boa examinada, Dra. Court, que tal recuar e nos deixar fazer nosso trabalho?
Ela ergueu os olhos para ele e ento se levantou devagar.
- O assassino est quase liquidado. No creio que ter condies de agentar muito mais.
- Diga isso a ela.
- O garoto vomitou pra tudo que  lado - comentou Ed, com o ar meio inconseqente, e respirou pela boca para tentar combater o fedor. Com um lpis, abriu a carteira
da mulher, que cara da bolsa. - Anne Reasoner - disse, lendo a carteira de motorista. - Vinte e sete anos. Mora a uma quadra daqui, na M.
Uma quadra dali, pensou Tess. Uma quadra mais prxima de seu prprio apartamento. Comprimiu os lbios e desviou o olhar at o medo passar.
-  um ritual - disse, com bastante clareza. - A julgar por tudo que li, ritual, ritos e tradies fazem parte da Igreja catlica. Ele tem realizado o prprio ritual
aqui, salvando essas mulheres, absolvendo e deixando-as com isso. - Indicou o amicto. - O smbolo
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da salvao e absolvio. Dobra o amicto exatamente da mesma maneira todas as vezes. Posiciona o corpo delas exatamente da mesma maneira. Mas dessa vez no arrumou
as roupas.
- Dando uma de detetive?
Tess fechou as mos nos bolsos, esforando-se para ignorar o sarcasmo de Ben.
- Trata-se de devoo, cega devoo  Igreja, obsesso com o ritual. Mas a caligrafia mostra que ele est comeando a questionar o que tem feito, o que  impelido
a fazer.
- Que timo! - Uma raiva irracional pela falta de reao emocional dela desatou-se dentro do detetive. Deu-lhe as costas e curvou-se sobre o corpo. - Por que no
vai para o carro e escreve isso? No vamos esquecer de transmitir sua opinio profissional  famlia dela.
No viu a expresso no rosto de Tess, a rpida mgoa logo seguida pela lenta raiva que lhe aflorou nos olhos. Mas ouviu-a afastar-se.
- Meio grosso com ela, no?
Ben tambm no olhou para o parceiro, mas para a mulher que fora Anne. Ela encarava-o de volta. Servir e proteger. Ningum protegera Anne Reasoner.
- O lugar dela no  aqui - murmurou, e pensava tanto em Anne Reasoner quanto em Tess. Abanou a cabea, ainda examinando a pose quase santificada do corpo. - Que
fazia no beco no meio da noite?
Um beco perto, perto demais, droga, do apartamento de Tess.
- Talvez no estivesse aqui.
Unindo as sobrancelhas, Ben ergueu um dos ps da vtima. Ela usava mocassins. Desses que duram por toda a faculdade, o primeiro casamento e o divrcio. O couro caa
no p dela como luva e era bem polido. A sola fora recm-raspada e cortada.
- Ento ele a matou na rua e arrastou at aqui. - Ben olhou para Ed, quando o parceiro se agachou e examinou o outro sapato. - Ele a estrangulou na rua, porra. Temos
postes de luz a apenas
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malditos trs metros uns dos outros neste bairro. Temos radiopatrulhas percorrendo  velocidade de cruzeiro de trinta em trinta minutos e ele a mata em plena rua.
- Olhou as mos dela. Tinha unhas compridas e bem modeladas, apenas trs quebradas. O esmalte cor-de-coral sem uma lasca. - Parece que no ofereceu muita resistncia.

A LUZ TORNAVA-SE CINZA, UM CINZA LEITOSO, QUE PROMETIA cus nublados e fria chuva outonal. O amanhecer flutuava acima da cidade sem beleza alguma. Manh de domingo.
As pessoas dormiam. Os remanescentes curtiam a ressaca. Os primeiros servios eclesisticos logo comeariam com as congregaes estonteadas pelo fim de semana.
Tess encostou-se no cap do carro de Ben. A jaqueta de camura no era quente o bastante no glido amanhecer, mas ela se sentia inquieta demais para entrar. Viu
um homem redondo com crach de mdico e cala de pijama por baixo de um ondulado casaco dirigir-se ao beco. O dia do mdico-legista comeara cedo.
De algum lugar, a quadras de distncia, chegava o rangente rudo de um caminho trocando de marcha. Um dos policiais uniformizados trouxe um grande copo de isopor
com o vapor e o aroma de caf elevando-se da superfcie, e entregou-o ao vulto no banco de trs da radiopatrulha.
Tess olhou mais uma vez em direo ao beco. Contivera-se, tranqilizou a si mesma, embora o estmago agora se revirasse como reao. Fora profissional, como se prometera.
Mas no esqueceria Anne Reasoner por um longo tempo. A morte no  uma estatstica impressa de forma primorosa quando a olhamos de frente.
Ela deve ter se debatido, puxado a estola com as mos e tentado gritar.
Tess inspirou com tanta fora que o ar lhe machucou a garganta, esfolada de engolir a nusea. Era mdica. Repetiu isso vrias vezes, at o espasmo no estmago acalmar-se.
Fora formada para lidar com a morte. E tinha de lidar.
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Virando-se de costas para o beco, deparou-se com a rua vazia. A quem tentava enganar? Lidava com desespero, fobias, neuroses e at violncia, mas nunca ficara frente
a frente com a vtima de um assassino. Tinha uma vida ordenada, protegida, porque se certificava de que assim fosse. Paredes em tom pastel, perguntas e respostas.
At as horas na clnica eram amenas, comparadas com a violncia cotidiana nas ruas da cidade onde morava.
Sabia tudo sobre a feira, violncia e perverso, mas sempre se separara nitidamente de tudo isso por sua prpria formao. Neta de senador, brilhante universitria
e mdica de sangue-frio. Tratara dos indefesos, desesperanados e deplorveis, mas nunca se ajoelhara ao lado de uma pessoa assassinada.
- Dra. Court?
Ela se virou e viu Ed. Por instinto, olhou atrs dele e viu Ben falando com o mdico-legista.
- Consegui um pouco de caf pra voc.
- Obrigada.
Tess pegou o copo e tomou devagar.
- Quer uma rosquinha?
- No. - Ela ps a mo na barriga. - No.
- Saiu-se bem l.
O caf se assentou e pareceu disposto a permanecer no estmago. Olhando por cima do copo, Tess encontrou os olhos dele. Ed entendeu, percebeu, sem condenar nem sentir
pena.
- Espero jamais ter de voltar a fazer isso.
Um grande saco de plstico foi retirado do beco. Ela se viu sem condies de v-lo ser carregado na caminhonete do necrotrio.
- Nada nunca se torna mais fcil - murmurou Ed. - Por algum tempo, cheguei a desejar que se tornasse.
- No deseja mais?
- No. Imagino que, se ficar mais fcil, significa que perdemos a agudeza que nos faz querer descobrir por qu.
Ela assentiu com a cabea. O bom senso e a compaixo naturais na tranqila voz dele eram calmantes.
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- H quanto tempo voc e Ben so parceiros?
- Uns cinco anos, quase seis.
- Combinam um com o outro.
- Estranho, eu pensava a mesma coisa sobre vocs dois.
Ela deu uma risada baixa, sem humor.
- H uma diferena entre atrao e compatibilidade.
- Talvez. E tambm entre obstinao e idiotice. - Ele continuou com o olhar afvel quando ela virou a cabea. - De qualquer modo, Dra. Court - continuou, antes que
ela tivesse chance de reagir -, eu tinha esperana de que voc pudesse conversar com a testemunha por alguns minutos. Ele est muito abalado, e no vamos chegar
a lugar algum.
- Tudo bem. - Ela indicou a radiopatrulha. - E ele no carro, no?
- . Chama-se Gil Norton.
Tess foi at o carro e agachou-se diante da porta aberta. Gil pouco passava de um garoto, ela avaliou. Vinte anos, talvez vinte e dois. Tremia e engolia caf, o
semblante plido, com um acentuado rubor nas mas do rosto. Tinha os olhos inchados de chorar e batia os dentes. Deixara mossas com os polegares nos lados do copo
de isopor. Cheirava a cerveja, vmito e terror.
- Gil?
Aps um sobressalto, ele virou a cabea. Ela no teve a menor dvida de que o rapaz se achava totalmente sbrio agora, mas viu um pouco de branco demais em volta
das ris e as pupilas dilatadas.
- Sou a Dra. Court. Como se sente?
- Quero ir pra casa. Eu vomitei, meu estmago di. Desprendeu-se um trao da lamurienta autocomiserao de um embriagado em cujo rosto se jogou gua fria. Por baixo,
puro medo.
- Encontrar a moa deve ter sido muito apavorante.
- Eu no quero falar disso. - Ele contraiu a boca numa fina linha branca. - Quero ir pra casa.
- Eu ligo pra algum se voc quiser. Sua me?
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Lgrimas comearam a brotar mais uma vez dos olhos do jovem. As mos tremeram at agitar o caf no copo.
- Gil, por que no sai do carro? Talvez se sinta melhor no ar fresco.
- Quero um cigarro. Fumei todos os meus.
- A gente arranja um.
Ela estendeu a mo. Aps uma hesitao momentnea, ele tomou-a. Fechou os dedos nos dela como um torno.
- No quero falar com os tiras.
- Por qu?
- Eu devia ter um advogado. No devia ter um advogado?
- Tenho certeza de que pode ter se quiser, mas voc no est em apuros, Gil.
- Eu a encontrei.
- Sim. Aqui, me deixe levar isso.
Com toda delicadeza, ela pegou o copo de caf pela metade, antes que ele derrubasse o restante nas calas. - Gil, precisamos que voc diga o que sabe para podermos
encontrar quem a matou.
O adolescente olhou em volta e viu os uniformes azuis, as expresses impassveis.
- Eles vo sentar o pau em mim.
-  No. - Ela falou com calma, j se antecipando a ele. Mantendo-se bem junto do rapaz, comeou a conduzi-lo em direo a Ben. - Eles no acham que voc a matou.
- Eu sou fichado. - Gil disse isso num sussurro trmulo. - Deteno por porte de droga ano passado. S um baseado insignificante, um pouquinho de maconha, mas os
tiras vo imaginar que, por ser fichado, eu a encontrei e matei.
-  natural se sentir assustado. Isso s vai passar depois que voc falar sobre o que aconteceu. Tente ser lgico, Gil. Algum o prendeu?
- No.
- Algum perguntou se voc matou aquela mulher?
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- No. Mas eu estava l. - Fitou o beco com horror, perplexo, hipnotizado. - E ela estava...
-  disso que voc precisa se livrar. Gil, este  o detetive Paris.
- Ela parou diante de Ben, mas manteve a mo no brao do jovem.
- Ele  da Diviso de Homicdios e esperto demais pra achar que voc matou algum.
Sob as palavras, a mensagem foi clara. V com calma. Ben comunicou o ressentimento com a mesma lucidez. Dispensava que lhe dissessem como agir com uma testemunha.
- Ben, Gil precisa de um cigarro.
- Claro. - O detetive pegou o mao e sacudiu-o para liberar um. - Manh dura - comentou, enquanto riscava um fsforo.
As mos de Gil ainda tremiam, mas ele tragou avidamente o cigarro.
- . - Disparou os olhos em volta e acima de Ed quando o detetive se aproximou.
- Este  o detetive Jackson - continuou Tess com voz de apresentao, apaziguadora. - Eles precisam que voc diga o que viu.
- Terei de ser levado para a delegacia?
- Vamos precisar que assine uma declarao. Ben tambm pegou um cigarro.
- Cara, eu s quero ir pra casa.
- Ns o levaremos. - Ben olhou Tess por trs da nvoa de fumaa. - Apenas relaxe e conte tudo desde o incio.
- Eu estava numa festa. - Gil interrompeu-se de chofre e olhou para Tess. Ela deu-lhe um aceno encorajador. - Podem checar, foi na Vinte e Seis. Um amigo meu tinha
acabado de se mudar pro apartamento, entende, e foi uma festa tipo inaugurar a casa nova. Posso dar nomes.
- Isso est timo. - Ed j tirara seu caderno de anotaes. - Pegamos os nomes depois com voc. Quando saiu da festa?
- No sei. Bebi demais e briguei com a minha namorada. A gente discutiu, voc sabe. Ela no gosta quando eu bebo demais
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com a galera. - Ele engoliu, aspirou fumaa de novo e exalou-a numa expirao trmula. - Ficou fula da vida e foi embora, isso l por volta de uma e meia da manh.
Levou o carro pra que eu no dirigisse.
- Parece que ela queria proteger voc - disse Ed.
- , bem, eu estava de porre demais pra ver a coisa assim.
Os indcios visveis de uma ressaca herica j comeavam. Gil preferia-os  nusea.
- Que aconteceu depois que ela foi embora? - perguntou Ed.
- Fiquei bebendo com a galera. Acho que apaguei por algum tempo. A festa j perdia o pique quando acordei. Lee... era o apartamento dele, Lee Grimes... disse que
eu podia dormir no sof, mas... bem, eu precisava de ar, entende? Ia a p pra casa. Acho que j me sentia nauseado pra burro, ento parei, bem ali do outro lado
da rua. - Virou-se e apontou. - Minha cabea rodava e vi que ia vomitar um pouco de cerveja. S descansei ali um instante e controlei o mal-estar. Ai vi o cara sair
do beco...
- Voc viu o cara sair - interrompeu Ben. - No ouviu nada? Viu quando ele entrou?
- No, juro. No sei durante quanto tempo fiquei ali. No muito, acho, porque fazia um frio do diabo. Mesmo bbado, eu pensava que tinha de andar pra continuar aquecido.
Vi o cara sair, depois ele se encostou no poste de luz um minuto, como se tambm estivesse nauseado. Achei meio engraado, dois pinguos vacilando pela rua, um defronte
do outro, como uma coisa sada de um desenho animado. E um deles  padre.
- Como sabe disso?
Ben parou no ato de oferecer outro cigarro a Gil.
- Usava aquela roupa de padre... a veste preta com o colarinho branco da Igreja. Eu ria sozinho. Sabe, parecia que ele tinha bebido muito o vinho da comunho. De
qualquer modo, fiquei ali imaginando se eu ia mijar na cala ou vomitar, quando ele se endireitou e se afastou.
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- Para que lado?
- Em direo  M. , rua M. Dobrou a esquina.
- Viu que aparncia ele tinha?
- Cara, vi que era um padre. - Gil sorveu o cigarro. - Tinha a pele clara. -Apertou os olhos com os dedos. - , um almofadinha branco. Acho que com cabelos escuros.
Escute, eu estava um lixo, e ele, parado com a cara encostada no poste de luz.
- Certo. Voc est se saindo bem. - Ed virou a folha no caderno. - E o fsico? Sabe dizer se era baixo, alto?
Gil franziu o rosto, concentrando-se. Embora ainda consumisse o cigarro em profundas tragadas, Tess viu que ele se acalmava.
- Acho que era muito alto; em todo caso, no era um cara pequeno. Merda, como a mdia, voc sabe. Mais ou menos como voc, imagino - disse a Ben.
- E a idade? - perguntou Ben.
- No sei. No era velho nem fraco. Tinha cabelos escuros. - Acrescentou a ltima informao depressa, quando lhe veio  lembrana: - , tenho certeza de que eram
escuros, no grisalhos, nem louros. Tinha as mos assim. - Demonstrou, apertando as suas mos nos lados da cabea. - Como se a cabea doesse muito. As mos eram
pretas, mas o rosto, branco. Como se usasse luvas, voc sabe. Fazia frio.
Interrompeu-se mais uma vez quando se deu conta de todo o envolvimento. Vira um assassino. O medo retornou em dobro, uma coisa pessoal. Se vira, estava envolvido.
Os msculos no seu rosto comearam a tremer.
-  o cara que tem liquidado todas essas mulheres.  ele.  um padre.
- Vamos terminar logo com isso - disse Ben, tranqilo. - Como encontrou o corpo?
- Ai, meu Deus.
Gil fechou os olhos e Tess aproximou-se dele.
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- Gil, tente lembrar que j acabou. O que voc sente vai passar. Comear a desaparecer logo depois que disser em voz alta. Assim que fizer isso, ficar mais fcil.
- Tudo bem. - Ele tomou a mo dela e segurou-a. - Depois que o cara foi embora, comecei a me sentir um pouco melhor, tipo talvez segure tudo na barriga, afinal.
Mas eu tinha tomado muita cerveja e precisava me aliviar um pouco, voc sabe. Ainda estava inteiro o bastante pra saber que no podia simplesmente mijar na calada.
Ento fui at o beco. Quase tropecei nela. - Passou a mo sob o nariz, que comeou a escorrer. -J com a mo na cala, quase tropecei nela. Meu Deus. Entrava luz
suficiente da rua, e por isso vi o rosto dela muito bem. Nunca tinha visto ningum morto antes. Jamais. No  como no cinema, cara. No  nada como no cinema.
Levou um instante sugando o cigarro e apertando os dedos de Tess.
- Comecei a vomitar. Dei dois passos, tentando sair, e simplesmente pus tudo pra fora. Achei que meu peito ia explodir antes que eu parasse. A cabea comeou a rodar
de novo, mas de algum modo sa. Acho que ca na calada. Vi os tiras. Dois deles pararam o carro. Eu disse a eles... Disse apenas que entrassem no beco.
- Fez muito bem, Gil. - Ben pegou o mao de cigarro e enfiou no bolso do rapaz. - Vamos mandar um dos policiais lev-lo em casa, deixar que tome um banho e coma
alguma coisa. Depois precisamos de voc na delegacia.
- Posso ligar pra minha namorada?
- Claro.
- Se ela no tivesse levado o carro, teria ido a p pra casa. E passado por aqui.
- Ligue pra sua namorada - disse Ben. - E diminua a cerveja. Whittaker. - Fez um sinal para o motorista da primeira radiopatrulha. - Leve, por favor, Gil para casa.
E d algum tempo para ele se recompor antes de lev-lo  delegacia.
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- Ele precisa dormir um pouco, Ben - murmurou Tess.
Ele ia dar-lhe uma resposta furiosa, mas se conteve. O rapaz parecia prestes a desabar.
- Tem razo. Deixe-o em casa, Whittaker. Mandaremos um carro pra voc ao meio-dia. Est bem?
- Valeu. - Gil olhou ento para Tess. - Obrigado. Eu me sinto melhor mesmo.
- Se o que aconteceu lhe causar algum problema e quiser falar a respeito, ligue para a delegacia. Eles lhe do meu nmero.
Antes de Gil chegar ao carro, Ben j segurava Tess pelo brao, afastando-a.
-  O departamento no aprova a solicitao de pacientes no local do crime.
Tess soltou o brao dele.
- Sim, detetive, disponha sempre. Alegra-me que eu tenha podido ajud-lo a obter uma histria coerente de sua nica testemunha.
- Ns a teramos arrancado dele.
Ben fechou as mos em volta de um fsforo e acendeu um novo cigarro. Pelo canto dos olhos, viu Harris chegar  cena do crime.
- Voc detesta mesmo o fato de eu ter ajudado, no? Porque sou psiquiatra, gostaria de saber, ou porque sou mulher?
- No me analise - ele avisou, jogou o cigarro na rua e logo se arrependeu.
- No preciso analis-lo para ver ressentimento, preconceito e raiva. - Ela se interrompeu, ao perceber o quanto beirava a perda de controle em pblico e a criao
de uma cena. - Ben, sei que no me queria aqui, mas no atrapalhei.
- Atrapalhar? - Ele riu e examinou seu rosto. - No, voc  uma verdadeira profissional, dona.
-  isso, no ? - ela murmurou. Queria gritar, sentar-se, ir embora. Exigiu-lhe o resto de controle no fazer nenhuma dessas coisas. Terminar sempre o que se comea.
Isso tambm fazia parte de sua formao. - Eu entrei naquele beco com voc e fiquei
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no mesmo nvel. No desmoronei, vomitei ou corri. No fiquei histrica com a viso de um cadver, e  isso que de fato o aborrece.
- Os mdicos so objetivos, certo?
- Certo - ela concordou, calma, embora o rosto de Anne Reasoner lhe surgisse de relance na mente. - Mas talvez aplaque seu ego saber que no foi nada fcil pra mim.
Tive vontade de dar meia-volta e sair dali.
Alguma coisa dentro dele se agitou, mas Ben ignorou.
- Voc se segurou muito bem.
- E isso me tira a feminilidade, talvez at a sexualidade. Voc teria ficado mais feliz se precisasse me carregar pra fora daquele beco. Por maior que fosse a interferncia
ou inconvenincia. Isso por certo teria sido mais confortvel pra voc.
- Que besteira! - Ele pegou outro cigarro, amaldioando-se porque percebeu que era verdade. - Eu trabalho com vrias policiais.
- Mas no dorme com elas, dorme, Ben?
Ela disse isso em voz baixa, sabendo que atingira um ponto sensvel.
Olhos estreitados, ele deu uma tragada demorada e profunda.
- Ateno onde pisa.
- Sim,  isso que pretendo fazer. - Ela tirou as luvas do bolso e percebeu pela primeira vez que tinha as mos congeladas. O sol subira ento, mas a luz continuava
obscura. Achou que jamais sentira tanto frio. - Diga ao seu capito que ele ter um relatrio atualizado amanh  tarde.
- timo. Vou arranjar algum que a leve para casa.
- Eu quero andar.
- No.
Ele segurou-a pelo brao antes que ela pudesse afastar-se.
- Voc disse vrias vezes que sou uma civil pra saber que no pode me dar ordens.
- D queixa de molestamento na polcia, se quiser, mas vai ser escoltada at em casa.
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- So apenas duas quadras - ela comeou, e ele estreitou o aperto.
- Sei disso. Duas quadras. Duas quadras e seu nome e foto estampados no jornal. - Com a mo livre, Ben juntou os cabelos dela. Eram quase do mesmo tom que os de
Anne Reasoner. Os dois sabiam disso. - Use um pouco do crebro de que tanto se orgulha e pense.
- No vou deixar voc me assustar.
- timo, mas vai ser escoltada at em casa.
Manteve o brao no ombro dela ao conduzi-la a uma radiopatrulha.
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Captulo Oito
Os cinco detetives designados para os homicdios do Padre fizeram bem mais de cento e sessenta horas de trabalho de campo e administrativo na semana seguinte ao
assassinato de Anne Reasoner. Um deles recebeu do cnjuge ameaa de divrcio. Outro lutou com uma gripe fortssima e o terceiro se viu s voltas com um caso crnico
de insnia.
O quarto na srie de assassinatos foi a matria principal nos dois noticirios, das seis e das onze horas, derrotando notcias como o retorno do presidente americano
em visita  Alemanha Ocidental. Por enquanto, acima da poltica, os assassinatos interessavam mais a Washington. A NBC planejava fazer um especial em quatro episdios.
O incrvel era que manuscritos vinham sendo vendidos a grandes editoras. Ainda mais incrvel, a Paramount j pensava numa minissrie. Anne Reasoner - na verdade,
nenhuma das vtimas - jamais merecera tanta ateno em vida.
Anne morava sozinha. Era uma contadora vinculada a um dos escritrios jurdicos da cidade. O apartamento dela revelava gosto
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pela vanguarda, com esculturas esmaltadas em non de estruturas de formas livres e flamingos fluorescentes. O guarda-roupa refletia o emprego, constitudo na maior
parte por duas-peas de corte suave e blusas de seda. Alm de condies financeiras para comprar na Sacks, tinha dois videoteipes de exerccios fsicos de Jane Fonda,
um computador pessoal da IBM e uma cozinha bem equipada. Na mesinha-de-cabeceira, o retrato emoldurado de um homem, um frasco de colnia Colombian e flores frescas
- znias brancas - em cima da cmoda.
Fora uma boa funcionria. Estivera apenas trs dias ausente por doena desde o primeiro ano. Mas os colegas de trabalho nada sabiam sobre sua vida social. Os vizinhos
descreveram-na como simptica e ao homem na foto da mesinha-de-cabeceira como um hspede assduo.
O caderno de endereos de Anne era ordenado com capricho e quase cheio. Muitos dos nomes pertenciam a conhecidos efmeros e famlia distante, alm de corretores
de seguro, um cirurgio-dentista e um instrutor de aerbica.
Ento localizaram Suzanne Hudson, artista grfica, amiga e confidente de Anne desde a faculdade. Ben e Ed encontraram-na em casa, num apartamento em cima de uma
butique. Ela usava um roupo atoalhado e trazia uma xcara de caf na mo. Tinha os olhos injetados e inchados, com olheiras profundas at as mas do rosto.
O som na televiso fora desligado, mas o programa Wheel of Fortune passava na tela. Algum acabara de resolver o provrbio: UMA DESGRAA NUNCA VEM S.
Aps receb-los, ela foi at o sof e encolheu os ps.
- Tem caf na cozinha, se quiserem. No est sendo um momento fcil e no consigo me esforar para ser socivel.
- Obrigado, de qualquer modo. - Ben sentou-se na outra ponta do sof e deixou a poltrona para Ed. - Voc conhecia Anne Reasoner muito bem.
- J teve um melhor amigo? No me refiro a algum, que apenas chamava de melhor, mas a algum que era mesmo. - Ela no
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penteara os cabelos ruivos curtos. Passou a mo por eles e deixou-os cheios de pontas espigadas. - Eu a amava de verdade, sabe? Ainda no consigo bem assimilar o
fato de que est... - Mordeu o interior do lbio e aliviou a dor com caf. - O enterro  amanh.
-  Eu sei. Srta. Hudson,  um momento terrvel para incomod-la, mas precisamos fazer algumas perguntas.
- John Carroll.
- Desculpe-me, como?
-John Carroll. - Suzanne repetiu o nome e depois o soletrou meticulosamente quando Ed pegou o caderno de anotaes. - Querem saber por que Anne estaria andando sozinha
no meio da noite, no?
A dor e a raiva se revelaram quando ela se curvou e pegou o caderno de endereos. Caf ainda na mo, folheou-o com o polegar.
- Est aqui o endereo. Passou o caderno a Ed.
- Temos um advogado, John Carroll, que faz parte da equipe na firma para a qual trabalhava a Srta. Reasoner.
Ed folheou as pginas de trs para diante das anotaes e cotejou os endereos.
- Isso mesmo,  ele.
- No apareceu no escritrio por dois dias.
- Se escondendo - ela respondeu rspida. - No teria coragem de dar as caras e enfrentar o que fez. Se aparecer amanh, se ousar mostrar a cara amanh, eu cuspirei
nela. - Ento cobriu os olhos com a mo e balanou a cabea. - No, no, isso no  certo. -A fadiga vencia-a quando tornou a baixar a mo. - Ela o amava. Amava-o
de verdade. Vinham se encontrando desde que Anne ingressou no escritrio. Mantinham o caso discreto... idia dele. - Suzanne tomou um grande gole de caf e conseguiu
controlar as emoes. - Ele no queria fofocas no trabalho. Ela concordou. Alis, concordava com tudo. Vocs no imaginam o quanto ela engoliu por esse cara. Anne
era a prpria Miss Independncia, tenho
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sido assim e gosto; ser solteira  um estilo de vida alternativo. No era militante, se entendem o que digo, apenas contente por criar seu prprio espao. At John.
- Tinham um relacionamento - concluiu Ben.
- Se  que se pode chamar assim. Anne nem falou aos pais sobre ele. Ningum alm de mim sabia. - Ela esfregou os olhos. O rimel grudara nos clios e caa em partculas.
- Ela foi feliz a princpio. Acho que fiquei feliz por ela, mas no gostava do fato de que era... bem, to controlada por ele. Coisinhas, vocs sabem. Se ele gostava
de comida italiana, ela tambm. Se ele se interessava por cinema francs, l ia ela atrs.
Suzanne lutou contra o ressentimento e a dor por um instante. Com a mo livre, comeou a fechar e abrir a lapela do roupo.
- Ela queria se casar. Precisava se casar com ele. S pensava em tornar pblico o relacionamento e registrar-se na Bloomingdales. Ele vivia afastando-a da idia,
sem dizer no, apenas ainda no. Ainda no. Em todo caso, ela vinha afundando cada vez mais em termos emocionais. Fez algumas exigncias a John, e ele lhe deu o
fora. Assim, sem mais. Nem teve coragem de dizer na cara dela. Telefonou.
- Quando foi isso?
A amiga no respondeu por vrios segundos. Fitava sem expresso a tela da televiso. Uma mulher girou a roda da fortuna, que parou em Falncia. M sorte.
- Na mesma noite em que foi assassinada. Anne me ligou, dizendo que no sabia o que ia fazer, nem como ia conviver com isso. A coisa a atingiu fundo. Ele no era
s mais um para ela, era o cara. Perguntei se queria que eu fosse l, mas ela disse que precisava ficar sozinha. Eu devia ter ido. - Suzanne fechou os olhos com
fora. - Devia ter entrado no meu carro e ido at l. Podamos nos embriagar, ficar doidonas ou pedir pizza. Em vez disso, ela saiu andando sozinha.
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Ben nada disse, enquanto a moa chorava baixinho. Tess saberia o que dizer. A idia veio do nada e enfureceu-o.
- Srta. Hudson. - Ele deu-lhe um instante e continuou: - Sabe se algum a andava incomodando? Teria notado algum perto do apartamento, do escritrio? Algum que
a deixava nervosa?
- Ela no notava ningum, alm de John. Se no, teria me contado. - Suzanne exalou um longo suspiro e esfregou os olhos, com as costas da mo. - Ns chegamos a conversar
sobre esse manaco algumas vezes, que se devia ter muito cuidado enquanto no o pegassem. Ela saiu porque no pensava. Ou talvez porque tivesse muito em que pensar.
Teria se desvencilhado. Anne era durona. Simplesmente no teve chance.
Os dois deixaram-na no sof fitando o programa e saram para falar com John Carroll.
Ele tinha um dplex numa parte da cidade que satisfazia a jovens profissionais liberais. Havia um mercado gastronmico perto, uma loja de bebidas alcolicas que
oferecia marcas desconhecidas e uma loja especializada em roupas esportivas, tudo concentrado a razovel distncia a p da rea residencial. Um sed Mercedes azul-escuro
achava-se estacionado na garagem particular de John.
Ele atendeu  porta aps a terceira batida. Usava uma camiseta sem mangas e cala de jogging, e segurava o quinto de uma garrafa de Chivas Reagal. Pouca semelhana
exibia com o jovem e bem-sucedido advogado em ascenso. A barba de trs dias por fazer sombreava-lhe o queixo. Tinha os olhos inchados e a pele se dobrara em bolsas
cadas. Cheirava como um vagabundo que entrara se arrastando num beco na Dcima Quarta para dormir at ficar sbrio. Deu uma olhada superficial nos distintivos,
ergueu a garrafa para mais um gole e afastou-se, deixando a porta aberta. Ed fechou-a.
O dplex tinha parte do piso de tbuas de madeira coberto com dois tapetes Aubusson. Na sala de estar, um sof comprido e baixo estofado, assim como as poltronas,
em cores masculinas, cinza e
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azul. Via-se um equipamento eletrnico de ltima gerao numa das paredes. Ao longo de outra, uma coleo de brinquedos - videogames antigos, avies, trens.
Carroll desabou no sof no centro da sala. No cho, estendiam-se tombadas duas garrafas vazias, um cinzeiro cheio at a borda e uma manta jogada sobre as almofadas.
Ben calculou que ele no se deslocara muito alm daquele lugar desde que fora notificado.
- Posso trazer dois copos limpos. -A voz do rapaz era pastosa, mas no ininteligvel, como se o efeito da bebida se houvesse reduzido algum tempo antes. - Mas no
podem beber, podem? De servio? - Ergueu mais uma vez a garrafa. - Eu no estou de servio.
- Gostaramos de fazer algumas perguntas sobre Anne Reasoner, Sr. Carroll.
Embora houvesse uma poltrona atrs de si, Ben no se sentou.
-  , imaginei que fossem aparecer por isso. Disse a mim mesmo que, se no apagasse, falaria com vocs. - Olhou para a garrafa com menos de trs quartos de usque.
- Parece que no consigo apagar.
Ed tomou-lhe a garrafa dos dedos e largou-a ao lado.
- No ajuda mesmo, ajuda?
- Alguma coisa tem de ajudar. - Ele apertou a base das mos nos olhos e comeou a vasculhar a mesa de centro de vidro fume  procura de um cigarro. Ben acendeu um
e deu-lhe. - Obrigado. - John tragou fundo e manteve quase toda a fumaa nos pulmes. - Larguei h dois anos - disse e tornou a tragar. - No engordei, porm, porque
cortei os carboidratos.
- Voc e a Srta. Reasoner tinham um relacionamento - comeou Ben. - Foi uma das ltimas pessoas a falarem com ela.
- Sim. Sbado  noite. Devamos ir ao National. Sunday in the Park with George. Anne gosta de musicais. Eu prefiro o teatro convencional, mas...
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- No foram ao teatro? - interrompeu Ben.
- Eu me sentia pressionado. Telefonei a ela para cancelar a sada e disse que queria deixar o relacionamento esfriar por algum tempo. Foi assim que falei. - Ele
ergueu os olhos, por cima do cigarro, e viu Ben encarando-o. - Devia esfriar por algum tempo. Pareceu razovel.
- Vocs brigaram?
- Brigar? - Ele riu e engasgou-se com a fumaa. - No, no brigamos. Nunca brigamos. No gosto disso. H sempre uma soluo lgica e racional para qualquer problema.
Foi uma soluo racional, e para o bem dela.
- Voc a viu naquela noite, Sr. Carroll?
- No. - Ele olhou em volta com um ar ausente,  procura da garrafa, mas Ed pusera-a fora de alcance. - Ela me pediu que aparecesse para conversar. Chorava. Eu no
queria uma daquelas cenas lacrimosas, e por isso recusei. Disse que achava melhor a gente dar um pouco de tempo. Em uma ou duas semanas, poderamos tomar uns drinques
depois do trabalho e conversar com calma. Uma ou duas semanas. - Fitou direto em frente. As cinzas do cigarro caram-lhe no joelho. - Ela me ligou mais tarde.
- Ligou de novo? - Ed equilibrou o caderno na palma da mo. - Que horas eram?
- Trs e trinta e cinco. O radiorrelgio fica bem ao lado da minha cama. Fiquei irritado. No devia, mas fiquei. Anne estava doidona. Eu sempre sabia quando ela
fumava um baseado. No tinha um vcio exorbitante, apenas queimava um fumo de vez em quando para aliviar a tenso, mas eu no gostava.  to infantil, vocs sabem
- acrescentou. - Conclu que tinha feito aquilo para me aborrecer. Disse que tinha tomado algumas decises. Queria me informar que no me culpava. Ia assumir a responsabilidade
por suas prprias emoes, e eu no precisava temer que ela fosse causar qualquer cena no escritrio.
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Quando se recostou e fechou os olhos, os cabelos louro-escuros caram-lhe na testa.
- Fiquei aliviado, pois tive um pouco de medo. Ela explicou que tinha muito que pensar e um monte de reavaliao a fazer antes de a gente conversar de novo. Respondi
que estava tudo bem e que a veria na segunda-feira. Quando desliguei, eram trs e quarenta e dois, sete minutos depois.
Gil Norton vira o assassino sair do beco em algum momento entre as quatro e quatro e meia da manh. Ed anotou os horrios no bloco e guardou-o no bolso.
- Na certa, o senhor no est disposto a ouvir conselhos, Sr. Carroll, mas seria melhor ir para a cama e dormir um pouco.
Ele concentrou-se em Ed, e depois olhou a baguna de garrafas aos seus ps.
- Eu a amava. Como s fui perceber isso agora?

BEN SAIU E CURVOU OS OMBROS CONTRA O FRIO.
- Meu Deus!
-Acho que Suzanne Hudson no teria mais vontade de cuspir na cara dele agora - comentou Ed.
- Ento que  que temos? - Ben dirigiu-se ao carro e sentou-se no lugar do motorista. - Um advogado egosta, comodista, que no se encaixa na descrio de Norton.
Uma mulher que tenta se retirar de um relacionamento ruim, que sai pra um passeio. E um psicopata que por acaso est l quando ela sai.
- Um psicopata de batina.
Ben enfiou a chave na ignio, mas no a girou.
- Acha que ele  padre?
Em vez de responder, Ed recostou-se, fitou o cu pelo pra-brisa e perguntou.
- Quantos tipos de padres altos, de cabelos escuros, voc calcula que existem na cidade?
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Ed pegou um saco plstico com frutas secas e granola.
- O suficiente pra nos manter ocupados durante seis meses. No temos seis meses.
- No faria mal conversar de novo com Logan.
- . - Enfiou os dedos no saco plstico, que Ed ofereceu sem pensar. - Que acha disso? Um ex-padre que abandona o sacerdcio por causa de uma tragdia baseada na
Igreja. Logan talvez consiga nos dar alguns nomes.
- Outra migalha de po. No relatrio, a Dra. Court diz que ele est sofrendo um colapso mental e que  provvel que esse ltimo assassinato o deixe incapacitado
por alguns dias.
- Eu li. Que diabo  isso a? Casca de rvore e gravetos? Ben girou a chave e afastou-se do meio-fio.
- Passas, amndoas, um pouco de granola. Voc devia telefonar pra ela.
- Eu cuido da minha vida pessoal, parceiro. - Ben virou na esquina e percorreu uma quadra antes de xingar. - Foi mal.
- No tem problema. Sabe, vi um especial na TV, que salientava que na sociedade atual os homens se deram bem. As mulheres reduziram a presso pra que eles sejam
o nico esteio... o Sr. Macho, que tem de resolver todos os problemas e trazer comida pra casa. Em geral, elas esperam mais tempo pra buscar o casamento, quando
at mesmo o buscam, o que deixa os homens com mais opes. Hoje, a mulher no procura mais o Prncipe Encantado num cavalo branco. O estranho  que um bando de homens
ainda se sente ameaado pela fora e independncia delas. - Ele catou uma passa. - Muito impressionante.
- Puxa-saco.
-A Dra. Court me parece muito independente.
- Que bom pra ela! Quem quer uma mulher que no larga do nosso p?
- Bunny exatamente no deixara de largar do p - lembrou Ed. - Ela meio que calava.
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- Bunny  a personagem cmica na tragdia que alivia a tenso - resmungou Ben. E Bunny fora um de seus casos-padro de trs meses, com quem se encontrava, dava algumas
risadas, se sacudia sob os lenis e o dava por encerrado em comum acordo, antes que um dos dois tivesse quaisquer idias. Lembrou-se de Tess curvada no parapeito
do apartamento dele e rindo. - Escute, nesta funo a gente precisa de uma mulher que no nos faa pensar o tempo todo. Que no nos faz pensar nela o tempo todo!
- Est cometendo um erro, Ben. - Ed recostou-se. - Mas sei que  esperto o bastante pra sacar isso sozinho.
Ben fez a curva em direo  Universidade Catlica.
- Vamos encontrar Logan antes de voltar para a delegacia.

S CINCO DA TARDE, TODOS OS DETETIVES DESIGNADOS para os homicdios do Padre, com exceo de Bigsby, j se haviam instalado dispersos na sala de conferncia. Embora
Harris tivesse uma cpia de todos os relatrios diante de si, repassou um ponto aps outro. Reconstituam os movimentos de Anne Reasoner na ultima noite de vida.
s cinco e cinco da tarde, ela deixara o salo de beleza de sempre, onde se submetera a um corte, a um toque de tintura e  manicure. De excelente humor, dera uma
gorjeta de dez dlares  profissional. s cinco e quinze, pegara as roupas na lavanderia a seco. Um terninho cinza, com colete, duas blusas de linho e duas calas
de gabardine. Chegara ao apartamento por volta das cinco e meia. A vizinha da porta ao lado falara com ela no corredor. Anne comentara a ida ao teatro naquela noite.
Trazia flores frescas.
s sete e quinze da noite, John Carroll telefonara, cancelara o encontro e rompera o relacionamento. Conversaram durante uns quinze minutos.
s oito e meia, Anne Reasoner telefonara a Suzanne Hudson, transtornada, chorosa. Conversaram por quase uma hora.
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Por volta da meia-noite, a vizinha ouvira a televiso de Anne. Notara isso porque chegava ao apartamento  noite e no esperava que ela estivesse em casa.
s trs e trinta e cinco, Anne telefonara a Carroll. Encontraram dois tocos de cigarro de maconha ao lado do telefone. Conversaram at as trs e quarenta e dois.
Nenhum dos vizinhos a ouviu sair do prdio.
Em algum momento entre as quatro e quatro e meia da manh, Gil Norton vira um homem vestido como padre sair do beco a duas quadras do apartamento dela. s quatro
e trinta e seis, Norton fez sinal a dois patrulheiros e comunicou a existncia do cadver.
- So esses os fatos - disse Harris. Atrs dele, pendia um mapa da cidade com os pontos nos quais fora visto o assassino assinalados por tachas azuis. -A julgar
pelo mapa, vemos que ele se limita a uma rea de dezoito mil metros quadrados. Todos os assassinatos ocorreram entre uma e cinco da manh. Sem qualquer ataque sexual,
nem roubo. Segundo o padro estabelecido por monsenhor Logan, esperamos que ele torne a atacar em 8 de dezembro. As patrulhas de rua vo trabalhar durante dois turnos
de agora at ento.
"Sabemos que se trata de um homem de altura mediana ou acima, cabelos escuros e se veste como padre. Segundo o perfil e os relatrios psiquitricos da Dra. Court,
sabemos que  um psicopata, possivelmente esquizofrnico, com desiluses religiosas. Mata apenas jovens louras, pois parecem simbolizar uma pessoa real que existe
ou existiu em sua vida.
"A Dra. Court acha, devido  quebra de padro do assassinato, e a caligrafia desordenada do bilhete deixado no corpo, que ele beira uma crise na psicose. O ltimo
assassinato talvez lhe tenha custado mais do que pode suportar."
Harris largou o arquivo sobre a mesa, julgando-o mais do que qualquer um deles pudesse suportar.
- Segundo ela, o assassino teria sofrido uma reao fsica, enxaquecas e nusea que o debilitaram. Se ele continua capaz de agir em
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nvel normal por determinados perodos de tempo, isso tem lhe causado uma enorme tenso. Ela acredita que se revelaria como fadiga, perda de apetite, desateno.
Interrompeu-se um instante para certificar-se de que todos haviam assimilado tudo. A sala de conferncia era separada da do destacamento por vidraas e persianas
que estavam amareladas com a idade. Alm deles, ouvia-se o constante zumbido de atividade, telefones, passos e vozes.
Havia uma cafeteira eltrica no canto e um copo de plstico tamanho gigante para que os policiais escrupulosos contribussem com uma moeda de vinte e cinco centavos
por dose. Harris foi at l, serviu-se uma xcara e acrescentou uma colher de sopa do creme pulverizado que ele detestava. Tomou-o e examinou a equipe.
Alm da inquietao e do excesso de trabalho, sentiam-se frustrados. Se no recomeassem a reduzir a carga a um dia de oito horas, perderia alguns para a gripe.
Maggie Lowenstein e Roderick j tomavam descongestionantes. No podia permitir-se a ausncia deles por doena, mas tampouco paparic-los.
- Temos nesta sala mais de sessenta anos de experincia policial.  hora de pormos esses sessenta anos em prtica e capturar um fantico religioso doentio que na
certa no pode mais manter o caf-da-manh no estmago.
- Ed e eu conversamos de novo com Logan. - Ben afastou a xcara de caf. - Como o cara se veste de padre, achamos que devamos comear a trat-lo como tal. Na condio
de psiquiatra, Logan conversa com colegas padres e trata os que tm algum tipo de problema emocional. No vai nos dar uma lista dos pacientes, mas vai examinar as
fichas mdicas e checar alguma coisa... algum que se encaixe. Depois h a questo do sigilo confessional.
Calou-se um instante. A confisso era uma parte do ritual catlico que sempre lhe causara problema. Lembrava de si mesmo ajoelhado no escuro cubculo com painel
de trelia, confessando-se, arrependendo-se e cumprindo a penitncia. V e no peque mais. Mas claro que pecava.
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- Um padre precisa se confessar com algum, que tem de ser outro padre. Se a Dra. Court estiver certa, e ele comear a pensar no que fez como pecado, vai ter de
se confessar.
-  Ento comeamos a entrevistar padres - acrescentou Maggie. - Escute,  bvio que no sei muita coisa sobre os catlicos, mas no existe uma coisa sobre a santidade
do confessionrio?
- Na certa, no vamos fazer um padre dedurar algum que o procurou no confessionrio - concordou Ben. - Mas talvez a gente consiga em outro lugar. As chances so
de que ele se mantenha em contato com sua prpria parquia. Tess... a Dra. Court... disse que provavelmente o assassino freqentava a igreja com assiduidade. Poderamos
descobrir que igreja. Se ele  ou foi padre, a probabilidade  de que recorra  prpria igreja. - Levantou-se e foi ao mapa.
- Esta rea - disse, fazendo um crculo nas bandeirolas azuis - inclui duas parquias. Aposto que ele tem ido a uma ou a ambas as igrejas, talvez ficando no altar.
- Voc imagina que ele vai aparecer no domingo - concluiu Roderick. Apertou o nariz com o polegar e o indicador para aliviar um pouco da presso. - Sobretudo se
a Dra. Court acertou e ele estivesse doente demais para ir semana passada. Necessitar do apoio da cerimnia.
- Acho que sim. As missas tambm ocorrem sbado  noite.
- Eu achava que isso era a nossa praia - comentou Maggie.
- Os catlicos so flexveis. - Ben enfiou as mos nos bolsos.
- E gostam de dormir at tarde nos domingos, como todo mundo. O negcio  o seguinte: aposto que esse cara  tradicionalista. Manh de domingo  para missa, que
ainda deve ser rezada em latim, e no se come carne na sexta-feira. Regras da Igreja. Acho que a Dra. Court sacou alguma coisa quando disse que o cara  obcecado
pelas regras da Igreja.
- Ento cobriremos as duas igrejas no domingo. Enquanto isso, temos dois dias para entrevistar padres. - Harris olhou cada
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um dos detetives. - Maggie, voc e Roderick ficam numa parquia, Jackson e Paris na outra. Bigsby vai... onde diabos ele est?
- Disse que tinha uma pista sobre os amictos, capito. - Roderick levantou-se e serviu-se um copo de gua gelada, sabendo que j tinha muito caf no organismo. -
Escute, no quero pr gua na fervura do esforo, mas suponha que ele de fato aparea durante uma das missas no domingo. Que  que leva algum de ns a achar que
pode retir-lo da congregao? O cara no  uma aberrao, no fala em lnguas ininteligveis, nem espuma pela boca. A Dra. Court tambm acha que ele  um solitrio,
portanto no vai entrar com a mulher e filhos. Logan vai um passo alm e o v como um devoto. Um monte de pessoas vai  missa e adormece ou pelo menos se desliga.
Ele no faria nenhuma das duas coisas.
- Passar o dia na igreja nos d a oportunidade de tentar outra coisa. - Ed terminou de fazer uma anotao e ergueu os olhos. - Rezar.
- Mal no faz - disse Maggie em voz baixa, quando Bigsby entrou na sala.
- Consegui alguma coisa. - Ele trazia um bloco amarelo e tinha os olhos injetados, aquosos e inchados. Vinha passando as noites com o anti-histamnico Nyquil e uma
garrafa de gua quente. - Uma dzia de amictos brancos de seda, fatura nmero 52346-A, encomendada em 15 de junho  empresa Artigos Religiosos 0'Donnely, em Boston,
Massachusetts. Entregue em 31 de julho ao reverendo Francis Moore. O endereo  uma caixa postal em Georgetown.
- Como ele pagou por isso? - perguntou Harris numa voz calma, enquanto tentava decidir os passos seguintes.
- Vale postal.
- Identifique. Quero uma cpia da fatura.
- Est a caminho.
- Maggie, v  caixa postal. - Harris conferiu as horas e quase praguejou de frustrao. - Esteja l de manh quando abrir. Descubra se ele ainda tem a caixa. Consiga
uma descrio.
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- Sim, senhor.
-  Quero saber se algum padre na cidade se chama Francis Moore.
- Deve haver uma lista de todos os padres na arquidiocese. Talvez a gente consiga no escritrio principal.
Harris concordou com Ben.
- Investigue. Depois investigue os Francis Moore restantes. Ben no podia discutir com o trabalho policial bsico, mas os instintos lhe diziam que se concentrasse
na rea dos assassinatos. O cara estava l. Tinha certeza. E agora talvez tambm tivessem seu nome.
De volta  sala do destacamento, os detetives lanaram-se aos telefones.
Uma hora depois, Ben desligou e olhou Ed por cima do entulho na superfcie da mesa.
- Temos um padre Francis Moore na arquidiocese. Trinta e sete anos, ingressou h dois e meio.
- E?
-  negro. - Ben estendeu a mo para os cigarros e encontrou o mao vazio. - Vamos investig-lo de qualquer modo. O que voc conseguiu?
- Sete. - Ed olhou sua lista detalhada com todo capricho. Algum espirrou atrs e ele se encolheu de medo. A gripe propagava-se pela delegacia como incndio florestal.
- Um professor de ensino mdio, um advogado, um vendedor da Sears, um recm-desempregado, um barman, um comissrio de bordo e um operrio de manuteno.  um ex-condenado.
Tentativa de estupro.
Ben conferiu as horas. J vinha trabalhando havia mais de dez.
- Vamos.

A REITORIA DEIXAVA-O POUCO  VONTADE. O PERFUME DE flores frescas competia com o de madeira envernizada. Esperavam
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num salo com um antigo e confortvel sof, duas poltronas de encosto alto e as partes laterais largas, e uma imagem de Jesus com uma tnica azul e a mo erguida
em bno. Na mesa de centro, dois exemplares de Catholic Digest.
- Este lugar me faz sentir como se devesse ter engraxado os sapatos - murmurou Ed.
Os dois, constrangidos com as armas sob os palets, no se sentaram. Em algum lugar no corredor, uma porta se abriu o bastante para deixar escapar melodias de Strauss.
A porta tornou a fechar-se e a valsa foi substituda por passos. Os detetives olharam de relance quando o reverendo entrou.
Alto, com a compleio semelhante a de um zagueiro de futebol americano, tinha a pele cor de mogno e os cabelos aparados em volta do rosto redondo. Em contraste
com a batina preta, pendia de uma tipia no ombro direito um molde de gesso cheio de assinaturas.
- Boa-noite. - Ele sorriu, parecendo mais curioso que satisfeito por receber os visitantes. - Queiram me desculpar por no apertar as mos de vocs.
- Parece que o senhor se meteu em algum apuro.
Ed quase sentia a decepo do parceiro. Mesmo que a descrio de Gil Norton fosse infiel, no havia como contornar aquele gesso.
- Futebol, h duas semanas. Eu devia ter mais juzo. No querem sentar-se?
- Precisamos fazer algumas perguntas, padre. - Ben mostrou o distintivo. - Sobre o estrangulamento de quatro mulheres.
- Os assassinatos em srie. - Moore curvou a cabea por um instante, como se orasse. - Em que posso ajudar?
- Fez uma encomenda  empresa Artigos Religiosos 0'Donnely em Boston no vero passado?
-  Boston? - Com a mo livre, o padre Moore brincou no rosrio do cinto. - No. O encarregado dos suprimentos  o padre Jessup.  ele quem encomenda o que necessitamos
de uma firma aqui em Washington.
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- O senhor mantm uma caixa postal, padre?
- Ora, no. Toda nossa correspondncia  entregue na reitoria. Desculpe-me, detetive...
- Paris.
- Detetive Paris. Que significa tudo isso?
Ben hesitou um instante e depois decidiu apertar todos os botes disponveis.
- Seu nome foi usado para encomendar as armas dos assassinatos. Viu os dedos se apertarem no rosrio. Moore abriu a boca e logo a fechou. Estendeu a mo e segurou
a lateral de uma poltrona.
- Eu... vocs suspeitam de mim?
- H uma possibilidade de o senhor conhecer ou ter tido contato com o assassino.
- No posso acreditar nisso.
- Por que no se senta, padre?
Ed tocou-o com delicadeza no ombro e ajudou-o a acomodar-se numa poltrona.
- Meu nome - murmurou Moore. -  difcil assimilar. O nome me foi dado num orfanato catlico na Virgnia. No  nem aquele com que nasci. Tampouco posso dizer qual
, porque no sei.
-  Padre Moore, o senhor no  suspeito - disse Ben. - Temos uma testemunha que disse que o assassino  branco, alm de o senhor estar com o brao engessado.
Moore movimentou os dedos negros, que desapareceram no gesso.
- Duas fraturas afortunadas. Desculpem. - Inspirou fundo e tentou recompor-se. - Serei franco com vocs: esses assassinatos mais de uma vez foram assunto de conversa
aqui. A imprensa chama o assassino de Padre.
- A polcia ainda no chegou a uma concluso a esse respeito - acrescentou Ed.
- Em todo caso, todos ns temos vasculhado nossas almas num esforo para encontrar algumas respostas. Quisera eu t-las!
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-  ntimo dos seus paroquianos, padre? Moore virou-se mais uma vez para Ben.
- Eu gostaria de dizer que sim. H alguns, claro. Temos uma ceia mensal e tambm um clube para jovens. No momento, planejamos um baile no Dia de Ao de Graas para
eles. Receio no ter conseguido mobiliz-los.
- Algum o preocupa, algum que o senhor consideraria emocionalmente instvel?
-  Detetive, minha funo  reconfortar os perturbados. Tivemos alguns casos de dependncia de drogas e lcool e um caso infeliz de espancamento de esposa. Apesar
disso, no h ningum que eu sequer considerasse capaz desses assassinatos.
- O seu nome pode ter sido escolhido ao acaso, ou usado porque o assassino se identificava com o senhor, como padre. - Ben calou-se, sabendo que pisava no inabalvel
terreno rgido do santificado. - Padre, algum o procurou no confessionrio e indicou de algum modo que sabia alguma coisa sobre os assassinatos?
- Mais uma vez serei franco: no. Detetives, tm certeza de que era o meu nome?
Ed pegou as anotaes e leu:
- Reverendo Francis Moore.
- No  Francis X. Moore?
- No.
O padre deslizou a mo pelos olhos.
- Espero que o alvio no seja pecado. Quando me deram o nome e eu tinha idade suficiente para saber escrev-lo, sempre usei o X no lugar do Xavier. Achava que ter
um nome do meio que comeava com X era extico e exclusivo. Detetives, em todos os documentos de identificao que tenho uso minha inicial do meio. Tudo que eu assino
a inclui. Todo mundo que me conhece sabe que sou o reverendo Francis X. Moore.
Ed anotou. Se tivesse sido levado pelo instinto, teria desejado boa noite e passado para o prximo endereo na lista. Mas o procedimento
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era mais exigente e infinitamente mais chato que o instinto. Entrevistaram os trs outros padres na reitoria.
-  Bem, isso s nos levou uma hora pra sair sem nada - comentou Ben quando se encaminharam de volta ao carro.
- Demos algo pra esses caras conversarem esta noite.
- Acumulamos mais uma hora extra esta semana. A contabilidade vai ficar furiosa.
- . - Ed sorriu ao sentar-se no banco do carona. - Sujeitos abominveis.
- Podamos dar uma parada ou ir ver o ex-condenado.
Ed pensou um instante e pegou o resto da granola. Deveria sustent-lo at conseguir uma refeio.
- Tenho mais uma hora.

NO HAVIA FLORES FRESCAS NO APARTAMENTO CONJUGADO em South East. O mobilirio, o que dele se via, no fora envernizado desde a compra no Exrcito da Salvao. Uma
cama de embutir que ningum se dera ao trabalho de enfiar na parede ocupava quase todo o espao. Os odores de suor, sexo ranoso e cebola pairavam no aposento.
A loura tinha dois centmetros de razes castanhas expostas na cabeleira cacheada. Abriu a porta com o olhar demorado e cauteloso dos que sabem das coisas, quando
Ben e Ed mostraram os distintivos. Usava uma cala jeans colada ao corpo, sobre um traseiro bem modelado e um suter pink de decote cavado o suficiente para exibir
seios que comeavam a perder a firmeza.
Ben calculou que ela teria uns vinte e cinco anos, embora as rugas j corressem fundas nos lados da boca. Tinha olhos castanhos, o esquerdo realado por um hematoma
em tons esmaecidos de malva, amarelo e cinza. Ele calculou que ela fora golpeada trs ou quatro dias antes.
- Sra. Moore?
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- No, no somos casados. - A loura tirou um cigarro do mao de Virginia Slims. Voc percorreu um longo caminho, meu bem. - Frank saiu pra comprar cerveja. Voltar
num minuto. Alguma encrenca?
- S precisamos conversar com ele.
Ed deu-lhe um sorriso tranqilo e decidiu que ela precisava de mais protena na dieta.
- Claro. Bem, posso dizer que ele tem se mantido longe de encrencas. Ando cuidando disso. - A loura encontrou uma caixa de fsforos, acendeu o cigarro e usou o mao
para esmagar uma baratinha. - Talvez ele beba um pouco demais, mas fao questo que seja aqui, onde no pode se meter em apuros. - Olhou o lamentvel aposento em
volta e tragou fundo no cigarro. - No parece grande coisa, mas estou juntando dinheiro. Frank tem um bom emprego agora e  confivel. Podem perguntar ao superintendente.
- No estamos aqui pra perturbar Frank. - Ben achou melhor no se sentar. No se podia saber o que talvez rastejasse sob as almofadas. - Parece que o andou pondo
muito na linha.
Ela tocou o olho machucado.
- Dou tanto quanto recebo.
- Aposto que sim. O que aconteceu?
- Frank quis mais cinco dlares pra cerveja no sbado. Tenho um oramento.
- Sbado? - Ben tomou posio de sentido. A noite do ltimo assassinato. A mulher diante dele era uma loura que deixava muito a desejar. - Imagino que vocs tenham
se desentendido, ento ele saiu furioso para o bar, a fim de se queixar com a rapaziada.
- Ele no foi a lugar algum. - Ela riu e bateu as cinzas num prato de plstico que convidava a pessoa: PONHA A GUIMBA AQUI. - Quando teve um ataque e me agrediu,
os vizinhos de baixo comearam a bater com aquela maldita vassoura no teto. Eu revidei logo a pancada. - Deixou a fumaa sair devagar da boca e subir pelo
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nariz. - Frank respeita esse tipo de coisa numa mulher. Gosta, vocs sabem. Ento... fizemos as pazes. Ele no pensou mais em cerveja na noite de sbado.
A porta abriu-se. Frank Moore tinha braos que pareciam blocos de concreto, pernas como troncos e talvez um metro e oitenta de altura. Usava uma capa de chuva preta
com furos de traa no ombro e trazia uma embalagem de seis cervejas.
- Quem diabos so vocs? - quis saber, j erguendo o brao livre.
Ben pegou o distintivo.
- Homicdios.
Frank baixou o brao. Ben notou o arranho de dois centmetros de comprimento na face quando o recm-chegado se curvou para ler o distintivo. Coberto por uma crosta,
parecia to detestvel quanto o hematoma da loura.
- O sistema come merda - anunciou e largou com fora a embalagem no balco. -Aquela puta disse ao juiz que eu tentei estupr-la, e acabo pegando trs anos; depois,
quando saio, dou de cara com tiras aqui. Eu disse que o sistema come merda, Maureen.
- . - A loura serviu-se uma cerveja. - , disse sim.
- Por que simplesmente no nos diz onde estava na madrugada de sbado passado, Frank? - comeou Ben. - Por volta das quatro da manh.
- Quatro da manh. Nossa. Na cama, como todo mundo. E tambm no estava sozinho.
Apontou o polegar para Maureen e puxou o lacre de uma Budweiser. A cerveja saiu chiando pela abertura e acrescentou mais um odor ao conjugado.
-  catlico, Frank?
Ele esfregou as costas da mo na boca, arrotou e tomou mais um gole.
- Pareo catlico?
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- O pai de Frank era batista - esclareceu Maureen.
- Feche a matraca - disse-lhe Frank.
- No fode.
Ela apenas sorriu quando o outro ergueu o brao. Ed adiantara-se s um passo quando Frank tornou a baix-lo.
- Quer contar tudo aos tiras, timo. Meu velho era batista. Um batista que no jogava, no bebia nem ficava  toa. Ele me espancava muito, e eu revidei uma vez,
antes de me mandar de casa. Isso foi h quinze anos. Uma puta barata me meteu em cana. Cumpri trs anos e, se eu a visse de novo, tambm daria umas porradas nela.
- Tirou um mao de Camels do bolso da camisa e acendeu-o com um Zippo gasto. - Arranjei um emprego lavando cho e limpando banheiros. Chego em casa toda noite pra
esta megera me dizer que s tenho cinco dlares pra cerveja. No fao nada ilegal. Maureen aqui pode confirmar.
Passou o brao carinhoso pelo ombro da mulher a quem acabara de chamar de megera.
-  verdade.
Ela tomou um gole de cerveja.
Ele no se encaixava na descrio, nem fsica nem psiquitrica. Mesmo assim, Ben insistiu:
- Onde estava em 15 de agosto?
- Nossa, como  que eu posso me lembrar? - Frank emborcou o resto da cerveja e amassou a lata. - Vocs, caras, tm um mandado pra estar aqui?
- Estvamos em Atlantic City - respondeu Maureen, sem pestanejar, quando Frank atirou a lata fora e errou a lata de lixo por centmetros. - Lembra, Frank? Minha
irm trabalha l, sabe? Conseguiu um timo negcio pra ns no hotel em que  responsvel pela limpeza. O Ocean View Inn. No fica no calado nem nada disso, mas
perto. Fomos de carro no dia 14 de agosto e passamos trs dias. Est no meu dirio.
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- , eu lembro. - Ele desprendeu o brao e virou-se para ela. - Eu estava jogando dados, voc desceu e comeou a bronquear comigo.
- Voc perdeu vinte e cinco paus.
- Eu teria recuperado e ganhado duas vezes mais, se voc tivesse me deixado em paz.
- Roubou o dinheiro da minha bolsa.
- Peguei emprestado, sua sacana. Emprestado.
Ben indicou a porta com a cabea quando a discusso esquentou.
- Vamos dar o fora daqui.
Quando fecharam a porta, ouviram uma pancada acima da gritaria.
- Acha que devemos arromb-la? Ben virou-se e olhou para a porta.
- O qu? E estragar a diverso deles? - Algo slido e quebrvel atingiu a porta e despedaou-se. - Vamos tomar uma bebida.
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Captulo Nove
Sr. Monroe, eu lhe agradeo por ter vindo conversar comigo. - Tess cumprimentou o padrasto de Joey na porta do consultrio. - Minha secretria teve de sair antes
de encerrar o expediente, mas posso preparar um pouco de caf para ns, se quiser.
- Para mim, no.
Ele ficou ali parado, constrangido como sempre na presena dela, e esperou-a tomar a iniciativa.
- Entendo que j passou um dia inteiro trabalhando - comeou Tess, sem acrescentar que tambm passara.
- No me importo com o tempo extra se for para ajudar Joey.
- Eu sei. - Ela sorriu, indicando-lhe uma poltrona. - No tive muitas oportunidades de conversar com o senhor em particular, Sr. Monroe, mas quero lhe dizer que
vejo o esforo que vem tentando com Joey.
- No  fcil. - Ele dobrou o casaco no colo. Era um homem arrumado, organizado por natureza. Tinha as unhas manicuradas com esmero, os cabelos bem penteados, o
terno escuro e conservador.
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Tess julgou entender at que ponto ele acharia inescrutvel um adolescente como Joey. -  mais difcil para Lois, claro.
- ?-Tess sentou-se atrs da mesa, sabendo que a distncia e a posio impessoal facilitariam tudo para ele. - Sr. Monroe, entrar numa famlia aps o divrcio e
tentar ser uma figura paterna para um adolescente  difcil em quaisquer circunstncias. Quando se trata de um garoto to perturbado como Joey, as dificuldades so
imensamente multiplicadas.
- Eu tinha esperanas, a essa altura, bem... - Ele ergueu as mos e tornou a estend-las abertas. - De que poderamos fazer coisas juntos, jogar bola. Cheguei a
comprar uma barraca, embora deva admitir que no sei nada sobre acampamento. Mas ele no est interessado.
- No sente que pode se permitir ficar interessado - corrigiu Tess. - Sr. Monroe, Joey se identificou com o pai num nvel muito prejudicial. Os defeitos do pai so
os dele; os problemas do pai, seus problemas.
- O safado nem sequer... - Interrompeu-se. - Desculpe.
- No, no se desculpe. Sei que parece que o pai de Joey no se preocupa, ou no pode ser incomodado. Isso se origina da doena dele, mas no  o que eu gostaria
de conversar com o senhor. Sr. Monroe, sabe que tentei sugerir uma intensificao do tratamento de Joey. A clnica que mencionei em Alexandria  especializada em
enfermidades emocionais na adolescncia.
- Lois no quer nem ouvir falar nisso. - Pelo que Monroe sabia, o assunto terminava a. - Ela sente, e tenho de concordar, que Joey acharia que o abandonamos.
- A transio seria difcil, no h como negar. Teria de ser tratada por todos ns de tal maneira que Joey entendesse que no est sendo punido nem mandado embora,
mas recebendo outra chance. Sr. Monroe, preciso ser franca com o senhor. Joey no tem reagido ao tratamento.
- Ele no est bebendo?
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- No, no est bebendo. - Como podia convenc-lo de que o alvio de um sintoma estava muito distante de uma cura? J vira nas sesses de terapia da famlia que
Monroe era um homem que via os resultados com muito mais clareza do que as causas. - Sr. Monroe, Joey  e sempre ser alcolatra, quer beba ou no.  um dos vinte
e oito milhes de filhos de alcolatras neste pas. Um tero deles se tornou alcolatra sozinho, como Joey.
- Mas ele no tem bebido - insistiu Monroe.
- No, no tem. - Ela entrelaou os dedos, apoiou-os na mesa e tentou mais uma vez: - Ele no tem consumido lcool, nem alterado a realidade com isso, mas ainda
precisa lidar com a dependncia, e, mais importante, os motivos dessa dependncia. Ele no tem se embriagado, Sr. Monroe, mas o lcool  um encobrimento e um desdobramento
de outros problemas. Joey no pode mais controlar nem encobrir esses problemas com bebida alcolica, e agora eles o esto oprimindo. Ele no demonstra fria, Sr.
Monroe, nem raiva, e muito pouco sofrimento, embora esteja tudo reprimido por dentro. Os filhos de alcolatras assumem com freqncia a responsabilidade pela doena
dos pais.
Constrangido e impaciente, Monroe mudou de posio na poltrona.
- J explicou isso antes.
- Sim, j. Joey se ressente do pai e, em grande parte, da me, porque ambos o decepcionaram. O pai com a bebida, a me com a preocupao pela bebida do pai. Porque
os ama, ele voltou esse ressentimento contra si mesmo.
- Lois deu o melhor de si.
- Sim, sei que deu. Ela  uma mulher de fora admirvel. Infelizmente, Joey no tem a fora da me. A depresso dele atingiu um estgio perigoso, crtico. No posso
lhe dizer o que conversamos nem o que dissemos em nossas sesses recentes, mas posso afirmar que estou mais preocupada que nunca com o estado emocional dele. A dor
 imensa. A essa altura, fao pouco mais que aliviar a dor para
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ele conseguir chegar ao fim da semana e eu poder alivi-la de novo. Joey sente que sua vida  intil, que fracassou como filho, como amigo e como pessoa.
- O divrcio...
- O divrcio atinge os filhos envolvidos. A medida do golpe depende do estado mental em que eles se encontram na poca, de como o divrcio  conduzido, da fora
de cada criana. Para algumas, s vezes  to devastador quanto uma morte. H em geral um perodo de sofrimento, ressentimento, at negao. Culpar a si mesmo 
comum. Sr. Monroe, faz quase trs anos que sua mulher se separou do pai de Joey. A obsesso dele com o divrcio e sua participao nele no so normais. Isso se
tornou um trampolim para todos os problemas.
Ela se interrompeu por um instante e tornou a entrelaar as mos.
- O alcoolismo  doloroso. Joey acha que merece a dor. De fato, a criana aprecia ser disciplinada por violar as regras. A disciplina e a dor fazem com que se sinta
parte da sociedade, enquanto ao mesmo tempo o prprio alcoolismo o faz sentir-se isolado da sociedade. Aprendeu a depender desse isolamento, a se ver como diferente,
no exatamente como todos os demais. Em particular, o senhor.
- Eu? No entendo.
- Joey se identifica com o pai, um bbado, um fracasso no trabalho e na vida familiar. O senhor  tudo que o pai dele e, portanto, ele, no . Parte dele quer se
desligar do pai e tomar o senhor como modelo. O resto simplesmente no se julga merecedor, e ele teme correr o risco de outro fracasso. Vai at muito alm disso,
Sr. Monroe. Joey avana rpido para um ponto em que se sentir cansado demais at para se importar com a vida.
Ele abria e fechava os dedos. Quando falou, foi com a voz calma de membro do conselho diretor:
- Eu no a entendo.
- O suicdio  a terceira causa mais alta de morte entre adolescentes, Sr. Monroe. Ele j anda brincando com a idia, circulando em
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volta dela com a fascinao pelo ocultismo. Seria necessrio muito pouco nesse ponto da vida para lev-lo a transpor a linha... uma discusso que o deixe sentindo-se
rebelde, uma prova na escola que o faa sentir-se inadequado. O comportamento ambivalente do pai.
Embora falasse com calma, ela transmitiu-lhe a urgncia por baixo da voz. Curvou-se, esperando avanar para o passo seguinte.
- Sr. Monroe, no sei como enfatizar como  vital Joey comear um tratamento intensificado, estruturado. O senhor confiou em mim o suficiente para traz-lo aqui
e permitir-me tratar dele. Precisa confiar o suficiente para acreditar quando digo que no basto para ele. Tenho informaes aqui sobre a clnica. - Ela empurrou
um folheto sobre a mesa. - Por favor, discuta tudo isso com sua mulher, pea a ela que venha falar comigo. Vou reorganizar meu horrio para podermos nos reunir a
qualquer hora que seja conveniente. Mas, por favor, faa isso logo. Joey precisa muito, e precisa agora, antes que alguma coisa o leve  beira do abismo.
Ele pegou o folheto, mas no o abriu.
- A senhora quer que mandemos Joey para um lugar desses, mas no quis que trocssemos de escola.
- Tem razo, eu no quis. - Ela sentiu vontade de tirar os grampos dos cabelos, correr as mos por eles at sentir passar a presso nas tmporas. - Naquela poca,
eu achava, tinha esperana, de ainda poder alcan-lo. Desde setembro, Joey tem se fechado cada vez mais.
- Ele viu a mudana de escola como outro fracasso, no?
- Sim. Lamento.
- Eu sabia que era um erro. - Monroe exalou um longo suspiro. - Quando Lois tomava as providncias para transferi-lo, ele me olhou. Era como se dissesse: por favor,
me d uma chance. Eu quase ouvia. Mas apoiei minha mulher.
- No h culpa alguma, Sr. Monroe. O senhor e sua mulher esto lidando com uma situao que no tem respostas fceis. No h certo ou errado absolutos.
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- Vou levar os papis para casa. - Ele se levantou ento, devagar, como se o folheto na mo fosse pesado e opressivo. - Dra. Court, Lois est grvida. No contamos
a Joey.
- Parabns. - Ela ofereceu a mo, enquanto ponderava mentalmente como essa notcia poderia afetar seu paciente. -Acho que seria agradvel se vocs lhe dissessem
juntos, tornando isso um assunto de famlia. Como se os trs esperassem um beb. Seria importante fazer Joey se sentir mais includo que substitudo. Um beb, a
expectativa de um beb, pode trazer muito amor ao seio de uma famlia.
- Tivemos receio de que ele talvez se ressentisse disso... de ns.
- Talvez. - O momento certo, ela pensou, a sobrevivncia emocional com muita freqncia dependia da escolha do momento. - Quanto mais o fizerem participar do processo,
do planejamento, mais se sentir parte de tudo. Vocs tm um quarto de criana?
- Temos um quarto livre que pensamos em redecorar.
- Imagino que Joey seria muito bom com um pincel, se lhe dessem a chance. Por favor, me ligue depois que tiverem conversado sobre a clnica. Eu gostaria de ir at
l com Joey sozinha, talvez lev-lo l para que ele veja.
- Tudo bem. Obrigado, doutora.
Tess fechou a porta atrs de Monroe e retirou os grampos do cabelo. A tenso localizada ali diminuiu, deixando apenas uma dor incmoda. Ela no sabia se poderia
relaxar at Joey ser tratado na clnica. Pelo menos,vinham tomando a direo certa, disse a si mesma. O padrasto no se entusiasmara com a sugesto, mas Tess acreditava
que podia convenc-lo.
Arquivou a pasta e as fitas de Joey, segurando um pouco mais a fita da ltima sesso. Ele falara de morte duas vezes durante a consulta, em ambas de forma trivial.
No a descrevera como morte, mas como uma opo pela sada. Morte como escolha. Ela deixou a ltima fita de fora e decidiu telefonar para o diretor da clnica.
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Quando o telefone tocou, Tess quase grunhiu. No precisava atender. O servio de atendimento automtico computadorizado receberia a ligao depois da quarta chamada
e entraria em contato com ela se fosse importante. Ento mudou de idia e levou a fita de Joey na mo ao atravessar a sala e atender:
- Al, Dra. Court.
No silncio que se seguiu, ela ouviu respirao difcil e rudos de trfego. Automaticamente, puxou um bloco e pegou um lpis.
- Aqui  a Dra. Court. Posso ajud-lo?
- Pode?
A voz no passava de um sussurro. Ela ouviu no apenas o pnico pelo qual j esperava, mas desespero.
- Posso tentar. Gostaria que eu o fizesse?
- Voc no estava l. Se estivesse, talvez tivesse sido diferente.
- Estou aqui agora. Gostaria de me ver?
- No posso. - Ela ouviu o soluo profundo, engolido em seco. - Voc saberia.
- Posso ir at voc. Por que no me diz seu nome e onde est? Ouviu o clique.
A menos de uma quadra dali, o homem de casaco escuro encostou-se na cabine telefnica e chorou de dor e confuso.
- Maldio!
Tess olhou as anotaes que fizera da conversa. Se fora um paciente, ela no reconhecera a voz. Na eventualidade de o telefone tocar de novo, demorou-se mais quinze
minutos no consultrio, depois juntou o trabalho e foi embora.
Frank Fuller esperava no corredor.
-  Ora, a est ela. - Enfiou spray para melhorar o hlito de volta no bolso. - Eu j comeava a achar que voc tinha se mudado deste prdio.
Tess virou-se e olhou sua porta, com o seu nome e a profisso nitidamente impressos.
- No, ainda no. Trabalhando meio tarde esta noite, Frank?
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- Ah, voc sabe como . - Na verdade, ele passara a ltima hora tentando arranjar um encontro. No tivera sucesso. - Parece que essa funo de consultora da polcia
tem mantido voc muito ocupada.
- Parece.
Mesmo para algum com boas maneiras to enraizadas como Tess, conversa fiada aps aquele dia de trabalho significava estender as coisas alm do limite. Ela desviou
os pensamentos de volta ao telefonema,  espera do elevador.
- Sabe, Tess... - Ele usou o velho truque de apoiar a mo na parede e cerc-la. - Talvez descubra ser benfico, em termos profissionais, trocar idias com um colega
a respeito. Seria um prazer abrir espao na minha agenda para voc.
- Obrigada, Frank, mas sei como anda ocupado.
Quando as portas do elevador se abriram, ela entrou. Apertou o boto do trreo e mudou a pasta de mo ao v-lo entrar ao lado.
- Nunca estou ocupado demais para voc, Tess, em termos profissionais ou no. Por que no conversamos sobre isso num bar?
- Receio no ter em hiptese alguma liberdade para conversar sobre isso.
- Encontraremos outra coisa sobre a qual conversar ento. Tenho uma garrafa de vinho, um pretensioso Zinfandel que venho reservando para a ocasio certa. Que tal
irmos ao meu apartamento, estourarmos a rolha e esticarmos os ps?
Para ele comear a mordisc-los, pensou Tess, e fez uma silenciosa prece de agradecimento quando as portas tornaram a abrir-se.
- No, obrigada, Frank.
Atravessou direto o saguo para ir embora, mas no o dissuadiu.
- Ento por que no paramos no Mayflower, uma bebida tranqila, um pouco de msica, sem nada de jargo profissional?
Coquetis de champanhe no Mayflower. Ben dissera que faziam o estilo dela. Talvez fosse hora de provar a ele, e a Frank Fuller, que no.
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- O Mayflower  um pouco srio para mim, Frank. - Tess ergueu a gola quando chegaram  gelada escurido do estacionamento. - Mas, de qualquer modo, no tenho tempo
para confraternizao. Devia tentar a nova boate aqui perto, a Zeedo. Segundo me disseram,  quase impossvel no arranjar algum para a noite, quando se  persistente
como voc.
Pegou as chaves e enfiou uma na fechadura da porta do carro.
- Como sabe...?
- Frank. - Tess estalou a lngua e deu um tapinha na face dele. - Cresa.
Maravilhada consigo mesma e com a espantada expresso dele, deslizou para dentro do carro. Olhou para trs ao dar marcha a r, mas nem ligou para o homem parado
em p nas sombras, na margem do estacionamento.
Mal cruzara a porta do apartamento e despira o casaco e os sapatos, quando algum bateu. Se fosse Frank, deixaria de ser educada, prometeu a si mesma, e o acertaria
direto na testa, entre os olhos.
Era o senador Jonathan Writemore, no sobretudo da Saville Row, com uma caixa de papelo vermelha com frango e um saco fino de papel.
- Vov. - Grande parte da tenso da qual Tess nem se conscientizar totalmente desfez-se. Ela inspirou fundo e quase sentiu o gosto dos temperos. - Espero que no
esteja a caminho de um encontro importante.
- Estou a caminho daqui mesmo. - Ele largou a caixa de comida nas mos dela. - Ainda est quente, menina. Eu trouxe tempero extra.
- Meu heri. Eu ia fazer um sanduche.
- Imagine. Pegue os pratos e uma poro de guardanapos. Ela entrou na cozinha, deixando o frango na mesa ao passar.
- Quer dizer que no estou convidada para jantar amanh?
- Quer dizer que vai fazer duas refeies decentes esta semana. No esquea o saca-rolha. Eu trouxe um vinho.
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- Desde que no seja Zinfandel.
- Como?
- Nada, no. - Tess retornou com pratos, guardanapos de linho, duas das melhores taas de vinho e um saca-rolha. Ps a mesa, acendeu velas e virou-se para dar um
grande abrao no av. - Como voc soube que eu precisava de um estmulo esta noite?
- Os avs nascem sabendo.
Ele beijou-lhe as faces e depois a repreendeu:
- No tem descansado o bastante.
- Sou eu a mdica.
O av deu-lhe uma palmada no traseiro.
-Apenas se sente menina. - Desviou a ateno para a garrafa de vinho quando ela obedeceu. Tess abriu a tampa da caixa enquanto ele lidava com a rolha. - Me d uma
dessas tetas de galinha.
Ela riu como uma criana e ps a comida pronta na melhor porcelana inglesa da me.
- Pense em como seus eleitores ficariam chocados se o ouvissem falar em tetas de galinha. - Ela escolheu uma coxinha e ficou encantada ao descobrir uma caixa de
batatas fritas. - Como andam os negcios no Senado?
-  necessrio muito estrume para cultivar flores, Tess. - Ele retirou a rolha. - Continuo fazendo lobby para tentar obter a aprovao da lei de seguro-sade da
Reforma da Medicaid. No sei se consigo angariar apoio suficiente antes do recesso dos feriados.
-  uma boa lei. Fico orgulhosa de voc.
- Bajuladora. - O av serviu-lhe vinho e depois a si prprio. - Cad o ketchup? No como batata frita sem ketchup. No, no se levante, eu pego. Quando foi a ltima
vez que voc esteve num supermercado? - perguntou assim que abriu a geladeira.
- No comece - ela disse e deu uma mordida na galinha. - Alm disso, voc sabe que sou especialista em comida pra viagem e comida na sua casa.
- No gosto de pensar em minha nica neta comendo para sempre em embalagem de papelo. - Ele voltou com um frasco de
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ketchup, ignorando sem dificuldade o fato de que os dois comiam em embalagens de papelo. - Se eu no estivesse aqui, voc ficaria naquela mesa com um sanduche
de queijo e uma pilha de pastas.
- J disse que foi uma alegria ver voc? Tess ergueu a taa e sorriu-lhe.
- Tem trabalhado demais.
- Talvez.
- Que acha de eu comprar duas passagens para Saint Croix e a gente encerrar o expediente no dia seguinte ao Natal? Tirar uma semana de diverso ao sol?
- Voc sabe que eu adoraria, mas os feriados so difceis para alguns dos meus pacientes. Preciso ficar aqui por causa deles.
- Tenho reconsiderado o que fiz.
- Voc? - Ignorando o ketchup, ela comeou a mordiscar a batata frita e perguntou-se se tinha espao para um segundo pedao de galinha. - Em relao a qu?
- A te envolver nesses homicdios. Est com uma aparncia esgotada.
- Isso  apenas parte.
- Tendo problema com a vida sexual?
- Informao privilegiada, ?
- Srio, Tess, falei com o prefeito. Ele me contou o quanto voc tem se envolvido com a investigao policial. Tudo que eu tinha em mente era o seu perfil, talvez
exibir um pouco minha neta inteligente.
- Emoes de segunda mo, hein?
- A emoo adquire um carter diferente aps o quarto assassinato. A apenas duas quadras daqui.
- Vov, teria acontecido se eu estivesse ou no envolvida com a investigao. A questo agora  que quero me envolver. - Ela pensou em Ben, nas acusaes, no ressentimento.
Pensou na prpria vida bem ordenada e nas repentinas e pequenas pontadas de insatisfao. - Talvez eu precise estar envolvida. Tudo tem sido muito
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preciso pra mim at agora na vida e na carreira. Minha participao nisso tem me mostrado um aspecto diferente de mim mesma e do sistema.
Pegou o guardanapo, mas s o esfregou nas mos.
- A polcia no est interessada nas atividades da mente, na motivao emocional dele, embora tenha usado o conhecimento pra tentar peg-lo e puni-lo. No me interessa
v-lo punido, mas usarei o que puder saber de sua mente e motivao para tentar fazer com que seja detido e ajudado. Qual de ns est certo, vov? Justia  punio
ou tratamento?
- Voc fala com um advogado da escola antiga, Tess. Todo homem, mulher e criana neste pas tm direito  representao legal e a um julgamento justo. O advogado
talvez no acredite no cliente, mas precisa acreditar na lei. A lei diz que esse homem tem o direito de ser julgado pelo sistema. E, em geral, o sistema funciona.
- Mas ser que o sistema e a lei entendem a mente doente? - Balanando a cabea, ela largou o guardanapo, reconhecendo a presso nos nervos. - Inocente por motivo
de insanidade. Isso no devia torn-lo no-responsvel? Vov, ele  culpado de matar essas mulheres. Mas responsvel, no.
- No  um dos seus pacientes, Tess.
- , sim. Tem sido o tempo todo, mas s entendi isso na semana passada... no ltimo assassinato. Ainda no me pediu ajuda, mas vai pedir. Vov, lembra do que me
disse no dia em que abri meu consultrio?
Ele examinou-a, vendo que, mesmo com os olhos intensos e perturbados, a luz de velas a deixava linda. Era a sua menina.
- Na certa, disse coisas demais. Vivi uma longa vida.
- Voc disse que eu tinha escolhido uma profisso que me permitiria entrar na mente das pessoas, e que jamais poderia esquecer o corao delas. Eu no esqueci.
- Senti orgulho de voc naquele dia. Ainda sinto.
Ela sorriu e pegou o guardanapo.
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- Est com ketchup no queixo, senador - murmurou e limpou-o.

A UNS CINCO QUILMETROS DE DISTNCIA, BEN E ED j haviam tomado mais de uma bebida. A boate estava decorada com garrafas de vinhos, havia uma parcela razovel de
clientes assduos e um pianista cego que cantava rock bem baixinho, e cujo pote de gorjetas se enchera apenas at a metade, mas a noite era uma criana. A mesa dos
dois pouco passava de um jogo americano espremido em meio a uma fileira de outras. Ed dava cabo de uma salada de macarro. Ben decidiu-se por nozes para acompanhar
a cerveja.
- Voc come muito isso - comentou Ben, indicando o prato do parceiro - e vira yuppie.
- No  possvel ser yuppie se no se toma vinho branco.
- Tem certeza? -Absoluta.
Acreditando no que o parceiro disse, Ben pescou uma massa rotini em forma de espiral.
- Quais as novidades quando voc ligou? - perguntou Ed. Ben pegou o copo e observou uma mulher com saia curta de couro passar pela mesa deles.
- Bigsby foi  loja de convenincia onde o cara comprou o vale postal. Nada. Quem vai se lembrar de um sujeito que comprou um vale postal h trs meses? Voc no
vai pr sal nisso?
- Est me gozando?
Ed fez sinal  garonete para mais uma rodada. Nenhum dos dois se embriagara ainda, mas no por falta de tentarem.
- Vai ao Kinikee's sbado ver o jogo? - perguntou Ben.
- Preciso procurar apartamento. Tenho de sair do meu em 1 de dezembro.
- Voc devia esquecer essa coisa de apartamento - disse Ben, passando para a bebida recm-chegada. - Dinheiro de aluguel
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desce pelo ralo da banheira. Devia pensar em comprar uma casa prpria, investir seu dinheiro.
- Comprar? - Ed pegou uma colher e misturou a bebida. - Comprar uma casa?
- Claro. Voc s pode ser louco pra jogar dinheiro pela janela todo ms em aluguel.
- Comprar? Voc pensa em comprar uma casa?
- Com o meu salrio?
Ben riu e inclinou a cadeira para trs no espao mnimo que tinha.
- Na ltima vez que vi, o meu lquido era o mesmo que o seu.
- Oua o que voc precisa fazer, parceiro. Precisa se casar. - Ed nada disse, mas emborcou metade da bebida. - Srio... quer dizer, como uma de carreira, pra que
ela no pense em descart-lo depois. Ajudaria se encontrasse uma mulher que no o incomodasse olhar por longos perodos. Depois juntam os salrios dos dois, compram
uma casa e voc pra de jogar fora dinheiro de aluguel.
- S porque esto transformando meu prdio em condomnio eu tenho de me casar?
- Esse  o sistema. Vamos perguntar a algum imparcial. - Ben curvou-se para a mulher ao lado. - Com licena, mas voc acredita, com o atual clima socioeconmico,
que duas pessoas podem viver gastando tanto quanto apenas uma? Na verdade, considerando o poder de compra de uma famlia com duas rendas, que duas podem viver com
os mesmos custos que uma?
A mulher largou o vinho com soda e deu-lhe uma olhada analtica.
-  uma pegadinha?
- No,  uma pesquisa aleatria. Esto transformando o apartamento do meu amigo num condomnio.
- Os safados imundos fizeram a mesma coisa comigo. Agora levo vinte minutos de metr pra chegar ao trabalho.
- Voc trabalha?
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- Claro. Sou gerente da loja Womens Better Dresses, em Woodies.
- Gerente?
- Isso mesmo,
- Olha a, Ed. - Ben curvou-se para o parceiro. - Sua futura noiva.
- Tome outra bebida, Ben.
- Vai deixar uma oportunidade perfeita ir por gua abaixo. Que tal trocarmos de lugar pra voc poder... - Calou-se quando viu um homem aproximar-se da mesa deles.
Instintivamente endireitou-se na cadeira. - Boa-noite, monsenhor.
Ed virou-se e viu Logan logo atrs, de suter e cala larga cinza.
-  um prazer v-lo de novo, monsenhor. Quer se espremer aqui junto de ns?
- Sim, se no for interromper. - Logan conseguiu arrastar uma cadeira at o canto da mesa. - Liguei para a delegacia e me disseram que vocs estavam aqui. Espero
que no se importem.
Ben correu o dedo acima e abaixo do lado do copo.
- Que podemos fazer pelo senhor?
- Podem me chamar de Tim. - Logan fez um sinal  garonete. -Acho que isso nos deixaria mais  vontade. Traga-me uma cerveja St. Pauli Girl e outra rodada para os
meus colegas. - Desviou o olhar quando o pianista comeou a tocar uma das baladas de Billy Joel. - No preciso perguntar se tiveram um dia puxado. Entrei em contato
com a Dra. Court e tive uma breve conversa com o capito de vocs h duas horas. Esto tentando encontrar um certo Francis Moore.
- Tentando  a palavra exata.
Ed afastou o prato vazio para a garonete retir-lo quando servia as bebidas.
- Conheci um Frank Moore. Ensinava no seminrio aqui. Escola antiga. F inabalvel. O tipo de padre ao qual imagino esteja mais habituado, Ben.
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- Onde ele est?
- Oh, na luz de Deus, tenho certeza. - Logan pegou um punhado de nozes. - Morreu h dois anos. Abenoado seja, filho - disse diante da cerveja que acabava de chegar.
- Mas o velho Frank no era um fantico delirante, apenas inflexvel. Hoje temos muitos padres jovens que questionam e pesquisam, debatem essas questes espinhosas...
perdoem-me o trocadilho... como celibato e o direito da mulher de aplicar os sacramentos. Era mais fcil para Frank Moore, que via tudo em preto-e-branco. Um homem
do clero no deseja vinho, mulheres, nem roupas ntimas de seda. Sade. - Ergueu o copo e bebeu o que restava da cerveja. - Digo isso porque achei que poderia sondar
com algumas ligaes, conversar com pessoas que se lembram de Frank e alguns de seus discpulos. Tambm dei orientao no seminrio, mas isso foi h quase dez anos.
- Aceitaremos o que conseguirmos.
- timo. Agora que j foi tudo acertado, eu tomaria outra cerveja. - Atraiu o olhar da garonete, depois se virou e sorriu para Ben. - Quantos anos de escola catlica?
O detetive pegou o mao de cigarros.
- Doze.
- A trajetria completa. Tenho certeza de que as irms lhe deram uma base admirvel.
- E algumas boas broncas.
- Sim, abenoadas sejam. No so todas como Ingrid Bergman.
- No.
- Tampouco tenho muito em comum com Pat O'Brien. - Logan ergueu a cerveja nova. - Claro, somos ambos irlandeses.
- Padre Logan... Tim - apressou-se a corrigir Ed. - Posso lhe fazer uma pergunta religiosa?
- Se precisa.
- Se esse cara, qualquer cara, o procurasse no confessionrio e dissesse que liquidou algum, assassinou algum, voc o entregaria  polcia?
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- Trata-se de uma pergunta que posso responder igualmente como psiquiatra e padre. No existem muitas. - Ele examinou a cerveja por um instante. Em algumas ocasies,
os superiores de Logan o consideravam flexvel demais, porm sua f em Deus e no prximo era inabalvel. - Se algum que cometeu um crime me procurasse no confessionrio
ou buscasse minha ajuda, eu usaria tudo ao meu alcance para convenc-lo a se entregar.
- Mas no tomaria as providncias necessrias? - insistiu Ben.
- Se algum viesse a mim como mdico ou buscasse absolvio, estaria em busca de ajuda. Eu cuidaria para que a tivesse. Psiquiatria e religio nem sempre esto de
pleno acordo. Neste caso, sim.
No havia nada que Ed gostasse mais que um problema com mais de uma soluo.
- Se no esto de pleno acordo, como voc pode fazer as duas coisas?
- Lutando para entender a alma e a mente... em muitos aspectos, vendo-as como a mesma coisa. Entendam, como padre, eu poderia discutir a questo da criao durante
horas, dar a vocs razes viveis por que o Gnesis se mantm slido como uma rocha. Como cientista, poderia fazer exatamente a mesma coisa com a evoluo e explicar
por que o Gnesis  um belo conto de fadas. Como homem, poderia continuar sentado aqui e dizer: que diabos de diferena isso faz? Estamos aqui.
- Em qual das duas acredita? - perguntou Ben.
Preferia uma soluo, uma resposta. A certa.
- Depende, por assim dizer, de que roupa eu esteja usando. - O monsenhor tomou um longo gole e percebeu que, se pedisse mais uma cerveja, ficaria agradavelmente
zonzo. Desfrutando a segunda, comeou a aguardar ansioso a terceira. -Ao contrrio do que ensinava o velho Francis Moore, no h s preto e branco, Ben, nem no catolicismo
nem na psiquiatria, e com certeza no na vida. Deus nos criou pela Sua bondade e generosidade; talvez um senso de ridculo? Ou inventamos Deus porque temos uma necessidade
inata,
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desesperada, de acreditar em alguma coisa maior e mais poderosa que ns prprios? Discuto isso comigo mesmo muitas vezes. Fez sinal, pedindo outra rodada.
- O pecado em sua infinita variedade. Os Dez Mandamentos foram muito claros. No matars. No entanto, temos sido guerreiros desde que aprendemos a falar. A Igreja
no condena o soldado que defende seu pas.
Ben pensou em Josh. O irmo se condenara.
- O assassinato de um para um  pecado. Jogar uma bomba com a bandeira americana numa aldeia  patritico.
- Somos criaturas ridculas, no? - perguntou Logan,  vontade. - Deixe-me usar um exemplo mais simplista de interpretao. Tive uma aluna h dois anos, uma jovem
brilhante que, me envergonha dizer, conhecia a Bblia melhor do que eu jamais teria sequer esperana de conhecer. Ela me procurou um dia para perguntar sobre a questo
da masturbao. - Virou-se um pouco na cadeira e esbarrou no cotovelo da garonete. - Desculpe-me, querida. - Virou-se de novo. - Ela recorreu a uma citao, claro
que no vou lembrar as palavras exatas, mas tinha a ver com o conceito de que  melhor um homem derramar sua semente no ventre de uma prostituta que no cho. Uma
posio muito forte, se poderia dizer, contra, ah, se servir sozinho.
- Maria Madalena era prostituta - murmurou Ed, quando a embriaguez comeou a alcan-lo.
-  verdade. - Logan sorriu-lhe, divertido. - De qualquer modo, a afirmao de minha aluna era de que a mulher no tinha semente para derramar no cho. Portanto,
s a masturbao do homem era pecado.
Ben lembrou duas sesses apavorantes, suadas, durante a puberdade.
- Tive de rezar a droga do rosrio inteiro - resmungou.
- E eu duas vezes - disse Logan, e pela primeira vez viu Ben relaxar com um sorriso.
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- Que disse a ela? - quis saber Ed.
- Disse que a Bblia muitas vezes fala de generalidades, que ela devia examinar sua conscincia. Depois eu mesmo pesquisei a citao. - Deu um gole reconfortante.
- O diabo que me carregue se no achei que a garota tinha razo.
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Captulo Dez
A   Galeria de Arte Greenbriar era um conjunto de duas salas pequenas e espalhafatosas perto do rio Potomac que permanecia em atividade porque as pessoas sempre
compram o ridculo, se a etiqueta do preo for muito alta.
Ela era dirigida por um habilidoso homenzinho que alugara o prdio que caa aos pedaos por uma bagatela e promovera sua excntrica reputao pintando o exterior
de castanho-avermelhado. Gostava de palets compridos, soltos, em matizes multicoloridos, com botas de cano curto para combinar, e fumava cigarros delicados. Tinha
um rosto estranho, em forma de lua cheia, e olhos claros, que tendiam a adejar quando ele falava de liberdade e expresso artsticas. Investia os lucros em ttulos
municipais.
Magda P. Carlyse era uma artista plstica que se tornou badalada quando uma ex-primeira-dama comprou uma de suas esculturas como presente de casamento para a filha
de uma amiga. Alguns crticos de arte haviam sugerido que a primeira-dama talvez no gostasse muito dos recm-casados, mas a carreira de Magda deslanchara.
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Sua exposio na Galeria Greenbriar foi um sucesso enorme. As pessoas apinhavam-se na sala, vestidas de peles, brim, fibras sintticas e sedas. Servia-se cappuccino
em xcaras do tamanho de dedais, junto com quiches de cogumelo do tamanho de moedas de vinte e cinco centavos. Puseram um negro de mais de dois metros e dez de altura,
envolto num manto prpura e hipnotizado, perto de uma escultura de chapas metlicas e penas.
Tess deu uma longa olhada na pea, que a fez pensar no cap de um caminho que passara por uma migrao de gansos desafortunados.
- Combinao fascinante de materiais, no ?
Ela esfregou o dedo no lbio inferior e ergueu os olhos para o rapaz com quem sara.
- Oh, com certeza.
- Um simbolismo muito forte.
- Assustador - concordou Tess, e ergueu a xcara para disfarar uma risadinha. Ouvira falar da Greenbriar, claro, mas nunca encontrara tempo nem energia para explorar
a pequena e badalada galeria. Nessa noite, agradecia a distrao proporcionada pelo encontro. - Sabe, Dean, foi maravilhoso mesmo voc ter pensado nisso. Receio
que ando negligenciando meu interesse pela arte, ah, popular.
- Seu av me disse que voc tem trabalhado demais.
- Ele  que se preocupa demais. - Ela afastou-se para examinar um tubo flico de uns sessenta centmetros que se erguia em direo ao cu. - Porm, uma noite aqui
nos tira sem dvida a mente de tudo o mais.
- Tanta emoo, tanta perspiccia - disse um homem exultante, usando seda amarela, para uma mulher envolta em pele de zibelina. - Como pode ver, o uso da lmpada
quebrada simboliza a destruio das idias numa sociedade impulsionada para um deserto de uniformidade.
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Tess afastou-se quando o homem fez um gesto dramtico com o cigarro e olhou para a escultura pela qual delirava.
Tinha uma lmpada G.E. de setenta e cinco watts com um buraco recortado bem junto ao centro. Fora aparafusada numa base de pinheiro-branco do Canad. S isso, exceto
pelo fato de a etiqueta azul indicar que havia sido vendida pelo preo de mil cento e setenta e cinco dlares.
- Impressionante - murmurou Tess, e foi presenteada com um radiante sorriso do Sr. Seda Amarela.
- Muito inovadora, no? - Dean sorriu para a lmpada como se ele prprio a houvesse criado. - E de pessimismo ousado.
- As palavras me escapam.
Decidindo-se contra o comentrio bvio, ela apenas sorriu e continuou em frente. Poderia escrever um ensaio, pensou, sobre as implicaes - histeria de massa - que
incitavam as pessoas a pagarem um preo alto por lixo esotrico. Parou perto de um cubo de vidro cheio de botes de vrios tamanhos e cores: quadrados, redondos,
esmaltados e forrados de pano, amontoavam-se e chocavam-se na caixa lacrada. A escultora batizara-a de Populao, 2010. Tess imaginou que uma menina poderia t-la
montado em trs horas e meia.
Com um abano da cabea, voltaria para Dean, quando viu Ben. Parado diante de outra pea em exibio, ele tinha as mos nos bolsos e uma expresso de indisfarvel
diverso no rosto. Sob o palet aberto, usava um suter cinza simples e cala jeans. Uma mulher com o equivalente a cinco mil dlares em diamantes parou ao lado
dele para examinar a mesma escultura. Tess viu-o resmungar alguma coisa em voz baixa, pouco antes de erguer os olhos e v-la.
Encararam-se, enquanto as pessoas passavam entre eles. A mulher dos diamantes bloqueou o caminho por um instante, mas, quando seguiu adiante, nenhum dos dois sara
do lugar. Tess sentiu alguma coisa relaxar-se no ntimo, depois se contrair e mais uma vez incomod-la, antes de forar-se a sorrir-lhe e acenar com a cabea, numa
saudao casual, amistosa.
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-... no concorda?
-  Como? - Ela se voltou sobressaltada para Dean. - Desculpe, minha mente vagava.
O jovem, que dava aulas a centenas de estudantes universitrios por ano, habituara-se a ser ignorado.
- Eu perguntei se voc no acha que essa escultura especfica mostra o verdadeiro conflito e o ciclo eterno do relacionamento homem-mulher?
- Huum.
O que ela via era uma desarmonia de cobre e estanho que podia ou no ter sido soldada em cpula metlica.
- Eu estava pensando em comprar para o meu escritrio.
- Oh. - Ele era um professor de ingls meigo e totalmente inofensivo, cujo tio bancava um ocasional jogo de pquer com o av dela. Tess sentiu-se obrigada a afast-lo
da escultura, como talvez uma me afastasse o filho, cuja mesada lhe coava a mo, da prateleira de miniaturas de carros a preos exorbitantes. - No acha que devia
dar mais uma olhada por a, examinar algumas das outras... como algum as chamara?... peas, primeiro?
- As obras esto vendendo como po quente. No quero perder a oportunidade. - Ele olhou a sala compacta como uma lata de sardinha que comeava a avanar devagar
em direo ao dono da galeria. Era difcil no ver Greenbriar num terno azul cintilante com leno de cabea combinando. - Com licena, s um minuto.
- Ol, Tess.
Cautelosa, calma, ela ergueu os olhos para Ben. Ficou com os dedos midos em volta da minscula asa da xcara. Disse a si mesma que era o calor do corpo no espao
abarrotado de gente.
- Ol, Ben, como vai?
- Esplndido. - Ele sentia-se um lixo, sentira-se um lixo durante a semana inteira. Ali, no meio do que considerava ostentao e os pomposos, ela parecia to indiferente
e virginal quanto um vaso de violetas no meio de uma floresta de orqudeas. - Reunio interessante.
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- Pelo menos.
Ento ela deslizou o olhar para a mulher ao lado dele.
- Dra. Court, Trixie Lawrence.
Uma amazona, de couro vermelho, botas de salto alto, Trixie tinha uns dois centmetros a mais que ele e exibia uma juba de improvveis cabelos ruivos que explodiam
em volta da cabea em espiges, saca-rolhas e roscas. O exrcito de braceletes no brao tinia quando ela se mexia. No seio esquerdo, via-se uma tatuagem de rosa
que brotava do profundo V da tnica.
- Ol.
Tess sorriu e ofereceu a mo.
- Oi. Ento  mdica?
Apesar da altura, a voz de Trixie no passava de um guincho ofegante.
- Psiquiatra.
- Verdade?
- Verdade - concordou Tess, e Ben se viu s voltas com um pigarro.
Trixie pegou uma das quiches minsculas e engoliu-a como uma aspirina.
- Um primo meu foi internado no hospcio uma vez. Ken Launderman. Talvez o conhea.
- No, acho que no.
- , imagino que receba um monte de pessoas com um parafuso frouxo.
-  Mais ou menos - murmurou Tess, e olhou para Ben. Nenhum vestgio de encabulamento, notou. Ria como um idiota. Ela contraiu os lbios e ergueu a xcara. - Estou
surpresa de ver voc aqui.
Ben balanou-se para trs nos calcanhares dos tnis surrados.
- Apenas um impulso. Detive Greenbriar h uns sete anos. Um pequeno problema artstico com cheques. Quando ele me enviou o convite, pensei em aparecer e descobrir
como vinha se
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saindo. - Deu uma rpida inspecionada e viu o anfitrio abraar a mulher dos diamantes. - Parece ir de vento em popa.
Ela provou o cappuccino j quase frio e perguntou-se se Ben mantinha relaes to amistosas assim com todos que j prendera.
- Ento, o que acha da exposio? Ele olhou para a caixa dos botes.
- Tanta mediocridade flagrante, numa sociedade que tem noite de solteiros no supermercado, decerto ser recompensada com incrveis ganhos financeiros.
Notou a luz brilhar nos olhos dela, desejando poder toc-la. Apenas uma vez. S um instante.
-  isso que torna os Estados Unidos um pas maravilhoso.
- Voc est tima, doutora.
Ele sentia saudades. Era a primeira vez que julgava entender o verdadeiro significado da palavra.
- Obrigada.
Com a intensidade despreocupada que no sentira desde a adolescncia, ela desejou estar mesmo tima.
- Eu nunca participei de uma noite de solteiros no supermercado - acrescentou Trixie, cheirando uma travessa cheia de quiches.
- Vai adorar. - O sorriso de Ben se desfez um pouco quando olhou por cima do ombro de Tess e viu o homem com quem ela estava antes. - Amigo seu?
Tess virou a cabea e esperou Dean abrir caminho pela multido e juntar-se a eles. Ben observou o pescoo longo, fino e rodeado por prolas, que lhe realavam ainda
mais a delicadeza da pele. Sentiu aquele perfume discreto, com um leve toque sensual, acima de tudo o mais.
-  Dean, gostaria que voc conhecesse Ben Paris e Trixie Lawrence. Ben  detetive da polcia local.
- Ah, um dos melhores da cidade.
Dean deu-lhe um caloroso aperto de mos.
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O cara parecia de uma capa da revista Gentlemens Quarterly e cheirava como em um comercial de Brut. Ben sentiu uma compulso irracional de apertar-lhe a mo  maneira
da luta livre e torc-la.
-  um dos colegas de Tess?
- No, na verdade fao parte do corpo docente da Universidade Americana.
Professor universitrio. Era de imaginar. Ben tornou a enfiar as mos nos bolsos e afastou-se um pequeno e revelador passo de Tess.
- Bem, Trix e eu acabamos de entrar. Ainda no tivemos a chance de absorver as esculturas.
- E quase demais para se absorver numa nica noite. - Dean lanou um olhar de posse  deformao de cobre atrs de si. - Acabei de comprar essa pea.  meio audaciosa
para meu escritrio, mas no pude resistir.
-  mesmo? - Ben olhou-a com ar irnico. - Voc deve estar emocionado. Vou dar uma volta por a e ver se posso escolher alguma coisa para a minha toca. Foi um prazer
conhec-lo. - Passou o brao pela cintura firme de Trixie. - At mais, doutora.
- Boa-noite, Ben.

FALTAVA MUITO PARA AS ONZE QUANDO TESS ENTROU SOZINHA no apartamento. A dor de cabea que usara como desculpa para interromper a noite fora apenas metade mentira.
Em geral, gostava das sadas espordicas com Dean. Era um homem no exigente e descomplicado. Mas essa noite simplesmente no tivera condies de enfrentar um jantar
tardio e uma conversa sobre a literatura do sculo XIX. No depois da galeria de arte.
No depois de ver Ben, obrigou-se a admitir, e descalou os sapatos aps dois passos porta adentro. Qualquer progresso que fizera para aliviar o seu ego e a tenso
desde aquela ltima manh em que o vira se desfizera, muito simplesmente, em pedacinhos.
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Ento comearia do zero. Uma xcara de ch quente. Despiu o casaco de pele e pendurou-o no armrio do corredor. Passaria a noite com Kurt Vonnegut, camomila e Beethoven.
A combinao livraria a mente de qualquer um dos problemas.
Que problemas?, perguntou, ali parada no silncio do apartamento ao qual chegava uma noite aps outra. No tinha verdadeiros problemas, porque cuidava para que no
os tivesse. Um belo apartamento num bairro bom, um carro confivel, uma vida social agradvel e sempre informal.
Dava o passo A, e fazia questo de que a levasse ao B, at chegar ao plat que a satisfazia. Sentia-se satisfeita.
Retirou os brincos e largou-os na mesa de jantar. O rudo das pedras na madeira ecoou surda no espao vazio. Os crisntemos que comprara no incio da semana comeavam
a desfazer-se e as ptalas amareladas e desbotadas jaziam no mogno polido. O perfume intenso e aromtico acompanhou-a at o quarto.
No olharia os arquivos na mesa essa noite, disse a si mesma, abrindo o zper do vestido de l marfim. Se tinha algum problema, era por no se conceder tempo suficiente.
Essa noite, iria paparicar-se, esquecer os pacientes que iriam ao consultrio na manh seguinte, esquecer a clnica onde teria de enfrentar, duas tardes na semana
seguinte, a raiva e o ressentimento por causa da suspenso das drogas. Esquecer o assassinato de quatro mulheres. E Ben.
No espelho de corpo inteiro dentro do armrio, seu reflexo projetou-se de um salto. Era uma mulher de altura mediana, compleio magra, num vestido marfim caro e
de corte conservador. A gargantilha de trs fios de prolas e uma gorda ametista sobressaam na garganta. Duas travessas debruadas de prolas prendiam-lhe os cabelos
acima nas tmporas. O conjunto fora da me e assentava-lhe com to discreta elegncia quanto na filha do senador.
A me usara a gargantilha no casamento. Tess tinha retratos no lbum encadernado em couro que guardava na ltima gaveta da cmoda. Quando o senador dera as prolas
 neta, no aniversrio de
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dezoito anos, os dois choraram. Toda vez que as usava, ela sentia ao mesmo tempo uma pontada de sofrimento e orgulho. Representavam um smbolo de quem era, de onde
viera e, em alguns aspectos, do que dela se esperava.
Mas essa noite pareciam apertadas demais na garganta. Tirou-as e sentiu as prolas frias na mo.
Mesmo sem elas, a imagem pouco mudou. Examinando-se, perguntou-se por que escolhera um traje to simples, to correto. O armrio fervilhava deles. Virou-se de lado
e tentou imaginar como ficaria em algo ousado ou chamativo. Como couro vermelho.
Logo se deu conta. Balanando a cabea, despiu o vestido e pegou um cabide. Ali estava ela, uma mulher madura, prtica, at sensvel - psiquiatra experiente -, parada
diante do espelho imaginando-se em couro vermelho. Lamentvel. Que diria Frank Fuller se o procurasse para fazer anlise?
Satisfeita por conseguir rir de si mesma, estendeu a mo para pegar o roupo de chenile quentinho que batia no cho. No impulso, contornou-o e retirou um quimono
de seda florida. Um presente raras vezes usado. Essa noite iria mimar-se, a seda roando na pele, msica clssica, e levaria vinho, no ch, consigo para a cama.
Ps a gargantilha sobre a cmoda, puxou as travessas do cabelo e largou-as junto. Desfez a cama e afofou os travesseiros de antemo. Outro impulso fizera-a acender
as velas perfumadas ao lado. Inalou o cheiro de baunilha e dirigiu-se  cozinha.
O telefone a deteve. Tess disparou-lhe um olhar acusador, mas foi  mesa e o atendeu na terceira chamada:
- Al.
- Voc no estava em casa. Esperei um longo tempo, mas voc no chegou.
Ela reconheceu a voz. Ele telefonara antes, no consultrio, na quinta-feira. A idia de uma noite prazerosa em casa escapuliu quando ela pegou um lpis.
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- Voc queria falar comigo. No terminamos a conversa antes, terminamos?
-  errado eu falar. - Tess ouviu-o sorver uma dolorosa inspirao. - Mas preciso...
- Nunca  errado falar - ela disse, num tom reconfortante. - Posso tentar ajud-lo.
- Voc no estava l. Naquela noite no voltou, no voltou para casa. Eu esperei. Vigiei.
Tess ergueu a cabea, sobressaltada de um modo que a fez congelar o olhar na janela escura alm da mesa de trabalho. Vigiara-a. Embora estremecesse, aproximou-se
mais, decidida, e olhou a rua vazia.
- Voc me vigiou?
- Eu no devia ir a. No devia. - O homem baixou a voz, como se falasse consigo mesmo. Ou com outra pessoa. - Mas preciso. Voc deve entender - deixou escapar num
tom rpido e acusador.
- Vou tentar entender. Gostaria de ir ao meu consultrio e conversar comigo?
- L, no. Eles saberiam. No  hora de saberem. Ainda no terminei.
- Que foi que voc no terminou? - Seguiu-se apenas silncio, enquanto ele inspirava e tornava a expirar com dificuldade. - Eu poderia ajud-lo mais se voc se encontrasse
comigo.
- No posso, voc no entende? At falar com voc ... Ai, meu Deus.
Comeou a murmurar. Tess no entendia. Aguou o ouvido. Talvez latim, pensou, e ps um ponto de interrogao no bloco, com um crculo em volta.
- Voc est sofrendo. Gostaria de ajud-lo a lidar com a dor.
- Laura sentia dor, uma dor terrvel. Sangrava. Eu no pude ajud-la. Ela morreu em pecado, antes da absolvio.
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O lpis vacilou em sua mo. Tess julgou necessrio sentar-se na cadeira para acalmar-se. Quando se viu fitando s cegas a janela, forou-se a olhar mais uma vez
o bloco e as anotaes. A formao profissional reinstalou-se e ela se disciplinou para respirar fundo e manter a voz calma.
- Bela, bela Laura. Cheguei tarde demais para salv-la. Eu no tinha o direito ento. Agora me deram o poder e a obrigao. A vontade de Deus  dura, muito dura.
- Ele quase suspirou, quando a voz se tornou forte: - Mas justa. Os cordeiros so imolados e seu sangue puro, derramado sobre o altar em expiao dos pecados. Deus
exige sacrifcios. Exige, sim.
Ela umedeceu os lbios.
- Que tipo de sacrifcios?
- Uma vida. Ele nos d e tira a vida. "Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmo mais velho, quando um furaco se levantou de repente
do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. S eu consegui escapar para te trazer a notcia." S eu - repetiu na
mesma voz terrvel e sem expresso que usara na citao. - Mas, aps os sacrifcios, aps os juzos, Deus recompensa aqueles que permanecem inocentes.
Como se fosse dar-lhes notas, Tess concentrou-se em fazer as anotaes claras e uniformes. O corao martelava-lhe na garganta.
- Deus manda voc sacrificar as mulheres?
- Salvar e absolver. Tenho o poder agora. Perdi a f depois de Laura, dei as costas a Deus. Foi um tempo terrvel de egosmo e ignorncia. Mas depois Ele me mostrou
que, se eu fosse forte, se as sacrificasse, todos seramos salvos. Minha alma est ligada  dela - ele disse em voz baixa. - Estamos presos um ao outro. Voc no
voltou para casa naquela noite. -A mente do homem oscilava para a frente e para trs. Tess ouvia isso tanto nas mudanas de voz quanto no contedo das palavras.
- Eu esperei, queria falar com voc, explicar, mas voc passou a noite em pecado.
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- Fale-me daquela noite. A noite em que voc me esperou.
- Esperei, vigiei a luz na sua janela. Voc no apareceu. Sa andando. No sei por quanto tempo, nem onde. Achei que voc vinha em minha direo, ou Laura. No,
achei que era voc, mas no era. Ento eu... eu soube que dava no mesmo... e a coloquei no beco, longe do vento. To frio. Fazia tanto frio. Coloquei-a fora do campo
de viso de todos antes que viessem e me levassem. Eles so ignorantes e desacatam os costumes do Senhor. -A respirao dele agora vinha em arfadas irregulares.
- Dor. Nusea. Minha cabea. Esta dor to grande.
- Posso ajudar na dor. Diga-me onde est, que eu irei.
- Voc pode? - Uma criana assustada a quem se oferece uma luz numa noite de tempestade. - No! - A voz saiu retumbante, de repente poderosa. - Acha que pode me
tentar e levar a questionar a vontade de Deus? Eu sou o instrumento Dele. A alma de Laura aguarda os sacrifcios restantes. S mais dois. Ento todos seremos livres,
Dra. Court. No  a morte que se deve temer, mas a danao. Tomarei conta de voc - ele prometeu, quase humilde. - Rezarei por voc.
Tess no se mexeu quando ele desligou o telefone, mas sentou absolutamente imvel. L fora, as estrelas eram claras, prximas e brilhantes. Os carros fluam pela
rua num ritmo tranqilo. As luzes dos postes empoavam-se na calada. Ela no viu ningum, mas se perguntou, ao sentar-se perto da janela, se a viam.
O suor brotara-lhe na testa, frio e pegajoso. Ela pegou um leno de papel no canto da mesa e secou-o com todo cuidado.
O assassino vinha avisando-a. Tess no sabia nem se ele tinha plena conscincia disso, mas telefonava-lhe tanto para avis-la quanto para pedir ajuda. Seria a prxima.
Levou os dedos trmulos ao lugar onde tinha antes a gargantilha de prolas. No conseguiu engolir.
Devagar, e com infinito cuidado, puxou a cadeira para trs, levantou-se e saiu do campo de viso da janela. Pusera a mo na
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cortina para pux-la, quando a batida  porta a fez bater com as costas na parede, num pnico animal que jamais sentira antes. O terror inundou-a enquanto procurava
ao redor um meio de defesa, um lugar para esconder-se e um jeito de fugir. Reprimiu-o ao estender a mo ao telefone - 911. S precisava discar, dar o nome e endereo.
Mas, quando retornou a batida, ela olhou para a porta e viu que esquecera de passar a corrente.
Chegou ao outro lado da sala em segundos, apoiando seu peso na porta e atrapalhando-se com a corrente, que de repente pareceu grande e desajeitada demais para encaixar-se
na fenda. Meio soluando, encaixou-a afinal.
- Tess? - De novo a batida, dessa vez mais alta e exigente. - Tess, que est acontecendo?
- Ben, Ben, oh, meu Deus!
Continuava com os dedos atrapalhados quando se esticou para soltar a corrente. Deslizou a mo pela maaneta uma vez, depois abriu com fora a porta e lanou-se para
cima dele.
- Que  isso? - Ben sentiu os dedos dela se enterrarem em seus bolsos quando tentou empurr-la para trs. - Est sozinha? - O instinto o fez estender a mo para
pegar a arma, fech-la sobre ela e olhar em volta  procura de algum, qualquer um, que pudesse ter tentado machuc-la. - Que foi que houve?
- Feche a porta. Por favor.
Mantendo um dos braos nos ombros de Tess, ele passou e encaixou a corrente.
- Fechada.  melhor se sentar, est tremendo. Me deixe pegar uma bebida pra voc.
- No. Apenas me abrace um instante. Achei, quando voc bateu, achei...
- Vamos, voc precisa de um pouco de conhaque. Est fria como gelo.
Tentando acalm-la, acarici-la, ele conduziu-a ao sof.
- Ele me telefonou.
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Ben apertou os dedos no brao dela e virou-a de frente. Viu as faces plidas, os olhos enormes. Tess continuava com a mo direita agarrada no casaco dele. E ele
no precisou perguntar quem.
- Quando?
- Um minuto atrs. Telefonou para o consultrio antes, mas no percebi que era ele. Daquela vez, no. Tem ficado l fora. Eu o vi uma noite, na esquina, apenas ali
parado. Achei que estava sendo paranica. Um bom psiquiatra conhece os sintomas. - Ela riu e depois cobriu a boca com as mos. - Oh, meu Deus, preciso parar com
isso.
- Sente-se, Tess. - Ben relaxou os dedos no brao dela e manteve a voz calma; o mesmo tom que usava para interrogar uma testemunha abalada. - Tem algum conhaque?
- Como? Ah, est no buf ali, a porta  direita.
Quando ela se sentou, ele foi at o buf, o que sua me chamaria de aparador, e encontrou uma garrafa de Rmy Martin. Serviu uma dose dupla numa taa de conhaque
e levou para ela.
- Beba um pouco disso antes de comear de novo.
- Tudo bem. - Ela j se recompunha, mas bebeu para ajudar a acalmar as coisas. O conhaque disparou no organismo e entorpeceu o medo restante. O medo no tinha lugar
em sua vida, lembrou. Apenas idias claras e anlise cuidadosa. Quando tornou a falar, foi com a voz nivelada, sem o gorgolejo de histeria. Permitiu-se apenas um
instante para sentir-se envergonhada.
- Na noite de quinta-feira, tive um compromisso tarde no consultrio. Quando terminou e eu estava arrumando as coisas para encerrar o expediente, recebi um telefonema.
Ele parecia muito perturbado e, embora eu no achasse que era um paciente atual, tentei atra-lo um pouco. No cheguei a lugar algum, ele apenas desligou. O conhaque
ondulou delicadamente quando ela girou a taa nas mos. - Esperei alguns minutos, mas, como ele no voltou a ligar, arquivei as pastas e fui embora. Tornou a ligar
esta noite.
- Tem certeza de que era o mesmo homem?
199
- Sim, tenho. O mesmo que ligou antes. O mesmo homem que vocs tm procurado desde agosto. - Tess tomou mais um gole de conhaque e largou a taa. - Ele est se desintegrando
rpido.
- Que foi que ele disse, Tess? Conte tudo que lembra.
- Eu anotei.
- Voc... - Ben se calou e fez um movimento brusco com a cabea. - Claro que sim. Vamos dar uma olhada.
Ela levantou-se, mais uma vez firme, e foi at a mesa. Trouxe o bloco amarelo e entregou-o. Ali estava uma coisa positiva, construtiva. Desde que conseguisse consider-la
um caso, ela no tornaria a desmoronar.
- Talvez tenha omitido algumas palavras, porque ele falava muito depressa, mas peguei quase tudo.
-  estenografia.
- . Ah, eu leio pra voc. - Ela comeou no incio, com o cuidado de manter a voz neutra. As palavras serviam para dar ao psiquiatra uma pista sobre a mente. Tess
lembrou isso e repeliu o horror de saber que aquelas lhe haviam sido dirigidas. Aps a citao bblica, parou. - Parece do Antigo Testamento. Imagino que o monsenhor
Logan saber identificar.
-J.
- Como?
-  uma passagem de J. - Ele fixou o olhar na outra parede da sala e acendeu um cigarro. Lera duas vezes a Bblia inteira, quando Josh adoecera.  procura de respostas,
lembrou, a perguntas que jamais chegara sequer a formar. - Sabe, o cara que teve tudo que quis.
- E ento Deus o testou?
- Sim. - O detetive pensou mais uma vez em J e balanou a cabea. Josh tinha tudo que queria, antes do Vietn. - Feliz demais, J? Que tal uma lepra?
- Entendo. - Embora fosse dolorosamente bvio que ela no conhecia a Bblia assim to bem quanto ele, compreendeu a relao.
200
- , faz sentido. Ele tinha a vida estabelecida, era feliz; com toda a probabilidade, um bom catlico.
- Nunca teve a f testada - murmurou Ben.
- , ento foi de alguma forma testada, e ele fracassou.
- A "alguma forma" teria a ver com essa Laura. - Ben olhou mais uma vez o bloco amarelo, frustrado por no saber ler sozinho.
- Vamos ver o resto.
Ouvindo-a ler, esforava-se para pensar como policial, e no como um homem s voltas com uma paixo tola e algo mais profundo. Um assassino vinha vigiando-a. Sentiu
o estmago contrair-se num labirinto de minsculos ns. Estava  espera dela na noite em que Anne Reasoner fora assassinada, a noite que Tess passara na cama dele.
O policial reconheceu o aviso to rpido quanto a mdica.
- Ele se concentrou em voc.
- , esse parece ser o ponto. - Sentindo um frio brusco, ela enfiou as pernas debaixo do corpo e afastou o bloco. Um caso. Tess viu que era vital pensar e analisar
aquilo como um caso. - Foi atrado pra mim porque sou psiquiatra e parte dele sabe o quanto  desesperadora sua necessidade de ajuda. E tambm porque me encaixo
na descrio fsica de Laura.
Fora a voz, lembrou, o mais assustador. A forma como oscilava de lamentvel a poderosa, na loucura tranqila e determinada. Ela comprimiu uma mo na outra.
- Ben, eu quero que entenda que  como falar com duas pessoas. Uma delas, chorosa, desesperada, quase suplicante. A outra... a outra, altiva, fantica e decidida.
-   apenas uma pessoa que estrangula mulheres. - Ele levantou-se e encaminhou-se ao telefone. - Vou ligar para a delegacia. Vamos precisar pr uma escuta no seu
telefone, aqui e no consultrio.
- No consultrio? Ben, muitas vezes eu falo com pacientes pelo telefone. No posso pr em risco o direito deles ao sigilo.
- No me crie problemas, Tess.
201
- Voc precisa entender...
- No! - Ele girou e encarou-a. - Tem um manaco l fora matando mulheres. Os telefones sero grampeados, com sua permisso ou com uma ordem judicial. Outras quatro
mulheres no tiveram a chance. Capito? Aqui  Paris. Temos uma brecha.

LEVOU MENOS DE UMA HORA. DOIS POLICIAIS DE TERNO E gravata entraram, fizeram o que pareciam alguns pequenos ajustes no telefone e recusaram com toda educao o caf
oferecido. Um deles ergueu o receptor, apertou uns nmeros e testou a escuta. Pegaram a chave sobressalente do consultrio de Tess e tornaram a sair.
- S isso? - ela perguntou quando ficou de novo a ss com Ben.
- Vivemos os dias do circuito integrado. Vou tomar um pouco daquele caf.
- Ah, claro. - Com uma ltima olhada no telefone, ela foi  cozinha. - Isso me faz me sentir exposta, saber que, sempre que o telefone toca, algum com fones escuta
tudo o que digo.
- A idia  fazer voc se sentir protegida.
Quando ela voltou com o caf, encontrou-o parado junto  janela, olhando a rua. Viu-o fechar decidido a cortina ao ouvi-la atrs.
- No sei se ele vai ligar de novo. Fiquei assustada, tenho certeza de que percebeu; droga, eu no soube conduzir muito bem a situao.
- Acho que voc perdeu a postura de superpsiquiatra. - Ben tomou o caf e a mo dela. - No quer um pouco?
- No, j estou ligada demais.
- Est cansada. - Ele esfregou o polegar nos ns dos dedos dela. Tess parecia to frgil de repente, to plida e linda. - Escute, por que no descansa um pouco?
Eu me ajeito no sof.
- Proteo policial?
202
- Apenas parte de nossa campanha pra melhorar as relaes comunitrias.
- Alegra-me que esteja aqui.
-A mim tambm. - Ele soltou-lhe a mo e correu a ponta do dedo pelo cinto de seu quimono de seda. - Bonito.
- Senti saudade de estar com voc.
Ben interrompeu o movimento do dedo. Tornou a olh-la e lembrou que mais cedo  noite ela usava brincos e uma pedra na garganta da cor dos seus olhos. E quisera
tanto toc-la que doera at nos ossos. Agora, como antes, recuou.
- Tem um cobertor de sobra?
Tess conhecia a retirada quando a atingia em cheio. Como ele, recuou um passo.
- Tenho, vou pegar.
Quando ela se foi, ele se amaldioou e esforou-se para entender as prprias contradies. Ele a queria. No queria envolver-se com ningum igual a ela. Fora receptiva.
Ele recuara. Serena e linda, Tess lembrava as iguarias rosa e brancas atrs das vitrinas das confeitarias. Ele j tivera um gostinho e sabia que certas iguarias
s vezes criam hbitos. Mesmo que tivesse espao na vida para Tess, o que no era verdade, ela nunca se adaptaria. Mas lembrou mais uma vez como a vira apoiar-se
no parapeito da janela, rindo.
Tess retornou com um travesseiro e um cobertor e comeou a arrumar o sof.
- Voc no age como se quisesse um pedido de desculpas.
- Pelo qu?
- Pela ltima semana.
Embora tivesse se decidido a no mencionar isso, Tess j se perguntara se ele o traria  tona.
- Por que eu iria querer um pedido de desculpas?
Ele viu-a enfiar com capricho as pontas do cobertor embaixo das almofadas.
203
- Temos uma briga muito justa em andamento. A maioria das mulheres que eu... a maioria das mulheres que conheo iria querer ouvir o velho "lamento, fui um idiota".
- E foi?
- Fui o qu?
- Um idiota.
Ele teve de admitir que ela o manobrava de uma forma magnfica.
- No.
- Ento seria tolice dizer que foi s pra manter a tradio. Pronto, isso deve servir - ela acrescentou, dando uma afofada final no travesseiro.
- Tudo bem, droga, me sinto um idiota pelo modo como agi na ltima vez.
- Foi um idiota. - Tess virou-se do sof e sorriu-lhe. - Mas tudo bem.
- O que acabei de dizer foi dito com muita sinceridade.
- Sei que falou. Eu tambm.
Lados opostos, pensou Ben. Lados opostos.
- Ento aonde isso nos leva?
Se ela soubesse, no tinha certeza se teria dito. Em vez disso, manteve a voz alegre:
- Que tal deixar a coisa morrer por a? Eu me alegro que esteja aqui, com toda essa...
Ela desviou o olhar para o telefone.
- No fique remoendo isso agora. Deixe-me tir-lo daqui.
- Voc tem razo. - Ela juntou as mos e logo as separou. - Se a gente pensa numa coisa dessas por muito tempo, acaba...
- Enlouquecendo? - ele sugeriu.
- Pra usar um termo vago, incorreto. - Tess afastou-se e ps-se a arrumar a mesa de trabalho para manter as mos ocupadas. - Fiquei surpresa ao ver voc esta noite
na galeria. Sei que  uma cidade pequena, mas... - Ento caiu em si; a confuso e o
204
pnico haviam obscurecido a dvida antes. - O que est fazendo aqui esta noite? Achei que tinha um encontro.
- Tinha. Eu disse a ela que surgiu uma emergncia. No estava muito longe. E o seu?
- Meu o qu?
- Encontro.
- Oh, Dean. Eu, ah, disse a ele que estava com dor de cabea. Quase cheguei a ficar. Mas voc no me disse por que apareceu.
Ele se esquivou encolhendo os ombros e ergueu um peso de papel, uma pirmide de cristal que refletia cores diversas quando era girada.
-  Parecia um verdadeiro cidado honrado e respeitvel. Professor universitrio, no?
- . -Alguma coisa comeou a acomodar-se dentro dela, que foi identificada como prazer: - Sua Trixie. O nome era Trixie, no?
- Isso mesmo.
- Encantadora. Adorei a tatuagem.
- Qual delas?
Tess apenas ergueu uma sobrancelha.
- Voc gostou da exposio?
-  Gosto de baboseiras pretensiosas. Parece que seu professor tambm. Bonito terno. E aquele pequeno e elegante alfinete de gravata com a correntinha de ouro, muito
distinto. - Ele largou o peso de papel com fora suficiente para fazer os lpis num pote saltarem. - Tive vontade de enfiar o nariz dele na testa.
Ela deu-lhe um radiante sorriso.
- Obrigada.
- No h de qu. - Aps um gole de caf, ele largou a xcara na mesa. Iria deixar um crculo molhado, mas ela nada disse. - No tenho conseguido pensar em nada alm
de voc durante dias. Tem um nome para isso?
Tess recebeu o olhar irado com um sorriso.
- Gosto de obsesso. Soa bonito.
205
- Ela se aproximou. No havia mais a menor necessidade de sangue-frio, nem de fingimentos. Quando ele ergueu as mos e tomou-lhe os ombros, ela continuou a sorrir.
- Imagino que voc ache tudo isso muito engraado.
- Acho que sim. E imagino que posso correr um risco calculado e dizer a voc que senti sua falta. Senti muito a sua falta. Gostaria que eu dissesse por que est
zangado?
- No.
Ben puxou-a para junto de si e sentiu os lbios curvos e macios, que logo se renderam aos dele. A seda do quimono farfalhou quando a abraou. Se pudesse afastar-se,
ele o teria feito, sem uma olhada para trs. Mas soubera assim que se vira na porta que j era tarde demais.
- No quero dormir nesse maldito sof. E no vou deixar voc sozinha.
Ela se esforou para abrir os olhos e, pela primeira vez que se lembrava, se sentiu desejosa de ser arrebatada.
- Dividirei a cama com voc sob uma condio.
- Qual?
- Que faa amor comigo.
Ele abraou-a, para sentir o perfume de seus cabelos e a forma como lhe roavam a pele.
- Gostei do seu argumento, doutora.
206
Captulo Onze
O cheiro de caf acordou-a. Deitada de lado, Tess virou-se de costas, ainda sonolenta, com o agradvel aroma caseiro. Fazia quantos anos desde que acordara com o
cheiro de caf j fumegando? Quando morava na casa do av, com p-direito alto e vestbulo com piso de cermica, descia a escadaria em arco de manh e o encontrava
j sentado atrs de um imenso prato de ovos ou panquecas, o jornal aberto e tomando caf.
Srta. Bette, a governanta, punha a mesa com os pratos do dia-a-dia, os que tinham as violetinhas nas bordas. As flores dependiam da estao, mas sempre estavam l,
narcisos, rosas ou crisntemos no vaso de porcelana azul que fora da av.
Ouvia-se o tranqilo movimento da cauda de Trooper, o velho co golden retriever do av, quando ele se sentava sob a mesa na esperana de petiscos cados ao acaso.
Essas haviam sido as manhs de sua juventude - estveis, seguras e conhecidas -, do incio da maturidade, assim como o av fora a forte figura central em sua vida.
207
Ento ficara adulta, mudara-se para um apartamento prprio e abrira a prpria clnica. Coava o caf ela mesma.
Com um suspiro, virou-se preguiosa, na esperana de outro sonho. Ento lembrou e sentou-se de um salto na cama vazia, a no ser por ela. Retirando os cabelos dos
olhos, tocou o lenol ao lado.
Ele ficara e cumprira o trato. Haviam rolado, se entregado e amado um ao outro pela noite adentro at o sono exausto ser a nica alternativa. Sem perguntas, sem
palavras e a nica resposta fora a de que ambos precisavam. Um ao outro e espairecer. Ele tambm precisava disso. Entendera que precisava de algumas horas sem tenso,
quebra-cabeas e responsabilidades.
Agora que chegara a manh, cada um tinha um trabalho a enfrentar.
Tess se levantou e vestiu o quimono jogado no cho. Queria um banho de chuveiro, porm queria mais o caf.
Encontrou Ben no pequeno L da sala de jantar, com um mapa da cidade, um emaranhado de anotaes e o bloco amarelo dela largado sobre a mesa.
- Bom dia.
- Oi - ele respondeu ausente e depois olhou e concentrou-se. Embora sorrisse, ela viu que tinha os olhos sombreados e intensos ao examinarem seu rosto. - Oi - repetiu.
- Eu esperava que voc dormisse um pouco mais.
- J passa das sete.
- Hoje  domingo - ele lembrou-lhe e levantou-se, como para separ-la do que fazia  mesa. - Com fome?
- Vai cozinhar?
- Tem estmago sensvel?
- No muito.
- Ento na certa agenta uma de minhas omeletes. Topa?
- Sim, topo. - Ela foi com ele at a cozinha e serviu-se de uma xcara de caf. - Levantou-se h muito tempo?
- H pouco. Com que freqncia voc compra comida?
208
Ela olhou atrs dele a geladeira agora aberta.
- Quando me encostam na parede.
- Considere-se assim. - Ele pegou uma embalagem de ovos com menos da metade e um miservel pedao de queijo cheddar. - Ainda d pra preparar a omelete. Na conta.
- Tenho uma omeleteira. Segunda prateleira no armrio  direita.
Ele lanou-lhe um olhar brando, de pena.
- A gente s precisa de uma frigideira quente e mo leve.
- Admito meu erro.
Tess tomava caf enquanto ele cozinhava. Impressionante, pensou, e sem dvida melhor do que ela sabia fazer com utenslios de gourmet e uma receita detalhada. Interessada,
curvou-se acima do ombro de Ben e mereceu um furioso olhar silencioso. Partiu um brioche, enfiou-o na torradeira e deixou o resto com ele.
- Bom - decidiu, quando se sentaram  mesa e ela engoliu a primeira mordida. - Sou muito atrapalhada na cozinha, motivo pelo qual no guardo muita comida que me
obrigue a prepar-la.
Ele serviu-se com o fcil entusiasmo de um homem que considerava a comida um dos principais prazeres da vida.
- Morar sozinho nos torna auto-suficientes.
- Mas no faz milagres.
Ele cozinhava, mantinha o apartamento arrumado, era obviamente competente no seu ofcio e parecia ter poucos problemas com as mulheres. Tess terminou o caf e perguntou-se
por que estava mais tensa agora do que quando fora para a cama com ele.
Porque no era to jeitosa com os homens quanto ele com as mulheres. E porque, pensou, no tinha o hbito de dividir um caf-da-manh informal aps uma noite frentica
de sexo. O primeiro caso amoroso fora na faculdade. Um desastre. Agora, com quase trinta anos, mantinha os relacionamentos com homens na zona segura. A ocasional
experincia intensa fora agradvel, mas no importante. At esta.
209
- Voc parece auto-suficiente.
- Se voc gosta de comer, aprende a cozinhar. - Ele meneou os ombros. - Eu gosto de comer.
- Nunca se casou?
- Como? No. - Ben engoliu forte em seco e pegou metade do brioche. - Tende a atrapalhar...
- O namoro sem srias intenes.
- Entre outras coisas. - Ele sorriu-lhe. - Voc passa manteiga num delicioso brioche.
-  verdade. Eu diria que outro motivo de voc nunca ter se... digamos, assentado,  que seu trabalho vem em primeiro lugar. - Ela olhou os papis que ele empurrara
para a extremidade da mesa. - O trabalho policial seria exigente e consumiria tempo, alm de perigoso.
-As duas primeiras coisas, de qualquer modo. A homicdios  um tipo da ponta executiva. Trabalho administrativo, quebra-cabea.
- Executivo - ela murmurou, lembrando com muita clareza a facilidade com que uma vez ele pegou a arma.
- A maioria dos rapazes usa terno. - Ele quase raspara a omelete do prato e j se perguntava se podia convenc-la a pegar um pouco no prato dela. - Em geral, a gente
chega depois de completada a ao e ento junta as peas. Fala com pessoas, d telefonemas.
- Foi como conseguiu essa cicatriz? - Tess girou o resto da omelete no prato. - Distribuindo papis?
- Eu j disse a voc antes, isso  notcia velha.
Tess tinha a mente analtica demais para deixar a coisa parar por a.
- Mas foi baleado, e na certa mais de uma vez.
- s vezes entramos em campo e as pessoas no ficam muito satisfeitas em nos ver.
- Tudo num dia de trabalho?
Quando ele percebeu que ela no iria desistir, largou o garfo.
210
- Tess, no  como no cinema.
- No, e tampouco como vender sapatos.
- Certo. No vou dizer que nunca nos deparamos com uma situao em que as coisas no esquentam, mas, em essncia, esse tipo de trabalho policial  no papel. Relatrios,
entrevistas, trabalho mental. Semanas, meses, at anos de incrvel trabalho desinteressante, mesmo tedioso, ao contrrio do risco fsico real. Um novato de uniforme
tem mais chance de lidar com mais presso num ano que eu.
- Entendo. Ento no  provvel que voc enfrente uma situao, no esquema normal das coisas, em que tenha de usar a arma.
Ele no respondeu por um momento, no gostando do rumo que a conversa tomava.
- Aonde voc quer chegar?
- Estou tentando entender voc. Passamos duas noites juntos. Gostaria de saber com quem durmo.
Ele vinha evitando isso. O sexo era mais fcil se usasse antolhos.
- Vamos l: Benjamin James Matthew Paris, trinta e cinco anos em agosto, solteiro, um metro e oitenta e sete de altura, setenta e oito quilos.
Ela apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mos entrelaadas ao examin-lo.
- Voc no gosta de falar de seu trabalho.
- Que h nele pra falar? E s um emprego.
- No, com voc, no. Num emprego a gente bate o ponto toda manh, de segunda a sexta-feira. Voc no leva a arma como uma pasta.
- A maioria das pastas no  cheia.
- Voc teve de us-la.
Ben terminou o caf. J satisfizera o organismo.
- Duvido que muitos policiais cheguem ao fim da carreira pra receber a penso sem ter sacado a arma pelo menos uma vez.
- E, entendo. Por outro lado, como mdica, eu lidaria mais com os resultados depois. A dor da famlia, o choque e o trauma da vtima.
211
- Eu nunca baleei uma vtima.
Desprendia-se uma aspereza da voz dele que a interessava. Talvez gostasse de fingir para ela, at para si mesmo, que os aspectos violentos do emprego eram ocasionais,
um efeito colateral esperado. Considerava qualquer um que baleara no cumprimento do dever, segundo suas palavras, o bandido. No entanto, ela tinha certeza de que
parte dele pensava no humano, na carne e no sangue. Essa parte perderia o sono.
- Quando se atira em algum por autodefesa - ele perguntou, devagar -, no  como numa guerra, em que se v o inimigo mais como um smbolo que um homem?
- Voc no pensa assim.
- No vejo como seria possvel.
- Acredite na minha palavra.
- Mas, quando se encontra numa situao que exige esse tipo de extrema ao defensiva, voc mira pra ferir.
- No. - Com a resposta categrica, ele se levantou e pegou o prato. - Escute, voc saca a arma, no  o Zorro. No tem essa de atingir de raspo com a bala de prata
a mo armada do bandido. Sua vida, a do seu parceiro e a de algum civil esto em risco.  preto e branco.
Levou os pratos para a cozinha. Ela no lhe perguntou se matara, pois ele j lhe dissera.
Tornou a olhar os papis em que andara trabalhando. Preto e branco. Ele no veria os matizes de cinza que ela via ali. O homem que procuravam era um assassino. O
estado da mente dele, as emoes e talvez at a alma no importavam a Ben. Talvez no pudessem importar.
- Esses papis - comeou, quando ele voltou. -  alguma coisa em que posso ajudar?
- S trabalho chato.
- Sou especialista em trabalho chato.
- Talvez. Podemos falar sobre isso mais tarde. No momento, tenho de ir andando se quiser pegar a missa das nove.
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- Missa?
Ele riu da expresso dela.
- No voltei pro rebanho. Achamos que nosso homem poderia aparecer esta manh numa de duas igrejas. Estivemos cobrindo as missas nas duas desde as seis e meia. Tive
uma folga e peguei os servios das nove, dez e onze e meia.
- Eu vou com voc. No, nem tente - ela disse, quando ele abriu a boca. - Posso ajudar de verdade. Conheo os sinais, os sintomas.
De nada adiantava dizer-lhe que desejava a sua companhia. O negcio era deix-la achar que o convencera.
- No me culpe se ficar com os joelhos esfolados. Ela tocou a face dele com a mo, mas no o beijou.
- Me d dez minutos.

A IGREJA CHEIRAVA A PARAFINA E INCENSO. OS BANCOS, lisos do desgaste causado pelo deslizamento e a substituio de centenas de quadris cobertos de tecido, tinham
menos da sua metade ocupada para a cerimnia das nove horas. Fazia silncio, a no ser por uma ou outra tosse e aspirao com o nariz entupido que ecoavam abafados.
Uma luz celestial, agradvel, atravessava as janelas de vitral na parede  esquerda. O altar ficava na parte superior da igreja, forrado de tecido e ladeado por
velas. O branco da pureza. Acima, pendia o Filho de Deus, agonizando na cruz.
Ben sentou-se com Tess num banco nos fundos e passou os olhos pela congregao. Algumas idosas espalhavam-se entre as famlias prximas na frente. Um jovem casal
sentava-se no banco defronte aos dois, preferindo a parte de trs, pensou Ben, por causa do recm-nascido que dormia no colo da mulher. Um ancio, que entrara com
a ajuda de uma bengala, instalara-se sozinho, a cinqenta centmetros da intimidade de uma famlia de seis. Duas meninas nas melhores roupas de domingo sentaram-se
e comearam a sussurrar, e um
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menino ajoelhara-se de costas no banco e deslizava em silncio um carrinho de plstico pela madeira. Ben soube que ele fazia na mente os rudos de motor e pneus
gemendo.
Trs homens sentados sozinhos encaixavam-se na descrio geral. Um j se ajoelhara, o palet fino e escuro ainda abotoado, embora fizesse calor na igreja. Outro
folheava ocioso, no banco, o hinrio. O terceiro se encontrava sentado imvel na frente da igreja. Ben sabia que o da frente era Roderick, e o policial novato, Pilomento,
instalara-se no meio.
Um movimento ao lado de Tess o fez enrijecer-se. Logan deslizou ao lado dela, deu-lhe um tapinha na mo e sorriu para Ben.
- Pensei em me juntar a voc.
Tinha a voz meio ofegante. Tossiu baixinho na mo para limpar a garganta.
-  um prazer v-lo, monsenhor - murmurou Tess.
-  Obrigado, minha cara. Ando um tanto derrubado pelo tempo ultimamente e no sabia se iria conseguir vir. Esperava que voc estivesse junto, pois tem um olho aguado.
- Percorreu a igreja semivazia com o olhar. A maioria idosos e jovens, pensou. Os de meia-idade raras vezes achavam que Deus precisava de uma hora de seu tempo.
Aps tirar uma pastilha para garganta do bolso, tornou a olhar para Ben. - Espero que no se incomode por me oferecer como voluntrio. Se por acaso tiver sorte,
talvez eu possa ajudar. Afinal, tenho o que se poderia chamar de vantagem da casa.
Pela primeira vez desde que Ben o conhecera, Logan usava o colarinho clerical branco. Vendo-o, ele apenas assentiu.
O padre entrou, a congregao levantou-se. Comeou o ofcio.
Ritual da entrada. O celebrante de vestes verdes, estola, alva, o inofensivo amicto sob os mantos soltos, o menino sacristo magro e alto, de preto e branco, pronto
para servir.
Deus tende piedade de ns.
Um beb cinco bancos adiante comeou a chorar com vontade. A congregao murmurava as respostas em unssono.
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Cristo, tende piedade de ns.
O ancio com a bengala avanava pelo rosrio. As meninas riam e tentavam desesperadamente parar. O menino do carrinho de plstico foi silenciado pela me.
Um homem com um amicto de seda branca junto  pele sentiu o martelar na cabea aliviar-se ao som do fluxo conhecido do celebrante e da congregao.
O Senhor esteja convosco.
E com vosso esprito.
Era o latim que ele ouvia, o latim da infncia, do seu sacerdcio. Acalmava, e o mundo permanecia estvel.
A liturgia. A congregao sentou-se devagar, com murmrios e rangidos. Ben observava, sem ouvir de fato as palavras do padre. Ouvira-as tantas vezes antes. Uma das
lembranas mais antigas era ele sentado num banco duro, as mos entre os joelhos, o colarinho engomado da melhor camisa grudado no pescoo. Tinha cinco, talvez seis
anos. Josh fora sacristo.
O homem de casaco fino escuro desabou recostado no banco, exausto. Algum assoou o nariz com estrpito.
- Porque o salrio do pecado  a morte, enquanto o dom de Deus  a vida eterna em Cristo Jesus, Nosso Senhor.
Ele sentiu o amicto frio na pele, no corao, ao murmurar a resposta:
- Graas sejam dadas a Deus, Nosso Senhor! Todos se ergueram para o Evangelho. Mateus 7:15-21:
- Guardai-vos dos falsos profetas.
No fora isso que lhe dissera a Voz? A cabea comeou a ressoar com a fora da mensagem quando ele se sentou muito imvel. Excitao, frescor e pureza cantavam pelo
seu corpo cansado. Sim, guardai-vos. Eles no entenderiam, no o deixariam concluir. Ela fingia entender. Dra. Court. Mas s queria p-lo num lugar onde ele no
poderia concluir sua tarefa.
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Conhecia o tipo de lugar - paredes brancas, todas aquelas paredes e enfermeiras brancas com olhares entediados e cautelosos. Um lugar como aquele em que sua me
passara os terrveis ltimos dias.
- Cuide de Laura. Ela procria pecado no corao e ouve o demnio. - A me tinha a pele pastosa, as faces flcidas. Mas os olhos escuros e brilhantes. Brilhantes
de loucura e conhecimento. - Vocs so gmeos. Se a alma dela for condenada, tambm ser a sua. Cuide de Laura.
Mas Laura j morrera.
Ouviu o final do Evangelho. Dirigia-se a ele:
- Senhor, Senhor, no entrar no Reino dos Cus apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que l est?
Curvou a cabea, aceitando.
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Sentaram-se para o sermo.
Ben sentiu a mo de Tess deslizar pela sua, que entrelaou os dedos, cnscio de que ela o sabia constrangido. Resignara-se a assistir mais uma vez  missa toda,
porm era outra histria com um padre sentado a trinta centmetros. Isso lhe suscitou uma clara lembrana das poucas vezes em que fora  igreja na infncia e descobrira,
encabulado, a irm Mary Angelina sentada no banco em frente ao da famlia. As freiras no eram to tolerantes quanto as mes, quando os meninos brincavam com os
dedos e cantavam de boca fechada consigo mesmos durante a missa.
- Voc ficou mais uma vez sonhando acordado durante a missa, Benjamin. - Ele lembrou o truque que a irm Mary Angelina tinha de enfiar as mos brancas nas mangas
pretas do hbito, de modo que ficava igual a um boneco joo-teimoso, que balana, balana, mas no cai. - Devia tentar ser mais parecido com seu irmo Joshua.
- Ben?
- Huumm?
216
- Aquele homem ali. - A voz de Tess soou leve como uma pluma junto ao ouvido dele. - O de casaco preto.
- , j vi antes.
- Est chorando.
A congregao levantou-se para o Credo. O homem de casaco preto continuou sentado, chorando em silncio sobre o rosrio. Antes de terminar a orao, levantou-se
instvel e saiu apressado da igreja.
- Fique aqui - ordenou Ben, e levantou-se do banco para segui-lo.
Quando ela fez meno de acompanh-lo, Logan apertou-lhe a mo.
- Relaxe, Tess. Ele conhece seu trabalho.
Ben no voltou durante as oraes do Ofertrio nem da lavagem das mos. Tess continuou com as mos cerradas no colo e a espinha tremendo. Ben conhecia seu trabalho,
mas no o dela, concordou em silncio. Se houvessem encontrado o homem, ela devia estar l com ele, que necessitaria falar. Mas ficou onde estava, pela primeira
vez com o reconhecimento pleno de que sentia medo.
Ben retornou, a expresso sombria ao curvar-se por trs do banco e tocar o ombro de Logan.
- Poderia vir aqui fora um instante?
O monsenhor saiu sem fazer perguntas. Tess viu-se inspirando fundo e seguiu-os at o vestbulo.
- O cara sentado ali na escada. A mulher dele morreu semana passada. Leucemia. Eu diria que tem sido um tempo muito difcil. Vou investig-lo de qualquer modo, mas...
- Sim, entendo. - Logan olhou em direo s portas fechadas da igreja. - Cuidarei dele. Me informe se alguma coisa mudar. - Sorriu para Tess e deu-lhe um tapinha
afetuoso na mo. - Foi adorvel ver voc.
- At logo, monsenhor.
217
Viram-no sair no cortante frio da manh de novembro. Em silncio, voltaram para a igreja. No altar, realizava-se a Consagrao. Fascinada, Tess sentou-se para observar
o ritual do po e do vinho.
Pois este  o Meu corpo.
Cabeas curvaram-se, aceitando o smbolo e a ddiva. Ela achou-o lindo. O padre, as vestes tornando-o grande e largo no altar, ergueu a branca hstia redonda. Depois
consagrou o cintilante clice de prata e ergueu-o em oferenda.
Em sacrifcio, pensou Tess. Ele falara muito tempo em sacrifcio. A cerimnia que ela achara linda, at um pouco pomposa, significaria sacrifcio apenas para ele.
Seu Deus era o do Antigo Testamento, justo, severo e sedento do sangue da submisso. O Deus do Dilvio, de Sodoma e Gomorra. Ele no veria a linda cerimnia como
uma ligao entre a congregao e o Deus de misericrdia e bondade, mas como um sacrifcio para o Deus exigente.
Tess tomou a mo de Ben.
- Acho que ele se sentiria... completo aqui.
- Como?
Ela balanou a cabea, sem saber como explicar. Do altar vieram as palavras solenes:
- ... como recebestes a oferta de Abel, o sacrifcio de nosso pai Abrao e os dons de Melquisedeque, um sacrifcio sagrado, uma vtima imaculada.
- Uma vtima imaculada - repetiu Tess. - O branco da pureza. - Olhou para Ben com sombrio horror. - No salvando. No salvando tanto quanto sacrificando. E, quando
ele est aqui, distorce tudo isso para reforar o que faz. No se desintegra aqui, aqui, no. Nutre-se disso de maneira muito doentia.
Viu o padre consumir a hstia e, aps o sinal-da-cruz, beber o vinho. Smbolos, pensou. Mas at onde um homem os levara alm dos smbolos da carne e do sangue?
O padre ergueu o po eucarstico e falou em voz clara:
218
-  Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo
Senhor, eu no sou digno de que entreis em minha morada,
mas dizei uma s palavra e serei salvo.
Membros da congregao comearam a retirar-se dos bancos e arrastar os ps pela nave para receber a comunho.
- Acha que ele vai comungar? - murmurou Ben, vendo a fila movendo-se devagar.
- No sei. - Ela de repente sentiu frio, frio e insegurana. - Acho que necessitaria.  renovador, no?
O corpo de Cristo.
- , a idia  essa.
O homem que virava as pginas do hinrio levantou-se para ir ao altar. O outro que Ben vigiava continuava no banco, cabisbaixo, em orao ou num leve cochilo.
Ainda outro sentia no ntimo a necessidade e a saudade intensificarem-se com urgncia. As mos quase tremiam da intensidade. Queria a oferenda, a carne do Senhor
a saci-lo e lavar toda mancha de pecado.
Ficou ali sentado, enquanto vozes inundavam a igreja.
- Voc nasceu em pecado - dissera-lhe a me. - Nasceu pecaminoso e indigno.  uma punio justa. Por toda a vida, cair em pecado. Se morrer em pecado, sua alma
estar condenada.
- Castigo - advertira o padre Moore. - Voc precisa ser castigado pelo pecado antes que ele possa ser perdoado e absolvido. Castigo. Deus exige.
Sim, sim, ele entendia. J comeara o castigo. Levara quatro almas ao Senhor. Quatro almas perdidas, que buscavam pagar pela perda de Laura. A Voz exigira mais duas
para o pagamento total.
- Eu no quero morrer. - Laura, em delrio, agarrara-lhe as mos. - No quero ir para o inferno. Faa alguma coisa. Ai, por favor, meu Deus, faa alguma coisa.
Ele sentiu vontade de tapar os ouvidos, ajoelhar-se no altar e receber a hstia dentro de si. Mas no era digno. At concluir a misso, no seria digno.
2I9
- O Senhor esteja convosco - disse o padre em alto e bom som.
- Et cum spiritu tuo- ele murmurou.

TESS DEIXOU A BRISA REFRESCANTE DO LADO DE FORA BRINCAR no seu rosto e reanim-la aps mais de trs horas de ofcios religiosos. A frustrao retornara enquanto
via os desgarrados da ltima missa encaminharem-se aos carros; frustrao e uma sensao vaga, incmoda, de que ele estivera perto o tempo todo. Enlaou o brao
no de Ben.
- E agora?
- Vou para a delegacia dar uns telefonemas. L vem Roderick. O outro desceu a escada, acenou com a cabea para ela e espirrou trs vezes no leno.
- Desculpem.
- Voc est com uma aparncia pssima - comentou Ben, e acendeu um cigarro.
- Obrigado. Pilomento est investigando a licena de uma placa de carro. Disse que um cara defronte a ele murmurou consigo mesmo durante a ltima missa. - Guardou
o leno e tremeu um pouco de frio no vento. - No sabia que estava aqui, Dra. Court.
- Achei que talvez pudesse ajudar. - Ela viu os olhos avermelhados e solidarizou-se quando um ataque de tosse o aniquilou. - Parece srio. J foi ao mdico?
- Sem tempo.
- Metade do departamento caiu de gripe - explicou Ben. - Ed ameaou usar uma mscara. - Pensando no parceiro, tornou a olhar a igreja. - Talvez eles tenham tido
mais sorte.
- Talvez - concordou Roderick, respirando com dificuldade. - Vai para a delegacia?
- Vou, tenho de dar uns telefonemas. Faa-me um favor. V para casa e tome alguma coisa para isso. Sua mesa fica no mesmo sentido do vento que a minha.
220
- Preciso fazer um relatrio.
- Foda-se o relatrio - disse Ben, mudou de posio ao lembrar que estava a dois metros da igreja. - Mantenha os germes em casa por dois dias, Lou.
- , talvez. Bata um fio se Ed descobrir alguma coisa.
- E procure um mdico - acrescentou Tess.
Ele conseguiu esboar um leve sorriso e foi embora.
- Parece que j comeou a tomar os pulmes dele - ela murmurou, mas, quando se virou de novo para Ben, viu que ele tinha a mente em outras coisas. - Escute, sei
que voc est ansioso por dar telefonemas. Eu tomo um txi pra casa.
- Como?
- Eu disse que tomo um txi pra casa.
- Por qu? Est cansada de mim?
- No. - Para prov-lo, ela roou os lbios nos dele. - Sei que voc tem trabalho que precisa fazer.
- Ento venha comigo. - Ele no estava a fim de deix-la ir embora ainda, nem de abrir mo de qualquer tempo particular, descomplicado, que restasse do fim de semana.
-Assim que eu terminar, podemos voltar para o seu apartamento e...
Curvou-se e mordiscou-lhe o lbulo da orelha.
- Ben, no podemos fazer amor o tempo todo. Com o brao em volta dela, ele se dirigiu ao carro.
- Claro que podemos. Eu mostrarei a voc.
- No, verdade. Por motivos biolgicos. Confie em mim, sou mdica.
Ele parou junto  porta do carro.
- Que motivos biolgicos?
- Estou morrendo de fome.
- Ah. - Ele abriu a porta para ela, contornou e ocupou o assento do motorista. - Tudo bem, a gente faz uma parada rpida no mercado, no caminho. Voc pode preparar
o almoo.
- Eu?
221
- Eu preparei o caf-da-manh.
-Ah, preparou. - Ela recostou-se, achando atraente a idia de uma aconchegante tarde de domingo. - Tudo bem, eu preparo o almoo. Espero que voc goste de sanduche
de queijo.
Ele curvou-se para perto de Tess, de modo a roar sua respirao nos lbios dela.
- Ento mostrarei a voc o que as pessoas devem fazer nas tardes de domingo.
Ela adejou as plpebras e semifechou os olhos.
- E o que ?
- Tomar cerveja e ver futebol.
Ben beijou-a com fora e ligou a ignio quando ela riu.
Ele viu-os juntinhos no carro. Vira-a na igreja. Sua igreja. Era um sinal, claro, o fato de ela ir rezar na sua igreja. A princpio, isso o perturbara um pouco,
mas depois compreendeu que fora guiada para l.
Seria a ltima. A ltima, antes dele mesmo.
Viu o carro afastar-se, captou um vislumbre dos cabelos dela pela janela lateral. Um pssaro pousou no galho da rvore desnuda ao lado e olhou-o com brilhantes olhos
negros, os da me. Ele foi para casa descansar.
222
Captulo Doze
-Acho que encontrei um lugar.
Ed sentava-se pesado  sua mesa, martelando a mquina de escrever no estilo dois dedos.
- Ah,?
Tambm sentado  sua, Ben tinha mais uma vez  frente o mapa da cidade. Com toda pacincia, traava linhas com um lpis para ligar os locais dos assassinatos.
- Um lugar pra qu?
- Pra morar.
- Hum-hum.
Algum abriu a geladeira e queixou-se em voz alta de que haviam roubado sua cerveja preta. Ningum lhe deu a mnima ateno. A equipe reduzira-se por causa da gripe
e de um duplo homicdio perto da Universidade de Georgetown. Algum colara um peru de cartolina numa das janelas, mas era o nico sinal de alegria do feriado. Ben
fez um crculo ao redor do prdio de Tess e olhou o parceiro.
223
- E a? Quando se muda?
- Depende. - O outro franziu a testa para as teclas, hesitou e reencontrou o ritmo. - Preciso ver se o contrato cobre todos os aspectos.
- Mandou matar algum pra poder alugar o apartamento?
- Contrato de venda. Merda, esta mquina de escrever est com defeito.
- Venda? - Ben largou o lpis e arregalou os olhos. - Vai comprar uma casa? Comprar?
- Isso mesmo. - Com toda pacincia, Ed aplicou corretivo lquido ao ltimo erro, soprou-o e datilografou a correo. Mantinha uma lata de Lysol perto do ombro. Se
passava um colega com aparncia de contagioso, borrifava-o. - Foi voc quem sugeriu.
- , mas eu estava apenas... Comprar? - Para esconder seu pequeno delito, Ben empurrou alguns papis na cesta de lixo, em cima da lata vazia de cerveja preta. -
Que tipo de pardieiro voc pode pagar com o salrio de detetive?
- Alguns sabem poupar. Estou usando meu capital.
- Capital? - Ben revirou os olhos e dobrou o mapa. No estava chegando a lugar algum. - O cara tem capital - disse  delegacia de forma geral. - Quando a gente menos
espera, vem voc e me diz que est especulando no mercado.
- Fiz alguns investimentos pequenos, conservadores. A maioria em concessionrias de servios pblicos.
- Servios pblicos. O nico servio pblico que voc conhece  a conta de gs. - Ben examinou o parceiro com um olhar duvidoso. - Onde fica esse lugar?
- Tem alguns minutos?
- Tenho algum tempo pessoal de folga.
Ed retirou o relatrio da mquina de escrever, lanou-lhe um olhar cauteloso e largou-o ao lado.
- Vamos dar um passeio de carro.
224
No levou muito tempo. O bairro ficava no limite mais distante e rstico de Georgetown. Os conjuntos residenciais de casas pareciam mais cansados que distintos.
As flores perenes haviam simplesmente desistido pela falta de interesse e jaziam cadas, desbotadas, em meio a emaranhados de folhas no varridas. Algum acorrentara
uma bicicleta a um poste de luz. Fora depenada de tudo que era porttil. Ed parou junto ao meio-fio.
- A est.
Cauteloso, Ben virou a cabea. Para seu crdito, no grunhiu.
A casa estreita tinha trs andares e a porta da frente mal ficava a cinco passos da calada. Duas das janelas haviam sido tapadas com ripas de madeira e as venezianas
que no caram pendiam tortas, como embriagadas. O revestimento de tijolos era antigo e desbotado, a no ser no lugar em que algum escrevera com spray uma obscenidade.
Ben saltou do carro, curvou-se sobre o cap e tentou no acreditar no que via.
- Uma coisa, no ?
- , uma coisa. Ed, no tem escoadouro de gua.
- Eu sei.
- Metade das janelas est quebrada.
- Imaginei substituir duas por vitrais.
- No creio que tenham colocado telhas desde a Depresso. A verdadeira.
- Vou inspecionar as clarabias.
- Quando estiver l, devia tentar uma bola de cristal. - Ben enfiou as mos nos bolsos do palet. - Vamos dar uma olhada dentro.
- Ainda no tenho a chave.
- Minha nossa! - Com um resmungo, Ben subiu trs degraus de concreto quebrados, pegou a carteira e encontrou um carto de crdito. A fechadura lamentvel cedeu sem
uma queixa. - Sinto que devia cruzar o limiar com voc nos braos.
- Compre sua prpria casa.
225
O corredor era cheio de teias de aranha e excrementos de roedores variados. O papel que revestira as paredes desbotara-se e ficara cinza. Um besouro gordo de casca
grossa rastejava ocioso.
- Quando Vincent Price desce a escada? Ed olhou em volta e viu um castelo no ermo.
- S precisa de uma boa limpeza.
- E de um exterminador. Tem ratos?
- No poro, acho - respondeu Ed, despreocupado, e entrou no que outrora fora um salo encantador.
Estreito e de p-direito alto, tinha as aberturas do que seriam janelas de mais de um metro e meio tapadas com madeira. A pedra da lareira, embora intacta, fora
despojada da abbada que a encimava. Os pisos, sob uma camada de poeira e sujeira, bem poderiam ser de carvalho.
- Ed, este lugar...
- Potencial esplndido. A cozinha tem um forno de alvenaria embutido na parede. Sabe qual  o gosto de um po sado de um forno de alvenaria?
- No se compra uma casa pra assar po. - Ben retornou ao corredor e atravessou-o vigiando o piso  procura de quaisquer sinais de vida.
- Nossa, tem um buraco no teto aqui. A porra de um buraco de mais de um metro.
- Esse  o primeiro da minha lista - comentou Ed, juntando-se a ele.
Os dois ficaram um instante ali em silncio, olhando o buraco acima.
- Voc no est falando de uma lista, mas de um compromisso pra toda a vida. - Enquanto olhavam, uma aranha do tamanho de um polegar grande caiu de repente e pousou
aos ps dos dois com um considervel ploft. Mais que apenas um pouco repugnado, Ben afastou-a para longe com um chute. - No acredito que fale a srio sobre este
lugar.
226
- Claro que sim. A gente chega a um ponto em que deseja se assentar.
- Tampouco me levou a srio sobre a idia de se casar?
- Um lugar s da gente - continuou Ed, plcido. - Um escritrio, talvez um jardim. H um bom lugar para ervas nos fundos. Um lugar como este me daria uma meta. Calculo
consertar um aposento de cada vez.
- Vai levar cinqenta anos.
- No tenho nada melhor a fazer. Quer ver l em cima? Ben deu outra olhada no buraco.
- No, quero viver. Quanto? - perguntou sem rodeios.
- Setenta e cinco.
- Setenta e cinco? Setenta e cinco mil? Dlares?
- Os imveis andam mais caros que o normal em Georgetown.
- Georgetown? Puta que pariu, isto no  Georgetown. - Uma coisa maior que a aranha rastejou apressada no canto. Ben pegou a arma. - O primeiro rato que eu vir vai
comer isto.
- S um rato-do-mato. - Ed ps a mo tranqilizadora no ombro do companheiro. - Os ratos se fixam no poro ou no sto.
- Ora, eles tm contrato de aluguel? - Mas Ben manteve a arma segura. - Escute, Ed, os corretores e construtores recuam os limites pra poder chamar isto de Georgetown
e pegar idiotas como voc por setenta e cinco mil dlares.
- Ofereci apenas setenta.
- Ah, isso muda muita coisa. Ofereceu apenas setenta. - Ele ia recomear a andar, mas topou com uma magnfica teia de aranha. Xingando, lutou para desemaranhar-se.
- Ed, so aquelas sementes de girassol. Voc precisa de carne crua.
- A gente se sente responsvel.
Ed sorriu, incrivelmente satisfeito, e dirigiu-se  cozinha.
- No, eu no vou. - Ben enfiou as mos nos bolsos. - Sim, porra, vou.
227
- Esse  o jardim. Meu jardim - salientou Ed quando o amigo o seguiu. - Imagino que posso cultivar manjerico, alecrim, talvez lavanda naquele lugarzinho ali logo
depois das janelas.
Ben viu um pedao de terra, coberto de mato na altura do joelho, grande o bastante s para duas passadas da cortadora de grama eltrica.
- Voc tem trabalhado demais da conta. Esse caso est nos deixando todos lunticos. Ed, oua com ateno minhas palavras, cuide de se lembrar delas. Madeira podre.
Carunchos. Cupim. Animais e insetos daninhos.
- Vou fazer trinta e seis anos.
- E da?
- Nunca tive uma casa prpria.
- Porra, todo mundo faz trinta e seis anos um dia, mas nem todo mundo tem casa prpria.
- Merda, eu nunca sequer morei numa. Sempre tivemos apartamento.
A cozinha cheirava a dcadas de gordura, mas, dessa vez, Ben nada disse.
- Tem um sto. Daqueles que a gente v nas exposies onde h bas, mveis antigos e chapus engraados. Gosto disso. Vou reformar primeiro a cozinha.
Ben fitou o lamentvel amontoado de mato. -Vapor - disse. -  a melhor maneira de soltar esse papel de parede velho.
- Vapor?
- . - Ele pegou um cigarro e riu. - Vai precisar de muito. Namorei uma mulher que trabalhava numa loja de tinta. Marli... , acho que se chamava Marli.  provvel
que ainda me d um desconto.
- Namorou algum que trabalha num depsito de madeira?
- Vou verificar. Ande, preciso dar um telefonema. Pararam em uma cabine telefnica a poucos quilmetros dali.
Ben encontrou uma moeda de vinte e cinco centavos e ligou para o
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consultrio de Tess, enquanto Ed entrava numa loja de convenincia da rede 7-Eleven.
- Consultrio da Dra. Court.
- Detetive Paris.
- Sim, detetive Paris, s um momento. Ouviu-se um estalo, silncio, e depois outro estalo.
- Ben?
- Como vai, doutora?
- Muito bem. - Enquanto falava, ela arrumava a mesa. - Saindo para a clnica.
- Que horas termina?
- Em geral, s cinco e meia, talvez seis.
Ele conferiu as horas e transferiu o resto de seu horrio.
- timo. Pego voc l.
- Mas no precisa...
- Preciso, sim. Quem est a com voc hoje?
- Como foi que disse?
- Quem est de vigilncia no consultrio? - explicou Ben, e tentou encontrar um canto na cabine onde o vento no alcanava.
- Ah, o sargento Billings.
- Bom. - Ele envolveu um fsforo com as mos ao acender um cigarro e desejou muito no ter esquecido as luvas. - Mande Billings levar voc  clnica.
Silncio. Ben percebeu o mau humor dela e sentiu-se tentado a sorrir.
- No vejo motivo algum pra no poder ir no meu carro sozinha  clnica, como fao toda semana nos ltimos anos.
- No estou pedindo que veja um motivo, Tess. Tenho muitos. At as seis.
Desligou, sabendo que ela iria continuar com o telefone na mo at poder deslig-lo tranqilamente. No iria gostar de fazer uma coisa to infantil e tpica quanto
bat-lo.
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ELE TINHA RAZO. TESS CONTOU DE TRS PARA DIANTE A partir de cinco, devagar, e reps tranqilamente o receptor no aparelho. Mal o largara quando Kate a chamou de
novo pelo interfone.
- Sim?
Exigiu-lhe esforo para no ser rspida.
-A senhora tem outra ligao na linha dois. Ele no quis dar o nome.
- Tudo bem, eu... - Ela sentiu os nervos no estmago se contrarem e soube. - Eu atendo, Kate.
Fitou o boto que piscava devagar. -Aqui  a Dra. Court.
- Eu a vi na igreja. Voc foi.
- Sim. -As instrues que recebera dispararam-lhe pela mente. Tente mant-lo na linha. - Eu tinha esperana de encontr-lo l, para conversarmos de novo. Como se
sente?
- Voc estava l. Agora entende.
- Entendo o qu?
- Entende a grandeza. - O homem tinha a voz calma. Uma deciso alcanada, a f confirmada. - Os sacrifcios que nos mandam fazer so muito pequenos, comparados com
as recompensas da obedincia. Alegrei-me que estivesse l, para que voc entenda. Eu tinha dvidas.
- Que tipo de dvidas?
- Sobre a misso. - Ele baixou a voz, como se at sussurrar de dvida fosse pecado. - Porm, no tenho mais.
Tess aproveitou a oportunidade:
- Onde est Laura?
- Laura. - Ela o viu chorar. - Laura espera no purgatrio, sofrendo, at eu expiar pelos seus pecados.  responsabilidade minha. No tem ningum alm de mim e a
Virgem Maria para interceder por ela.
230
Ento Laura estava morta. Agora Tess podia ter certeza.
- Voc deve t-la amado muito.
- Era a melhor parte de mim. Fomos unidos antes do nascimento. Agora preciso impor o castigo por ela, antes de podermos nos juntar aps a morte. Voc entende agora,
pois foi  igreja. Sua alma vai se juntar s outras. Eu a absolverei em nome do Senhor.
- No pode matar de novo. Laura no desejaria que matasse de novo.
Silncio... trs, quatro, cinco segundos.
-Achei que tinha entendido.
Tess reconheceu o tom, a acusao, a traio. Iria perd-lo.
-Acho que sim. Caso contrrio, preciso que me explique tudo. Quero entender. Por isso quero ir falar com voc.
- No,  mentira. Voc  cheia de pecados e mentiras.
Ela ouviu-o rezar o Pai-Nosso antes de a conexo ser cortada.

QUANDO BEN RETORNOU  SALA DA EQUIPE DA HOMICDIOS, encontrou Maggie Lowenstein em p junto  sua mesa. Fez-lhe um sinal, apoiando o telefone na orelha para ficar
com as mos livres.
- Ela no consegue ficar longe de mim - disse Ben a Ed.
Ia abra-la, no mirando a cintura, mas o saco de confeitos de passas cobertas por chocolate na mesa.
- Ele ligou para a Dra. Court de novo - disse Maggie. A mo dele imobilizou-se.
- Quando?
- Ligao feita s 11:21.
- Localizaram a origem?
- Sim. - Ela ergueu um bloco da mesa e entregou-lhe. - Delimitaram essa rea. Tem de ser entre essas quatro quadras. Goldman disse que ela se portou bem pra burro.
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- Deus do cu, ns estvamos bem ali. - Ele largou o bloco de volta na mesa de Maggie. - Talvez tenhamos passado de carro por ele.
- O capito mandou Bigsby, Mullendore e alguns policiais uniformizados vasculharem a rea em busca de testemunhas.
- Vamos dar uma mozinha a eles.
- Ben. Ben, espere. - Ele parou, virando-se com impacincia. Maggie apertou o bocal do telefone no ombro. - Esto mandando uma transcrio do telefonema dela ao
capito. Acho que voc vai querer ver.
- timo, lerei quando voltar.
- Acho que voc vai querer ver agora, Ben.

O TRABALHO DE ALGUMAS HORAS NA CLNICA DONNERLY bastou para afastar o nervosismo da mente de Tess. Os pacientes ali variavam de executivos manaco-depressivos a
drogados de rua retirados da dependncia. Uma vez por semana, duas se o seu horrio permitisse, ia  clnica trabalhar com a equipe de mdicos. Via alguns dos pacientes
apenas uma ou duas vezes, outros semana aps semana, ms aps ms.
Dava tempo ali, quando podia, porque no era um hospital de elite aonde iam os ricos quando queriam lidar com seus problemas, ou a dependncia se tornava difcil
demais. Tampouco era uma clnica simples e secundria dirigida por idealistas com pouco dinheiro, mas uma instituio capaz em luta para se manter de p, que aceitava
os enfermos emocionais e os doentes mentais de todas as camadas da vida.
Uma mulher no segundo andar, que sofria de doena de Alzheimer, costurava bonecas para as netas e depois brincava com elas quando esquecia que tinha netas. Um homem
se julgava John Kennedy e passava a maior parte dos dias redigindo discursos inofensivos. Os pacientes mais violentos eram mantidos no terceiro
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andar, onde se contava com uma segurana mais rgida. As grossas portas de vidro ficavam trancadas e as janelas tinham barras de ferro.
Tess passou quase a tarde toda ali. s cinco horas, beirava o esgotamento. Durante quase uma hora, estivera em sesso com um esquizofrnico paranico que vociferara
obscenidades e depois atirara a bandeja do almoo nela, antes de acabar contido por dois serventes. Ela prpria lhe dera uma injeo de Torazina, mas no sem pesar.
O esquizofrnico ficaria sob medicamento pelo resto da vida.
Quando tornou a acalmar-se, Tess deixou-o para ter alguns momentos de sossego na sala da equipe mdica. Ainda tinha de ver mais uma paciente: Lydia Woods, mulher
de trinta e sete anos que cuidara de uma casa com trs filhos, tivera emprego em horrio integral como corretora de aes e trabalhara como presidente do Congresso
Nacional de Pais e Filhos. Preparara refeies de gourmet, participara de todas as atividades escolares e fora nomeada Empresria do Ano. A nova mulher, que podia
ter e cuidar de tudo.
Dois meses antes, desintegrara-se violentamente numa pea teatral da escola. Sofrera convulses e um ataque que muitos dos pais, horrorizados, tomaram por epilepsia.
Quando a levaram para o hospital, descobriu-se que se submetia  abstinncia repentina de uma dependncia to sria quanto a de herona.
Lydia Woods mantivera coeso seu mundo perfeito com Valium e lcool, at o marido ameaar pedir divrcio. Para provar sua fora, ela suspendera de forma brusca a
ingesto do remdio e da bebida e ignorara as reaes fsicas, numa tentativa desesperada de manter a vida como a estruturara.
Agora, embora a doena fsica estivesse sob controle, ela vinha sendo obrigada a lidar com as causas e os resultados.
Tess tomou o elevador e desceu ao primeiro andar, onde solicitou o arquivo de Lydia. Aps examin-lo, enfiou-o debaixo do brao e dirigiu-se ao quarto da paciente
no fim do corredor. A mulher deixava a porta aberta, mas ela bateu antes de entrar.
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As cortinas achavam-se fechadas e o quarto, escuro. As flores ao lado da cama exalavam um perfume leve, doce e esperanoso. Deitada enroscada, Lydia fitava a parede
vazia. No percebeu a presena da mdica.
- Ol, Lydia. - Tess ps o arquivo numa pequena mesa e olhou o quarto em volta. As roupas que a paciente usara na vspera amontoavam-se num canto. - Est escuro
aqui - disse, e encaminhou-se para a cortina.
- Eu gosto que fique escuro.
Tess olhou a figura na cama. Era hora de impor-se.
- Eu, no - anunciou apenas, e abriu a cortina.
Quando a luz inundou o quarto, Lydia rolou na cama e disparou-lhe um olhar furioso. No se preocupara com os cabelos e a maquiagem, e exibia uma expresso contrada
de ressentimento em torno da boca.
- O quarto  meu.
- Sim, . Pelo que eu soube, voc tem passado tempo demais sozinha nele.
- E que diabo se espera que a gente faa aqui? Tea cestas com as frutas e nozes?
- Voc poderia tentar sair para um passeio no terreno. Tess sentou-se, mas no tocou no arquivo.
- No tenho nada a ver com este lugar. No quero ficar aqui.
-  livre para ir embora quando quiser. - A doutora a observou sentar-se e acender um cigarro. - Isso no  uma priso, Lydia.
- Fcil para voc dizer.
- Foi voc quem assinou o registro de internao. Quando sentir que est pronta, pode assinar o registro de alta.
Lydia nada disse e continuou a fumar em pensativo silncio.
- Vejo que seu marido veio visit-la ontem. A mulher olhou as flores e desviou o olhar.
- E da?
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- O que sentiu quando o viu?
- Ah, eu adorei - ela respondeu, irritada. - Adorei que ele viesse aqui para me ver deste jeito. - Agarrou um punhado dos cabelos no lavados. - Eu disse que devia
trazer as crianas para ver que bruxa lamentvel  a me delas.
- Sabia que ele vinha?
- Sabia.
- Voc tem um chuveiro ali. Xampu, maquiagem.
- No foi voc quem disse que eu me escondia por trs das coisas?
- Usar drogas de prescrio mdica e lcool como muleta no  o mesmo que fazer o esforo de se enfeitar para o marido. Voc queria que ele a visse assim, Lydia.
Por qu? Para que fosse embora sentindo pena de voc? Culpado?
A flecha acertou o alvo e desencadeou as chamas, como esperava Tess.
- Apenas feche a matraca. No  da sua conta.
- Seu marido trouxe essas flores? So lindas.
Lydia olhou-as mais uma vez. Davam-lhe vontade de chorar, perder o gume de ressentimento e fracasso que eram agora a sua defesa. Pegou o vaso e atirou as flores
contra a parede.
No corredor do lado de fora, onde o haviam mandado esperar, Ben ouviu uma pancada estrondosa. J se levantara da cadeira e dirigia-se  porta aberta, quando uma
enfermeira o deteve:
- Lamento, senhor, no pode realmente entrar. A Dra. Court est com uma paciente.
Barrando-lhe a passagem, ela prpria foi para a porta.
- Oh, Sra. Rydel. - Ben ouviu a voz de Tess, serena e inalterada, quando se dirigiu  enfermeira. - Poderia trazer uma lata de lixo e um pano de cho para a Sra.
Woods limpar isso?
- No vou limpar! - gritou Lydia. - O quarto  meu e no vou limpar.
235
- Ento terei de tomar cuidado quando andar, para no cortar os ps nos cacos de vidro.
- Eu odeio voc. - Como a mdica sequer se contraiu, a paciente gritou ainda mais alto: - Odeio voc! No me ouviu?
- Sim, ouvi muito bem. Mas me pergunto se est gritando comigo, Lydia, ou consigo mesma.
- Quem diabo voc pensa que ? - Violenta, ela levantou e baixou a mo como uma perfuradora para apagar o cigarro. - Vem aqui semana aps semana com seu ar presunoso,
hipcrita, metida nesses terninhos bonitos, elegantes, e espera que eu dispa minha alma? A Srta. Sociedade Perfeita, que trata de neurastnicos como passatempo,
depois volta para casa e se esquece deles?
- Eu no os esqueo, Lydia.
Embora a voz de Tess sasse tranqila, num direto contraste, no corredor, Ben ouviu-a.
- Voc me deixa doente. - Lydia levantou-se da cama pela primeira vez naquele dia. - No agento a viso de voc com seus sapatos italianos, brochinhos de ouro e
essa perfeio de "eu nunca suo".
- No sou perfeita, Lydia, nenhum de ns . Nenhum de ns tem de ser para merecer amor e respeito.
As lgrimas afloraram, mas Tess no se levantou para reconfort-la.
- Que sabe voc sobre erros? Que diabo sabe sobre como eu vivia? Droga, eu fazia as coisas funcionarem. Eu fazia.
- , fazia. Mas nada funciona para sempre se nos recusarmos a aceitar falhas.
- Eu era to boa quanto voc. Melhor. Tinha roupas como as suas e um lar. Odeio voc vir aqui e me lembrar disso. Saia. Apenas saia e me deixe em paz.
- Tudo bem. - Tess levantou-se, levando o arquivo consigo.
- Voltarei na semana que vem. Antes, se voc quiser que eu venha.
- Foi at a porta e virou-se. - Voc ainda tem um lar, Lydia. -
230
Parada na porta, a enfermeira segurava a lata de lixo e o pano de cho. Tess pegou-os e encostou-os na parede interna. -Vou pedir que tragam um vaso novo para essas
flores.
Cruzou a porta e fechou os olhos um instante. Aquele tipo de dio violento, mesmo quando vinha da enfermidade, e no do corao, nunca era fcil de engolir.
- Doutora?
Tess logo se recomps e abriu os olhos. Viu Ben a poucos passos.
- Chegou cedo.
- . - Ele se aproximou e passou a mo no brao dela. - Que diabo faz num lugar assim?
- Meu trabalho. Voc vai precisar esperar um minuto. Tenho de anotar algumas coisas neste arquivo.
Ela atravessou o corredor at o posto das enfermeiras, conferiu as horas e comeou a escrever.
Ben observava-a. No momento, no parecia afetada de modo algum pela horrvel cena que ele ouvira sem querer. Tinha o rosto calmo ao escrever com o que o detetive
sabia ser uma letra muito profissional. Mas tambm vira um rpido momento indefeso quando ela sara no corredor. No insensvel. Mas com um controle incrvel. Ele
no gostou disso, como no gostava daquele lugar de paredes brancas, limpas, e rostos infelizes sem expresso.
Tess devolveu o arquivo  enfermeira, em voz baixa disse algumas coisas que ele julgou referir-se  mulher que acabara de repreend-la e tornou a olhar o relgio.
- Desculpe t-lo feito esperar - disse quando retornou. - Tenho de pegar meu casaco. Por que no se encontra comigo l fora?
Quando saiu, encontrou-o  espera na margem do gramado, fumando sem parar.
- Voc no me deu chance ao telefone de dizer que no queria que se incomodasse com tudo isso. Tenho feito o caminho de ida e volta  clnica h muito tempo.
237
Ele largou o cigarro e esmagou-o com cuidado.
- Por que aceita toda aquela merda dela?
Tess inspirou fundo antes de passar o brao no dele.
- Onde estacionou?
- Deve ser merda psiquitrica responder a perguntas com perguntas.
- . Sim, . Escute, se ela no me atacasse, eu no estaria fazendo meu trabalho.  a primeira vez que de fato chegamos a algum lugar desde que comecei a v-la.
Agora, onde estacionou? Est frio.
- Ali. - Mais que feliz por deixar a clnica para trs, Ben comeou a andar com ela. - Ele ligou pra voc de novo.
- , logo depois de voc. - Queria desesperadamente tratar aquilo com a mesma facilidade profissional que tinha com os pacientes na clnica. - Conseguiram rastre-lo?
-  Limitamos a duas quadras. Ningum viu nada. Continuamos trabalhando.
-A Laura dele morreu.
- Eu j tinha imaginado. - Ben ps a mo na porta do carro e tornou a solt-la. - Da mesma forma que imaginei que voc  o prximo alvo.
Ela no empalideceu nem estremeceu. Ele no esperava que o fizesse. Apenas assentiu com a cabea, aceitando, e ps a mo no brao dele.
- Me faria um favor?
- Posso tentar.
- No falemos disso esta noite. Em hiptese alguma.
- Tess...
- Por favor. Tenho de ir  delegacia com voc amanh e falar com o capito Harris. No  cedo o suficiente para digerir tudo isso?
Ele tocou as mos geladas sem luvas no rosto dela.
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- No vou deixar que nada acontea a voc. No me importa o que precise fazer.
Tess sorriu e levantou as mos para a cintura dele.
- Ento no tenho nada com que me preocupar, no ?
- Eu gosto de voc - ele disse, com todo cuidado. Era o mais prximo de uma declarao a que j chegara com uma mulher. - Quero que saiba disso.
- Ento me leve pra casa, Ben. - Ela deslizou os lbios para a palma da mo dele. - E me mostre.
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Captulo Treze                                     I
O homem da manuteno enxugava mal-humorado uma poa cor-de-lama no corredor diante da sala dos detetives. Sob o cheiro forte do desinfetante de pinho pairavam vestgios
de odores mais humanos. A mquina que despejava um caf fraco e, quando de bom humor, chocolate quente, encostava-se inclinada como um soldado ferido na companheira
que liberava barras de chocolate Hershey's puro e com amendoim. Um monte de copos de isopor estava espalhado pelo piso de cermica. Ben conduziu Tess e contornou
o pior da desordem.
- A mquina de caf pifou de novo?
O homem de macaco e cabelos grisalhos empoeirados olhou por cima do cabo do esfrego.
- Vocs, caras, precisam parar de chutar as mquinas. Olhe essa mossa. - Derramou mais caf e Lysol enquanto gesticulava. - Criminosos.
- . - Ben disparou um olhar de averso  mquina de chocolates. Tratara de acrescentar mais uma nova mossa na vspera quando perdera outros cinqenta centavos.
- Algum tem de investigar. Cuidado com os sapatos, doutora.
240
Levou-a  sala da equipe, onde s oito da manh os telefones j tocavam estridentes.
- Paris. - Maggie Lowenstein atirou um copo de papel em direo  cesta de lixo, onde ele bateu na borda e deslizou para dentro. - A filha do capito teve nenm
ontem  noite.
- Ontem  noite?
O detetive parou junto  sua mesa  procura de recados. O da me lembrou-lhe que fazia quase um ms que ele no aparecia.
- s 10:35 da noite.
- Merda, no podia ter esperado mais dois dias? Apostei no dcimo quinto dia do ms. -Ainda havia uma chance, ele imaginou, se a jovem tivesse cooperado e fosse
um menino. - Que foi que ela teve?
- Menina, quase quatro quilos. Jackson acertou na mosca.
- Era de esperar.
Ela levantou-se e lanou uma rpida varredura profissional em Tess. Avaliou o preo da bolsa de pele de cobra em cento e cinqenta paus e sentiu uma leve pontada
inofensiva de inveja.
- Bom-dia, Dra. Court.
- Bom-dia.
- Ah, se quiser caf ou alguma coisa, pedimos da sala de conferncia at acabar a faxina. Vamos nos reunir l em alguns minutos.
O perfume era francs, coisa autntica, deduziu Maggie, dando uma rpida e discreta fungada.
- Obrigada, eu espero.
- Por que no se senta at o capito estar pronto? - sugeriu Ben, olhando em volta  procura de uma cadeira limpa. - Tenho de retornar dois telefonemas.
Ouviu-se uma enxurrada de obscenidades do corredor, e, em seguida, uma pancada metlica. Tess virou-se e viu gua suja do balde escorrer pelo corredor. Ento tudo
fugiu ao controle.
Um negro magricela com as mos algemadas atrs chegou at a entrada, e um homem de casaco prendeu-o numa chave de pescoo.
241
- Olhe o meu cho! - Quase danando de fria, o responsvel pela manuteno surgiu no campo visual. Girou o esfrego, espirrando tudo. - Vou me queixar ao sindicato.
Ah, se vou!
O prisioneiro estrebuchou e contorceu-se como uma truta fora d'gua, enquanto o policial responsvel tentava manter o domnio.
- Tire esse esfrego molhado da minha cara.
Ofegando e meio ruborizado, o policial procurava evitar o dilvio seguinte, e o negro emitiu um gemido alto, choroso.
- Merda, Mullendore, no consegue controlar seus prisioneiros? - Sem pressa, Ben aproximou-se para ajudar, quando o negro deu um jeito de cravar os dentes na mo
do policial. O baixo grunhido de um xingamento veio  tona antes que o prisioneiro se soltasse e precipitasse de ponta-cabea sobre Ben. - Deus do cu, me d uma
mo, sim? Esse cara  um animal.
Mullendore lanou-se com fora  frente, espremendo o prisioneiro entre eles. Por um momento, pareciam prontos para danar uma rumba. Ento os trs perderam a firmeza
dos ps no piso molhado e caram amontoados.
Ao lado de Tess, Maggie assistia com as mos  vontade nos quadris.
- No devia apart-los? - perguntou Tess em voz alta.
- O cara est algemado e talvez pese menos de cinqenta quilos. Vo acertar isso num minuto.
- No vo me pr numa cela! - rolou, debateu-se e gritou o negro, conseguindo atingir em cheio a virilha de Ben com o joelho. Por reflexo, o detetive impeliu o cotovelo
e acertou-o sob o queixo. Quando o corpo do outro apagou sem energia, ele desabou em cima, com Mullendore arfando ao lado.
- Obrigado, Paris. -Mullendore ergueu a mo para examinar as marcas de dentes. - Puxa, na certa vou precisar de uma injeo. O cara enlouqueceu quando entramos no
prdio.
Ben conseguiu pr-se de quatro. Aos poucos foi controlando a respirao ofegante, mas a dor nas partes baixas ainda estava forte. Tentou falar, arrastou outro arquejo
sibilante e tentou mais uma vez:
242
- O filho-da-me enfiou meus colhes na barriga.
- Sinto muito, Ben. - Mullendore pegou um leno e o enrolou na mordida. - Mas ele parece muito pacfico agora.
Com um grunhido, Ben arrastou-se e sentou-se no cho, apoiado na parede.
- Pelo amor de Deus, trancafie o cara antes que ele volte a si. Ficou ali sentado, enquanto o policial erguia o prisioneiro inconsciente. A gua fria da lavagem,
suja de caf, encharcara-lhe os joelhos e as coxas da cala jeans e borrifaram a camisa. Mesmo quando escorreu para os fundilhos, ele continuou sentado, perguntando-se
por que o joelho que atingira seu orgulho tinha de ser to ossudo.
Ao atravessar o corredor para uma nova rodada de gua cheia de sabo, o homem da manuteno fez matraquear o esfrego no balde.
- Vou falar com o representante do sindicato. J tinha quase terminado aquele piso.
- Folga dura.
Ben lanou-lhe um olhar quando a dor entre as pernas subiu palpitante at a cabea.
- No se preocupe com isso, Paris. - Maggie apoiou-se na porta, evitando com todo cuidado o riacho. - As chances so de que continue sendo um garanho.
- No enche o meu saco.
- Querido, voc sabe que meu marido  um homem ciumento.
Tess ajoelhou-se ao lado dele, com um solidrio muxoxo.
Afagou-lhe a face com delicadeza, mas tinha os olhos iluminados pelo riso.
- Tudo bem com voc?
- Ah, esplndido. Gosto de absorver caf pela pele.
- Ramo executivo, certo?
- , certo.
- Quer se levantar?
- No.
243
Ele resistiu a levar a mo entre as pernas para certificar-se de que tudo estava no lugar.
Ela no conseguiu abafar muito a risada quando tapou a boca com a mo. O olhar demorado e estreito que Ben lhe lanou s piorou a situao. A voz saiu esganiada
e gorgolejante:
- Voc no pode ficar sentado a o dia todo, numa poa e cheirando a piso de um bar no lavado a semana inteira.
- Fantstico seu jeito delicado de mdica, doutora. - Ele tomou-lhe o brao, enquanto ela travava uma batalha perdida contra o riso. - Basta um bom puxo, que ponho
voc aqui ao meu lado.
- Ento vai ter de lidar com todas aquelas ramificaes da culpa. Pra no falar da conta da tinturaria.
Ed atravessou o corredor, ainda todo agasalhado com os acessrios para o frio externo. Como evitava o pior da umidade, raspou o resto do iogurte do desjejum. Lambendo
a colher, parou diante do parceiro.
- Bom-dia, Dra. Court.
- Belo dia.
- Mas um pouco frio.
- O homem da meteorologia disse que vai chegar a dez graus centgrados esta tarde.
- Ai, vocs dois so uma perturbao da ordem pblica - disse Ben. - Uma verdadeira perturbao.
Tess pigarreou.
- Ben... Ben sofreu um pequeno acidente.
Ed ergueu as bastas sobrancelhas ao ver o riacho que passava pelo corredor.
- S guarde seu humor de calouro embonecado pra si mesmo.
- Calouro embonecado. - Ed rolou a palavra em volta da boca, impressionado. Entregou a embalagem vazia a Tess, enfiou as mos sob as axilas do colega e sem esforo
iou o parceiro sobre os ps. - Sua cala est molhada.
244
- Tive de conter um prisioneiro.
- ? Bem, coisas assim acontecem no meio de toda essa tenso e excitao.
-Vou at o meu armrio - resmungou Ben. - Veja se a doutora no se machucou de tanto rir.
Espalhou gua, pisando com as pernas meio abertas no corredor. Ed pegou a embalagem do iogurte e a colher de plstico de Tess.
- Quer um pouco de caf?
- No - ela conseguiu dizer, entrecortando a palavra. - Acho que j tomei demais.
- S um minuto e eu a levarei ao capito Harris.

REUNIRAM-SE NA SALA DE CONFERNCIAS. EMBORA O AQUECEDOR emitisse um esperanoso zumbido mecnico, os pisos continuavam gelados. Harris no conseguira que instalassem
carpete no piso. Haviam fechado as persianas, numa tentativa infrutfera de isolar as janelas. Algum afixara um cartaz que exortava os Estados Unidos a pouparem
energia.
Tess sentou-se  mesa, com Ed refestelado ao lado. O leve perfume de jasmim evaporava-se do ch. Maggie Lowenstein equilibrava-se na borda de uma pequena mesa, balanando,
distrada, a perna. Curvado numa cadeira, Bigsby tinha no colo uma caixa tamanho econmico de lenos de papel. De poucos em poucos instantes, assoava o nariz j
vermelho. A gripe de Roderick mantivera-o na cama.
Harris postou-se junto a um quadro verde, no qual se haviam alinhado os nomes e outras informaes pertinentes sobre as vtimas. Um mapa da cidade aberto na parede
fora perfurado com quatro bandeiras azuis, tendo um quadro de cortia ao lado. Fotos brilhantes das mulheres assassinadas haviam sido presas com tachas.
- Temos as transcries dos telefonemas que a Dra. Court recebeu.
245
As palavras soaram to frias, profissionais, pensou Tess. Transcries. No poderiam sentir a dor nem a doena em transcries.
- Capito Harris. - Ela remexeu nas prprias anotaes no colo. - Eu trouxe um relatrio atualizado, com minhas opinies e diagnstico. Mas sinto que seria til
explicar esses telefonemas ao senhor e a seus policiais.
Harris, com as mos nas costas, apenas assentiu. O prefeito, a mdia e o senador vinham mordendo-lhe os tornozelos. Queria tudo concludo, h muito concludo, para
poder passar algum tempo babando pela neta recm-nascida. V-la atrs da vitrina do berrio quase o fizera acreditar que a vida tinha seus pontos positivos.
- O homem que entrou em contato comigo ligou porque sentia medo de si mesmo. No consegue mais controlar sua vida, mas tem sido controlado pela doena. O ltimo...
- Sentiu o olhar atrado pela foto de Anne Reasoner. - O ltimo assassinato no fazia parte do plano. - Ela umedeceu os lbios e ergueu os olhos apenas por um instante
quando Ben entrou. - Ele me esperava... a mim especificamente. No temos como saber ao certo como se concentrou nas outras vtimas. No caso de Barbara Clayton, quase
podemos ter certeza de que foi coincidncia. O carro dela pifou. Ele estava l. No meu caso,  muito mais aprimorado, pois ele viu meu nome e foto no jornal.
Interrompeu-se um momento, esperando que Ben se instalasse na cadeira ao lado. Em vez disso, ele continuou nos fundos e encostou-se na porta fechada, separado dela
pela mesa.
-A parte racional da mente desse homem, que o mantm funcionando no dia-a-dia, se esgotou. Ali estava a ajuda, algum que no o condenara sem controle. Algum que
afirma entender pelo menos parte de sua dor, que se parece o suficiente com Laura para despertar sentimentos de amor e total desespero.
"Acho correto dizer que ele me esperou na noite do assassinato de Anne Reasoner porque queria falar comigo, explicar a razo de fazer... o que estava prestes a fazer.
A julgar pelas prprias investigaes
246
de vocs, tambm acho correto dizer que ele no sentiu essa necessidade de explicar com nenhuma das outras. Nas transcries, vero que, de vez em quando, ele me
pede que entenda. Sou, digamos assim, uma dobradia. A porta dele se abre para os dois sentidos.  Juntou as palmas das mos, movendo-as para a frente e para trs,
numa demonstrao.
- Ele me pede ajuda, ento a doena o domina e o faz querer apenas concluir o que comeou. Mais duas vtimas - disse com toda calma. - Em sua mente, mais duas vtimas
a serem salvas. Eu, depois ele prprio.
Ed fez pequenas e arrumadas anotaes na margem de suas transcries.
- O que vai impedi-lo de sair e liquidar outra pessoa por no conseguir chegar a voc?
- Precisa de mim. A essa altura, entrou em contato comigo trs vezes, me viu na igreja. Lida com sinais e smbolos. Eu estava na igreja, igreja dele. Pareo Laura.
E disse que queria ajudar. Quanto mais prximo se sente de mim, mais necessrio seria completar a misso comigo.
- Ainda acha que ele vai ter como alvo o dia 8 de dezembro? Embora Maggie tivesse as transcries na mo, no as olhava.
- Sim. No creio que poderia quebrar mais uma vez o padro. Anne Reasoner exigiu demais. A mulher errada, a noite errada.
Tess sentiu a barriga estremecer antes de endireitar-se e controlar a emoo.
- No  possvel que - comeou Ed -, pelo fato de ele estar to fixado assim em voc, procure-a mais cedo?
- Sempre  possvel. A doena mental tem poucos absolutos.
- Vamos continuar com a proteo durante vinte e quatro horas - interveio Harris. - Voc ter a escuta no telefone e os guardas at ele ser capturado. Nesse meio-tempo,
queremos que continue com suas rotinas pessoal e profissional. Ele vai vigi-la e por isso saber quais so. Se voc ficar acessvel, talvez possamos atra-lo.
247
- Por que no diz logo o principal a ela? - Da porta, Ben sugeriu sem se alterar, as mos nos bolsos e a voz relaxada. Tess teve apenas de olhar os olhos dele para
ver o que se passava no ntimo. - Voc a quer como isca.
Harris encarou-o, mas no alterou o volume nem o tom da voz quando tornou a falar:
- A Dra. Court foi escolhida. O que eu quero no tem tanta importncia quanto o que o assassino quer. Por isso  que ela ter nosso pessoal em casa, no consultrio
e no maldito supermercado.
- Ela devia ficar protegida em casa durante as prximas duas semanas.
- Isso j foi considerado e rejeitado.
- Rejeitado? - Ben afastou-se da porta. - Por quem?
- Por mim.
Tess juntou as mos sobre a pasta e ficou sentada muito imvel. Ben mal a olhou antes de despejar a raiva em Harris.
- Desde quando usamos civis? Enquanto ela estiver exposta, corre perigo.
- Est sendo protegida.
- . E sabemos com que facilidade algo pode sair errado. Um passo em falso e voc pregar o retrato dela ali.
- Ben.
Maggie estendeu a mo para pegar-lhe o brao, mas ele a afastou com um safano.
- No temos nada de correr riscos com ela quando sabemos que o louco vai persegui-la. Ela vai ficar protegida no aparelho.
- No. - Tess apertou as mos com tanta fora que os ns dos dedos se embranqueceram. - No posso tratar de meus pacientes a no ser que v ao consultrio e  clnica.
- Tampouco pode tratar deles se estiver morta. - Ele rodopiou para ela, batendo as duas palmas na mesa. - Ento tire umas frias. Compre uma passagem para a Martinica
ou Cancn. Quero voc fora disso.
248
- No posso, Ben. Mesmo que pudesse me afastar dos pacientes por algumas semanas, no tenho como me afastar do resto.
- Paris... Ben - corrigiu Harris, num tom mais ameno. -A Dra. Court tem conhecimento das opes. Enquanto estiver conosco, ser protegida.  opinio dela prpria
que ele vai procur-la. Como decidiu cooperar com o departamento, teremos condies de mant-la sob cerrada vigilncia e imobiliz-lo quando ele fizer a investida.
- Ns a retiramos e colocamos uma policial no lugar dela.
- No. - Dessa vez, Tess levantou-se, devagar. - No vou suportar que algum morra mais uma vez no meu lugar. De novo, no.
- E eu no vou querer encontrar voc em algum beco com uma estola amarrada no pescoo. - Ele deu-lhe as costas. - Voc a est usando porque a investigao empacou,
porque temos apenas uma testemunha perturbada, um representante de vendas de artigos religiosos em Boston e uma pilha de papis de adivinhao psiquitrica.
- Aceito a cooperao da Dra. Court porque temos quatro mulheres mortas. - Era a azia no estmago que impedia Harris de levantar a voz. - E preciso de cada um dos
meus policiais de nvel superior. Recomponha-se, Ben, seno ser o primeiro a cair fora.
Tess juntou os papis e saiu de mansinho. Ed chegou em menos de dez segundos atrs dela.
- Quer tomar um pouco de ar? - perguntou, ao encontr-la parada, infeliz, no corredor.
- Quero. Obrigada.
Ele conduziu-a pelo cotovelo de uma forma que em geral a teria feito sorrir. Quando abriu a porta, uma rajada do vento gelado de novembro os golpeou. O cu era de
um azul intenso, frio, sem uma nuvem sequer para suaviz-lo. Os dois lembraram que fora em agosto, o quente e mormacento agosto, que tudo comeara. Ed esperou-a
abotoar o casaco.
249
- Acho que teremos um pouco de neve no Dia de Ao de Graas - disse,  guisa de conversa.
- Acho que sim.
Ela enfiou a mo no bolso e pegou as luvas.
- Sempre senti pena dos perus.
- Como?
- Os perus - repetiu Ed. - Voc sabe, Ao de Graas. No imagino que se sintam muito gratos por ser uma tradio.
- . - Ela viu que podia sorrir, afinal. - , acho que no.
- Ele nunca se envolveu com uma mulher antes. No assim. No como voc.
Tess exalou um longo suspiro, desejando conseguir encontrar a resposta. Sempre conseguia encontr-la.
- Isso simplesmente fica mais complicado.
- Conheo Ben h muito tempo. - Ed tirou um amendoim do bolso, partiu-o e ofereceu o recheio a Tess. Quando ela fez que no com a cabea, ele o ps na boca. - 
muito fcil l-lo se voc souber como olhar. No momento, est apavorado. Apavorado com voc e por voc.
Tess fitou o estacionamento. Um dos policiais no ficaria nada satisfeito quando sasse e descobrisse o pneu direito da frente arriado.
- Eu no sei o que fazer. No posso fugir, embora parte de mim, no fundo, esteja apavorada.
- Com os telefonemas ou com Ben?
- Comeo a achar que voc devia fazer parte do meu ramo de trabalho - ela murmurou.
- Quando a gente  policial h bastante tempo, aprende um pouco de tudo.
- Estou apaixonada por ele. - A declarao saiu devagar, como um teste. Assim que a disse, ela exalou um suspiro trmulo. - J seria difcil o suficiente em circunstncias
normais, mas agora... no posso fazer o que ele quer.
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- Ele sabe. Por isso tambm est apavorado.  um bom tira. Desde que continue a vigi-la, voc vai ficar bem.
- Conto com isso. Ele tem algum problema com o que eu fao para ganhar a vida. - Ela virou-se de frente para Ed. - Voc sabe. Sabe por qu.
- Digamos que eu saiba o bastante para dizer que ele tem seus motivos e, quando estiver pronto, vai lhe falar sobre eles.
Ela examinou o rosto largo dele, avermelhado pelo vento.
- Ben  felizardo por ter voc.
- Eu vivo dizendo isso a ele.
- Abaixe-se um instante. - Quando Ed se curvou, ela roou os lbios na face dele. - Obrigada.
O rubor se intensificou um pouco.
- No foi nada.
Ben observou-os atravs da porta de vidro um momento e abriu-a. Descontara toda a raiva em Harris. S lhe restava uma dor maante na boca do estmago. Conhecia bem
o medo para reconhec-lo.
- Voc no perde tempo, hein? J ocupou meu lugar? - perguntou, com voz branda.
- Se voc for idiota o bastante pra abrir espao... - Ed sorriu para Tess e entregou-lhe alguns amendoins. - Se cuide.
Tess sacudiu-os na mo e nada disse quando ele desapareceu dentro da delegacia.
Com o zper da jaqueta aberto, Ben ficou a seu lado, olhando, como ela, o estacionamento. O vento impelia um pequeno saco de papel pardo acima do asfalto.
- Tenho um vizinho que vai cuidar da minha gata por algum tempo. - Como ela continuou calada, ele deslocou o peso de um p para o outro. - Quero me mudar para a
sua casa.
Ela encarou de um modo intenso o pneu vazio.
- Mais proteo policial.
251
-  isso a.
E mais, muito mais. Queria ficar com ela, dia e noite. No sabia explicar, ainda no, que queria viver com ela, quando nunca vivera com outra mulher. O tipo de compromisso
perigosamente prximo de uma permanncia para a qual ainda no se considerava pronto.
Tess examinou os amendoins na mo e enfiou-os no bolso. Como dissera Ed, era muito fcil l-lo quando se sabia olhar.
- Eu lhe darei uma chave, mas no vou preparar o desjejum.
- E o jantar?
- De vez em quando.
- Parece razovel. Tess?
- Sim?
- Se eu dissesse que quis que voc casse fora porque... - Ele hesitou e ps as mos nos ombros dela. - Porque acho que no agentaria se alguma coisa lhe acontecesse,
voc largaria o caso?
- Voc largaria tambm?
- No posso. Voc sabe que tenho de... - Ele interrompeu-se, lutando com a frustrao quando ela ergueu os olhos e encarou-o. - Tudo bem. Eu devia ter mais juzo
e no discutir com algum que joga pingue-pongue com as clulas cerebrais. Faa o que mandaram, porm, ao p da letra, at o fim.
- Tenho um interesse pessoal em tornar esse caso mais fcil pra voc, Ben. At acabar, farei o que me mandarem.
- Isso decerto bastar. - Ele recuou apenas o suficiente para ela perceber que era o tira agora, muito mais que o homem, que ficava a seu lado. - Dois policiais
uniformizados vo segui-la at o consultrio. J tomamos providncias para que o guarda que fica na portaria tire frias e o substituiremos por um dos nossos. Teremos
trs homens se revezando na sua sala de espera. Sempre que puder, vou pegar e levar voc pra casa. Quando no puder, os policiais vo segui-la. Usaremos um apartamento
vazio no terceiro andar como base, mas, quando voc entrar, sua porta vai permanecer trancada.
252
Se tiver de sair por alguma razo, ligue para a delegacia e espere at tudo ficar desimpedido.
- Parece completo.
Ele pensou nos quatro retratos brilhantes na cortia.
- . Se alguma coisa, eu me refiro a qualquer coisa, acontecer... um cara lhe der uma cortada num sinal, algum parar na rua e perguntar algum endereo... eu quero
saber.
- Ben, no  culpa de ningum que as coisas tenham tomado esse rumo. Nem sua, nem de Harris, nem minha. Apenas temos de encar-las nos mnimos detalhes.
-  o que pretendo fazer. L esto os policiais de que falei.  melhor voc ir andando.
- Tudo bem. - Ela desceu o primeiro degrau, parou e virou-se. - Imagino que seria conduta imprpria voc me beijar aqui, enquanto est de servio.
-  verdade. - Ele curvou-se e, de uma forma que nunca deixava de lhe enfraquecer as pernas, tomou-lhe o rosto nas mos. Olhos abertos e nos dela, baixou a boca.
Embora gelados, encontrou lbios macios e generosos. Ela agarrou com a mo livre a frente da jaqueta dele para equilibrar-se, ou mant-lo ali por mais um instante.
Ele fitou-a fascinado com o movimento daqueles clios sensuais e abaixou-se devagar para lhe sombrear as faces.
- Consegue lembrar exatamente onde voc estava por volta de oito horas? - murmurou Tess.
- Vou dar um jeito de no esquecer. - Ele se afastou, mas manteve a mo dela na sua. - Dirija com cuidado. No vamos querer que os policiais se sintam tentados a
lhe aplicar uma multa.
- J acertei tudo. - Ela sorriu. - At a noite. Ben soltou-a.
- Gosto do meu fil ao ponto.
- E eu malpassado.
253
Ele ficou vendo-a entrar no carro e sair com competncia do estacionamento. Os policiais uniformizados mantiveram-se  distncia de um carro atrs.

TESS SABIA QUE SONHAVA, COMO TAMBM, SABIA QUE HAVIA motivos concretos e lgicos para o sonho. Mas isso no a impedia de reconhecer o medo.
Corria. Os msculos na batata da perna direita trincavam-se com o esforo. Dormindo, ela gemia baixinho de dor. Corredores surgiam em todos os lados, confundindo-a.
Enquanto tivesse condies, ela se manteria em linha reta, sabendo que havia uma porta em algum lugar. S precisava encontr-la. No labirinto, ouvia o forte ricochete
de sua respirao. As paredes eram espelhadas agora e projetavam dezenas de seus reflexos.
Levava uma pasta. Olhou-a, estupidamente, mas no a largou. Quando ficou pesada demais para uma mo, segurou-a com as duas e continuou correndo. Ao desequilibrar-se,
lanou uma das mos e bateu-a num espelho. Ofegante, ergueu os olhos. Anne Reasoner encarou-a de volta. Ento, o espelho se fundiu em outro corredor.
Assim recomeou a correr, tomando o caminho reto. O peso da pasta fazia doerem-lhe os braos, mas ela a puxava consigo. Os msculos retesavam-se e ardiam. Ento
viu a porta. Trancada. Procurou desesperada a chave. Sempre havia uma chave. Mas a maaneta girou devagar do outro lado.
- Ben.
Fraca de alvio, ele estendeu-lhe a mo para ajud-la a transpor aquele ltimo passo rumo  segurana. Mas o vulto era preto-e-branco.
A batina preta, o colarinho branco. A seda branca do amicto. Viu-o ergu-lo, cheio de ns que pareciam prolas, e aproximar-se de seu pescoo. Ento se ps a gritar.
- Tess. Tess, vamos, querida, acorde.
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Ela ofegava e levou a mo  garganta ao arrastar-se para fora do sonho.
- Relaxe. - A voz dele chegou-lhe calma e tranqilizante do escuro. - Apenas respire e relaxe.
Tess agarrou-se com fora, o rosto apertado no ombro de Ben. Enquanto ele deslizava as mos pelas suas costas acima e abaixo, ela tentava focar-se nelas e deixar
as lembranas do sonho desaparecerem.
- Sinto muito - conseguiu dizer quando recuperou o flego.
- Foi s um sonho. Sinto muito.
- Deve ter sido uma coisa extraordinria. - Delicadamente, ele retirou os fios de cabelo do rosto dela e sentiu sua pele fria e mida. Puxou as cobertas para cima
e envolveu-as nela. - Quer me contar o que foi?
- Apenas excesso de trabalho.
Ela dobrou os joelhos e apoiou neles os cotovelos.
- Quer um pouco d'gua?
- Quero, obrigada.
Esfregou as mos no rosto ao ouvir a torneira aberta no banheiro. Ele deixou a luz acesa de modo que saa inclinada pela porta.
- Pronto. Sempre tem pesadelos?
- No. - Ela tomou um gole para aliviar a garganta seca. - Tive alguns depois da morte de meus pais. Meu av vinha, me fazia companhia e adormecia na cadeira.
- Bem, farei companhia a voc. - Aps tornar a se enfiar na cama, ele passou o brao pelos ombros dela. - Melhor?
- Muito. Acho que me sinto idiota.
- Voc no diria, em termos psiquitricos, que em certas condies  saudvel ficar apavorada?
- Acho que sim. - Ela deixou a mo apoiada no ombro dele,
- Obrigada.
- Que mais a incomoda?
Tess tomou um ltimo gole d'gua e largou o copo ao lado.
- Eu vinha me esforando pra no deixar transparecer.
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- No funcionou. Que ?
Ela suspirou e fitou a nesga de luz no piso do quarto.
- Tenho um paciente. Ou tinha, de qualquer modo. Adolescente, catorze anos, alcolatra, grave depresso, tendncias suicidas. Eu queria que os pais o pusessem numa
clnica na Virgnia.
- Eles no consentiram.
- No apenas isso, mas ele faltou  sesso hoje. Liguei e a me atendeu. Disse que acha que o progresso de Joey  timo. No quis conversar sobre a clnica, e ia
deix-lo ter uma folga das sesses para respirar. No posso fazer nada. Nada. - Acima de tudo, fora isso que a derrubara. - Ela no quer enfrentar o fato de que
o filho no tem progredido. Embora o ame, ps antolhos pra no ver nada que no esteja no foco certo. Tenho aplicado, por assim dizer, um Band-Aid nele toda semana,
mas a ferida no sara.
- No pode obrig-la a trazer o filho. Talvez uma folga pra respirar seja melhor. Deixe a ferida tomar um pouco de ar.
- Quisera eu poder acreditar nisso.
Foi o tom da voz que o fez mudar de posio e pux-la mais para perto. Quando acordara com aqueles gritos, sentira o sangue gelar-se. Agora flua quente de novo.
- Escute, doutora, estamos os dois num ramo de atividade em que podemos perder pessoas.  o tipo de coisa que nos faz acordar s trs da manh, ficar fitando as
paredes ou olhando pelas janelas. s vezes temos apenas de desligar. Apenas mexer no interruptor.
- Eu sei. A regra nmero um  o distanciamento profissional. - Ela roou a face nos cabelos dele quando virou o rosto para olh-lo. - Que  que desliga melhor o
interruptor pra voc?
Na luz obscurecida, viu-o sorrir.
- Quer mesmo saber?
- Quero. - Ela deslizou a mo pelo lado dele at descans-la confortavelmente no quadril. - No momento quero muito saber.
- Isso em geral funciona.
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Num movimento descontrado, ele rolou-a para cima de si. Sentiu a maciez dos seios firmes colados no peito, a fragrncia dos cabelos quando lhe cobriram o rosto
como uma cortina. Segurou um punhado e baixou a boca da amante at a sua.
Com que perfeio ela parecia encaixar-se, foi o pensamento que lhe ocorreu. Aquele roar das pontas dos dedos na pele era como uma bno. Alguma coisa na hesitao
dela causava um formigamento excitante. Se ele deslizava os prprios dedos pela parte interna da coxa de Tess, ela estremecia apenas o suficiente para dizer-lhe
que o queria, mas continuava insegura.
Ben no sabia por que tudo parecia ser to novo com ela. Cada vez que se via abraando-a no escuro, no silncio, era como a primeira. Ela trazia-lhe alguma coisa
da qual ele no soubera que sentia falta e j no tinha mais certeza de que poderia passar sem.
Ela movia de leve a boca pelo seu rosto. Ele queria rolar nas costas dela, bombear dentro dela at os dois explodirem. Com a maioria das mulheres, sempre fora essa
ltima frao de segundo de insanidade que eliminara tudo o mais. Com Tess, era um toque, um murmrio, um suave roar de lbios. Por isso ele resistiu quela primeira
volpia de desejo e deixou os dois vaguearem.
s vezes ele era to delicado, pensou Tess vagamente. As vezes, quando faziam amor, tudo acontecia rpido, muito urgente. E ento... Quando ela menos esperava, ele
era terno, quase preguioso, at seu corao ficar pronto para romper essa doura. Agora, ele a deixava tocar o corpo que passara a conhecer como o seu prprio.
Suspiros. Suspiros de contentamento. Murmrios. Murmrios de promessas. Ben enterrou as mos nos cabelos dela quando ela provou o gosto das partes mais ntimas dele,
a princpio quase tmida, depois com confiana cada vez maior. Os msculos a serem descobertos pareceram-lhe retesados e deliciou-a o conhecimento de que era ela
quem causava esse enrijecimento.
Quando Tess deslizou a lngua pelos ossos protuberantes e estreitos dos quadris dele, Ben curvou-se como um arco. O caminho
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do dedo dela pela dobra da coxa fez-lhe o corpo estremecer. Ela suspirou ao percorr-lo com os lbios. Desaparecera toda a idia de pesadelos.
Mulheres o haviam tocado. Talvez demasiadas mulheres. Mas nenhuma lhe fizera o sangue martelar assim. Ele desejou ficar ali deitado durante horas e absorver cada
sensao separada. Queria faz-la suar e tremer tambm.
Sentou-se e tomou-lhe as mos pelo pulso. Por um momento, um longo momento, os dois encararam-se.
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Captulo Catorze
-Fico-lhe grata por ter arranjado tempo para me receber, monsenhor.
Tess ocupou uma cadeira defronte  escrivaninha de Logan e teve um lampejo rpido, no inteiramente agradvel, de como seus pacientes deviam sentir-se na consulta
inicial.
-  um prazer. - Ele instalara-se  vontade, o palet de tweed envolvendo o encosto da cadeira, as mangas da camisa enroladas revelando braos fortes salpicados
de plos que mal comeavam a embranquecer. Ela tornou a pensar que ele parecia um homem mais habituado ao campo de rgbi e quadra de tnis que a preces vespertinas
e incenso. - Gostaria de um pouco de ch?
- No. Nada, obrigada, monsenhor.
- Como somos colegas, por que no me chama de Tim?
- Sim. - Ela sorriu, ordenando-se a relaxar, a comear pelos polegares. - Isso tornaria as coisas mais fceis. Meu telefonema ao senhor hoje foi por impulso, mas...
- Quando um padre se v em apuros, procura outro padre. Quando um analista se v em apuros...
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Quando ele se interrompeu, Tess descobriu que o esforo consciente para relaxar funcionava.
-  isso mesmo. - Ela afrouxou os dedos apertados na ala da bolsa. - Imagino que o senhor se veja nessa situao nos dois sentidos.
- Tambm significa que tenho dois caminhos a escolher quando passo por problemas pessoais. Trata-se de uma questo que suscita prs e contras, mas no chego a ponto
de discutir Cristo versus Freud. Por que no me conta o que a angustia?
-A esta altura, muitas coisas. No creio que tenha encontrado a chave da mente do... do homem que a polcia procura.
- E acha que devia ter encontrado?
- Acho que, pelo meu envolvimento atual, eu devia ter mais. - Ela ergueu a mo num gesto que transmitia frustrao e incerteza. - Falei com ele trs vezes. Me aflige
no conseguir superar meu prprio medo, talvez meu prprio interesse pessoal, para apertar os botes certos.
- Voc pensa que conhece esses botes?
-  minha tarefa conhec-los.
- Tess, ns dois sabemos que a mente psictica  um labirinto, e os caminhos que levam ao centro podem mudar repetidas vezes. Mesmo que o tivssemos sob intensa
terapia, em condies ideais, talvez fossem necessrios anos para encontrar a resposta.
- Oh, eu sei. Em termos lgicos e mdicos, sei disso.
- Mas no mbito emocional  outra histria.
No mbito emocional. Ela lidava com as emoes de outras pessoas todos os dias. Era diferente, e muito mais difcil, descobriu, abrir-se para outro. - Sei que no
 profissional, e isso me preocupa, mas passei do ponto em que posso ser objetiva. Monsenhor Logan... Tim... essa ltima mulher que foi assassinada devia ser eu.
Eu a vi naquele beco e no consigo esquecer.
Embora ele a fitasse com olhos bondosos, ela no viu pena neles.
- Transferir a culpa no vai mudar o que aconteceu.
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- Sei disso tambm.
Ela se levantou e foi at a janela. Embaixo, um grupo de estudantes atravessava correndo o gramado para chegar a tempo da prxima aula.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro. Estou no ramo das respostas.
- No o perturba o fato de esse homem ser ou ter sido padre?
- Num nvel pessoal, quer dizer, por eu ser padre? - Para refletir sobre a pergunta, ele recostou-se com as mos juntas em forma de torre. Quando jovem, lutara boxe
dentro e fora do ringue. Os ns dos dedos eram largos e grossos. - No d para negar que sinto um certo mal-estar. Sem dvida, a idia de o homem ser padre e no,
digamos, programador de computador, torna a histria toda mais sensacional. A simples verdade, porm,  que os padres no so santos, mas seres humanos, como os
encanadores, jogadores de beisebol da base direita ou psiquiatras.
- Quando o encontrarem, vai querer trat-lo?
- Se me pedirem - respondeu Logan devagar. - Se eu julgasse possvel ser til, talvez. No me sentiria obrigado nem responsvel, como creio que voc se sente.
- Sabe, quanto mais temo, ajud-lo se torna mais essencial para mim. - Ela tornou a virar-se para a janela. - Tive um sonho, ontem  noite, muito assustador. Perdida
em corredores, num labirinto, eu corria. Embora soubesse que sonhava, continuei me sentindo apavorada. As paredes se tornaram espelhos e eu me via repetidas vezes.
- Sem se dar conta, ela apoiou a mo no vidro da janela, como fizera no espelho do sonho. - Levava comigo minha pasta, arrastava-a, na verdade, porque era pesada
demais. Olhei num dos espelhos e no era meu reflexo, mas sim o de Anne Reasoner. Ento ela sumiu e eu mais uma vez corria. Havia uma porta. Eu precisava apenas
transp-la para o outro lado. Quando cheguei l, estava fechada. Procurei freneticamente a chave, mas no a tinha.
261
De repente, a porta se abriu sozinha. Achei que estava segura. Achei... ento vi a batina e o amicto do padre.
Ela tornou a virar-se para Logan, mas no conseguiu forar-se a sentar-se.
- Ah, eu poderia me sentar e escrever uma anlise muito detalhada e abrangente sobre esse sonho. Sobre o medo que sinto de perder o controle da situao, o excesso
de trabalho e a recusa a reduzir minha carga de trabalho. A culpa pela morte de Anne Reasoner. A frustrao por no encontrar a chave desse caso e meu ltimo e fundamental
fracasso.
No falara do medo de perder a vida. Logan considerou isso uma omisso muito interessante e reveladora. Ou no se forara a enfrent-lo ou associava a possibilidade
ao pavor de fracassar.
- Tem tanta certeza assim de que vai fracassar?
- Tenho, e detesto a idia. - A admisso suscitou um sorriso autodepreciativo. Tess deslizou os dedos pela capa da Bblia antiga e sentiu a profundidade e maciez
das letras em relevo. -Alguma coisa nisso tem a ver com a continuidade do orgulho aps uma queda.
- Tendo a achar que depende do orgulho. Voc deu  polcia tudo que poderia dar uma psiquiatra tarimbada como voc, Tess. No fracassou.
- Nunca fracassei, entende? No de fato; num nvel pessoal, no. Eu me sa bem na escola, fiz o papel correto de anfitri para meu av at o trabalho reduzir meu
tempo livre. Quanto aos homens, aps um desastre menor na faculdade, sempre arranjei um jeito de dar as ordens. As coisas transcorreram muito seguras e satisfatrias
at... bem, at poucos meses atrs.
- Tess, no que se refere a esse caso, voc foi admitida como consultora. Cabe ao Departamento de Polcia a responsabilidade por encontrar esse homem.
- Talvez eu pudesse deixar a coisa por a. Talvez - ela murmurou, correndo a mo pelos cabelos. - No estou totalmente segura.
262
Mas agora, como  possvel? Ele me procurou. Quando falou comigo, transmitiu desespero, uma splica. Como eu poderia, como poderia qualquer mdico no atender?
- Trat-lo em alguma data posterior no  a mesma coisa que se sentir responsvel pelos resultados da doena dele. - Uma expresso de preocupao penetrou os olhos
do monsenhor quando ele entrelaou os dedos e apoiou-os na escrivaninha. - Se eu tivesse de especular de improviso, sem uma leitura minuciosa desse relatrio, diria
que ele se sentiu atrado por voc porque percebe compaixo e certa vulnerabilidade. Precisa ter o cuidado de no lhe dar demais da primeira, de modo a cair vtima
da segunda.
- Para mim,  difcil seguir as regras neste caso. Ben... o detetive Paris... queria que eu sasse da cidade. Quando sugeriu isso, por um instante pensei em sair.
Pego um avio e vou para, no sei, Mazatln, e, quando voltar, tudo isso ter acabado e minha vida voltar a ser to organizada e satisfatria como era. - Ela calou-se
e recebeu o olhar tranqilo e paciente de Logan. - De fato, eu me detesto por ter tido tal idia.
- No considera isso uma reao normal ao estresse da situao?
- Para um paciente - ela respondeu e sorriu. - Para mim, no.
- A gente s vezes pode se esforar demais para ir alm do desempenho esperado, Tess.
- Eu no fumo. Bebo muito pouco. - Ela voltou e sentou-se.
- Imagino que tenha direito a um vcio.
- Eu no fao sexo - respondeu Logan, pensativo. - Suponho que seja por isso que me sinto com o direito de fumar e beber. - Retribuiu-lhe o olhar, satisfeito por
perceber que ela parecia mais  vontade. A confisso, sabia muito bem, fazia bem  alma.
- Ento vai ficar em Georgetown e cooperar com a polcia. Como se sente em relao a isso?
- Nervosa - ela respondeu de imediato. -  aflitiva a sensao de saber que algum nos vigia o tempo todo. No me refiro apenas a... - Balanando a cabea, interrompeu-se.
- Tenho passado momentos difceis tentando saber como cham-lo.
263
- A maioria das pessoas o chamaria de assassino.
- , mas ele tambm  uma vtima. De qualquer modo, no se trata apenas de saber que talvez esteja me vigiando que me deixa nervosa, mas que a polcia est. Ao mesmo
tempo, eu me sinto satisfeita porque  o certo. No ca fora nem fugi. Quero ajudar esse homem. Ajud-lo passou a ser uma coisa muito importante para mim. No sonho,
quando eu me vi diante dele, me desestruturei. Por isso eu o decepcionei, a ele e a mim. No vou deixar isso acontecer.
- , acho que no. - Logan pegou o abridor de cartas e deslizou o cabo pela mo. Era velho e meio de mau gosto, um suvenir de uma viagem  Irlanda na juventude.
Gostava do objeto, como de muitas outras coisas tolas. Embora no considerasse Tess tola, tambm comeava a gostar dela. - Tess, espero que no se ofenda se eu sugerir
que, depois de tudo isso terminar, viaje por algum tempo. Estresse e excesso de trabalho podem derrubar at o mais forte dos homens.
- No me ofenderei, mas talvez aceite a sugesto como ordem mdica.
- Boa menina. Diga-me, como vai Ben? - Quando ela lhe lanou um olhar sem expresso, ele sorriu. - Por favor, at um padre sente cheiro de romance no ar.
- Acho que se pode dizer que Ben  outro problema.
- Supe-se que os romances sejam um problema. - Ele largou o abridor de cartas. -  voc quem tem dado as ordens desta vez, Tess?
- Parece que nenhum dos dois tem dado. Estamos apenas sondando o terreno. Ele... acho que ns nos gostamos muito. S no conseguimos ainda confiar um no outro.
- A confiana exige tempo para ficar slida. Tive duas conversas profissionais com ele e um encontro um tanto embriagado num barzinho no centro da cidade.
-Ah,  mesmo? Ele no me falou nada.
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- Minha cara, os homens no gostam de comentar que tomaram um porre com um padre. De qualquer modo, gostaria de saber minha opinio sobre o detetive Paris?
- Sim, acho que gostaria.
- Eu diria que ele  um bom homem, confivel. Daqueles que na certa telefonam para a me uma vez por ms, mesmo quando prefeririam no fazer isso. Homens como Ben
flexibilizam as regras, mas muito raramente as violam, pois apreciam a estrutura, entendem o conceito de lei. Ele mantm uma raiva dentro de si bem enterrada. No
abandonou a Igreja por preguia, mas por ter encontrado demasiadas falhas. Abandonou a Igreja, minha cara Tess, mas  catlico at os dedos dos ps. - Tim recostou-se,
satisfeito consigo mesmo. - Anlise de sessenta segundos  minha especialidade.
- Acredito. - Ela retirou um arquivo da pasta. - Espero que tenha mais sorte com isto. J tirei a limpo as dvidas com o capito Harris.  meu relatrio atualizado.
Tambm encontrar as transcries de meus telefonemas. Eu ficaria grata por um milagre.
- Verei o que posso fazer.
- Obrigada por me ouvir.
-  Sinta-se sempre  vontade. - Ele levantou-se para acompanh-la at a porta. - Tess, se tiver outros pesadelos, me ligue. No faz mal algum pedir uma pequena ajuda
a um amigo.
- Onde foi que ouvi isso antes?
Logan observou-a atravessar a ante-sala e s ento fechou a porta.

ELE VIGIAVA A SADA DE TESS DO PRDIO.  ERA PERIGOSO SEGUI-LA, mas sabia que o tempo de cautela j chegara quase ao fim. Ela parou junto ao carro,  procura das
chaves. Tinha a cabea curvada, como em orao. A necessidade intensificou-se em ondas dentro dele at a cabea ressoar. Tateando, encontrou a seda branca no bolso
do casaco. Fria, macia. Isso o estabilizou. Tess enfiou a chave na fechadura.
265
Se ele fosse rpido o bastante, poderia concluir tudo em minutos. Apertava e afrouxava os dedos no amicto, o corao a martelar na garganta. Algumas folhas esquecidas,
secas como p, farfalhavam ao redor dela. Ele viu o vento soprar fios de cabelos no rosto. A Dra. Court parecia aflita. Em breve, muito em breve, descansaria em
paz. Os dois descansariam em paz.
Viu-a entrar no carro, ouviu a porta fechar-se e depois o barulho do motor. Uma baforada de fumaa esguichou do cano de descarga. O carro fez uma volta suave em
torno do estacionamento e tomou a rua.
Ele esperou at a viatura da polcia fazer a volta para entrar no seu carro. Ela ia para o consultrio agora, e ele continuaria a viglia. O momento ainda no chegara.
Ainda havia tempo para orar por ela. E por si mesmo.

TESS DESLIGOU O TELEFONE, RECOSTOU-SE NA CADEIRA E fechou os olhos. Vinha tendo um desempenho sofrvel, o que no seu jogo no chegava nem de longe a bom o bastante.
Joey Higgins. Como poderia tratar o menino se no conseguia falar com ele? A me fincara-se numa opinio. Joey deixara de beber, portanto estava timo e no precisava
passar pelo constrangimento de uma psiquiatra. Fora uma dolorosa conversa que acabara sendo infrutfera. Ela tinha mais uma tentativa a fazer e precisava ser bem-sucedida.
Curvando-se para a frente, apertou a campainha do interfone da secretria.
- Kate, quanto tempo ainda tenho antes da prxima consulta?
- Dez minutos.
- Muito bem. Ponha, por favor, Donald Monroe na linha pra mim.
- Agora mesmo.
Enquanto esperava, Tess repassou o histrico de Joey. Ainda tinha a ltima sesso muito clara na mente.
266
- Morrer no  l to grande coisa assim.
- Por que diz isso, Joey?
- Porque no . As pessoas morrem o tempo todo. Espera-se que a gente morra.
- A morte  inevitvel, mas isso no a torna uma resposta. Mesmo as pessoas muito velhas, as muito doentes, se agarram vida, porque ela  preciosa.
- As pessoas dizem que, quando algum morre, descansa em paz.
- , e a maioria de ns acredita que existe alguma coisa depois da vida. Mas cada um est aqui por uma razo. Nossa vida  uma ddiva, nem sempre fcil e, sem dvida,
nem sempre perfeita. Torn-la melhor pra ns e para as pessoas que nos cercam exige algum esforo. Qual a sua comida preferida?
- Espaguete, eu acho.
- Com almndegas ou molho  bolonhesa? O sorriso foi rpido, mas brotou.
- Com almndegas.
-  Imagine se voc jamais tivesse provado espaguete com almndegas. O cu, na certa, continuaria sendo azul, o Natal continuaria acontecendo uma vez por ano, mas
voc perderia uma coisa muito maravilhosa. E, se voc no estivesse aqui, digamos, no tivesse nascido, continuaramos tendo o cu e o Natal, mas faltaria alguma
coisa muito maravilhosa.
A campainha trouxe-a de volta ao presente.
- Sr. Monroe na linha um.
- Obrigada, Kate. Sr. Monroe.
- Dra. Court. Algum problema?
- Sim, Sr. Monroe, sinto que se trata de um grande problema. Oponho-me fortemente  retirada de Joey do tratamento.
- Retirada? Que quer dizer?
- Sr. Monroe, est ciente de que Joey faltou  ltima sesso? Fez-se uma pausa antes de ela captar apenas o sussurro de um suspiro cansado.
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- No. Acho que ele decidiu se desligar por si mesmo. Vou conversar com Lois.
- Sr. Monroe, j falei com sua esposa. Ela decidiu tirar Joey da terapia. Deduzo que no foi informado.
- No, no fui. - Outra pausa, e ele exalou um demorado suspiro. - Dra. Court, Lois quer que Joey retome uma vida normal, e ele de fato parece muito melhor. Contamos
a ele sobre o beb, e a sua reao foi incentivadora. Vai me ajudar a pintar o quarto do beb.
- Que bom saber disso, Sr. Monroe. Minha sensao, contudo,  de que ele est longe de ter condies de interromper a terapia. Na verdade, ainda acredito que algum
tempo na clnica sobre a qual conversamos o ajudaria muito.
- Lois  completamente contra a clnica. Lamento, Dra. Court, e agradeo de fato a sua preocupao, mas tenho de apoi-la nisso.
A raiva surgiu nela, mal controlada. Ser que ele no via que era o menino que precisava apoiar?
- Entendo que vocs acham que devem mostrar a Joey uma atitude unida. Mas, Sr. Monroe, no tenho palavras para enfatizar como  vital para Joey continuar a receber
ajuda profissional constante.
- E, Dra. Court, tambm h o risco do excesso de anlise. Joey deixou de beber, no anda mais por a com a mesma turma de quando bebia. Nem sequer tocou no nome
do pai durante duas semanas.
A ltima declarao fez sinos de alarme soarem na cabea de Tess.
- O fato de ele no ter tocado no nome do pai significa apenas que est reprimindo os sentimentos. A essa altura, o estado emocional de Joey  muito frgil. Consegue
entender que, quando h pouca auto-estima, o suicdio se torna quase fcil? Receio... no, sinto pavor do que ele poderia fazer.
- Dra. Court, no posso deixar de achar que est reagindo de forma exagerada.
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- Eu lhe dou minha palavra, Sr. Monroe, que no estou. No quero ver Joey se tornar uma estatstica. O que quero, mais que tudo,  o trmino da terapia quando ele
estiver pronto. Minha opinio profissional e meu instinto visceral so de que ele no est.
- Verei se consigo convencer Lois a lev-lo de volta a outra sesso.
Mas, mesmo enquanto ele dizia isso, Tess reconheceu a rejeio. Alguns outros garotos talvez cortassem os pulsos ou engolissem um frasco de plulas, mas no Joey.
- Sr. Monroe, algum perguntou a Joey se ele quer continuar a me ver?
- Dra. Court, s posso prometer apurar o que aconteceu. - Desprendia-se impacincia agora, com um trao de irritao. - Usarei qualquer influncia que tenha para
ver se Joey volta para pelo menos mais uma sesso. Acho que ver por si mesma o quanto ele est melhor. Foi de grande ajuda, doutora, mas, se eu sentir que Joey
est bem, as sesses devem ser interrompidas.
- Por favor, antes de fazer alguma coisa, ouviria uma segunda opinio? Talvez o senhor tenha razo em no aceitar minha palavra. Posso recomendar vrios excelentes
psiquiatras na rea.
- Falarei com Lois. Examinaremos a questo. Obrigado, Dra. Court, sei que ajudou muito Joey.
No o bastante, ela pensou quando ele cortou a ligao. Nem de longe o bastante.
- Dra. Court, o Sr. Grossman j chegou.
- Tudo bem, Kate. Mande-o entrar.
Ela pegou a pasta de Joey, mas no a guardou. Em vez disso, afastou-a na escrivaninha, a fcil alcance.

ERAM QUASE CINCO DA TARDE QUANDO O LTIMO PACIENTE encerrou o expediente.
- Dra. Court, o Sr. Scott no marcou a prxima consulta.
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- Ele no precisa mais.
-  mesmo? - Kate relaxou encostada na porta. - A senhora fez um bom trabalho, Dra. Court.
- Gosto de achar que sim. Pode tirar essa pasta dos pacientes atuais.
-  um prazer.
- Faa isso amanh, Kate. Se voc se apressar, pode sair daqui exatamente um minuto mais cedo.
- J vou. Boa-noite, Dra. Court.
- Boa-noite, Kate. - Quando o telefone tocou, ela estendeu a mo. - Eu mesma atendo. V pra casa, Kate. - Com a mo no bocal, inspirou fundo e demorado. - Dra. Court.
- Oi, doutora.
- Ben. - Uma camada de tenso dissolveu-se. Ela ouviu rudos de telefones, vozes e mquinas de escrever ao fundo. - Ainda no trabalho?
- . Eu queria que voc soubesse que ainda vou ficar algum tempo por aqui.
- Parece cansado. Aconteceu alguma coisa?
Ele pensou no dia que tivera e no fedor que no sabia se conseguiria lavar da pele.
- Foi um dos longos. Escute, por que no compra uma pizza ou algo do gnero? As coisas devem ser solucionadas aqui daqui a mais ou menos uma hora.
- Ok. Ben, sou boa ouvinte.
- No me esquecerei disso. V direto pra casa e tranque a porta.
- Sim, senhor.
- At logo, sabichona.
Somente depois de desligar o telefone, Tess percebeu como o escritrio ficara silencioso. Em geral, teria apreciado uma hora sozinha ao anoitecer. Poria a escrivaninha
em ordem, concluiria o trabalho com a papelada. Agora o silncio parecia quase denso demais.
270
Chamando-se de tola, pegou a pasta de Scott para arquiv-la. O sucesso satisfazia.
Pegou as pastas e as fitas dos pacientes do final da tarde e trancou-as no arquivo. A de Joey Higgins permaneceu na mesa. Sabendo que vinha protelando, Tess enfiou
tudo na pasta a fim de lev-la para casa.
Trs vezes pegou-se olhando em direo  porta com palpitao no pulso.
Ridculo. Decidida a no ser tola, conferiu os compromissos do dia seguinte. Havia dois policiais l fora, lembrou, e um na portaria do prdio. Achava-se em perfeita
segurana.
Mas, toda vez que ouvia o zumbido do elevador no lado de fora, sentia um sobressalto.
Se fosse para casa agora, encontraria o apartamento vazio. No queria enfrentar a solido l no momento, no agora que o dividia com Ben.
Em que andava se envolvendo? Suspirando, comeou a juntar o resto das coisas. A situao com Ben Paris era complicada demais para entend-la. Como, exatamente, a
famosa Dra. Court lidava com o fato de apaixonar-se? De forma muito ineficaz, concluiu, ao dirigir-se at o armrio para pegar o casaco.
Parou na janela. As rvores enfileiradas ao longo da rua diante dos prdios estavam sombrias e nuas. Os trechos de gramado no campo visual j se haviam amarelado
e esgotado. As pessoas aconchegavam-se dentro dos sobretudos, a cabea curvada contra o vento. No era primavera, pensou, sentindo-se tola. E todos se apressavam
para chegar em casa.
Ento o viu, parado muito imvel no casaco preto, logo atrs de um grupo de rvores novas. Ficou sem ar e com os joelhos trmulos. Ele vigiava - esperava e vigiava.
Instintivamente, Tess deu meia-volta para o telefone e pegou-o na escrivaninha. Ligaria para o andar de baixo, pensou, ao comear a apertar as teclas. Ligaria e
diria  polcia que ele estava l fora, vigiando-a. Ento tambm desceria. Iria at l porque prometera a si mesma fazer isso.
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Mas, quando se virou de novo para olhar, ele se fora.
Ela ficou ali parada por um instante, o telefone na mo, o nmero discado pela metade. O homem desaparecera.
Apenas algum a caminho de casa, disse a si mesma. Um mdico, advogado ou executivo de banco indo a p para casa a fim de manter-se em boa forma. Forou-se a retornar
 mesa e, com toda calma, recolocar o telefone no lugar. Sombras saltitantes. Como continuava com as pernas bambas, sentou-se na borda da escrivaninha. Pouco a pouco,
recuperou o controle.
Diagnstico: parania aguda.
Receita: banho quente e noite tranqila com Ben.
Sentindo-se melhor, vestiu o casaco de cashmere, suspendeu a pasta e ajeitou a ala da bolsa sobre o ombro. Aps trancar o consultrio, virou-se e viu a maaneta
da porta da rea de recepo girar.
Deixou as chaves na mo escorregarem de dedos inertes. Recuou um passo para a porta que acabara de trancar. Viu-a abrir-se devagar. O grito parou na garganta e borbulhou
quente. Ela inspirou fundo, sabendo que estava sozinha.
- Algum em casa?
- Ai, meu Deus, Frank. - Sentindo os joelhos como manteiga, ela escorou-se na porta do consultrio. - Que faz voc a andando sorrateiramente pelos corredores?
- Eu ia para o elevador e vi a luz debaixo de sua porta. - Ele sorriu, maravilhado por encontr-la sozinha. - No me diga que vai levar mais uma vez trabalho para
casa, Tess. - Ele entrou, fechando, como uma jogada estratgica, a porta externa atrs.
- No, mantenho minhas roupas para lavar aqui. - Ela se curvou para pegar as chaves, furiosa o bastante consigo mesma para deix-lo sentir a indignao. - Escute,
Frank, tive um dia longo. No estou a fim de tolerar suas atabalhoadas tentativas de seduo.
- Nossa, Tess. - Ele arregalou os olhos e alargou o sorriso. - No fazia a mnima idia de que voc podia ser to... to agressiva.
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- Se no sair da minha frente, vai ter uma viso em close do plo desse tapete.
- Que tal um drinque?
- Ai, tenha a santa pacincia.
Ela avanou alm dele, agarrou-o pela manga recm-passada do palet e empurrou-o para o corredor. -Jantar no meu apartamento? Cerrando os dentes, Tess apagou a luz,
fechou a porta e trancou-a.
- Frank, por que voc no pega suas fantasias sexuais e escreve um livro? Talvez isso o mantenha longe de encrenca.
Passou como um aoite por ele e apertou o boto do elevador.
- Voc poderia ser o primeiro captulo.
Ela inspirou fundo e demorado, contou de dez para trs e descobriu, espantada, que isso em nada contribura para acalm-la. Quando as portas se abriram, entrou,
virou-se e bloqueou a passagem.
- Se gosta da forma do seu nariz, Frank, no tente entrar neste elevador comigo.
- Que tal um jantar e um banho quente de banheira? - ele perguntou quando as portas comearam a fechar-se. - Conheo um lugar fantstico cuja especialidade  frango
 Kiev.
- Entupa-se - resmungou Tess e recostou-se na parede atrs.
J quase chegava ao prdio quando desatou a rir. Era possvel, se ela se concentrasse com afinco, esquecer o carro de polcia atrs, bloquear o fato de que no terceiro
andar policiais tomavam caf e assistiam ao primeiro noticirio da noite. Um acidente de dois carros na rua Vinte e Trs manteve-a presa no trnsito por mais quinze
minutos, mas isso no diminuiu sua disposio de nimo, que se intensificava.
Cantava com os lbios fechados quando destrancou a porta do apartamento. Aps o breve desejo de ter se lembrado de comprar flores frescas, foi direto para o quarto
e despiu-se. Escolheu mais uma vez o quimono de seda e despejou uma boa quantidade de sais de banho sob o jorro d'gua que pulsava dentro da banheira. Mas
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antes no deixou de pr um disco no som. Phil Collins irrompeu feliz por estar vivo e apaixonado.
Como ela, pensou Tess, abaixando-se na gua fumegante. E esta noite ela iria desfrutar cada minuto.
Quando Ben usou sua chave para entrar, sentiu-se em casa. O mobilirio no era dele, nem ele escolhera os quadros, mas sentia-se  vontade. Trazia uma caixa de papelo
quente. Colocou-a na mesa da sala de jantar, em cima do descanso de pano, cujo bordado imaginava ter tomado grande parte do fim de semana de alguma freirinha francesa,
e desejou poder entrar debaixo das cobertas e dormir vinte e quatro horas.
Ps o saco de papel que trazia ao lado da pizza antes de retirar o palet e coloc-lo no encosto de uma cadeira. Soltando o coldre de ombro, largou-o no assento.
Sentia o cheiro dela. Mesmo ali, mal avanados trs passos porta adentro, sentia o cheiro dela. Suave, sutil e elegante. Inalando-o, percebeu em si a fadiga batalhar
contra uma necessidade que ainda precisava encontrar uma forma de dominar.
- Tess?
- Aqui, na banheira. Saio num minuto. Ele seguiu o perfume e o rudo de gua.
- Oi.
Quando ela ergueu os olhos, ele achou que a vira corar um pouco. Moa estranha, pensou, indo sentar-se na borda da banheira. Sabia fazer um homem ofegar na cama,
mas enrubescia quando ele a pegava num banho de espuma.
- No sabia quanto tempo voc levaria pra chegar. Interrompeu-se e afundou mais sob a camada de espuma.
- Apenas tive de amarrar algumas pontas soltas.
O encabulamento desapareceu to rpido quanto surgira.
- Dia duro, no? Voc parece exausto.
- Digamos que foi um dos menos agradveis no trabalho.
- Quer falar sobre isso?
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Ele pensou no sangue. Mesmo em sua atividade, no se via tanto assim.
- No, agora no.
Tess sentou-se para estender o brao e tocar-lhe o rosto.
- Tem espao aqui pra dois, se voc for amistoso. Por que no aceita a confivel receita da Dra. Court pra excesso de trabalho?
- A pizza vai esfriar.
- Adoro pizza fria. - Ela comeou a desabotoar a camisa dele. - Sabe, tambm tive um dia estranho, que terminou com um convite pra um frango  Ia Kiev e um banho
quente de banheira.
- Ahn? - Ele levantou-se para abrir a cala. O sentimento que o atravessou foi horrvel e irreconhecvel para um homem que jamais sentira cime antes. - No parece
idiotice demais recusar essa oferta por pizza fria e banho de espuma?
- Mais idiotice foi recusar uma noite com o bonito, bem-sucedido e chato de morrer Dr. Fuller.
- Faz mais seu tipo - resmungou Ben, sentando-se no vaso sanitrio para tirar os sapatos.
- Chato de morrer faz mais meu tipo? - Tess ergueu uma sobrancelha e recostou-se. - Muito obrigada.
-  Quer dizer, o mdico, os ternos de trs peas, o carto American Express ouro.
- Entendo. - Sorrindo, ela comeou a ensaboar a perna. - Voc no tem um carto ouro?
- Tenho sorte de a Sears ainda me deixar parcelar minha roupa de baixo.
- Bem, nesse caso, no sei se devia convid-lo para entrar na minha banheira.
Ele levantou-se, nu, a no ser pela cala jeans que parava baixo nos quadris.
-  srio, Tess.
- Estou vendo. - Ela pegou um punhado de bolhas de sabo e examinou-as. - Acho que isso significa que voc me v como
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uma mulher superficial, materialista, voltada pra status, que, de vez em quando, se mistura com inferiores por um bom sexo.
- Eu no quis dizer nada disso. - Frustrado, ele sentou-se de novo na borda da banheira. - Escute, tenho um trabalho que significa lidar com lama quase todo dia.
Tess tinha a mo molhada e muito delicada quando se acomodou na dele.
- Foi um dia pssimo, no?
- Uma coisa no tem nada a ver com a outra. - Ele tomou-lhe a mo por um instante, examinando-a. Era meio pequena e delicada no pulso. - Meu pai vendia carros usados
numa concessionria que mal ficava perto do lado bom no bairro residencial na periferia. Tinha trs palets esporte e dirigia um DeSoto. Minha me assava biscoitos,
preparava qualquer receita de biscoito. Sua idia de uma noite na cidade era o salo do Knights of Columbus. Lutei pra terminar o ensino mdio, fiz dois anos apressados
de faculdade antes de entrar na Academia de Polcia e tenho passado o resto da vida vendo cadveres.
- Est tentando me convencer de que no  bom o suficiente pra mim pelas diferenas culturais, educacionais e genealgicas?
- No comece essa merda comigo.
- Tudo bem. Tentemos outro mtodo. Ela puxou-o para a banheira.
- Que diabo  isso? - protestou Ben, cuspindo espuma. - Ainda estou vestido.
- Quem manda ser lerdo? - Antes que ele pudesse recuperar o equilbrio, ela o abraou e colou a boca na dele. Muitas vezes, at uma psiquiatra sabe que  a ao,
no as palavras, que chega  essncia. Sentiu a tenso fluir e refluir antes de ele retribuir o abrao. - Ben?
- Hum?
- Acha relevante, no momento, o fato de que seu pai vendia carros e o meu no?
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- No.
- timo. - Ela recuou e, rindo, retirou a espuma do queixo dele. - Agora, como vamos fazer pra tirar sua cala?

A PIZZA ESFRIARA E ENDURECERA, MAS OS DOIS NO DEIXARAM uma nica migalha. Ben esperou at ela jogar fora a caixa de papelo.
- Comprei um presente pra voc.
- Comprou? - Surpresa e tolamente satisfeita, ela olhou o saco de papel que ele lhe ofereceu. - Por qu?
- Perguntas, sempre perguntas. - Ento Ben puxou-o de volta quando ela ia peg-lo. - Quer mesmo saber?
- Quero.
Ele chegou mais perto, perto o suficiente para enlaar-lhe a cintura. O perfume do banho desprendia-se dos dois. Tess tinha os cabelos presos e molhados.
- Acho que estou perdendo a cabea. , acho que estou perdendo a cabea por voc. (Destaque meu: ele faz uma referncia  msica de Little Anthony and the Imperials
"Goin'Out of my Head". Tem um trecho que o conjunto canta: Well I think I'm going out of my head. / Yes I think I'm going out of my head - sempre gostei muito desta
msica, dancei bastante quando tinha 14/15 anos - Vou colocar o link do Youtube para voc ouvir Ftima: http://www.youtube.com/watch?v=Kq204wG8UfA   Zara tambm
 cultura popular)
Ela fechou os olhos devagar para o beijo.
- Little Anthony - ela murmurou, reconhecendo a letra da msica e tocando a melodia na mente. - Foi em 1961,1962?
- Imaginei que, sendo psiquiatra, voc ia adorar essa tcnica.
- Acertou.
- No quer seu presente?
--h. Mas acho que voc precisa me soltar pra eu poder abrir o saco.
- Ento no demore muito.
Ele deu o presente, observando a expresso dela ao olhar dentro. No poderia ter sido melhor - o rosto perplexo, a surpresa e o sorriso.
- Uma fechadura forte, que abre de um lado com chave e do outro com a maaneta. Nossa, Ben, voc sabe deixar uma mulher emocionada.
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- , trata-se de um verdadeiro talento. Ela curvou os lbios ao col-los nos dele.
- Vou guardar pra sempre com carinho. Se fosse menos volumosa, eu usaria junto ao corao.
- Vai ficar na sua porta em menos de uma hora. Pus minhas ferramentas no armrio da cozinha outro dia.
- til, tambm.
- Por que no v se tem qualquer coisa para fazer por algum tempo? Do contrrio, serei obrigado a fazer voc olhar.
- Encontrarei alguma coisa - ela prometeu e deixou seu presente com ele.
Enquanto Ben trabalhava, Tess editou uma aula que ia dar na Universidade George Washington no ms seguinte. O zumbido da furadeira e o estrpito de metal contra
a madeira no a incomodavam. Comeava a perguntar-se como tolerara o silncio total de sua vida antes dele.
Quando a aula ficou em ordem e ela atualizou os arquivos que trouxera para casa, virou-se e viu-o acabar o servio.
- Isso vai servir.
- Meu heri.
Ele fechou a porta, ergueu duas chaves e largou-as sobre a mesa.
- Basta usar. Vou guardar as ferramentas e me lavar. Voc pode limpar o cho.
- Parece justo.
Quando se dirigiu  porta, ela ligou a TV para o noticirio.
Embora parecesse haver muito mais baguna do que a pequena fechadura justificava, Tess varreu a serragem para a p de lixo sem se queixar. Endireitava o corpo, com
a p e a vassoura ainda nas mos, quando entrou a matria principal:
- A polcia descobriu os corpos de trs pessoas num apartamento em North West. Atendendo  preocupao de um vizinho, policiais arrombaram o apartamento no fim desta
tarde. As vtimas foram esfaqueadas repetidas vezes enquanto estavam amarradas com
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corda de varal. Identificados Jonas Leery, Kathleen Leery, sua mulher, e a filha adolescente do casal, Paulette Leery. Acredita-se que o motivo tenha sido roubo.
Passamos a Bob Burroughs no local do crime para mais detalhes.
Um reprter enrgico, de aparncia atltica, surgiu na tela com um microfone e gesticulando para o prdio de tijolos aparentes atrs. Tess virou-se e viu Ben passando
pela porta da cozinha. Logo soube que ele estivera no interior do prdio.
- Oh, Ben, deve ter sido terrvel.
- Haviam sido mortos fazia dez horas, talvez doze. A garota no podia ter mais de dezesseis anos. - A lembrana da cena fez seu estmago arder. - Cortaram a menina
como uma pea de carne.
- Sinto muito. - Ela largou tudo e foi at ele. - Vamos nos sentar.
-Voc chega a um ponto - ele disse, olhando a tela-, chega a um ponto em que tudo  quase, quase rotina. Ento se depara com uma coisa dessas naquele apartamento
hoje. Entra e o estmago vira pelo avesso. A pensa: meu Deus, no  real.  impossvel ser real, porque as pessoas no podem fazer esse tipo de coisa umas s outras.
Mas voc sabe, bem no fundo, sabe que podem.
- Sente-se, Ben - ela murmurou, acomodando-se com ele no diva. - Quer que eu desligue?
- No.
Mas ele apoiou a cabea nas mos um instante, correu-as pelos cabelos e endireitou-se. O reprter no local do crime falava com uma vizinha aos prantos.
- Paulette trabalhava s vezes como bab do meu filhinho. Era um amor de menina. No consigo acreditar. Simplesmente no consigo acreditar.
- Aqueles canalhas vo sei presos - disse Ben meio a si mesmo. - Havia uma coleo de moedas. A porra de uma coleo de moedas que valia oitocentos, talvez mil dlares.
Um comprador
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de mercadoria roubada talvez pague apenas a metade. Massacraram aquelas pessoas por um punhado de moedas velhas.
Ela tornou a olhar a fechadura, agora firme na porta, e entendeu por que a trouxera esta noite. Puxou-o para junto de si,  maneira que as mulheres tm de oferecer
conforto, e apoiou a cabea dele junto aos seios.
- Vo empenhar as moedas, depois vocs os descobriro.
- Temos outras duas pistas. Vamos peg-los amanh, o mais tardar depois de amanh. Mas essas pessoas, Tess... amado Deus, por mais tempo que eu esteja nisso, continuo
no acreditando que qualquer ser humano possa cometer uma atrocidade dessas.
- No tenho como dizer pra no pensar nisso, mas posso dizer que estarei sempre aqui quando voc precisar.
Saber disso, saber que era to simples, entorpecia o horror do dia. Ela estava ali quando ele precisava, e essa noite, por algumas horas, sentia tudo que importava.
- Eu preciso de voc. - Ele mudou de posio e trouxe-a at o colo para se aninhar na garganta dela. - Isso me mata de pavor.
- Eu sei.
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Captulo Quinze
-Tess, eu no sei. No me sinto no melhor dos meus momentos com senadores. Ben lanou uma careta furiosa a Maggie Lowenstein quando ela riu dele e virou-se de costas,
apoiando o telefone entre o ombro e o queixo.
- Ele  meu av, Ben, e realmente um amor de pessoa.
- Eu nunca ouvi ningum se referir ao senador Jonathan Writemore como um amor de pessoa.
Pilomento chamou-o do outro lado da sala, por isso Ben acenou-lhe com a cabea e indicou-lhe com um dedo que se mantivesse a distncia.
- Isso acontece porque no sou a relaes-pblicas dele. De qualquer modo,  Dia de Ao de Graas e no quero decepcion-lo. E voc me disse que seus pais moram
na Flrida.
- Eles tm mais de sessenta e cinco anos. Pressupe-se que os pais se mudem para a Flrida quando chegam aos sessenta e cinco.
- Logo, voc no tem famlia com quem partilhar o jantar de Ao de Graas. Sei que o vov gostaria de conhec-lo.
28l
-  . - Ele puxou a gola do suter. - Escute, eu sempre defendi uma poltica em relao s apresentaes  famlia.
- Qual ?
- No haver apresentaes.
- Ahn? Por qu?
- Perguntas - resmungou Ben em voz baixa. - Quando eu era mais novo, minha me sempre queria que eu levasse pra casa a garota com quem saa na poca. Ento as duas
comeavam a ter fantasias.
- Entendo.
Ele sentiu o sorriso na voz dela.
- De qualquer modo, minha poltica era de no levar mulheres pra minha me conhecer, nem ir conhecer a delas. Assim, ningum tem a idia de comear a escolher modelos
de decorao.
- Sei que voc tem razo. Prometo que nem meu av nem eu discutiremos modelos de decorao se voc se juntar a ns para o jantar. A Srta. Bette faz uma torta de
abbora fantstica.
- Fresca?
- Isso mesmo. - Uma mulher inteligente sabia quando recuar. - Voc precisa de algum tempo pra pensar. Eu no o teria incomodado agora, mas, com tudo isso que tem
acontecido, tambm esqueci a coisa toda at meu av ligar h alguns minutos.
- , vou pensar.
- E no se preocupe. Mesmo que se decida contra, trarei um pedao de torta pra voc. Tenho um paciente  minha espera.
- Tess...
- Sim?
- Nada. Nada - ele repetiu. - At logo.
- Paris.
- Desculpe. - Ele desligou e virou-se. - Que tem a? Pilomento entregou-lhe uma folha de papel.
- Conseguimos, afinal, descobrir aquele nome que a vizinha nos deu.
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- O cara que saa com a filha dos Leery?
- Correto. Amos Reeder. No muito pela descrio, porque a vizinha s o viu chegar uma vez. Aparncia horripilante foi a concluso, mas ela admitiu que s o viu
ir  casa dos Leery uma vez, e no houve problema algum.
Ben j pegava o palet.
- Sempre investigamos aparncias horripilantes.
- Tenho um endereo e a folha corrida.
Antes de enfiar o mao de cigarros no bolso, Ben notou com certo desgosto que s restavam dois.
- Pelo que ele cumpriu pena?
-Aos dezessete anos esfaqueou outra menina por alguns trocados. Reeder tinha um saquinho de moedas no bolso com maconha e uma fila de marcas de agulhas no brao.
A outra menina sobreviveu. Por ser menor, Reeder foi condenado a permanecer numa clnica de reabilitao por causa de drogas. Harris disse que voc e Jackson deviam
ter uma conversa com ele.
- Obrigado. - Pegando os papis, Ben foi  sala de conferncias, onde Ed e Bigsby se concentravam juntos no caso do padre. - Montar - disse em poucas palavras e
dirigiu-se  porta.
Ed aboletou-se ao lado do parceiro, j se enfiando no palet.
- Que  que h?
- Recebi uma pista sobre o caso Leery. Jovem punk que gosta de facas e saa com a menina. Achei que podamos conversar um pouco.
- Parece bom. - Ed refestelou-se  vontade no carro. - Que tal Tammy Wynette?
- No enche o saco. - Ben enfiou uma fita de Goats Head Soup. - Tess me ligou h poucos minutos.
Ed abriu um olho. Achou melhor enfrentar a alucinada escolha dos Rolling Stones, tachado por alguns como o pior lbum da banda.
- Problema?
- No. Bem, acho que sim. Ela quer que eu jante com o av no Dia de Ao de Graas.
283
- Uau, peru com o senador Writemore. Acha que ele precisa de uma conveno partidria pra decidir se vai ser molho de ostra ou castanha?
- Sabia que voc ia tripudiar.
Mais por irritao que por desejo, Ben pegou um cigarro.
- Tudo bem, botei pra fora assim mesmo. Ento vai jantar com Tess e o av. Qual o problema?
- Primeiro  Ao de Graas, depois, antes que a gente perceba,  o brunch de domingo. Depois a vinda de tia Mabel pra fazer um exame minucioso na gente.
Ed enfiou a mo no bolso, decidiu poupar o iogurte com passas para depois e pegou uma goma de mascar sem acar.
- Tess tambm tem uma tia Mabel?
- Tente acompanhar a linha de raciocnio, Ed. - Ben reduziu a marcha e parou o carro num sinal. - Voc aparece duas vezes e  convidado pro casamento da prima Laurie
e o tio Joe comea a cutuc-lo nas costelas com o cotovelo e perguntar se voc vai se decidir finalmente.
- Tudo isso por causa de pur de batata e molho. - Ed abanou a cabea. - Impressionante.
- J vi acontecer. E pode crer,  assustador.
- Ben, voc tem coisas muito maiores com que se preocupar do que Tess ter uma tia Mabel. Coisas muito mais assustadoras.
- Ah, , como o qu?
- Sabe quanta carne vermelha no digerida obstrui seus intestinos?
- Minha nossa, que nojento!
- E eu no sei? O que quero que entenda, Ben,  que voc pode se preocupar com lixo nuclear, chuva cida e sua prpria ingesto de colesterol. Guardar tudo isso
na mente e se juntar ao senador pra jantar. Se o velho comear a parecer que est pronto pra receb-lo na famlia, faa alguma coisa pra se livrar dele.
- Tipo o qu?
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- Coma o molho de amora com as mos.  aqui o lugar.
Ben parou junto ao meio-fio e jogou o cigarro fora pela fresta da janela.
- Voc foi de grande ajuda, Ed. Obrigado.
- Disponha. Como quer cuidar disso?
Do carro, Ben examinou o prdio. Vira dias melhores, dias muito melhores. Duas janelas quebradas com jornais tapando os buracos. Pichao espalhada generosamente
na parede esquerda. Mais profuso de latas e garrafas quebradas que grama.
- Ele est no 303. Sada de incndio no terceiro andar. E se fugir em disparada, no quero persegui-lo por todo o territrio dele.
Ed tirou uma moeda de vinte e cinco centavos do bolso.
- Cara ou coroa pra ver quem vai e quem cobre a retaguarda.
- Falou. Cara, eu entro, coroa, subo e cubro a janela. Oh, no, aqui dentro, no. - Ben ps a mo no brao do parceiro antes que ele virasse a moeda. - Da ltima
vez que voc tirou cara ou coroa aqui no carro, acabei comendo brotos de feijo de almoo. Viramos l fora, onde temos algum espao.
De acordo, saltaram e ficaram na calada. Ed tirou as luvas e enfiou-as no bolso, antes de virar a moeda.
-  Cara - anunciou, mostrando-a. - D-me tempo pra tomar posio.
- Vamos.
Ben chutou o gargalo de uma garrafa de cerveja, afastando-a do caminho, e partiu para o prdio. Dentro, cheirava a vmito de beb e usque velho. Abriu o zper da
jaqueta ao subir para o terceiro andar. Deu uma longa olhada de um lado a outro do corredor e bateu no 303.
Uma fresta da porta foi aberta por um adolescente de cabelos emaranhados e sem um dente na frente. Antes mesmo de sentir a primeira baforada de maconha, Ben viu
pelos olhos do rapaz que ele estava doido.
- Amos Reeder?
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- Quem quer saber? Ben abriu o distintivo.
- Amos no est, saiu pra procurar emprego.
- Muito bem. Falo com voc.
- Cara, tem um mandado ou coisa assim?
- Podemos conversar no corredor, a dentro ou na portaria. Voc tem nome?
- No tenho de dizer a voc. Estou aqui cuidando da minha prpria vida.
- , e sinto cheiro suficiente de baseado saindo pela porta pra deduzir que est cuidando mal. Quer que eu entre e d uma geral? Vai ter um especial de Miami Vice
esta semana. Por cada grama de maconha que eu entregar  polcia ganho uma camiseta de brinde.
- Kevin Danneville. - Ben viu o suor comear a formar gotas na testa do garoto. - Escute, tenho direitos. No sou obrigado a falar com tiras.
- Parece nervoso, Kevin. - Ben apertou a mo na porta para manter a fresta aberta. - Quantos anos voc tem?
- Dezoito, apesar de isso no ser da porra da sua conta.
- Dezoito? Pra mim, mais parece dezesseis, e no est na escola. Talvez eu precise levar voc pro centro de deteno juvenil. Que tal me falar de uma menina cujo
pai tinha uma coleo de moedas?
Foi o desvio dos olhos de Kevin que salvou a vida de Ben. Ele viu a mudana de expresso e, por instinto, rodopiou. A faca desceu, mas, em vez de cortar-lhe a jugular,
abriu um longo corte no seu brao quando ele bateu na porta e desabou dentro do apartamento.
- Porra, Amos,  um tira. Voc no pode matar um tira. Kevin, na pressa de sair do caminho, chocou-se com uma mesa e derrubou um abajur que se despedaou ao cair
no cho.
Reeder, viajando no barato da droga fenciclidina, apenas riu.
- Vou arrancar o corao do filho-da-puta.
Ben teve tempo suficiente para ver que seu atacante mal tinha idade de ter terminado o ensino mdio, antes de a faca girar mais
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uma vez em sua direo. Esquivou-se, lutando para soltar a arma com a mo esquerda, enquanto o sangue flua da direita. Kevin corria baratinado pelo piso como um
caranguejo e choramingava. Atrs deles, a janela espatifou-se.
- Polcia. - Ed posicionou-se diante da janela, pernas abertas, revlver apontado. - Largue a faca, seno eu atiro.
A saliva escorria do canto da boca de Amos quando focou os olhos em Ben. Inacreditavelmente, ele riu.
- Vou te retalhar todo. Cortar em pedacinhos, cara.
Ergueu a faca acima da cabea e deu um salto. O cilindro perfeito da bala calibre .38 de frente plana atingiu-o no peito e atirou o corpo para trs. Por um momento,
ele ficou ali em p, de olhos arregalados, o sangue esguichando do buraco no peito. Ed manteve o dedo na guarda do gatilho. Ento Reeder tombou, levando consigo
uma mesa dobrvel. A faca escorregou para fora da mo com um tinido baixo. Ele morreu sem emitir um nico som.
Ben cambaleou e caiu ajoelhado. S quando Ed transps a janela quebrada, ele conseguiu soltar sua arma.
- Vacilo - disse por entre dentes cerrados ao apontar o revlver para Kevin. - Basta um bom vacilo pra se considerar resistncia  priso.
- Foi Amos. Amos liquidou todos eles - disse Kevin, comeando a debulhar-se em lgrimas. - Eu s olhei. Juro, s olhei, s isso.
- Basta um bom vacilo, seu filhozinho-da-puta, que arranco seus colhes fora antes que aprenda a us-los.
Ed fez uma revista de rotina e desnecessria em Amos e agachou-se ao lado do parceiro.
- Qual a gravidade do corte no brao?
A dor era incrivelmente quente e j viajara at o estmago, onde provocava nusea.
- Eu tinha de escolher, cara. Da prxima vez, sorteio.
- timo. Vamos dar uma olhada.
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- Basta chamar algum pra limpar essa sujeira e me levar ao hospital.
- No atingiu nenhuma artria, seno estaria esguichando A Positivo.
- Ah, ento tudo bem. - Ben prendeu a respirao quando Ed exibiu a ferida. - Que tal uma partida de golfe?
- S segure isto nela, mantenha a presso firme.
Ed pegou a arma do amigo e apertou a mo dele no leno que pusera no corte profundo. O cheiro do prprio sangue subiu at ele. Onde se sentava, tinha os ps apenas
a centmetros dos de Amos.
- Obrigado.
- Tudo bem,  um leno velho.
- Ed. - Ben dispensou um olhar a Kevin, enrascado em posio fetal com as mos nos ouvidos. - Ele tinha uma foto de Charles Manson acima da cama.
- Eu vi.

SENTADO NA PONTA DA MESA DA EMERGNCIA, BEN CONTAVA enfermeiros para afastar a mente da agulha que entrava e saa de sua pele. O mdico que o costurava conversava
amavelmente sobre as chances do Redskins contra os Cowboys no domingo. Na divisria cortinada ao lado, outro mdico e duas enfermeiras trabalhavam numa adolescente
de dezenove anos que combatia uma overdose de crack. Ben ouviu o soluo dela e desejou um cigarro.
- Detesto hospitais - resmungou.
- A maioria das pessoas detesta. - O mdico costurava com tanta preciso quanto uma tia solteirona. - A linha defensiva  uma parede de tijolos. Se a mantivermos
coesa em campo, Dallas vai ficar chupando o dedo no terceiro semestre.
- No  uma viso bonita. - A ateno de Ben oscilou por tempo suficiente para faz-lo sentir o puxo e a cutucada na pele. Concentrou-a nos rudos atrs da cortina.
A adolescente respirava
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muito forte e rpido. Uma voz incisiva e autoritria ordenava-lhe que respirasse num saco de papel. - Vocs recebem muitas como ela aqui?
- Cada dia mais. - O mdico rematou com um n outra sutura. - A gente torna a p-las de p, se tiverem sorte, para que possam ir  primeira esquina e comprar outra
ampola. Pronto, uma costura muito bonita, se me permite dizer. Que acha?
- Aceito sua opinio.
Tess cruzou correndo as portas de vidro automticas da Emergncia. Aps uma rpida olhada na rea de espera em volta, dirigiu-se s salas de exame. Parou e fitou
sem expresso um servente de hospital passar empurrando uma maca com uma figura coberta da cabea aos ps. Sentiu o sangue esvair-se at os ps. Uma enfermeira saiu
de uma rea isolada por cortina e tomou-lhe o brao.
- Desculpe, senhorita, sua presena aqui no  permitida.
- Detetive Paris. Esfaqueamento.
- Esto costurando o brao dele ali. -A enfermeira mantinha firme o aperto da mo no brao de Tess. - Por que no volta para a sala de espera e...
- Sou a mdica dele - ela conseguiu dizer e desprendeu o brao.
No correu. Restava-lhe suficiente controle para faz-la afastar-se e passar pisando firme por um brao quebrado, uma queimadura de segundo grau e uma contuso leve.
Uma idosa deitada numa maa no corredor tentava desesperadamente dormir. Tess passou pela ltima rea separada por cortina e encontrou-o.
- Olhe s quem eu vejo, Tess. - O mdico olhou-a, satisfeito e surpreso. - Que faz aqui?
- Oh. John. Como vai?
- Como vai voc? No  com freqncia que recebo a visita de lindas mulheres em meu consultrio - ele comeou e logo viu como ela olhava o paciente. -Ah, entendo.
- Seu considervel ego sofreu apenas uma leve contuso. - Vejo que vocs se conhecem.
289
Ben mexeu-se na mesa e teria se levantado se o mdico no o mantivesse imvel.
- Ed me telefonou na clnica.
- No devia.
Agora que as imagens dele morrendo de hemorragia desapareciam, ela sentia os joelhos enfraquecerem.
- Ele achou que eu talvez ficasse preocupada e no quis que eu soubesse a respeito pelo boletim. John, qual a gravidade?
- Nada de muito grave - respondeu Ben.
- Dez pontos - acrescentou o mdico, prendendo a atadura. - Nenhum dano muscular, alguma perda de sangue, porm nada importante. Para citar o Duke, apenas um arranho.
- O cara tinha uma maldita faca de aougueiro.
- Por sorte - continuou John, virando-se para a bandeja ao lado -, a jaqueta e a agilidade dos ps do detetive impediram um ferimento mais profundo. Sem isso, estaramos
costurando os dois lados do brao. Agora vai doer um pouco.
- O qu?
Automaticamente, Ben disparou a mo e agarrou o pulso do mdico.
- S uma pequena injeo antitetnica - tranqilizou-o John. -Afinal, no sabemos por onde a faca andou. Vamos, agente firme.
Ele ia mais uma vez protestar, porm Tess tomou-lhe a mo. A dor aguda no brao veio e logo passou.
- Prontinho. - John deixou a bandeja para a enfermeira cuidar. - Isso amarra tudo. Desculpe o trocadilho. Nada de tnis nem luta de sum por duas semanas, detetive.
Mantenha a rea seca e volte para eu tirar os pontos no fim da semana que vem.
- Muito obrigado.
- Sua disposio e saber que tem plano de sade bastam como agradecimentos. Prazer em te ver, Tess. Bata um fio na prxima vez em que estiver a fim de saqu e ourio-do-mar.
- Tchau, John.
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- John, hein? - Ben desceu da mesa. - J namorou algum alm de mdicos?
- Pra qu? - Uma resposta despreocupada pareceu-lhe melhor quando ela viu o pano encharcado de sangue no carrinho. - Tome sua camisa. Deixe-me ajudar voc.
- Posso fazer isso sozinho.
Mas tinha o brao rgido e dolorido. Conseguiu enfiar apenas uma manga.
- Tudo bem. Voc tem direito a ficar irritado depois de dez pontos.
- Irritado? - Ele fechou os olhos ao vestir afinal a camisa. - Crianas de quatro anos ficam irritadas se no tiram um cochilo.
- , eu sei. Pronto. Deixe que eu aboto.
Pretendia faz-lo. Disse a si mesma que abotoaria a camisa para manter a conversa ativa. Quase terminara dois botes quando deixou a cabea cair no peito dele.
- Tess? - Ele levou a mo aos cabelos dela. - Que foi que houve?
- Nada.
Ela se afastou e, cabisbaixa, terminou de abotoar a camisa.
- Tess? - Com a mo sob o queixo dela, Ben ergueu-lhe a cabea. Lgrimas marejavam os olhos. Ele retirou uma com o polegar. - No v chorar.
- No vou. - Mas prendeu a respirao antes de encostar a face na dele. - S um minuto, sim?
- Tudo bem. - Ele passou o brao bom em volta dela e absorveu o simples prazer de ver que se preocupava com ele. Algumas mulheres haviam se sentido atradas e outras
repelidas pelo seu trabalho, mas ele no sabia se j tivera algum que apenas se preocupasse.
- Fiquei apavorada - ela admitiu, a voz abafada contra ele.
- Eu tambm.
- Depois voc me conta o que houve?
- Se tiver de contar. Um cara detesta admitir para a mulher que foi otrio.
29I
- E voc foi?
- Eu tinha certeza de que o filhozinho-da-me estava dentro do apartamento. Ed ficou com a janela, e eu, com a porta. Muito simples. - Quando se afastou, Ben viu-a
desviar o olhar para sua camisa rasgada manchada de sangue. - Se acha isso ruim, precisa ver minha jaqueta. Comprei h apenas dois meses.
Mais uma vez no controle, ela tomou-lhe o brao e conduziu-o pelo corredor.
- Bem, talvez Papai Noel traga uma nova no Natal. Quer que eu dirija at em casa?
- No, obrigado. Preciso redigir um relatrio. E se o outro garoto no confessou tudo a essa altura, quero estar presente no interrogatrio.
- Ento eram dois?
- Apenas um agora.
Ela pensou na figura toda coberta na maa. Por sentir o cheiro de sangue coagulado na camisa dele, Tess nada disse.
- L est Ed.
- Oh, meu Deus, o cara est lendo.
Ed ergueu os olhos, deu uma examinada rpida, mas bem abrangente, no parceiro e sorriu para Tess.
- Oi, Dra. Court. No devo t-la visto quando entrou. - No disse que, ao v-la chegar, ele estava doando meio litro de sangue. Tinha o mesmo tipo sangneo de Ben,
A Positivo. Largou a revista e entregou ao amigo a jaqueta e o coldre. -  uma pena o estado da jaqueta. O departamento vai levar no mnimo at abril pra processar
os documentos e substitu-la.
- E no  mesmo verdade?
Com a ajuda de Ed, ele conseguiu pr o coldre e a jaqueta.
- Sabe, eu estava lendo um artigo fascinante sobre rins.
- Guarde pra voc - aconselhou Ben, e virou-se para Tess. - Vai voltar para a clnica?
- Vou, sa no meio de uma sesso. - S nesse momento teve plena conscincia de que o pusera na frente de um paciente. - Na
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qualidade de mdica, aconselho-o a ir pra casa e descansar depois de redigir o relatrio. Vou chegar l pelas seis e meia, e na certa poderia ser convencida a paparicar
voc.
- Defina paparicar. Ignorando, ela se virou para Ed.
- Por que no vem jantar, Ed?
A princpio, ele pareceu perplexo com o convite, e depois satisfeito:
- Bem, eu... obrigado.
- Ed no tem o hbito de relacionar-se com mulheres. Venha, Ed. Tess vai preparar um caldo de feijo pra voc. - Saiu  rua, grato pela lufada de ar frio. O brao
perdera a dormncia, mas comeava a latejar como uma dor de dente. - Onde estacionou?
Ben j examinava a rea  procura do carro preto e branco.
- Logo ali.
- Acompanhe a dama at o carro, sim, Ed? - Puxando-a pela frente do casaco, beijou-a com vontade. - Obrigado por vir.
- De nada.
Ela esperou-o dirigir-se ao Mustang antes de virar-se e afastar-se com Ed.
- Vai cuidar dele?
- Claro.
Retirando as chaves do bolso, ele assentiu com a cabea.
- O homem que esfaqueou Ben est morto?
- Sim. - Ed tomou-lhe as chaves e, num gesto que ela achou encantador, abriu o carro. Tess olhou seu rosto e viu, com a mesma clareza como se ele tivesse dito, quem
disparara o tiro. Seus valores, o cdigo segundo o qual vivia, batalharam brevemente com uma nova conscincia. Pondo a mo na gola dele, abaixou-o e beijou-o. -
Obrigada por mant-lo vivo. - Entrou no carro, sorrindo-lhe, e fechou a porta. -At o jantar.
Ele prprio meio apaixonado por Tess, Ed retornou ao parceiro.
- Se no for ao jantar de Ao de Graas, voc  um safado idiota.
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Ben despertou do estupor quando ele bateu a porta do carro.
- Como?
- E no iria precisar de uma cutucada do tio Joe nas costelas - disse o parceiro, e ligou o motor com um urro.
- Ed, voc comeu alguma granola estragada?
-  melhor comear a olhar o que tem na frente da cara, parceiro, antes que termine tropeando na serra.
- Serra? Que serra?
-A serra de madeira do fazendeiro - comeou Ed, afastando-se do estacionamento. - O malandro da cidade o observa. Toca a sineta do jantar e o fazendeiro comea a
seguir em frente, mas tropea na serra. Apenas torna a se levantar e recomea a cortar madeira. O malandro pergunta por que ele no vai jantar e o fazendeiro responde
que, como tropeou na serra, no adianta ir. No ter sobrado nada.
Ben ficou calado por dez segundos.
- Isso explica. Por que no d meia-volta, retornamos ao hospital e pedimos para darem uma olhada em voc?
- O que eu quero dizer  o seguinte: se voc age como um idiota quando a oportunidade o encara de frente, vai perd-la. Tem uma mulher formidvel, Ben.
- Acho que sei disso.
- Ento  melhor tomar muito cuidado pra no tropear na serra.
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Captulo Dezesseis
Mal comeava a nevar quando Joey saiu pela porta dos fundos. Sabendo que a porta extra, para proteo contra mau tempo, rangia, puxou-a com todo cuidado at fech-la.
Lembrou-se de levar as luvas, e chegara a enfiar o bon azul de esqui na cabea. Em vez de calar as botas, continuou com o tnis de cano alto. Eram os preferidos.
Ningum o viu sair.
A me estava na sala ntima com o pai. Sabia que discutiam sobre ele, por causa das vozes em tom baixo que transmitiam aquele leve nervosismo sempre que se desentendiam
a esse respeito.
No achavam que Joey soubesse.
A me assara um peru com todos os acompanhamentos. Do incio ao fim da refeio, conversara animada, animada demais, dizendo como era agradvel o jantar de Ao
de Graas s com a famlia. Donald brincara sobre as sobras de comida e jactara-se da torta de abbora que ele mesmo assara. Havia molho de amora e manteiga caseira
para os pezinhos em forma de meia-lua que se estufaram fofos no forno.
295
Fora a refeio mais infeliz da vida de Joey.
A me no desejava que ele tivesse problemas. Queria v-lo feliz, dar-se bem na escola e sair para jogar basquete. Normal. A palavra que Joey a ouvira dizer em urgente
e baixo tom de voz ao padrasto. Quero apenas que ele seja normal.
Mas no era. Imaginava que o padrasto meio que entendia isso e, portanto, os dois discutiam. Ele no era normal. Era alcolatra, igual ao pai.
A me dizia que o pai NO PRESTAVA PARA NADA.
Joey compreendia que o alcoolismo era uma doena. Entendia a dependncia e que no existia cura, apenas um perodo continuado de recuperao. Tambm entendia que
havia milhes de alcolatras, e era possvel ser um e levar a vida normal que a me queria to desesperadamente para ele. Exigia aceitao, esforo e mudana. s
vezes, cansava-se de fazer o esforo. Se dissesse que se sentia cansado, ela ficaria transtornada.
Tambm sabia que o alcoolismo era muitas vezes hereditrio. Ele o herdara do pai, da mesma maneira que herdara o NO PRESTAVA PARA NADA.
As ruas estavam tranqilas quando Joey se afastou do bairro agradvel e arrumado. Flocos de neve esvoaavam no feixe luminoso dos postes de luz como as fadas danarinas
dos livros de histrias que se lembrava da me lendo para ele anos atrs. Via a iluminao nas janelas onde as pessoas comiam a refeio de Ao de Graas ou descansavam
aps esse esforo diante da TV.
O pai no viera busc-lo.
No telefonara.
Joey julgava entender por que ele no o amava mais. No gostava de ser lembrado da bebida, das brigas e dos tempos difceis.
A Dra. Court dizia que a doena do pai no era culpa do filho. Mas ele supunha que, se herdara a doena do pai, talvez, de algum modo, o pai pegara a doena dele.
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Lembrou-se de que, deitado na cama um dia, sabendo que era tarde, ouvira o pai gritar com aquela horrvel voz grossa que ficava depois de beber muito:
- Voc s pensa nesse menino. Nunca pensa em mim. Tudo mudou depois que o tivemos.
Ento, mais tarde, ouvira-o chorar, grandes soluos molhados, de certa forma piores que o ataque de raiva.
- Perdo, Lois. Eu a amo, amo muito. E a presso que me deixa assim. Aqueles patifes no trabalho vivem me criticando. Eu mandaria todos se foderem amanh, mas Joey
precisa de um novo par de sapatos toda vez que eu tento tomar uma atitude.
Joey esperou passar um carro barulhento, atravessou a rua e rumou para o parque. A neve caa grossa agora, uma cortina branca esbofeteada pelo vento. O aoite do
ar saudvel trazia-lhe um rosa forte s bochechas.
Antes achara que, se no precisasse de sapatos novos, o pai no precisaria embriagar-se. Depois percebera que tudo seria mais fcil para todos se ele simplesmente
no existisse. Ento fugira quando tinha nove anos. Fora assustador, porque se perdera, era escuro e ouviam-se barulhos. A polcia encontrara-o em poucas horas,
mas para ele pareceram dias.
A me chorara e o pai o abraara muito forte. Todos haviam feito promessas que pretendiam cumprir. Por algum tempo, tudo melhorara. O pai fora ao AA e a me passara
a rir mais. Na poca do Natal ele ganhara uma bicicleta, e o pai passara horas correndo ao seu lado com a mo enganchada sob o assento. Nunca o deixara cair, nem
sequer uma vez.
Mas, pouco antes da Pscoa, o pai comeara mais uma vez a chegar tarde. Os olhos da me permaneciam vermelhos e o riso parara. Numa noite, ele fizera a curva na
entrada da garagem muito aberta e no vira a bicicleta. Entrara em casa aos gritos e Joey acordara com o xingamento, as acusaes. O pai quisera tir-lo da cama,
lev-lo para fora e mostrar-lhe o que causara sua negligncia. A me bloqueara a passagem.
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Fora a primeira noite em que ele ouvira o pai bater na me.
Se tivesse guardado a bicicleta, em vez de deix-la ao lado da entrada da garagem, o pai no a teria atropelado, nem ficado to furioso. No teria batido na me
e a deixado com um hematoma que ela tentava disfarar com maquiagem.
Fora a primeira noite em que Joey experimentara lcool.
No apreciara o gosto. Queimara na boca e fizera o estmago arder de mal-estar. Mas, depois de tomar trs ou quatro goles da garrafa, sentira-se estranho, como se
estivesse pisando num cho escorregadio. No sentira mais vontade de chorar. Instalara-se um agradvel e tranqilo zumbido na cabea quando tornou a deitar-se. Adormecera,
sem sonhos.
Daquela noite em diante, toda vez que os pais brigavam, Joey usara lcool como um anestsico.
Ento viera o divrcio, numa horrvel culminao de brigas, gritaria e xingamentos feios. Um dia a me o pegara de carro na escola e o levara para um pequeno apartamento.
L lhe explicara com a maior delicadeza possvel que no iam mais morar com o pai.
Sentira-se envergonhado, uma vergonha terrvel, porque se orgulhara.
Haviam comeado a nova vida. A me voltara a trabalhar. Cortara os cabelos e deixara de usar aliana. Mas ele notava de vez em quando o fino crculo de pele branca
que a aliana cobrira por mais de uma dcada.
Ainda lembrava a ansiedade e o apelo nos olhos dela quando lhe explicara o divrcio. A me sentira muito medo de que ele a culpasse, por isso justificara uma ao
que a deixara crivada de culpa e incerteza, dizendo-lhe o que ele j sabia. Mas ouvi-lo dela despedaara as tnues defesas que lhe haviam restado.
Anda lembrava tambm a intensidade do choro dela na primeira vez que chegou em casa do trabalho e encontrou o filho de onze anos embriagado.
Fazia silncio no parque. No cho, uma fina e bela camada de branco se formara. Dali a uma hora, ningum notaria suas pegadas.
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Joey decidiu que assim devia ser. A neve caa agora em flocos grandes e fofos que se grudavam nos galhos de rvores e se estendiam brilhantes e novos nas folhagens.
Perguntou-se, apenas brevemente, se a me j subira at seu quarto e descobrira que ele se fora. Embora o entristecesse saber que ela ficaria transtornada, sabia
que o que fazia tornaria tudo mais fcil para todos. Sobretudo para si mesmo.
No tinha nove anos dessa vez. Nem sentia medo.
Fora a reunies dos Al-Anon e Alateen, diviso dos Al-Anon dedicada a adolescentes, com a me. No deixara as pessoas chegarem a ele, porque no queria admitir a
vergonha por ser igual ao pai.
Ento aparecera Donald Monroe. Joey desejou sentir-se feliz por ver a me outra vez feliz, depois se sentiu culpado porque chegara muito perto de aceitar a substituio
do pai. Ela estava mais uma vez feliz, e ele se alegrou porque a amava muito. O pai foi ficando cada vez mais amargurado, e ele ressentiu-se da mudana porque tambm
o amava muito.
A me se casou e mudou de nome. No era mais igual ao dele. Mudaram-se para uma casa num bairro rico e tranqilo. O quarto de Joey, no andar de cima, dava para o
quintal. O pai queixava-se de pagar a penso alimentcia.
Quando passou a ver Tess, Joey vinha encontrando um jeito de embriagar-se todo dia, e j comeava a pensar em suicdio.
No gostara de v-la a princpio. Mas ela no o censurava, pressionava nem afirmava entender. Apenas falava. Quando ele parou de beber, Tess deu-lhe um calendrio,
o chamado calendrio perptuo, que ele poderia usar para sempre.
- Voc tem uma coisa de que se orgulhar hoje, Joey. E todo dia, quando se levantar de manh, ter uma coisa de que se orgulhar.
As vezes, acreditava nela.
Tess nunca lhe lanava aquele olhar intenso, rpido, quando ele entrava no consultrio. Mas a me, sim. A Dra. Court lhe dera o calendrio e acreditava nele. A me
ainda esperava uma decepo.
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Por isso o tirara da escola. Por isso no o deixava mais passar o tempo com os amigos.
Vai fazer novos amigos, Joey. Eu s quero o melhor pra voc.
Ela s queria que ele no fosse igual ao pai.
Mas era.
E, quando crescesse, talvez tivesse um filho, e seu filho seria igual a ele. Isso nunca pararia. Era como uma maldio. Lera sobre maldies. s vezes passavam de
uma gerao  outra. s vezes podiam ser exorcizadas. Um dos livros que guardava debaixo do colcho explicava a cerimnia para exorcizar o mal. Seguira-a passo a
passo uma noite em que a me e o padrasto foram a um jantar de trabalho. Quando terminou, no se sentiu nada diferente. Isso lhe provou que o mal, o que no  bom
dentro de si, era mais forte que o bem.
Foi quando comeou a sonhar com a ponte.
A Dra. Court queria mand-lo para um lugar onde as pessoas entendiam os sonhos com a morte. Ele descobrira os folhetos que a me jogara fora. Parecia um lugar legal,
tranqilo. Joey guardara os folhetos, achando que talvez fosse um lugar melhor do que a detestada escola. Quase criara coragem para conversar com Tess sobre isso,
quando a me disse que ele no precisava mais ver a mdica.
Quisera ver a Dra. Court, mas a me dera-lhe aquele sorriso nervoso, excitado.
Agora discutiam em casa sobre ele, sobre ele. Sempre sobre ele.
A me teria um novo beb. J escolhia as cores para o quarto do beb e falava em nomes. Joey achava que talvez fosse legal ter uma nova criana em casa. Sentira-se
feliz quando Donald lhe pedira que ajudasse a pintar o quarto do beb.
Ento, uma noite, sonhara que o beb morrera.
Quis conversar com a Dra. Court sobre isso, mas a me disse que ele no precisava mais v-la.
A superfcie da ponte estava escorregadia com a camada de neve. As pegadas de Joey deixavam marcas compridas, indefinidas. Ele ouvia o rudo do trfego embaixo,
mas continuou andando no lado
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que dava para o riacho e as rvores. Era uma sensao excitante e revigorante caminhar ali no alto, sobre as copas das rvores, com o cu to escuro acima. Apesar
do vento gelado, a caminhada mantinha os msculos aquecidos.
Joey perguntou-se sobre o pai. A noite, esta ltima noite de Ao de Graas, fora um teste. Se o pai tivesse aparecido e o levado para jantar, ele teria tentado
mais uma vez. Porm, no viera porque era tarde demais para os dois.
Alm disso, cansara-se de tentar, de ver aqueles olhares inseguros, intensos, no rosto da me, de ver a preocupao ansiosa no de Donald. No suportava mais sentir-se
culpado por tudo isso. Quando acabasse com a vida, no haveria mais motivo para Donald e a me brigarem por sua causa. Nem para temer que Donald abandonasse a me
e o novo beb porque no tolerava mais Joey.
O pai no precisaria fazer os pagamentos da penso alimentcia.
A grade da ponte da Calvert Street estava escorregadia, mas ele conseguiu um bom ponto de apoio com as luvas.
S queria paz. Morrer era pacfico. Ele lera sobre a reencarnao, sobre a chance de retornar para uma coisa melhor, como algum melhor. Aguardava ansiosamente por
isso.
Sentia o vento atirando-lhe neve agora, neve fria, quase cortante, no rosto. Via sua respirao lanar-se devagar e constante no escuro. Abaixo, viam-se as rvores
com as pontas dos galhos cobertas de branco e o gelo fluir no Rock Creek.
Decidira-se com toda calma contra outras formas de suicdio. Se cortasse os pulsos, a viso do prprio sangue talvez o deixasse fraco demais para concluir. Lera
que as pessoas que tentavam tomar doses excessivas de plulas muitas vezes as vomitavam e apenas adoeciam.
Alm disso, a ponte era o certo. Limpa. Por um momento, um longo momento, seria como voar.
Equilibrou-se um instante e rezou. Desejava que Deus entendesse. Sabia que Deus no gostava que as pessoas optassem por morrer. Deus queria que esperassem at Ele
estar pronto.
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Bem, Joey no podia esperar, e tinha esperana de que Deus e todos os demais entendessem.
Pensou na Dra. Court e lamentou que ela fosse decepcionar-se. Sabia que a me ficaria transtornada, mas tinha Donald e o novo beb. No levaria muito tempo para
entender que fora tudo para o melhor. E o pai. O pai iria apenas se embriagar mais uma vez.
Joey manteve os olhos abertos. Queria ver as rvores passarem a toda por ele. Inspirou fundo, prendeu o ar e mergulhou.
- A SRTA BETTE SE SUPEROU DE NOVO. - TESS PROVOU A saborosa carne assada que o av fatiara. - Tudo espetacular, como sempre.
- No h nada de que a mulher goste mais do que exagerar no preparo de uma refeio. - O senador acrescentou molho ferrugem fumegante a um monte de tenras batatas
assadas. - Fui barrado na minha prpria cozinha durante dois dias.
- Ela o pegou de novo entrando de mansinho pra provar a comida?
- Chegou a ameaar me fazer descascar as batatas. - Ele engoliu um generoso bocado e riu: - A Srta. Bette jamais concordou com a idia de que a casa de um homem
 o seu castelo. Sirva-se de mais acompanhamento, detetive. No  todo dia que a gente pode se empanturrar  vontade.
- Obrigado.
Como o senador segurava a tigela sobre o prato dele, Ben no teve opo seno peg-la. J se servira duas pores, mas achava difcil resistir  alegre insistncia
do anfitrio. Aps uma hora em companhia do senador Writemore, descobrira que o velho era vibrante, na aparncia e na fala. Tinha opinies duras como granito, a
pacincia fraca e o corao, no se podia negar, nas mos da neta.
O que o aliviou foi que, aps essa hora, no se sentia nem de perto pouco  vontade quanto se preparara para sentir-se.
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A princpio, a casa deixara-o nervoso. Do exterior, transmitia apenas uma elegncia discreta e distinta. Dentro, era uma viagem ao redor do mundo na primeira classe.
Tapetes turcos, desbotados s o suficiente para exibir a idade e a durabilidade, estendiam-se sobre o piso de cermica do saguo, semelhante a um tabuleiro de damas.
Havia um armrio de bano, da altura dos ombros de um homem e magnificamente pintado com paves, sob uma longa escada em curva.
No salo, onde um oriental silencioso servira coquetis antes do jantar, duas cadeiras Lus XV ladeavam uma comprida mesa rococ. Uma cristaleira entalhada em gua-forte
guardava tesouros. Um jarro de Murano tingido quase fino o bastante para se ler do outro lado. Um pssaro de cristal captava e refletia a luz da lareira. Guardando
a lareira de mrmore branco, um elefante de porcelana do tamanho de um cachorro terrier.
Um aposento que refletia a formao do senador e, percebeu Ben, de Tess. Riqueza confortvel, conhecimento de arte e classe. Ela sentava-se no brocado verde-escuro
do sof com um vestido cor de lavanda que fazia a pele brilhar, a gargantilha de prolas na garganta, a cintilante pedra no centro pulsando com a luz e o calor do
seu corpo.
Para Ben, ela nunca parecera mais linda.
Tambm havia uma lareira na sala de jantar. Fora acesa para arder em fogo lento e crepitar durante toda a refeio. A luz vinha dos prismas de candelabros enfileirados
acima da mesa. Aparelho de jantar Wedgwood, delicadamente pintado, prataria georgiana, pesada e brilhante, taas de cristal Baccarat  espera de serem enchidas de
vinho branco gelado e gua gasosa, toalha de linho irlands macia o bastante para se dormir. Tigelas e travessas repletas: ostras Rockefeller, peru assado, aspargos
na manteiga, croissants frescos e mais, os aromas misturados num delicioso pot-pourri com velas e flores.
Enquanto o senador fatiava o peru, Ben lembrava as refeies de Ao de Graas que tivera na infncia.
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Como sempre faziam a refeio de Ao de Graas ao meio-dia, e no  noite, ele acordava e reconhecia os sedutores aromas de ave assada, salva, canela e a lingia
que a me refogara e triturara no recheio. A televiso ficava ligada durante toda a parada da Macys e durante toda a transmisso do futebol americano. Um dos poucos
dias no ano em que no o recrutavam, ele e o irmo, para pr a mesa. Esse era o prazer da me.
Ela tirava os melhores pratos, que usava apenas quando a tia Jo de Chicago os visitava ou o patro do pai vinha jantar. Os talheres no eram de prata de lei, porm
de um ao inoxidvel mais ornado. A me sempre se orgulhava de arrumar os guardanapos em tringulos. Ento a irm do pai chegava com o marido e a prole de trs a
reboque. A casa enchia-se de barulho, discusses e do aroma do po de mel feito pela me.
Dizia-se a orao de graas, enquanto ele ignorava a prima Marcie, que se tornava mais desagradvel a cada ano, e que, por motivos s dela, a me insistia em sentar
ao lado dele.
Abenoai-nos,  Senhor, com estas Vossas ddivas que vamos receber de Vossa generosidade. Por Cristonossosenhoramm.
O final da orao sempre era dito quando a gula se tornava esmagadora. To logo se conclua o sinal-da-cruz, mos comeavam a pegar o que estivesse mais perto.
Nunca houve um oriental silencioso providenciando para que as taas se mantivessem cheias de Pouilly-Fuiss.
- Alegra-me que tenha podido juntar-se a ns esta noite, detetive. - Writemore serviu-se outra poro de aspargos. - Muitas vezes me senti culpado por manter Tess
toda para mim mesmo nos feriados.
- Agradeo o convite. Do contrrio, na certa estaria comendo um taco diante da televiso.
- Uma profisso como a sua no deixa tempo para muitas refeies tranqilas, imagino. Soube que voc  uma espcie rara, detetive, por sua dedicao. - Como Ben
apenas ergueu uma sobrancelha, o senador deu-lhe um sorriso ameno e gesticulou com
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a taa de vinho. - O prefeito tem me mantido informado sobre os detalhes de seu caso, pois minha neta est envolvida.
- O que vov quer dizer  que fofoca com o prefeito.
- Isso tambm - concordou Writemore de bom humor. - Parece que voc no aprovou a contratao de Tess como consultora.
Franqueza, decidiu Ben,  mais bem recebida com franqueza.
- Ainda no aprovo.
- Prove um pouco dessa compota de pras. - Alegremente, o senador passou o prato. -  a prpria Srta. Bette quem as cultiva. Importa-se se eu perguntar por que desaprova
a consultoria de uma psiquiatra ou de Tess?
- Vov, no acho que o jantar de Ao de Graas seja uma ocasio adequada para interrogatrio.
- Bobagem. No estou interrogando o rapaz, apenas tentando entender qual  a posio dele.
Sem se apressar, Ben espalhou a compota no po.
- Eu no via o sentido de um perfil psiquitrico que envolvesse mais tempo e trabalho administrativo. Prefiro o trabalho policial bsico, entrevistas, coleta de
dados, lgica. - Ele olhou para Tess e viu-a examinando o vinho. - No que se refere  aplicao da lei, no me importa se ele  psictico ou apenas do mal. Esse
recheio  delicioso.
- . A Srta. Bette tem uma mo e tanto. - Como para corroborar, Writemore comeu outro bocado. - Tendo a entender sua opinio, detetive, sem concordar inteiramente.
Trata-se do que ns na poltica chamamos de papo-furado.
- Tambm chamamos da mesma coisa na aplicao da lei.
- Ento nos entendemos. Sabe, sou da opinio que  sempre sbio entender a mente do adversrio.
- Na medida em que nos ajuda a ficar a um passo adiante dele. Ben voltou a ateno para Writemore. O senador sentava-se  cabeceira da mesa de terno preto e camisa
branca engomada. Um nico diamante simples mantinha a gravata escura no lugar. Ele
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tinha as mos grandes, calejadas, vistas em contraste com o elegante cristal da taa. Ben surpreendeu-se ao notar que as mos do seu av, as do velho aougueiro,
eram muito parecidas - trabalhadas, grossas nos ns dos dedos e nas palmas largas. Usava um simples aro de ouro na mo esquerda, sinal de um compromisso com a esposa,
que morrera mais de trinta anos antes.
- Ento acha que o trabalho de Tess como psiquiatra no o ajudou nesse caso especfico?
Como em sublime despreocupao, Tess continuou a comer.
- Gostaria de dizer isso - respondeu Ben aps um momento. - Porque, se dissesse, talvez fosse mais fcil convenc-la a ficar fora dele daqui em diante. Mas o fato
 que ela nos ajudou a estabelecer um padro e uma motivao.
- Pode me passar o sal? - Tess sorriu quando Ben ergueu o galheteiro de cristal. - Obrigada.
- Disponha - ele disse, mas de m vontade. - Isso no quer dizer que aprovo o envolvimento dela.
- Ento deduzo que passou a perceber que minha neta  uma mulher ao mesmo tempo dedicada e obstinada.
- J tinha percebido.
- Considero isso uma herana - disse Tess, e cobriu com a sua a manzorra do senador. - Do meu av.
Ben viu-os entrelaarem e apertarem as mos.
-  Graas a Deus que voc no herdou minha aparncia - disse o av. E depois, no mesmo tom alegre: - Eu soube que se mudou para a casa de minha neta, detetive.
- Isso mesmo.
Preparando-se para a inquisio pela qual esperara a noite toda, Ben tornou a provar a compota de pra.
- Gostaria de saber se tem cobrado da prefeitura as horas extras.
Tess riu e recostou-se na cadeira.
- Vov est tentando ver se consegue fazer voc suar. Tome, querido. - Ela passou mais um pouco de peru ao senador. -
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Delicie-se mais. Da prxima vez que fofocar com o prefeito, diga a ele que tenho recebido o melhor da proteo policial.
- Que mais devo dizer que voc tem recebido?
- Tudo que tenho recebido a mais no  da conta do prefeito.
Writemore serviu mais uma fatia grossa de peru no prato e estendeu a mo para pegar o molho.
- Imagino que v me dizer que tambm no  da minha.
- No preciso. - Tess despejou uma concha de molho de amora no prato dele. - Voc mesmo acabou de dizer.
Com um metro e cinqenta de altura e quase sessenta e cinco quilos, a Srta. Bette entrou arrastando os ps na sala e lanou um olhar aprovador  escavao feita
no banquete que ela preparara. Enxugou as mos pequenas e rechonchudas no avental.
- Dra. Court, telefone para a senhorita.
-Ah, obrigada, Srta. Bette. Vou atender na biblioteca. -Aps levantar-se, Tess curvou-se e deu um beijo na face do av. - No o amole, vov. E deixe um pedao daquela
torta pra mim.
"Writemore esperou-a sair da sala.
- Uma linda mulher.
- , , sim.
- Sabe, quando Tess era mais jovem, as pessoas sempre a subestimaram por causa da beleza, tamanho e sexo. Depois que a gente vive mais de meio sculo, no d tanta
importncia  aparncia. Ela no passava de uma coisinha quando se mudou para morar comigo aqui. Tnhamos apenas um ao outro. As pessoas imaginavam que eu a ajudaria
a superar os momentos difceis. Mas, na verdade, Ben, foi ela quem me ajudou. Acho que eu teria desmoronado e morrido sem Tess. Vou completar trs quartos de sculo.
Writemore sorriu, como se a idia o agradasse.
- Quando a gente chega a esta idade, comea a olhar cada dia com foco acentuado. Comea a apreciar as pequenas coisas.
- Como sentir os ps firmes no cho de manh - murmurou Ben, e ento, captando o olhar do senador, mexeu-se sem graa na cadeira. -  uma coisa que meu av dizia.
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- Obviamente um homem astuto. Sim, como sentir os ps firmes no cho de manh. - Com a taa de vinho na mo, ele recostou-se e examinou Ben. Aliviou-o gostar do
que via. -A natureza humana fora o homem a apreciar essas coisas, mesmo depois de ter perdido a esposa e a nica filha. Tess  tudo o que tenho, alm desses pequenos
prazeres, Ben.
Ben descobriu que no se sentia mais incomodado, nem esperava mais ser posto contra a parede.
- No vou deixar que nada acontea a ela. No apenas porque sou policial e  meu dever defender e proteger, mas porque ela  importante para mim.
Quando Writemore reclinou o corpo na cadeira, o diamante na gravata cintilou com a luz refletida.
- Voc acompanha futebol?
- Um pouco.
- Quando nenhum de ns tiver de preocupar-se com Tess, voc vai a um jogo comigo. Ganhei ingressos para a temporada. Tomaremos algumas cervejas e voc me contar
coisas a seu respeito de que eu no soube pelas cpias de seu registro departamental. - Ele riu, exibindo dentes brancos que eram quase todos seus. - Ela  tudo
o que tenho, detetive. Sei qual foi sua contagem de pontos da semana passada no exerccio de tiro ao alvo.
Sorrindo, Ben acabou de tomar o vinho.
- Como me sa?
- Muito bem - disse Writemore. - Bem pra burro.
Em surpreendente harmonia, os dois se viraram quando Tess tornou a entrar na sala. Bastou Ben ver o rosto dela para levantar-se da cadeira.
- Que foi que houve?
- Sinto muito. - Embora a voz fosse calma, sem tremor, Tess voltou com as faces plidas. Estendeu uma das mos ao encaminhar-se para o av. - Preciso ir, vov. Uma
emergncia no hospital. No sei se conseguirei voltar.
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Como sentiu a mo dela fria, o av cobriu-a com as dele. Mais que qualquer um, entendia quanta emoo Tess mantinha trancada no ntimo.
- Paciente?
- . Tentativa de suicdio. Foi levado pra Georgetown, mas no parece bem - ela explicou com a voz fria e inalterada, a voz de mdica. Ben examinou-a com toda ateno,
mas, fora a ausncia de cor, no viu emoo alguma. - Sinto muito deixar voc desse jeito.
- No se preocupe comigo. - O senador j se levantara. Passou o brao pelos ombros da neta e acompanhou-a at a porta. - Me d um telefonema amanh e me diga como
est.
Alguma coisa dentro dela tremeu e abalou-a, mas Tess se manteve firme. Encostou a face na do av, desejando extrair um pouco de sua fora.
- Eu o amo.
- Eu tambm a amo, menina.
Quando saram para a noite envolta em neve, Ben tomou-lhe o brao e impediu-a de escorregar na escada.
- Pode me contar o que aconteceu?
- Um menino de catorze anos decidiu que a vida era demais pra suportar. Pulou da ponte da Calvert Street.
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Captulo Dezessete
O andar da cirurgia cheirava a anti-sptico e tinta fresca. Com a equipe do hospital reduzida  metade por causa do feriado, os corredores estavam quase vazios.
Algum cobrira uma torta de carne moda com plstico filme e deixara-a no posto de enfermagem. Parecia apetitosa, mas lamentavelmente abandonada. Tess parou ali,
enquanto a enfermeira de planto preenchia um pronturio.
- Sou a Dra. Teresa Court. Joseph Higgins Jr. foi internado pouco tempo atrs.
- Sim, doutora. Est na sala de cirurgia.
- Qual o estado dele?
- Trauma generalizado, hemorragia. Em coma quando o trouxeram aqui para cima. O Dr. Bitterman o est operando.
- Os pais de Joey?
- No fim do corredor  esquerda, na rea de espera, doutora.
- Obrigada. - Fortalecendo, Tess virou-se para Ben. - No sei quanto tempo isso talvez leve, e no ser agradvel. Tenho certeza de que posso providenciar para que
voc espere na sala de estar dos mdicos. Ficar mais confortvel.
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- Irei com voc.
- Tudo bem.
Desabotoando o casaco ao afastar-se, Tess seguiu pelo corredor. Os passos dos dois ecoavam como disparos de tiro no piso de cermica. Ao aproximar-se da porta da
sala de espera, ela ouviu os soluos abafados.
Lois Monroe aconchegava-se bem junto ao marido. Embora a sala estivesse superaquecida, nenhum dos dois tirara os sobretudos. Ela chorava baixinho, de olhos abertos
e distantes. Um especial de Ao de Graas passava na televiso instalada no alto da parede. Tess fez meno a Ben para que continuasse atrs.
- Sr. Monroe.
Ao som da voz dela, ele desviou os olhos da parede para a porta. Por um momento, fitou-a como se no soubesse quem ela era, e ento uma pontada de dor varou-o de
cima a baixo, refletindo-se por um breve e comovente instante no olhar. Tess quase lia seus pensamentos.
Eu no acreditei em voc. No entendi. No soube.
Reagindo muito mais a isso que ao choro, ela aproximou-se e sentou-se ao lado de Lois Monroe.
- Lois subiu para ver se Joey queria mais torta - comeou Monroe. - Ele... ele tinha sado. Deixou um bilhete.
Por entender a necessidade, Tess estendeu o brao e segurou a mo livre dele. Monroe agarrou-a, engoliu em seco e continuou:
- Dizia que sentia muito. Que desejava poder ser diferente. Que tudo ficaria melhor agora e que ele retornaria em outra vida. Algum o viu... -Apertou os dedos nos
dela, enquanto fechava os olhos e lutava para controlar-se. - Algum o viu pular e chamou a polcia. Chegaram... chegaram l em casa depois de percebermos que ele
tinha ido embora. Eu no sabia o que fazer, ento liguei para voc.
-Joey vai ficar bom. - Com as mos ainda entrelaadas, Lois afastou-se mais de Tess. - Eu sempre cuidei dele. Ele vai ficar bom
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e depois iremos para casa juntos. - Mantendo a distncia, virou a cabea o suficiente para olh-la. - Eu j lhe disse que ele no precisa mais de voc. Joey no
precisa de voc, nem de qualquer clnica, nem de mais tratamento. Ele s precisa ficar sozinho por algum tempo. Sabe que eu o amo.
- Sim, ele sabe que voc o ama - murmurou Tess tomando a mo de Lois e sentindo o pulso acelerado e fraco. - Joey sabe o quanto voc tem tentado tornar tudo bom
para ele.
- Tenho. Tudo que fiz foi para tentar proteg-lo, tentar tornar tudo melhor. Tudo que eu sempre quis foi que Joey fosse feliz.
- Eu sei.
- Ento por qu? Diga-me por que isso aconteceu. -As lgrimas secaram. A voz passou de oscilante para venenosa. Lois lutou para afastar-se do marido e agarrar Tess
pelos ombros. - Voc devia curar e deix-lo bem. Ento me diga por que meu filho est sangrando naquela mesa. Diga-me por qu.
- Lois, Lois, no.
J se lamentando, Monroe tentou puxar a mulher mais para perto de si, mas ela levantou-se de um salto e levou Tess junto. Instintivamente, Ben adiantou-se, mas Tess
o deteve com uma furiosa sacudida da cabea.
- Quero uma resposta. Ao inferno com voc, quero que me d uma resposta!
Em vez de bloquear a fria, Tess aceitou-a.
- Ele estava ferido, Sra. Monroe. E o ferimento era profundo, mais profundo do que eu podia alcanar.
- Eu fiz tudo que pude. - Embora com a voz baixa, quase nivelada, Lois enterrou os dedos no fundo da carne de Tess. Equimoses iriam aparecer no dia seguinte. - Eu
fiz tudo. Ele no estava bebendo - disse, com um tropeo na voz. - No tomou uma bebida em meses.
- No, no estava bebendo. Voc devia sentar-se, Lois. Tess tentou acomod-la de volta no sof.
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- No quero me sentar. - Ela expeliu a fria que era medo, at cada palavra parecer uma bala. - Eu quero meu filho. Quero meu menino. Voc s falou e falou, semana
aps semana, s falou. Por que no fez alguma coisa? Devia faz-lo se sentir melhor, se sentir feliz. Por que no fez?
- Eu no pude. - Numa onda, a dor solapou Tess. - Eu no pude.
- Lois, sente-se. - Fortalecido pela necessidade da mulher, Monroe segurou-a pelos ombros e levou-a para o sof. Ao tornar a envolv-la com o brao, ele olhou para
Tess. - Voc nos disse que isso poderia acontecer. No acreditamos. No quisemos acreditar. Se no for tarde demais, podemos tentar mais uma vez. Podemos...
Ento a porta se abriu e todos souberam que era tarde demais.
O Dr. Bitterman continuava com a roupa cirrgica. Baixara a mscara, que pendia das tiras. O suor no tecido no secara. Embora o tempo que passara na sala de operao
tivesse sido relativamente breve, viam-se vincos de tenso e fadiga em volta dos olhos e da boca. Antes que ele falasse, antes que se aproximasse dos Monroe, Tess
soube que os dois haviam perdido um paciente.
- Sra. Monroe, sinto muito. No pudemos fazer mais nada.
- Joey?
Ela olhou sem expresso do mdico para o marido. J agarrava o ombro de Monroe com uma das mos.
- Joey se foi, Sra. Monroe. - Como a hora que passara tentando suturar e salvar o menino o deixara nauseado e derrotado, Bitterman sentou-se ao lado dela. - Ele
no recuperou a conscincia. Sofreu uma enorme leso cerebral. Nada mais havia a ser feito.
- Joey? Joey est morto?
- Sinto muito.
O soluo recomeou, rudos roucos e guturais, que se despejavam na sala. Ela chorava de boca aberta, a cabea para trs, numa agonia de dor que retorcia o estmago
de Tess. Ningum podia entender verdadeiramente a alegria sentida por uma me ao dar
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 luz um filho. Ningum podia verdadeiramente entender a devastao sentida por uma me na perda de um filho.
Um erro de discernimento, o desejo de manter a famlia coesa com a prpria fora, custara-lhe o filho. Tess nada podia fazer por Joey agora. Com a prpria dor entupindo-lhe
os pulmes, virou-se e saiu da sala.
- Tess. - Ben segurou-lhe o brao quando ela seguiu pelo corredor. - No vai ficar?
- No. - A voz saiu forte e glida enquanto ela continuou andando. - Ver-me agora s torna a coisa pior para ela, se isso  possvel.
Apertou o boto do elevador e enfiou as mos nos bolsos, onde enroscou e desenroscou os dedos.
-  s isso? - Entorpecida e concentrada em suas entranhas, ele sentiu a raiva comear a espalhar-se. - Voc apenas risca a coisa fora?
- No posso fazer mais nada.
Ela entrou no elevador, lutando para respirar com calma.
Nevava forte a caminho de casa. Tess no falou. Provando ressentimento na prpria garganta, Ben permaneceu em to frio silncio quanto ela. Embora o aquecimento
do carro despejasse calor, ela teve de esforar-se para no tremer de frio. Fracasso, sofrimento e raiva emaranhavam-se tanto uns nos outros que formaram um nico
n de emoo entalado na garganta. O controle era muitas vezes conquistado a duras penas, mas nunca to vital quanto lhe parecia naquele momento.
Quando entraram no apartamento, a presso no peito de Tess era to forte que lhe foi necessrio dominar cada respirao.
- Lamento que tenha sido arrastado dentro disso - disse com todo cuidado. Precisava afastar-se, afastar-se dele, de todos, at recompor-se de novo. O latejamento
na cabea avolumava-se para um rugido. - Sei que foi difcil.
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- Voc parece estar tirando a coisa de letra. - Aps arrancar o palet, ele atirou-o numa cadeira. -No precisa se desculpar comigo. Estou no ramo, lembra?
- Sim, claro. Escute. - Ela teve de engolir o calor borbulhante na garganta. - Vou tomar um banho.
- Claro, v em frente. - Ele foi ao armrio de bebidas e pegou a vodca que estocara. - Eu vou tomar um drinque.
Ela no se deu ao trabalho de ir ao quarto trocar-se. Quando a porta se fechou devagar atrs de Tess, Ben ouviu o rudo de gua jorrando contra porcelana da banheira.
Ele nem conhecera o garoto, disse a si mesmo ao despejar vodca num copo. No havia motivo algum para sentir aquele medonho aperto de ressentimento. Uma coisa era
sentir pesar, pena, at raiva pela intil perda de uma vida, uma vida jovem, mas no havia motivo para aquela raiva impotente e aflitiva.
Ela ficara to distante. De uma forma to insuportvel.
Como o mdico de Josh.
O ressentimento alojado no fundo durante anos subiu serpeando at a garganta. Ben ergueu a vodca para lavar esse gosto, depois a largou, intocada, de volta no armrio.
Sem saber o que fazer, atravessou o corredor e abriu com um empurro a porta do banheiro.
Ela no estava na banheira.
Como um trovo, a gua batia na porcelana com toda a fora e descia pelo ralo que ela no se dera ao trabalho de tampar. O vapor subia, j deixando o espelho suado.
J vestida, usando a pia como apoio, Tess chorava violentamente com as mos no rosto.
Por um momento, ele ficou ali no vo da porta aberta, estupefato demais para entrar, chocado demais para fechar a porta e deix-la na intimidade que buscara.
Jamais a vira como vtima desprotegida das prprias emoes. Na cama, em algumas ocasies, ela parecia guiada apenas pela emoo individual. Uma ou outra vez, vira
a raiva irromper e oscilar por pouco tempo para a exploso mxima. Ento ela a reprimia, sempre. Agora era sofrimento, e sofrimento de perda total.
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Ela no o ouvira abrir a porta. Devagar, balanava o corpo para frente e para trs num ritmo de pesar. Reconforto pessoal. Ben sentiu a garganta contrair-se, impelindo
de volta o ressentimento. Ia toc-la, depois hesitou. Difcil, ele descobriu, incrivelmente difcil confortar algum que, na verdade, era to importante.
- Tess. - Quando ele de fato tocou-a, ela sobressaltou-se. Quando a abraou, ficou rgida como uma tbua. Sentiu-a lutando para conter as lgrimas, e ele. - Vamos,
voc devia se sentar.
- No. - A humilhao minou seu organismo j enfraquecido. Fora pega no momento mais fragilizado e ntimo, sentindo-se despida e sem fora para cobrir-se. Queria
apenas solido e tempo para refazer-se. - Por favor, me deixe sozinha por algum tempo.
Doeu - aquela resistncia, a rejeio do conforto que ele precisava dar. Doeu tanto que Ben ia retirar-se. Ento sentiu o tremor atravess-la, um tremor mais pungente,
mais lamentvel at que as lgrimas. Em silncio, aproximou-se e fechou a torneira.
Tess exps o rosto e passou os dedos em volta da borda da pia. As costas retesadas como um pau, como se ela se escorasse para impedir um soco ou ajuda fsica. Recebeu
com os olhos encharcados os dele. A pele j riscada e avermelhada de lgrimas. Ben no disse uma nica palavra, no pensou nas quinas quando a ergueu nos braos
e levou-a para fora do banheiro.
Esperava uma luta, algumas palavras violentas e furiosas. Em vez disso, sentiu o corpo sem energia alguma quando ela virou o rosto, afundou-o na garganta dele e
deixou-se chorar.
- No passava de uma criana.
Ben sentou-se na beira da cama e acomodou-a mais para perto de si. As lgrimas eram quentes na pele, como se tivessem ardido sob os olhos dela por demasiado tempo.
- Eu sei.
- No consegui chegar at ele. Devia ter sido capaz de chegar. Toda a minha formao, toda a experincia, a auto-analise, os livros, as aulas, pra no conseguir
chegar at ele.
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- Voc tentou.
- No foi bom o bastante. - A raiva aflorou, em exploso gigante e malvola, mas no o surpreendeu. Vinha esperando-a, desejando-a. - Espera-se que eu cure. Ajude.
No s no consegui concluir o tratamento dele, como tambm no consegui mant-lo vivo.
- Os psiquiatras devem se sentir acima do bem e do mal. Como um tapa na cara, essas palavras a chocaram e impeliram para longe dele. Num instante, ficou de p. As
lgrimas ainda secavam em seu rosto, o corpo ainda tremia, mas no parecia que ela ia desmoronar.
- Como ousa me dizer isso? Um jovem est morto. Jamais ter a chance de dirigir um carro, de se apaixonar, de comear uma famlia. Est morto, e o fato de eu ser
responsvel nada tem a ver com ego.
- No? - Ben tambm se levantou, e antes que ela pudesse afastar-se, segurou-a pelos ombros. - Voc precisa ser perfeita, estar sempre no controle, ter as respostas,
as solues? Dessa vez no as teve e no  exatamente indestrutvel. Responda-me: poderia ter impedido que ele pulasse daquela ponte?
- Devia ter sido capaz de impedir. - O soluo saiu seco e trmulo quando ela apertou a base da mo entre as sobrancelhas. - No. No, no consegui dar a ele o bastante.
Abraando-a mais uma vez, ele levou-a de volta para a cama. Pela primeira vez no relacionamento sentiu-se necessrio, um ombro no qual se apoiar. No curso normal
dos fatos, essa teria sido a deixa para se mandar. Em vez disso, sentou-se ao seu lado e tomou-lhe a mo quando ela apoiou a cabea em seu ombro. Completo. Era estranho
e um pouco assustador sentir-se completo.
- Tess,  o menino de que voc me falou antes, no?
Ela lembrou a noite do sonho, a noite em que acordara e encontrara Ben afetuoso e disposto a ouvir.
- . Venho me preocupando com o que ele poderia fazer h semanas.
3I7
- E falou com os pais dele?
- Sim, falei, mas...
- Eles no quiseram saber.
- Isso no devia ter feito nenhuma diferena. Eu devia ter sido capaz de... - Tess interrompeu-se quando ele virou-lhe o rosto para o seu. -  - ela concordou num
longo suspiro -, eles no quiseram saber. A me tirou-o da terapia.
- E cortou os cordis.
- Isso talvez o tenha levado a fechar-se um pouco mais dentro de si, porm no creio que tenha sido o fator final que o levou ao suicdio. - A dor continuava ali,
fria e dura na barriga, embora a mente comeasse a desanuviar-se o suficiente para ela ver alm de seu prprio envolvimento. - Acho que aconteceu mais alguma coisa
esta noite.
- E acha que sabe o que foi?
- Talvez. - Ela tornou a levantar-se. - Ando tentando falar com o pai de Joey h semanas. O telefone foi desligado. Cheguei a ir ao apartamento dele alguns dias
atrs, mas ele se mudou sem deixar o novo endereo. Devia passar este fim de semana com Joey. - Tess enxugou as lgrimas do rosto com as costas das mos. - Joey
vinha contando demais com isso. Quando o pai no veio busc-lo, foi outra tijolada nas costas. Talvez a ltima que ele agentaria carregar. Era um menino lindo,
um rapaz, na verdade. - Novas lgrimas comearam, mas dessa vez com a dor aliviada e liberada. - Tinha passado por momentos muito difceis, mas a gente via o calor
humano logo abaixo da superfcie, a grande necessidade de ser amado. Simplesmente no acreditava que merecia ter algum que gostasse dele de verdade.
- E voc gostava.
- Sim. Talvez demais.
Era estranho, mas o pequeno e duro bolo de ressentimento coberto por uma camada de rancor que ele trazia no ntimo desde a morte do irmo comeou a desfazer-se.
Olhou-a - a psiquiatra
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objetiva, altiva, a fuadora e investigadora de mentes - e viu as verdadeiras e humanas escoriaes da dor da perda, no apenas pelo paciente, mas pelo menino.
- Tess, o que a me dele disse no hospital...
- No tem importncia.
- Sim, tem. Ela estava errada.
Tess deu meia-volta, e na fraca luz que vinha do corredor, viu o prprio reflexo no espelho acima da cmoda.
- S em parte. Entenda, eu nunca saberei se, insistindo numa outra direo, tentando outro ngulo, teria feito alguma diferena.
- Ela estava errada - repetiu Ben. - Alguns anos atrs, eu disse umas coisas muito parecidas. Talvez tambm estivesse errado.
No espelho, Tess desviou o olhar e encontrou o dele. Ben continuava sentado na cama, nas sombras. Parecia solitrio. Era estranho, porque o considerara um homem
sempre cercado de amigos, bons sentimentos, a prpria autoconfiana. Ela virou-se, mas sem saber se ele queria que lhe estendesse a mo ou permanecesse onde estava.
- Eu nunca falei a voc sobre Josh, meu irmo.
- No. Nunca me falou muita coisa sobre sua famlia. Eu no sabia que voc tinha um irmo.
- Ele era quase quatro anos mais velho que eu. - No foi necessrio usar o tempo passado para saber que Josh estava morto. Ela soubera to logo ele dissera o nome.
- Era uma daquelas pessoas que tm ouro nas pontas dos dedos. No importa o que fizesse, fazia melhor que qualquer outro. Quando ramos crianas, tnhamos uma coleo
de Tinker Toys, aqueles brinquedos de montar. Eu construa um carrinho, Josh, um veculo de dezesseis rodas. Na escola, eu talvez conseguisse um B se estudasse at
os olhos carem das rbitas. Josh era o campeo de um teste sem abrir o livro. Apenas absorvia. Minha me dizia que ele era abenoado. Vivia com a esperana de que
ele fosse padre, porque, to logo ordenado, na certa seria capaz de realizar milagres.
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Ben no dizia isso com o ressentimento que muitos irmos talvez tivessem sentido, mas com um trao de humor, e mais que um pouco de admirao.
- Voc deve t-lo amado muito.
- s vezes odiava. - Isso foi dito com um encolher de ombros, de um homem que entendia ser o dio, muitas vezes, o calor que temperava o verdadeiro amor. - Mas quase
sempre, sim, eu o achava fantstico. Nunca me intimidava, no por no poder, era muito maior que eu, mas apenas no tinha esse tipo de temperamento. No que fosse
um santo, nem coisa parecida. Era bom, em essncia, bom no fundo do corao.
"Dividamos um quarto quando ficamos um pouco mais velhos. Uma vez minha me encontrou minha coleo de Playboy. Queria no apenas tirar minha luxria a pancada,
mas me queimar vivo. Josh disse a ela que era dele, que fazia uma matria sobre pornografia e seus efeitos sociolgicos nos adolescentes."
Incapaz de resistir, Tess riu.
- E ela engoliu a histria?
- , engoliu - ele respondeu. Mesmo agora, a lembrana o fazia sorrir. - Josh nunca mentia pra proteger o prprio rabo, s quando julgava o melhor a fazer. No ensino
mdio, era zagueiro do time de futebol americano. As meninas quase se atiravam no cho diante dele, que era saudvel o bastante para sentir algum prazer nisso, mas
se apaixonou perdidamente por uma. Era do feitio dele concentrar-se numa s em vez de, bem, galinhar. Mesmo assim, ela foi um grande erro que jamais imaginei que
ele cometesse. Linda, inteligente e de uma das melhores famlias. E tambm superficial. Mas ele estava louco de amor, e no segundo ano da faculdade pegou as economias
e comprou um diamante pra ela. No uma lasquinha, mas uma verdadeira pedra. Ela circulava exibindo-o pra fazer as outras garotas babarem.
"Brigaram por alguma coisa. Josh nunca me contou o motivo, mas a conseqncia foi sria mesmo. Ele tinha uma bolsa de estudos
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para a Notre Dame, mas no dia depois da formatura alistou-se no exrcito. A garotada protestava contra o Vietn, usava smbolos da paz, mas ele decidiu dar ao pas
alguns anos de seu tempo."
Pela primeira vez desde que comeara, Ben pegou um cigarro e acendeu-o. A ponta brilhava vermelha na luz mortia que caa sobre ele.
- Minha me chorou baldes de lgrimas, mas meu pai inchou o peito de orgulho. O filho no era um jovem que tentava escapar do servio militar, nem um universitrio
doido, mas um verdadeiro americano. Meu pai, um homem simples, pensava dessa forma. Quanto a mim, tendia mais para a esquerda. Comearia o ensino mdio no outono,
por isso achava que j sabia tudo o que precisava saber. Passei uma a noite inteira com Josh tentando convenc-lo a desistir. Claro, os documentos foram assinados
e era tarde demais, mas imaginei que devia ter uma sada. Disse que era idiotice jogar fora trs anos de vida por causa de uma garota. O problema  que ele j tinha
superado isso. To logo se alistou, decidiu que seria o melhor soldado do exrcito dos Estados Unidos. J tinham conversado com ele sobre o treinamento de oficiais.
Do jeito que Johnson expandia as coisas l, precisvamos de oficiais capazes, para comandar as tropas. Era assim que Josh se via.
Ela ouviu, ento, o estilhao de dor que se introduziu na voz dele. Deixando a luz pelas sombras, foi at ele. Ben no percebera que precisava, mas, quando sentiu
a mo na dele, segurou-a.
- Ento ele partiu. - Tragou fundo o cigarro e deixou a fumaa sair com um suspiro. - Entrou no nibus, jovem, acho que se poderia dizer lindo, idealista, confiante.
A julgar pelas cartas, parecia prosperar no treinamento bsico, a disciplina, o desafio, a camaradagem. Fazia amigos com facilidade, e no foi diferente l. Recebeu
a convocao para o Vietn menos de um ano depois. Eu cursava o ensino mdio, enganando com lgebra e descobrindo quantas lderes de torcida podia acumular. Josh
embarcou como segundo-tenente.
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Caiu em silncio. Sentada ao seu lado, com a mo dele na dela, Tess esperou que ele continuasse.
-  Minha me ia  igreja todo dia enquanto ele ficou l. Entrava, acendia uma vela e rezava para a Virgem Maria interceder junto ao Filho pela segurana de Josh.
Toda vez que recebia uma carta, lia at decorar cada palavra. Mas no demorou muito o teor das cartas mudou. Alm de mais curtas, o tom era diferente. Ele parou
de falar dos amigos. S soubemos depois que dois dos seus melhores amigos haviam sido despedaados na floresta. S soubemos depois quando ele voltou, que tinha comeado
a ter pesadelos. No foi morto l. Minha me deve ter acendido suficientes velas para no acontecer isso, mas ele morreu. A parte dele que o fazia ser o que era
morreu. Eu preciso de uma bebida.
Antes que ele pudesse levantar-se, Tess ps a mo em seu brao.
- Eu pego.
Deixou-o, e esperando dar-lhe o tempo que ele precisava, serviu dois conhaques para se aquecerem. Quando ela voltou, Ben j acendera outro cigarro, mas no se mexera.
- Obrigado. - Ele tomou e descobriu que, embora o conhaque no tapasse o buraco deixado pela dor, no precisava mais contornar aquele bolo de ressentimento. - Ningum
dava boas-vindas de heri na poca. A guerra havia se tornado amarga. Josh voltou com medalhas, comendas e uma bomba-relgio na cabea. As coisas pareceram bem por
algum tempo. Ele ficava calado, distante, mas imaginamos que ningum passaria por aquilo sem alguma mudana. Voltou a morar em casa, arranjou um emprego. No queria
saber de voltar para a faculdade. Todos achamos que, bem, Josh precisava de algum tempo.
"Levou quase um ano para os pesadelos recomearem. Ele acordava aos gritos e suado. Perdeu o emprego. Disse que tinha se demitido, mas papai descobriu que se envolvera
numa briga e fora despedido. Passou mais um ano at as coisas se deteriorarem mesmo. No conseguia se manter num emprego por mais de algumas semanas.
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Comeou a voltar pra casa embriagado ou nem sequer voltar. Os pesadelos se tornaram violentos. Uma noite, tentei acord-lo de um e ele me mandou com um soco pro
outro lado do quarto. Comeou a gritar sobre emboscada e franco-atiradores. Quando me levantei e tentei acalm-lo, partiu pra cima de mim. Quando meu pai entrou,
Josh me estrangulava.
- Ai, meu Deus, Ben.
- Papai conseguiu solt-lo, e quando ele se deu conta do que tinha feito, ou quase fizera, simplesmente se sentou no cho e chorou. Eu nunca tinha visto ningum
chorar assim. Ele no conseguia parar. Ns o levamos para a Associao de Veteranos, que designou um psiquiatra para ele.
A cinza no cigarro ficaram compridas. Ben esmagou-o e retornou ao conhaque.
- Eu j estava na faculdade ento, por isso o levava de carro s vezes, quando tinha um horrio folgado  tarde. Detestava aquele consultrio; sempre me fazia pensar
num tmulo. Josh entrava. s vezes, eu o ouvia chorar. Em outras, no ouvia nada. Cinqenta minutos depois, saa. Eu no parava de desejar que um dia meu irmo cruzasse
aquela porta e fosse do jeito que me lembrava.
- s vezes  to difcil, at mais difcil para a famlia, do que para quem est doente - disse Tess, mantendo a mo junto  dele e deixando-o aceitar ou rejeitar
o contato. -A gente se sente impotente quando quer desesperadamente ajudar... confusa quando precisa tanto pensar com clareza.
- Minha me desmoronou um dia. Era domingo, ela preparava uma carne assada. De repente, apenas jogou tudo fora na pia. Se fosse cncer, disse, encontrariam uma forma
de extirp-lo. No conseguem ver o que o est devorando por dentro? Por que no encontram um meio de extirpar isso do meu filho?
Ben baixou os olhos para o conhaque, a imagem da me debruada sobre a pia, soluando, to clara quanto se houvesse acontecido na vspera.
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- Durante algum tempo, ele pareceu melhorar. Como estava sob tratamento psiquitrico e tinha um histrico profissional questionvel, era difcil arranjar trabalho.
Nosso padre fez um pouco de presso, um pouco de culpa catlica  moda antiga, e conseguiu um emprego pra ele num posto de gasolina como mecnico. Josh tinha ganho
uma bolsa de estudos da Notre Dame cinco anos antes, e agora trocava velas de ignio. Mesmo assim, era alguma coisa. A freqncia dos pesadelos diminuiu. Nenhum
de ns sabia que ele vinha ingerindo barbitricos para diminu-los. Depois foi a herona. Isso tambm passou despercebido por ns. Talvez se eu tivesse ficado mais
em casa, porm estava na faculdade, e pela primeira vez na vida levando a srio pra dar certo. Meus pais eram totalmente ingnuos em relao s drogas. Tambm passou
despercebido pelo mdico, um major com tempo de servio em plantes na Coria e no Vietn, mas que no viu que Josh vinha se enchendo de herona pra agentar passar
a noite.
Ele passou a mo pelos cabelos e terminou o conhaque.
- No sei, talvez o cara estivesse subjugado por excesso de trabalho, ou talvez esgotado. De qualquer modo, o resultado foi que, aps dois anos de terapia, aps
milhares de velas e oraes  Virgem Maria, Josh foi para o quarto, ps o uniforme militar, as medalhas e, em vez de pegar a seringa, carregou a arma do exrcito
e acabou com tudo.
- Ben, dizer que sinto muito no basta, nem sequer ajuda, porm no sei o que mais dizer.
- Ele s tinha vinte e quatro anos.
E voc vinte, ela pensou, mas, em vez de diz-lo, passou o brao em volta dele.
- Pensei em culpar todo o exrcito dos Estados Unidos, melhor ainda, todo o sistema militar. Conclu que faria mais sentido me concentrar no mdico que devia estar
ajudando Josh. Lembro que fiquei l sentado, quando a polcia chegou, no quarto que dividia com ele, pensando que o patife devia fazer alguma coisa. Devia t-lo
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feito se sentir melhor. Cheguei at por algum tempo a pensar em matar o desgraado, ento o padre chegou e me perturbou. No daria a Josh os ltimos sacramentos.
- No entendo.
- No era o nosso padre, mas um jovem novato, recm-sado do seminrio, que ficou verde diante da idia de subir ao encontro de Josh. Disse que ele tinha tirado
a prpria vida por livre vontade e conhecimento de causa, morrendo em pecado mortal. No ia lhe dar a absolvio.
- Mas que injustia! Pior, crueldade.
- Eu pus o cara pra fora de casa. Minha me ficou ali, de lbios cerrados, olhos secos, depois foi at o quarto onde os miolos do filho estavam respingados na parede,
e rezou ela mesma pela absolvio dele.
- Sua me  forte. Deve ter uma f tremenda.
- S o que sempre fazia era cozinhar. - Ele puxou Tess mais para junto de si, precisando do seu perfume suave e feminino. - No sei se eu conseguiria subir aquela
escada uma segunda vez, mas ela subiu. Quando a vi fazer isso, percebi que, por mais que estivesse sofrendo, sentindo a dor da perda do filho, ela sempre acreditaria
que o que aconteceu a Josh foi a vontade de Deus.
- Mas voc, no.
- No. Tinha de ser culpa de algum. Josh nunca tinha feito mal a ningum na vida, at o Vietn. Depois fez o que julgava ser certo, porque lutava pelo pas. Mas
no era certo, e meu irmo no conseguiu viver mais com isso. O psiquiatra devia ter-lhe mostrado que, independentemente do que tivesse feito l, continuava decente,
digno de ser valorizado.
Como a prpria Tess devia ter mostrado a Joey Higgins que ele era digno de ser valorizado.
- Voc chegou a falar com o mdico de Josh depois?
- Uma vez. Acho que ainda tinha em mente a idia de mat-lo, ali sentado atrs da escrivaninha, as mos juntas. - Ben baixou os
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olhos para as prprias mos, vendo-as enroscar-se em punhos. - Ele no sentiu nada. Disse que lamentava muito, explicou como s vezes era extremo o Distrbio do
Estresse Ps-traumtico. Ento me explicou, ainda com as mos juntas na mesa e a voz apenas dois tons distantes de envolvimento, que Josh no tinha tido condies
de superar o que acontecera no Vietn, que a volta ao lar e a tentativa de viver  altura do que tinha sido foram criando cada vez mais presso, at o controle ir
afinal por gua abaixo.
- Sinto muito, Ben. Na certa, grande parte do que ele disse era verdade, mas poderia ter feito de outra forma.
- Podia ter significado muito pra Josh.
- Ben, no estou defendendo o major, mas muitos mdicos, clnicos ou psiquiatras, se contm e no se deixam envolver numa participao prxima demais, porque, quando
a gente perde algum, quando no consegue salv-lo, di demais.
- Como a perda de Joey a fez sofrer.
- Esse tipo de dor e culpa nos dilacera, e quando nos dilacera com demasiada freqncia, no sobra nada, nem pra ns, nem para o paciente seguinte.
Talvez ele entendesse, ou comeasse a entender. Mas no via o psiquiatra do exrcito fechando-se no banheiro e soluando.
- Por que faz isso?
- Acho que tenho de procurar as respostas, da mesma maneira que voc. - Virando-se, ela tocou o rosto dele. - Di de verdade quando  muito pouco ou tarde demais.
- Lembrou a expresso de sofrimento naquele rosto quando ele lhe contou sobre trs estranhos que haviam sido assassinados por um punhado de moedas. - No somos to
diferentes quanto eu achava a princpio.
Ele virou os lbios para a palma da mo dela, confortado pelo toque.
- Talvez no. Quando vi voc esta noite, senti a mesma coisa de quando a vi olhando Anne Reasoner naquele beco. Parecia to distante da tragdia diante de si, em
to completo controle. Igual ao
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major quando o procurei, com as mos juntas na mesa, dizendo por que meu irmo morreu.
- Estar no controle no  o mesmo que distante. Voc  policial, tem de reconhecer a diferena.
- Eu precisava saber se voc sentia alguma coisa. - Deslizando a mo para a cintura dela, ele segurou-a firme enquanto a encarava nos olhos. -Acho que o que na verdade
queria era que voc precisasse de mim. - E essa talvez fosse uma das mais difceis confisses que fazia na vida. - Ento, quando entrei no banheiro e vi voc chorando,
soube que precisava, e isso me deixou assustado como o diabo.
- Eu no queria que me visse assim.
- Por qu?
- Porque eu no confiava muito em voc.
Ele baixou o olhar por tempo suficiente para examinar a prpria mo sobre a cintura fina e de incrvel delicadeza de Tess.
- Nunca falei a ningum, alm de Ed, sobre Josh. At agora, era a nica pessoa em que eu confiava o bastante. - Levou aos lbios os dedos dela, roando-os de leve.
- Ento o que acontecer agora?
- Voc quer que acontea?
Uma risada, mesmo quando baixa e relutante, pode ser purifica-dora.
- Escapada psiquitrica. - Pensativo, ele manuseou as prolas no pescoo dela. Abriu a gargantilha. O pescoo era perfumado e sedoso. - Tess, quando isso terminar,
se eu a convidasse a decolar por alguns dias, uma semana, e viajar pra algum lugar comigo, voc iria?
- Sim.
Sorrindo, e muito surpreso, ele encarou-a.
- Assim, sem mais?
- Talvez eu perguntasse pra que lugar quando chegasse a hora, a fim de saber se levo um casaco de pele ou um biquni.
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Pegou as prolas e largou-as na mesinha-de-cabeceira.
- Deviam ficar num cofre.
- Eu durmo com um policial. - Embora respondesse com um tom de voz leve, ela viu-o remoendo absorto e achou que sabia aonde os pensamentos o haviam levado. - Ben,
vai terminar muito em breve.
- .
Mas, quando a trouxe mais para perto, quando comeou a satisfazer-se com a proximidade dela, ele sentiu medo. Era dia 28 de novembro.
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Captulo Dezoito
-No ponha o p fora do apartamento at que eu diga que est tudo bem.
- De jeito nenhum - concordou Tess, enquanto Ben olhava-a prender os cabelos. - Tenho trabalho suficiente em casa pra me manter acorrentada  escrivaninha o dia
todo.
- Nem pra pr o lixo fora.
- Nem se os vizinhos assinarem uma petio.
- Tess, quero que leve isso a srio.
- Estou levando a srio. - Ela escolheu tringulos de ouro com nervuras e prendeu-os nas orelhas. - No vou ficar sozinha durante um minuto hoje. O policial Pilomento
chegar aqui s oito.
Ben olhou a cala folgada cinza-claro e o suter macio de capuz que ela pusera.
-  pra ele que se produziu toda assim?
- Claro. - Quando ele se aproximou, Tess sorriu para o reflexo dos dois. - Recentemente, passei a ter uma queda por policiais. Tem todos os sinais que identificam
uma obsesso.
- Verdade?
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Ele curvou-se e roou os lbios na nuca de Tess.
- Receio que sim.
Bem baixou as mos para os ombros dela, querendo continuar prximo, tocando-a.
- Preocupada com isso?
- No. - Ainda sorrindo, ela virou-se para os braos dele. - Nem um pouco. Nem com isso nem com qualquer outra coisa. - Como viu um vinco de receio entre as sobrancelhas
dele, Tess ergueu o dedo e alisou-o. - Eu gostaria que voc no ficasse preocupado.
-  minha funo me preocupar. - Por um instante, ele apenas a abraou, sabendo como seria difcil sair pela porta naquela manh e confi-la aos cuidados de outra
pessoa. - Pilomento  um bom homem - disse, tanto para tranqiliz-la quanto a si mesmo. - Jovem, mas age como manda o figurino. Ningum passar por aquela porta
enquanto ele estiver aqui.
- Eu sei. Venha, vamos tomar caf. Voc s tem mais alguns minutos.
- Maggie Lowenstein vai se revezar com ele s quatro. - Ao encaminhar-se para a cozinha, ele consultou o horrio, embora os dois soubessem cada ao. - Ela  a melhor.
Talvez parea uma simptica esposa suburbana, mas no h ningum mais que eu prefira me apoiando numa situao perigosa.
- No vou ficar sozinha hora nenhuma. - Tess pegou duas canecas. - Os policiais vo se revezar no terceiro andar, o telefone est grampeado, uma unidade ficar estacionada
do outro lado da rua o dia todo.
- No ser a preta e branca. Se ele fizer algum movimento, no queremos que se afaste assustado. Bigsby, Roderick e Mullendore vo trocar comigo e Ed na vigilncia.
- Ben, no estou mesmo preocupada. Acredite em mim, j pensei em tudo nos mnimos detalhes. Nada pode me acontecer desde que eu fique dentro de casa e inacessvel.
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-  Ele no sabe que voc est protegida. Quando eu voltar  meia-noite, entrarei pelos fundos e subirei a escada.
- Ele vai fazer o movimento esta noite, disso eu tenho certeza. Quando fizer, voc estar l.
- Agradeo a confiana, mas saiba que eu me sentiria menos nervoso se voc estivesse um pouco mais. Escute, nada de fazer alguma coisa para impressionar. - Ele tomou-lhe
o brao para dar nfase, antes que ela pudesse erguer o caf. - Quando o pegarmos, e o levarmos de volta  delegacia para o interrogatrio, voc no vai.
- Ben, sabe como pra mim  importante conversar com ele, tentar me comunicar.
- No.
- Voc s pode me bloquear por algum tempo.
- O tempo que for necessrio.
Tess recuou e tentou outra direo, a que a despertara no amanhecer e a mantivera acordada.
- Ben, eu acho que voc entende esse homem melhor do que pensa. Sabe o que  perder algum que  uma intricada parte de sua vida. Voc perdeu Josh, ele perdeu Laura.
No sabemos quem era ela, mas sabemos que importava muito pra ele. Voc me disse que, quando perdeu Josh, pensou em matar o mdico que tratava dele. Espere - pediu,
antes que ele pudesse falar. - Queria culpar algum, ferir algum. Se no fosse um homem forte em termos emocionais, bem poderia ter feito isso. Mesmo assim, o ressentimento
e a dor permaneceram.
As palavras, e a verdade por trs, deixaram-no angustiado.
- Talvez tenham permanecido, mas no comecei a sair por a assassinando pessoas.
- No, voc se tornou policial. Talvez parte do motivo que o levou a isso fosse Josh, porque voc precisava encontrar as respostas, fazer as coisas certas. Como
 saudvel e confiante, conseguiu transformar o que talvez tenha sido a maior tragdia de sua vida numa coisa construtiva. Mas, se no fosse saudvel, Ben, se no
tivesse
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uma forte imagem de si mesmo, um forte senso de certo e errado, alguma coisa poderia ter-se rebentado dentro de voc. Quando Josh morreu, voc perdeu a f. Acho
que esse homem a perdeu por causa de Laura. No sabemos quanto tempo levou isso... um ano, cinco, vinte... mas ele pegou as peas da f e juntou mais uma vez. S
que as peas no se encaixam direito; as pontas so denteadas. Ele mata, sacrifica, pra salvar Laura. A alma de Laura. O que voc me disse ontem  noite me fez pensar.
Talvez ela tenha morrido no que a Igreja considera pecado mortal e lhe negaram a absolvio. Ensinaram a ele a vida toda acreditar que sem absolvio se perde a
alma. Na psicose, ele mata e sacrifica mulheres que lembram Laura. Mas, ainda assim, salva a alma delas.
- Tudo o que voc diz talvez seja verdade. Nada disso muda o fato de que ele matou quatro mulheres e tem a inteno de matar voc.
- Preto e branco, Ben?
- s vezes  s o que h. - Frustrava-o mais porque comeava a entender, at a sentir o que ela dizia. Queria continuar a olhar o problema  frente, sem qualquer
ngulo. - No acredita que algumas pessoas apenas nascem ms? Um homem diz  mulher que vai sair pra caar seres humanos, depois pega o carro, vai ao McDonald's
local e atira em crianas porque a me o espancava quando ele tinha seis anos? Usa um campus universitrio como tiro ao alvo porque o pai enganava a me?
- No, mas o nosso homem no  o tipo de serial killer de que voc fala. - Em seu prprio terreno, ela conhecia os passos. - Ele no mata aleatoriamente e sem motivao.
Uma criana maltratada tem tanta chance de se tornar um presidente de banco quanto um psictico. Tampouco acredito na semente do mal. Falamos de uma doena complexa,
Ben, coisa em que um nmero cada vez maior de mdicos passa a acreditar que seja causada por uma reao qumica no crebro que destri a racionalidade. Percorremos
um longo caminho desde os dias da possesso pelo demnio, mas h apenas
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sessenta anos a esquizofrenia era tratada com extrao de dente. Depois vieram injees de soro de cavalo, lavagens intestinais. E no ltimo quarto do sculo XX,
ainda procuramos s cegas. Seja o que for que desencadeou a psicose, ele precisa de ajuda. Como Josh precisava. Como Joey precisava.
- No durante as primeiras vinte e quatro horas - ele disse, sem rodeios. - E s depois que a papelada for esclarecida. Ele talvez no queira ver voc.
- Pensei nisso, mas acredito que vai querer.
Quando veio a batida  porta, Ben levou a mo devagar  arma. O brao continuava enrijecido, mas pronto para agir. No teve a menor dificuldade para empunh-la.
Avanou at a porta, porm ficou ao lado.
- Pergunte voc quem . - Quando ela comeou a adiantar-se, ele ergueu a mo. - No, pergunte da. No fique na frente da porta.
Embora duvidasse que a arma passasse do amicto para a bala, no correria riscos.
- Quem ?
- Detetive Pilomento, senhora. Reconhecendo a voz, Ben virou-se e abriu a porta.
- Paris. - Pilomento bateu a neve dos sapatos antes de entrar. - As ruas esto uma baguna. Chegamos a uns quinze centmetros de altura. Bom-dia, Dra. Court.
- Bom-dia. Deixe-me levar seu casaco.
-  Obrigado. Congelando l fora - ele disse a Ben. - Mullendore j se acha a postos em frente. Espero que tenha posto a camiseta de aquecimento por baixo da roupa.
- No fique muito relaxado assistindo a programas de televiso. - Ben pegou o prprio casaco e deu uma ltima olhada na sala. Uma entrada apenas, e Pilomento em
momento algum ficaria a mais de sete metros dela. Mesmo assim, quando se agasalhou com o casaco, no se sentiu aquecido. - Manterei contato peridico com
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as equipes de vigilncia. Agora, por que no vai at a cozinha e se serve um pouco de caf?
- Obrigado. Acabei de tomar um no carro a caminho daqui.
- Tome outro.
- Ah. - Ele olhou de Ben para Tess. - Sim, claro. Assobiando entre os dentes, afastou-se.
- Foi uma grosseria, mas no me importo. - Com uma risada baixa, Tess passou os braos pela cintura de Ben. -Tome cuidado.
-  um hbito. Trate de tomar tambm. - Ele puxou-a para perto, e o beijo foi demorado e prolongado. -Vai me esperar, doutora?
- Conte com isso. Vai me ligar se... bem, se alguma coisa acontecer?
- Conte com isso. - Tomando-lhe o rosto nas mos, ele segurou-o por um instante e deu-lhe um beijo na testa. - Voc  to linda. - Foi a surpresa nos olhos dela
que o fez perceber que no empregara todos os elogios espertos e lisonjeiros, como fazia com outras mulheres. A percepo pegou-o desprevenido. Para disfarar, enfiou
os cabelos dela atrs das orelhas e recuou. - Tranque a porta.
Ele fechou-a atrs de si, e desejou poder livrar-se da inquietante sensao de que as coisas no iriam transcorrer de forma to perfeitas quanto planejadas.

HORAS DEPOIS, ACONCHEGADO DENTRO DO MUSTANG, BEN vigiava o prdio de Tess. Duas meninas faziam os retoques finais num rebuscado boneco de neve. Ele gostaria de saber
se o pai delas sabia que haviam afanado o chapu de feltro dele.
- Os dias esto ficando mais curtos - comentou Ed. Refestelado no banco do carona, sentia-se aquecido como um urso, de ceroula e camiseta combinadas, cala de veludo
cotel, camisa de flaneia, suter e parca. O frio j atravessara havia muito as botas de Ben e deixara os dedos dos ps dormentes.
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- L est Pilomento.
O detetive saiu do prdio, parou apenas por uma frao de segundo na calada e levantou a gola do sobretudo. Era o sinal de que Maggie entrara e as coisas continuavam
firmes. Ben sentiu os msculos relaxarem-se um pouco.
- Ela est bem, voc sabe. - Ed esticou-se e comeou a fazer exerccios isomtricos para impedir a cibra nas pernas. - Maggie  durona o bastante pra repelir um
exrcito.
- Ele no vai se mexer antes de escurecer.
Por saber que ficaria com o rosto congelado se ele abrisse uma fresta na janela por muito tempo, Ben substituiu o cigarro que queria por uma barra de chocolate Milky
Way.
- Sabe o que o acar faz ao esmalte dos seus dentes?-Jamais inclinado a desistir de uma batalha, Ed pegou um pequeno recipiente de plstico com um lanche feito
em casa, de passas, tmaras, nozes sem sal e germe de trigo. Fizera o suficiente para dois. -Voc precisa comear a reeducar o apetite.
Ben deu uma grande e deliberada mordida na barra de chocolate.
- Quando Roderick nos render, vamos dar uma parada no Burger King a caminho da delegacia. Vou pedir um duplo Whooper.
- Por favor, enquanto eu estiver comendo, no. Se Roderick, Bigsby e metade da delegacia seguissem uma dieta correta, no teriam cado com a gripe.
- Eu no adoeci - rebateu Ben, a boca cheia de chocolate.
- A sorte  cega. Quando voc chegar aos quarenta, seu organismo vai se revoltar. No ser nada bonito. Que  isso?
Ed sentou-se ereto no banco ao ver o homem atravessar a rua, com o longo casaco preto abotoado at em cima. Caminhava devagar. Devagar e cauteloso demais.
Os dois detetives levaram uma das mos  arma e a outra  maaneta da porta quando o homem de repente rompeu numa corrida. Ben j abrira a porta quando o estranho
tomou nos braos uma
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das meninas que brincavam na neve a atirou-a para cima. Ela soltou uma risada ressonante e gritou:
- Papai!
Depois de exalar todo o ar do corpo, Ben tornou a sentar-se. Sentindo-se tolo, virou-se para Ed.
- Voc ficou to nervoso quanto eu.
- Eu gosto de Tess. Alegrou-me saber que voc se arriscou a comer peru com o av dela.
- Falei de Josh a ela.
Ed ergueu as sobrancelhas, que desapareceram no bon de marinheiro que enfiara na cabea. Isso, sabia, passava de uma concesso que at ele mesmo julgara o amigo
incapaz de fazer,
- E?
- E acho que fiquei feliz por ter falado. Ela  a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Deus do cu, que frase piegas!
- . - Satisfeito, Ed comeou a mastigar uma tmara. - As pessoas apaixonadas tendem a ser piegas.
- Eu no disse que estava apaixonado. - Saiu rpido, a ao reflexa de algum pego com a mo na botija. - Quis dizer apenas que ela  especial.
- Algumas pessoas tm dificuldade pra admitir o envolvimento emocional, porque temem fracassar no decorrer de um longo perodo de tempo. A palavra amor se torna
um obstculo que, to logo  proferida, passa a ser uma fechadura, bloqueando a intimidade, a individualidade, e obrigando-as a se ver como metade de um casal.
Ben jogou o invlucro do chocolate no cho do carro.
- Revista feminina Redbook?
- No. Criao minha. Talvez eu devesse escrever um artigo.
- Escute, se eu estivesse apaixonado por Tess, por qualquer pessoa, no teria o menor problema pra dizer.
- Ento? Est?
- Eu gosto dela. Muito.
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- Eufemismo.
- Ela  importante pra mim.
- Evasivas.
- Falou, sou louco por ela.
- No  bem por a, Paris.
Dessa vez, ele abriu uma fresta na janela e pegou um cigarro.
- Tudo bem, ento estou apaixonado por ela. Satisfeito agora?
- Marque a data. Vai se sentir melhor.
Ben praguejou e logo se ouviu rindo. Jogou fora o cigarro, e deu uma mordida na tmara de Ed.
- Voc  pior que minha me. -  pra isso que servem os parceiros.

DENTRO DO APARTAMENTO DE TESS, O TEMPO PASSAVA COM a mesma lentido. s sete da noite, ela e Maggie dividiram um jantar de sopa enlatada e sanduches de rosbife.
Tess conseguiu fazer pouco mais que misturar os pedaos de carne e legumes na panela. Era uma noite fria, infeliz. Ningum que no tivesse obrigao a cumprir ia
querer sair. Mas o fato de no poder mover-se alm da porta deixava-a com a sensao de estar enjaulada.
- Voc joga canastra? - perguntou Maggie.
- Desculpe, como?
- Canastra.
A detetive olhou o relgio e concluiu que o marido devia estar dando um banho no caula. Roderick a postos defronte, Ben e Ed vasculhando a rea antes de retornarem
 delegacia, e a filha mais velha queixando-se por ter de lavar os pratos.
- Estou sendo uma pssima companhia.
Maggie ps metade do sanduche no prato de vidro verde-claro que admirara.
- No tem de fazer sala para mim, Dra. Court.
Mas Tess empurrou o prato para o lado e fez o esforo.
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- Voc tem famlia, no?
- Uma turba, na verdade.
- No  fcil, , dar conta de uma carreira exigente e cuidar de uma famlia?
- Eu sempre prosperei nas complicaes.
- Admiro isso. Eu sempre as evitei. Posso fazer uma pergunta pessoal?
- Tudo bem, se eu puder fazer outra a voc depois.
- Muito justo. - Com os cotovelos na mesa, Tess curvou-se para frente. - Seu marido acha difcil ser casado com algum cujo trabalho no apenas  exigente, mas perigoso
em potencial?
- Acho que no  fcil. Sei que no  - corrigiu Maggie. - Tomou um gole da Diet Pepsi que Tess servira em copos finos e espiralados, que ela poria em exibio.
- precisamos dar duro nisso para a coisa funcionar. H dois anos tivemos uma separao experimental. Durou trinta e quatro horas e meia. O fator preponderante 
que somos loucos um pelo outro. Isso em geral impregna todo o resto.
- Voc tem sorte.
- Eu sei. Mesmo quando me d vontade de enfiar a cabea dele no vaso sanitrio, eu sei. Minha vez.
- Tudo bem.
Maggie deu-lhe uma examinada demorada, avaliadora.
- Onde voc compra suas roupas?
Tess ficou apenas surpresa demais e riu por alguns segundos. Pela primeira vez no dia todo, relaxou.

DO LADO DE FORA, RODERICK E UM ATARRACADO DETETIVE conhecido como Pudge dividiam uma garrafa trmica de caf. Meio irritado com uma congesto nasal, Pudge mudava
de posio de poucos em poucos minutos e queixava-se.
-Acho que no vamos ver nenhum sinal desse cara. Mullendore ficou com o ltimo turno. Se algum vai pegar o assassino, ser ele.  Vamos simplesmente ficar aqui congelando
a bunda
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- Tem de ser esta noite.
Roderick serviu a Pudge outra xcara de caf e voltou a examinar as janelas de Tess.
- Por qu?
Pudge deu um longo bocejo e amaldioou o anti-histamnico que o deixava com o nariz e a mente entupidos.
- Porque tem de ser esta noite.
- Nossa, Roderick, no importa qual planto de escavar bosta voc pegue, voc nunca se queixa. - Com outro bocejo, Pudge desabou contra a porta. - Valha-me Deus,
mal consigo ficar de olhos abertos. Esta maldita medicao acaba com a gente.
Roderick fez outra inspeo na rua de cima a baixo. Ningum se mexeu.
- Por que no dorme um pouco? Eu fico de olho.
- Obrigado. - J meio sonolento, Pudge fechou os olhos. - Me d apenas dez minutos, Lou. De qualquer modo, Mullendore vai assumir daqui a uma hora.
Com o parceiro roncando de leve, Roderick ficou de sentinela.

TESS APRENDIA OS DETALHES DA CANASTRA COM MAGGIE Lowenstein quando o telefone tocou. A relaxada conversa de meninas terminou de estalo.
- Tudo bem, voc atende. Se for ele, mantenha-se calma. Protele a conversa, combine um encontro, se precisar. Veja se consegue que ele determine um local especfico.
- Est bem. - Embora com a garganta seca, Tess pegou o telefone e falou com naturalidade.
- Doutora, aqui  o detetive Roderick.
Os msculos dela perderam a firmeza quando se virou e balanou a cabea para Maggie.
- Sim? Alguma novidade?
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- Ns o pegamos, Dra. Court. Ben o agarrou a menos de duas quadras de seu prdio.
- Ben? Est tudo bem com ele?
- Sim, no se preocupe. No  nada srio. Ele sofreu uma forte toro no ombro durante a priso. Me pediu que ligasse para a senhora e dissesse que pode relaxar.
Ed est levando-o ao hospital.
- Hospital. - Ela lembrou a bandeja com as ataduras empapadas de sangue. - Qual? Eu quero ir.
- Est sendo levado para Georgetown, doutora, mas ele no quer que a senhora se incomode.
- No  incmodo algum. Vou sair agora mesmo. - Lembrando-se da mulher que respirava em sua nuca, Tess virou-se para Maggie. - Fale com a detetive Lowenstein. Obrigada
pelo telefonema.
- Ficamos todos muito felizes porque terminou tudo.
- Sim. - Ela fechou com fora os olhos um instante e passou o aparelho a Maggie. - Ele foi pego.
Ento correu ao quarto para pegar a bolsa e as chaves do carro. Quando retornou correndo  sala para pegar o casaco, Maggie ainda arrancava detalhes de Roderick.
Impaciente, Tess jogou o casaco sobre o brao e esperou.
- Parece que  um padre mesmo - disse a detetive quando desligou. - Ben e Ed decidiram dar mais algumas vasculhadas na rea, quando viram o cara sair de um beco
e se dirigir ao seu prdio. Tinha o casaco aberto. Os dois viram que usava uma batina. Ele no protestou quando o detiveram, mas, quando Ben encontrou o amicto
no seu bolso, parece que o cara se soltou, comeou a lutar e chamar por voc.
- Oh, meu Deus!
Ela queria v-lo, falar com ele. Mas Ben estava a caminho do hospital e vinha em primeiro lugar.
Lou disse que Ben ficou meio machucado, no parece nada srio.
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- Vou me sentir melhor quando vir com meus prprios olhos.
- Sei o que quer dizer. Quer que eu a leve ao hospital?
- No, sei que precisa voltar  delegacia e amarrar as pontas soltas. Parece que no preciso mais de proteo policial.
- No, mas de qualquer modo vou acompanh-la at o seu carro. D parabns a Ben pelo bom trabalho.

QUANDO BEN ATRAVESSOU O ESTACIONAMENTO PARA A delegacia, Logan parou atrs e saltou apressado do carro.
- Ben. - Sem chapu, luvas, vestido como raras vezes Ben o vira, de batina, ele os alcanou nos degraus da entrada.
- No  uma boa noite para padres sarem andando por a, Tim. Temos um monte de policiais nervosos nas ruas esta noite. Voc poderia se ver algemado.
- Eu estava rezando a ltima missa para as irms e no tive tempo de me trocar. Acho que descobri uma coisa.
- Dentro - disse Ed, abrindo a porta. - Seus dedos vo cair.
- A pressa era muita. - Sem pensar, Logan comeou a esfregar os dedos uns nos outros em busca de calor. - H dias tenho repassado tudo. Eu sabia que vocs se concentravam
no uso do nome do reverendo Francis Moore e vinham investigando, mas no consegui tirar da mente o Frank Moore que conheci no seminrio.
- Continuamos pesquisando l. Impaciente, Ben olhou o relgio.
- Eu sei, mas eu convivi com ele, entenda, sabia que beirava entre o santo e o fantico. Ento me lembrei de um seminarista que tinha estudado com ele e abandonou
o curso depois de uma clebre briga com Moore. Lembrei-me dele porque o rapaz seguiu em frente e se tornou um famoso escritor, Stephen Mathias.
- J ouvi falar. - Quando a excitao comeou a martel-lo, Ben avanou mais para perto. -Acha que Mathias...
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- No, no. - Frustrado pela incapacidade de falar com suficiente rapidez ou coerncia, Logan inspirou fundo. - Eu nem cheguei a conhecer Mathias pessoalmente, pois
j estava estabelecido na universidade quando tudo isso aconteceu. Mas me lembrei do boato de que no havia nada nem ningum sobre o que Mathias no soubesse no
seminrio. Na verdade, ele usou muito material de dentro para os primeiros dois livros. Quanto mais eu pensava nisso, mais as coisas se encaixavam. E lembrei que
li um romance especfico que falava num jovem estudante que tinha sofrido um colapso nervoso e abandonou o seminrio depois que a irm... irm gmea... morreu em
conseqncia de um aborto ilegal. Parece que foi um tremendo escndalo. Descobriu-se que a me do rapaz estava confinada numa instituio para doentes mentais e
ele prprio se submetia a um tratamento para esquizofrenia.
- Vamos localizar Mathias.
Ben j se dirigia ao corredor quando Logan o deteve.
- Eu j fiz isso. S precisei dar uns telefonemas para localiz-lo. Mora em Connecticut, e se lembrava perfeitamente do incidente. O seminarista era devoto ao extremo,
to devoto a Moore quanto  Igreja. De fato, trabalhou como secretrio dele. Mathias disse que se chamava Louis Roderick.
Era possvel o sangue congelar, o corao parar de bater e o corpo continuar vivo.
- Tem certeza?
- Sim. Embora Mathias fosse categrico, quando perguntei, ele retornou s anotaes e conferiu. Ofereceu-se de bom grado pra vir aqui e dar a vocs uma descrio.
Com isso e o nome, conseguiro encontr-lo.
- Sei onde ele est.
Ben deu uma rpida meia-volta, entrou na sala da equipe e agarrou o primeiro telefone a que chegou.
- Voc o conhece? - Logan grudou-se em Ed antes de tambm o perder.
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-  policial. Um dos nossos, e agora mesmo est chefiando a vigilncia diante do prdio de Tess.
-Amado Deus!
Quando a sala defronte irrompeu em atividade, Logan comeou a rezar.
Despacharam-se unidades para o endereo de Roderick, outras de reforo ao apartamento de Tess. Logan chegava aos calcanhares de Ben quando rumaram para a porta.
- Quero ir com vocs.
- Isso  coisa da polcia.
- Ver um padre talvez o acalme.
- No atrapalhe.
Empurraram a porta de vidro e quase se chocaram com Maggie.
- Que diabo est acontecendo aqui?
Meio enlouquecido de medo, Ben puxou-a pela gola do casaco.
- Por que no est com ela? Por que a deixou sozinha?
- Que  que h com voc? Assim que Lou ligou pra confirmar que ele foi preso, no tinha mais por que eu continuar l.
- Quando ele ligou?
- H vinte minutos. Mas ele disse que voc estava a caminho... - Embora rejeitasse com a mente, a expresso de Ben disse-lhe tudo. - Oh, meu Deus, Lou, no? Mas
ele ... - Um policial. Um amigo. Maggie recuou e reagiu de repente. - Ele ligou h vinte minutos, me dizendo que tinha havido uma priso hbil e mandando desfazer
a guarda e vir para a delegacia. Eu no questionei, Ben, nem pensei em confirmar com o departamento. Era Lou.
- Precisamos encontr-lo.
Maggie agarrou o brao de Ben antes que ele pudesse passar a toda por ela.
- Hospital de Georgetown. Ele disse a ela que voc foi levado para a emergncia.
Nada mais era necessrio para faz-lo descer como um raio os degraus at o carro.
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TESS PAROU NO ESTACIONAMENTO APS UM FRUSTRADO percurso de vinte minutos. As ruas estavam quase vazias, mas isso no impedira os pequenos acidentes de trnsito.
Disse a si mesma que o bom era que quela altura Ben j fora tratado e a esperava. E tudo acabara.
Bateu a porta e largou as chaves no bolso. A caminho de casa, comprariam uma garrafa de champanhe. Duas garrafas, corrigiu-se. Ento passariam o resto do fim de
semana na cama tomando-as.
A idia foi to agradvel que ela no notou o vulto deslizar das sombras e surgir na luz.
- Dra. Court.
O susto veio primeiro e a levou a, voando, pr a mo na garganta. Ento, com uma risada, baixou-a e adiantou-se.
- Detetive Roderick, eu no sabia que...
A luz cintilou no colarinho clerical branco no pescoo dele. Era como o sonho, ela pensou, num momento de puro pnico, quando se encontrava apenas a um passo da
segurana s para ver os seus piores medos confirmados. Sabia que podia virar-se e correr, mas, apenas  distncia de um brao, ele a alcanaria. Sabia que podia
gritar, mas no tinha a menor dvida de que ele a silenciaria. Por completo. S havia uma opo. Enfrent-lo.
- Voc queria falar comigo. - No, no ia funcionar, pensou, desesperada. No com a voz trmula e a cabea cheia do impetuoso eco de seu prprio medo. - Eu tambm
queria falar com voc. Queria ajud-lo.
- Antes eu achava que poderia. Voc tinha olhos bondosos. Quando li seus relatrios, soube que entendia. Eu no era um assassino. Ento compreendi que havia sido
enviada a mim. Seria a ltima, a mais importante. Foi a nica que a Voz chamou pelo nome.
- Me fale da Voz, Lou. - Ela quis recuar, recuar devagar apenas um passo, mas viu, pelos olhos dele, que mesmo esse pequeno
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movimento desencadearia a violncia. - Quando a ouvia pela primeira vez?
-  Quando era menino. Disseram que eu era louco, como minha me. Senti medo, por isso a bloqueei. Mais tarde, compreendi que era um chamado de Deus, convocando-me
para o sacerdcio. Fiquei feliz por ser escolhido. Padre Moore dizia que apenas uns poucos so escolhidos para realizar o trabalho do Senhor, celebrar os sacramentos.
Mas mesmo os escolhidos so tentados, portanto oferecemos sacrifcios, pagamos penitncia. Ele me ensinou a treinar o corpo para afugentar a tentao. Flagelao,
jejum.
E mais uma pea do quebra-cabea encaixou-se. Um menino emocionalmente perturbado entra no seminrio, para ser treinado por um emocionalmente perturbado. Iria mat-la.
Seguindo o caminho que via estendido  frente, iria mat-la. O estacionamento estava quase vazio, as portas da sala de emergncia a duzentos metros de distncia.
- Como se sentiu ao tornar-se padre, Lou?
- Era tudo. Toda minha vida formada, entende? Para esse fim.
- Mas voc a abandonou.
- No. - Ele ergueu a mo, como se cheirasse o ar, como se escutasse alguma coisa apenas para seus ouvidos. - Foi como um ponto inexistente na minha vida. Eu na
verdade no existia ento. Ningum pode existir sem f. Um padre no pode existir sem propsito.
Ela viu-o enfiar a mo no bolso, viu um fragmento de branco na mo. Ficou com os olhos quase to desvairados quanto os dele.
- Me fale de Laura.
Ele avanou um passo mais para perto, porm o nome o deteve.
- Laura. Voc conheceu Laura?
- No, no conheci. - Ele segurava o amicto nas duas mos agora, mas parecia t-lo esquecido. Pense, ela disse a si mesma para conter um grito. Pense, converse,
escute. - Me fale dela.
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- Era linda. Linda daquele jeito frgil que faz a gente se perguntar se coisas assim podem durar. Minha me se preocupava porque Laura gostava de se olhar no espelho,
escovar os cabelos, usar roupas bonitas. Ela sentia o demnio atraindo, sempre atraindo Laura para o pecado e os maus pensamentos. Mas Laura apenas ria e dizia que
no ligava para vestimentas de luto e cinzas. Ria  bea.
- Voc a amava muito.
- ramos gmeos. Partilhamos a vida antes da vida. Era o que minha me dizia. Fomos unidos por Deus. Cabia a mim impedi-la de rejeitar a Igreja e tudo que nos haviam
ensinado. Cabia a mim, mas falhei com Laura.
- Falhou como?
- Laura s tinha dezoito anos. Linda, delicada, mas sem nenhuma risada. -As lgrimas comearam, sem soluos, a brilhar nas faces dele. - Ela ficou debilitada. Eu
no estava l quando precisou de mim, e ela ficou debilitada. Aborto clandestino. O juzo de Deus. Mas por que o juzo de Deus foi to duro? - A respirao acelerou-se
e tornou-se dolorosamente alta quando ele apertou com a mo a testa. - Vida por vida. Imparcial e justo. Vida por vida. Ela me implorou para que no a deixasse morrer,
no a deixasse morrer em tanto pecado que a mandaria direto ao inferno. Eu no tive poder algum para absolv-la. Enquanto a via agonizar em meus braos, no tive
poder algum. O poder veio depois, aps o desespero, as trevas, o tempo vazio. Eu posso mostrar a voc. Tenho de mostrar.
Avanou e, quando os instintos de Tess a impeliram para trs, deslizou a estola ao redor dela.
- Lou, voc  um agente da polcia. Sua tarefa, sua funo,  proteger.
- Proteger. - Os dedos dele tremiam na estola. Um policial. Tivera de pr entorpecente no caf de Pudge. Teria sido errado fazer mais, ferir outro policial. Proteger.
O pastor protege o rebanho. - Eu no protegi Laura.
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- No, foi uma perda terrvel, uma tragdia. Mas agora voc tem tentado restituir alguma coisa, no? No foi por isso que se tornou policial? Para restituir alguma
coisa? Proteger os outros?
- Eu tive de mentir, mas aps Laura isso no parecia mais ter importncia. Talvez na polcia pudesse encontrar o que vinha buscando no seminrio. Esse senso de propsito.
Vocao. A lei do homem, no a lei de Deus.
- Sim, voc jurou defender a lei.
- A Voz retornou depois de muitos anos. Era real.
- Sim, para voc era real.
- No fica sempre na minha cabea. s vezes  um sussurro no outro quarto, ou vem como um trovo do teto acima da cama. Ela me disse como salvar Laura, e a mim mesmo.
Ns fomos unidos. Sempre fomos unidos.
Tess cerrou as mos sobre as chaves no bolso. Sabia que, se Roderick apertasse a estola, ela as usaria para arrancar os olhos dele. Pela sobrevivncia. A necessidade
de viver precipitou-se de cima a baixo.
- Eu a absolverei do pecado - ele murmurou. - E voc ver Deus.
- Tirar uma vida  pecado. Ele hesitou.
- Vida por vida. Um sacrifcio sagrado. A dor atravessou-lhe a voz.
- Tirar uma vida  pecado - ela repetiu quando o sangue lhe martelou os ouvidos. - Matar viola a lei de Deus, e a do homem. Voc entende as duas leis como policial
e como padre. - Quando ouviu a sirene, o primeiro pensamento foi que uma ambulncia chegava  emergncia. No estava sozinha. No desgrudou os olhos dos dele. -
Eu posso ajudar voc.
- Me ajude.
Foi apenas um suspiro, parte pergunta, parte splica.
- Sim.
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Embora a sua mo tremesse, ela ergueu-a e colocou-a na dele. Roou os dedos na seda.
Portas bateram atrs, mas nenhum dos dois se mexeu.
- Tire as mos dela, Roderick. Tire as mos e saia da frente dela.
Mantendo os dedos em volta dos de Roderick, Tess virou-se e viu Ben a poucos metros atrs, pernas abertas, a arma segura nas duas mos. Ao lado e  esquerda, Ed
espelhava a posio do parceiro. Sirenes ainda berravam, luzes piscavam e carros anuam ao estacionamento.
- Ben, eu no estou ferida.
Mas ele no a olhou. No despregava os olhos de Roderick, e nos dele ela viu o cerne da violncia que ele reprimia. Soube que, se sasse da frente agora, ele a desencadearia.
- Ben, eu no estou ferida. Ele precisa de ajuda.
- Saia da frente.
Se Ben tivesse certeza de que Roderick no estava armado, ele teria se precipitado para a frente. Mas, Tess virou o corpo e usou-o como um escudo.
- Acabou, Ben.
Aps um rpido sinal com a mo, Ed adiantou-se.
- Tenho de revist-lo, Lou. E depois algemar e prender.
- Sim. - Estonteado e dcil, ele ergueu as mos para tornar tudo mais simples. - Esta  a lei. Doutora?
- Sim. Ningum vai fazer mal a voc.
- Tem o direito de permanecer calado - comeou Ed, retirando o revlver debaixo do palet.
- Est tudo bem, eu entendo. - Quando Ed prendeu as algemas, Roderick concentrou a ateno em Logan. - Padre, o senhor veio ouvir minha confisso?
- Sim. Gostaria que eu fosse com voc?
Falando, Logan ps a mo sobre a de Tess e apertou-a.
- Sim, estou muito cansado.
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- Logo vai poder descansar. Venha conosco agora e eu ficarei com voc.
Com a cabea curvada, ele saiu andando entre Ed e Logan.
- Abenoe-me, padre, pois eu pequei.
Ben esperou at passarem por ele. Tess permanecia no mesmo lugar, observando-o, sem saber se suas pernas a levariam caso avanasse. Viu-o guardar a arma no coldre
antes de atravessar o piso ao seu encontro em trs grandes passadas.
- Eu estou bem, eu estou bem - ela repetiu sem parar quando ele a esmagou contra si. - Ele no ia chegar ao fim. No tinha condies.
Ben apenas a afastou para arrancar-lhe a estola do pescoo e jog-la num monte de neve. Deslizou as mos pela garganta dela para certificar-se de que no tinha marca.
- Eu podia ter perdido voc.
- No. - Ela tornou a encostar-se nele. - Ele sabia. Acho que sabia o tempo todo que eu podia det-lo. - Quando lgrimas de alvio comearam a escorrer, ela apertou
os braos em volta de Ben. - O problema foi que no fiz isso, Ben, eu nunca me senti to aterrorizada.
- Voc ficou entre ns e me bloqueou.
Fungando, ela se afastou apenas o suficiente para encontrar com os lbios os dele.
- Protegendo um paciente.
- Ele no  seu paciente.
Ela teve de correr o risco de que as pernas no a suportassem por mais alguns minutos. Recuando, encarou-o.
- Sim, . E, assim que liberarem a papelada, eu comearei os exames.
Ben agarrou-a pela frente do casaco, mas, quando ela tocou a mo em seu rosto, ele s conseguiu encostar a testa na dela.
- Ao diabo com voc, estou tremendo.
- Eu tambm.
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- Vamos pra casa.
- Ah, sim.
Com os braos enganchados nas cinturas um do outro, saram andando para o carro. Ela notou, mas no comentou, que ele parar em cima do meio-fio. Dentro do carro,
aconchegou-se mais uma vez em Ben. Ningum jamais fora to slido nem to quente.
- Ele era policial.
- Est doente.
Tess entrelaou os dedos nos dele.
- Estava um passo  nossa frente o tempo todo.
- Estava sofrendo. - Ela fechou os olhos um instante. Estava viva. Desta vez, no falhara. - Eu vou conseguir ajud-lo.
Por um momento, ele nada disse. Teria de conviver com isso, a necessidade de Tess de se dar s pessoas. Talvez um dia passasse a acreditar que tanto a espada quanto
as palavras podiam viabilizar a justia.
- Ei, doutora?
- Huum?
- Lembra a conversa sobre sairmos por alguns dias?
- Lembro. - Suspirando, ela imaginou uma ilha com palmeiras e gordas flores de laranjeira. -Ah, se lembro.
- Terei algum tempo livre em breve.
- Em quanto tempo preciso estar com as malas prontas?
Ele riu, mas continuou a fazer tinir nervosamente as chaves na mo.
- Eu andei pensando que podamos ir  Flrida por algum tempo. Quero que voc conhea minha me.
Devagar, querendo dar um passo de cada vez, ela ergueu a cabea do ombro dele para olh-lo. Ento Ben sorriu, e esse sorriso disse-lhe tudo que ela precisava saber.
- Eu adoraria conhecer sua me.
FIM

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